24919-8
374 Pages

24919-8

Course Number: DOCS 24919, Fall 2009

College/University: UNC

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The Project Gutenberg EBook of Amor Crioulo, by Abel Botelho This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org Title: Amor Crioulo vida argentina Author: Abel Botelho Editor: Grave Joo Release Date: March...

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Project The Gutenberg EBook of Amor Crioulo, by Abel Botelho This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org Title: Amor Crioulo vida argentina Author: Abel Botelho Editor: Grave Joo Release Date: March 26, 2008 [EBook #24919] Language: Portuguese Character set encoding: ISO-8859-1 *** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMOR CRIOULO *** Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net *Nota de editor:* Devido quantidade de erros tipogrficos existentes neste texto, foram tomadas vrias decises quanto verso final. Em caso de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrar a lista de erros corrigidos. Rita Farinha (Mar. 2008) DO MESMO AUTOR I--_O Baro de Lavos_, romance, 4.^a edio, 1 vol. br. II--_O Livro de Alda_, romance, 1 vol. br. III--_Amanh_, romance do proletariado, 2.^a edio, 1 vol. br. IV--_Fatal dilema_, romance, 2.^a edio, 1 vol. br. V--_Prspero Fortuna_, romance, 2.^a edio, 1 vol. br. _Sem remdio_..., romance, 1 vol. br. _Os Lzaros_, romance, 2.^a edio, 1 vol. br. _Mulheres da Beira_, contos, 1 vol. enc. _Amor crioulo_, 2.^a edio, novela. ABEL BOTELHO Amor crioulo (VIDA ARGENTINA) NOVELA _Ahi est, si, magnifica, opulenta, La codiciada tierra..._ GUIDO Y SPANO. SEGUNDA EDIO PORTO LIVRARIA CHARDRON DE LLO & IRMO, L.^{da}--EDITORES RUA DAS CARMELITAS, 144 Livraria Aillaud e Bertrand, Lisboa-Paris 1921 A propriedade literria e artstica est garantida em todos os pases que aderiram conveno de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de Maro de 1911. No Brasil pela lei n.^o 2.577 de 17 de Janeiro de 1912.) PROPRIEDADE ABSOLUTA DOS EDITORES Porto--Companhia Nacional Tipogrfica AO DOUTOR BRITO CAMACHO AMOR CRIOULO I Naquela tarde mormacenta de fevereiro, Joo da Silveira embarcra em Lisboa, no _Almera_, com rta America do Sul. Considerava-se um sem-ptria, agora, na sua ba e amorvel terra, sbre cujo manso e carinhoso seio no fumegavam seno escombros; terra perdida e maldita, pelo jacobinismo vermelho do 5 de Outubro abalada nos seus fundamentos e furtada criminosamente ao seu destino. Todo o ambiente tradicional em que havia sido criado, ste parasitrio rebento do vlho regmen vira-o derruir de roda de si com estrondo. Crenas, privilgios, isenes, benesses e preferncias, tda essa contrafeita armadura de iniqidade e obscurantismo que sustinha ainda de p a combalida fico monrquica, tudo rolra desfeito, num epilepsiado arranco, numa comoo formidvel, enquanto invadia ferozmente o espao em trno um catico fumo de confuso e de treva... e a viso inquieta do futuro envlta num trvo mistrio, como um polvoru de runa. Tudo lhe havia quitado descarovelmente esta estpida ida da Rpublica: os cincoenta mil reisitos que le, mensalmente, ia ou mandava com tda a pontualidade receber, a ttulo dum amanuensado hipottico na Junta do Crdito Pblico; as bas graas da sua apetecida noiva, a Laurita, filha dum acaudalado burgus e pelo pai abominvelmente educada, a qual agora, com o Afonso Costa no poleiro, j cantava tambm de papo; e at,--o seu pensamento hipcrita rematava,--e at as nobres, as suavssimas cres da bandeira de seus avs, sse azul calmo e sse branco ingnuo, smbolo irrefragvel da alma nacional, ora via suplantadas por um vermelho de aougue e um verde de curral, duas tonalidades irreconciliveis, duas cres speras, irritantes, herticas, como punhais, como blasfmias. Durante os primeiros meses da Rpublica, Joo da Silveira, como tantos outros, conspirou. Aquecia-lhe a alma ste vago _sebastianismo_ solapado no ntimo de todo o bom portugus, acicatava-lhe o desejo a gulosa lembrana daqueles magros cobres oramentais que, somados ao activo do seu escasso patrimnio, lhe serviam a governar sofrivelmente a vida. Assim, na sua ferina hostilidade contra o novo regmen, concorriam simultneos a alma e o estmago, uma predileco ancestral e um instinto devorista. E foi certamente esta dualidade antinmica de inspiraes que, embora visando ambas o mesmo fim, cardou a sua actuao de conspirador de todo o carcter excessivo. Porque ste cauto Silveira firmou vrias adeses e compromissos, fez nutrida propaganda verbal entre os rsticos, prontificou-se a recrutar gente, enviou mesmo algum dinheiro; mas sem arriscar-se nunca pessoalmente no campo da luta militante. Aps a frustrada incurso de Chaves, no quis mais. Os seus 40 anos previsores e calculistas haviam grado em grado esmoitado, na gafa estrutura moral dste malogrado d'Artagnan, o esprito de aventura. Vendeu a sua reputada vinha do Pinho, arrendou a linda quinta da Folgosa com o solar de sete capelas, seu fidalgo bero natal e residncia muito em conta quando em apuros de dinheiro; noiva escreveu que a sua dignidade, em briga com o seu amor, o forava quele exlio doloroso; e a o temos agora dobrado com indolncia sbre a amura do _Almera_ em marcha, vergado o busto, as mos pendentes ao abandno, evitando olhar o manso deslise da cidade donde sentia que lhe vinha um frio vento de repulsa, com as plpebras froixas seguindo, em baixo, o rasgar da pra pela limosa torrente caudal do rio, e os lbios vorazes vagamente encrespados na voluptuosa anteviso do Desconhecido. Primognito dos trs filhos dos Silveiras Lbo, de Mosteir, o pequeno Joo fra criado com tdas as mimadas preferncias e tda a jactanciosa despreocupao dos antigos morgados. Todos os perniciosos desvos lhe havia consentido o dissolvente meio familiar e ste odioso prejuzo educativo, todos: desde o achincalho, o abandno burlo dos mestres, at ao abuso feudal das raparigas. Da que, resultando uma organizao inadaptvel ao trabalho e um carcter voluntarioso e cego, o Silveira havia consumido o melhor da sua vida ou bambochando em saborosas sensualidades, ou luzindo em brbaras pimponices, porm um msero hspede sempre da pura emoo, sempre refractrio s reaces da alquimia ideal do sentimento. Alto, forte, moreno, com uns negros olhos dominadores e uma estrutura apolnea, entretanto no seu belo rosto varonil espatinava-se a tinta de vulgaridade que imprime s fisionomias de hoje a dureza, a ausncia do sentir. Pronto sempre e lerte ao galanteio, volpia, brutalidade, ao prazer, nunca at quele momento se sentira capaz duma paixo que o arrancasse a si mesmo, que montasse o seu egosmo e as suas ambies tacanhas, que lhe pusesse asas na vontade e lhe espiritualizasse o desejo. Nutria um tdio altaneiro pelos aspectos triviais da vida,--ste tdio que o triste apangio das almas sem vo, dos coraes vazios. Jmais consentira intimidades e votava, pelo geral, aos homens um desdm corts, s coisas uma indiferena amvel. Podia ser assim na medida do seu critrio material, o mais feliz dos homens, de vida rolando e fluindo suavemente como um exerccio de patinagem, se no tivera a furuncular-lhe, como uma fatalidade ancestral, a crsta da alma empedernida, o culto ardoroso, desptico, incessante, brbaro, da mulher. Era ste o flanco vulnervel do seu _eu_, o nico ponto em brecha naquele carcter dominador e altivo. Absteno feita da condio, da raa e da moral, o alarmante _odor di femina_, fsse urbano ou rstico, fidalgo ou plebeu, negro, amarelo ou branco, amolecia-o. Posta em conflito com o perturbador mistrio feminino, a sua melindrosa sensibilidade capitulava, cedendo a um vcio de receptibidade extrema que se traduzia na falta absoluta de energia. Nem por isso o nosso heri consentira nunca em descer aos atormentados abismos da paixo, ou se deixra enlear no labirinto vsgo da loucura. Mal aflorava com o desdenhoso lbio o mel turvo do prazer, saltitando despreocupado dum amor a outro amor,--epidrmicos todos, breves, fugazes, como frutos apenas mordidos e logo deitados fra. Era de ordinrio a vulgaridade do instinto que o dirigia, arrastando-o no raro a scenas ridculas; mas j tambm, uma que outra vez, a virtude suprema da emoo, transfigurando-o, o erguera a desgarradas alucinaes de artista. Nesses altos, raros momentos de libertao le sofrera, numa atnita inconscincia, o puro domnio da Beleza. E agora mesmo, nesta sua voluntria demanda da Solido, neste atoado caminhar para o Infinito, sem o amparo duma doce mulherita ao lado, o Silveira sentia o corao rido e triste como o ardido leito duma torrente sem gua... Tremeu um instante, como no terror mortal de ir transpr o vcuo, e sacudiu-o um confrangido alvoro, uma como que compaixo de si mesmo, que o fez aprumar-se, esperto, na amurada, erguendo os inquietos olhos ao espao, por onde lhe parecera ouvir bater um esparrdo incerto de asas, e depois, com as plpebras hmidas num ensopamento de ternura, querendo reter o perfil indeciso da cidade que lhe fugia, na magoada luz do crepsculo, envlta em lvidas musselinas de mistrio. Para onde ia le? que ignorados destinos o aguardavam l longe, nesse novo grande mundo, para le um enigma, e onde tudo era colossal,--o progresso e a barbrie, a misria e a riqueza?... Interrogaes que naturalmente lhe acudiam e vinham, freqentes, cocegar-lhe a inculta mas viva inteligncia. Vagamente sentia que o homem que viaja aumenta sempre e a cada momento enriquece a sua bagagem impressionista interior, a qual, bago a bago, se vai ento enceleirando, como um precioso tesouro sentimental, no arco das ntimas recordaes, das lembranas carinhosas. Cada povo, cada ambiente, cada pas, cada raa deixam a a sua marca indelvel, e essas pitorescas estratificaes so outras tantas parcelas novas que veem somar-se histria da nossa vida, despertando-nos cordas inditas no sentir ou alargando a latitude moral da experincia. No eram estas coisas postas bem a claro nem sentidas ntidamente pela insuficincia mental de Joo da Silveira; ntidamente, contudo, le sabia,--isto sim!--ser a Amrica do Sul terra de lindas mulheres; e o relmpago desta promessa acirrante fazia-lhe o passo leve, encrespava-lhe a medula e acendia-lhe o desejo. Depois, havia ainda que ver os seus scios de viagem, havia que observar e indagar quem, quanta e que qualidade de gente vinha ali a bordo com le. Sem que soubesse explicar-se bem porqu, tomava-o ste antecipado encanto dos conhecimentos adquiridos em viagem, breves contactos de almas volitando ligeiras entre os dois infinitos do co e do mar, qualquer coisa de adorvelmente vago, de efmero e profundo ao mesmo tempo. So como que brisas do sentimento: se no prendem o corao tonificam a alma. Os primeiros dois dias de viagem, t Madeira, foram maus. Tempestade constante. Aquele primeiro mormao ameaador engrossra e fechra t disparar na trgica violncia dum temporal desfeito. A chuva, a cerrao, o mar revlto e o sudoeste rijo, soprando contrrio, atrasavam o barco e com le jogavam perdidamente, sacudindo o transatlntico em rijas convulses que reduziam a arrogncia industrial do seu poderoso arcaboio a propores irrisrias. Nada estava seguro, pairava-se indeciso na comoo e na treva. De quando em quando, varria de ls a ls a embarcao uma rfaga mais intensa, e tudo ento a bordo danava, estalava, tiritava e gemia, no estrangulamento brutal da garra do Desconhecido. Grupos descalos de marinheiros, trotando rpidos, faziam, aqui, ali, a sua apario fantstica, cerrando escotilhas, aprontando escaleres, correndo presto a manobra. E agora, a intervalos, na opacidade da noite como tinta, acima do ranger do cavername do monstro e do rugir cavo das guas, por sbre tda essa brava orquestrao da Morte roncava e erguia-se alarmante o grosso apitar da mquina em desespro. E era como se no houvesse viv'alma ali dentro. A ningum era permitido estacionar nos sales, no _bar_ ou nas cobertas; mas de horas antes que perante a ameaadora fria do vendaval, poucos se sentiam em segurana, e da que uns pelo enjo, outros pelo terror, outros por mra prudncia, tudo, na timorata demanda do seu beliche, fra sucessivamente desertando. Joo da Silveira, tomado dum indefinvel mal-estar, com a cabea como chumbo, descera tambm ao seu camarote, que era situado num dos extremos do barco, formando esquina, junto pra. Tinha uma ventanilha sbre o mar e outra sbre aquele ngulo avanado da coberta, descobrindo assim um trecho dessa renovao inqua das gals, essa enorme grilheta ambulante, onde, sob um miservel tldo, intemprie, ao abandno, no mais absoluto desamparo, na mais srdida promiscuidade, num baralhamento ignbil de idades, de sexos e de raas, rolando ao spero sabor da tormenta, como lastro, como calhaus, como ldo, como viva espuma, seguiam, empilhados a monte, os passageiros de 3.^a classe. Foi a primeira sorte de gente que, a bordo, se lhe antolhou ver mais de perto; tinha agora ali assim, ao alcance inevitvel, prximo da ateno, misrias, tristezas, espantos, dores que at ao momento le arredra sempre com dureza do seu corao, de ordinrio avesso piedade. Agora tinha que forosamente senti-las, ouvia-lhes o singelo relato das suas penas e angstias, chegavam-lhe lamuriados protestos, tmidos gritos de rebelio, surdas frases doloridas; comeava a interess-lo o aspecto resignado, humilde, sofredor daquelas rtas mscaras de agonia, vinha-lhe o fartum nauseabundo da comida que lhes serviam; e durante a sua primeira noite de mar, noite de pesadelo, noite de insnia, noite de incomportvel pavor, em que a madorna do cansao lhe era a cada momento posta em sobressalto pelo sbito martelar dos mais estranhos rudos,--o ferrolhar brusco de cremalheiras, silvos raspantes de cordagens, choques brancos de metais, ringidos como rasges, estalidos como pragas,--quem, neste poema de extermnio, dava ainda a nota mais sinistramente aguda, era essa atormentada frandulagem humana, quando, sbre o convs encharcado rojados mistura, os seus altos gemidos em splica rasgavam ululantes o espao, formando um concertante macabro com o alardo brbaro da tormenta. Quando o _Almera_ conseguiu por fim fundear, frente Madeira, a caligem persistente no cu, as grossas cordas de gua e as vagas alterosas no permitiam fcil s pequenas embarcaes acercarem-se do paquete, e furtavam arreliativamente contemplao do Silveira a maravilha habitual dsse scenrio paradisaco,--o amoroso encanto da luz, a aragem perfumada do ambiente, a graa ingnua das construes, o azul translcido das guas, a esmeraldina frescura, o contrno sensual daquele monte atrevido de colinas salpicadas de claras harmonias, o deslumbramento sem par e a euritma incomparvel dsse atrevido anfiteatro pago, nico no mundo, apenas agora entrevisto pelos claros farpados na neblina, como atravs um entremeio de renda. Entretanto, bjo acima da pequena cidade flutuante, os vrios _decks_ comeavam a animar-se; de tda a parte surdiam lindos rostitos timoratos, cautelosos bustos, ou enrgicos perfs, duras e arrogantes linhas masculinas, incrdulos ainda, vidos, curiosos, abertos numa cantante expresso de alvio ou movidos numa alegre inquirio de intersse; miravam-se solcitos, acercavam-se efusivos e palreiros, formando vivos grupos de acaso, intromiscando-se, reconhecendo-se, beijando-se; no salo aparatoso da 1.^a classe, todo em _boiseries_ e estofos, os compassos da orquestra espraiavam-se em molhadas ressonncias; no extremo oposto, pela grossa atmosfera heteroclita do _bar_, as rlhas do Champagne saltavam, preludiando estrdiamente o distanciar do perigo. Mas o Silveira, de fito sempre ao largo, no cessava de considerar o deslumbramento panormico da ilha; e ento viu como de roda do grande barco, arfante ainda e a escorrer, sbre a juba crespa e revlta do mar, dezenas de lanchas bailavam doidamente, em riscos de, num choque mais violento, se estilhaarem contra o colosso, na impossibilidade duma aproximao tranqila. E notou que vinham atulhadas de emigrantes, outros tantos mseros foragidos como aqueles seus tristes vizinhos de bordo, uns centos mais de desgraados que iam ser pasto da voragem insacivel dessas regies intrminas onde fulgura o mito precrio da riqueza; protico enxurro humano, encarnao polimorfa da desgraa na demanda hipottica da fortuna. Eram carne votada gleba, vtimas foradas da iniqidade econmica, a quem nem por isso o duro mercantilismo reconhecia a importncia do seu valor, como utilidade social. Eram lgrimas que vo trocar-se em prolas, vidas hericas que vo fundir-se em oiro, e que, no obstante, so tidas por nada por aqueles mesmos para quem o seu descraziante esfro tudo. Eram almas tratadas como coisas, e que ali em baixo esperavam transidas, no mar em clera, sob a chuva, que os iassem como fardos midos, como valores mercants, como bagatelas, como bugiaras, como sucata, por uma corda. A operao era primitiva: atados em pequenos molhos por um grosso cabo, sem escolha, no importa como nem por onde, l vo subindo em cachos, escorrendo gua, atoadamente, morosamente,--as mes com os filhitos a drso, chorando, agitando no espao as mos como vermes; os vlhos pendendo resignados na frouxido da impotncia; os moos ganhando distncia em arrancadas simiescas, e todos numa ansiada alternncia movendo os olhos pvidos entre a promissora segurana do navio, ao alto, e em baixo a fria glauca do abismo. Passada, porm, a Madeira, o tempo amainra, e agora, enquanto a dupla hlice do _Almera_ fazia o seu arroteio manso de espuma, pela imensidade movedia do oceano o espelhamento lmpido do cu prolongava-se, guas adentro, em opalinas suavidades, em claridades duma transparncia infinita. Como conseqncia, a bordo restabelecia-se a tranqilidade e pelas diferentes cobertas a mancha buliosa e a sonora chalra dos viajeiros alastravam, cruzavam-se, demandavam-se e cresciam numa algarada cantante de alegria. hora de comer, j noite, Joo da Silveira baixou, entre os primeiros, a ocupar o logar de acaso que lhe haviam indicado e le aceitra dcilmente, no seu altaneiro desdm por aquela camaradagem fortuita de gentes vindas no sabia bem donde e destinadas a desvanecer-se pronto, finda a viagem, no distanciamento vago da indiferena. Era o nico logar que havia ainda vago, numa pequena mesa para cinco talheres. Sentou-se. At quele momento, mal havia tido ocasio de encarar os outros comensais, abotoados naturalmente na constrangida reserva em que se nos fecha de ordinrio a expresso, visinhana de estranhos; porm, agora comeava a v-los sob um novo aspecto, voltava cada um aos seus gestos habituais, mutuavam-se olhares de confiante inquirio, sadavam-se efusivos, seguros, contentes. Fizera-os comunicativos a simultnea vibrao do perigo. direita tinha o Silveira um curioso espanhol, abundante, palreiro, grosso tipo de homem roando pelos 50 anos, calvo, vermelhao, grandes dentes ralos nos grossos lbios gretados e rxos, a barba grisalha curta e mal cuidada. Vestia com vulgaridade, e na lapela usada do _smoking_ ostentava a roseta de Isabel a Catlica, sofrvelmente suja. esquerda ia um italiano, j entrado em anos tambm, ponderado, gordote, a papugem flcida das olheiras denunciando um grande _viveur_, a pele rosada e fina passada de cosmticos, um ar importante, as mos muito cuidadas. Seguia depois um joven chileno, irrequieto, pomposo, farta cabeleira revlta pastichando a indumenta cerebral dum gnio, um colarinho mole inverosmil, os olhos negros e ardentes como carbnculos, os dedos como que modelando incansavelmente no espao abstrusas, incompreendidas formas, O quarto comensal era um puro _gentleman_, de finas maneiras, olhar inteligente e doce, um rio buo incipiente sbre a lisa ctis morena penujando, e uma linha geral atraente, correcta, comedida. --Rijo temporal, hein?--comentava com vivacidade, sacudindo a cabea, o espanhol, quando o Silveira tomou logar mesa. --Foi de respeito!--acentou pronto o chileno. --No acha?--tornou o primeiro interpelante, adiantando com intimativa o busto para o italiano, que se limitou a baixar a cabea num tcito assentimento. O joven brasileirito julgou oportuno corrigir: --Foi forte, sim... ah! mas no se compara com as borrascas da Biscaia ou da Mancha. Ao que, num abundso gesto de desaprovao, o espanhol, agitando o guardanapo: --No, isso l... O meu caro marinheiro, bem sei que homem da profisso... desculpar, mas no estamos de acrdo. Ento, eu no sei?--E em tom convincente para o grupo:--Olhem que foi um passo... um passo _de ponersele uno los dientes de vara y mdia_! --Mas, parece que no houve desastres a bordo?--aventurou quse maquinalmente o Silveira. E logo o outro, tranquilizador, dogmtico: --Ah! no senhor. Nada! Nem _desperfectos_ nem doenas. um grande barco ste. Acabo de o assegurar ao comandante, que deposita em mim tda a confiana. Ah, l isso...--E, num risinho envaidecido, atestou:--Amigos vlhos! --Contudo, aquela pobre gente da 3.^a classe... O _soi-disant_ ntimo do comandante teve um desprezvel encolher de ombros: --Ah, sim, naturalmente... alguns _resfrios_. Mas eu j por l andei. Que o comandante, j digo, para estas coisas no qure outro... Pois no h nada, no... Vo tomar musgo e leite. _Una jugadita pasajera, no ms_. O caso foi que a familiaridade banal desta aresta de dilogo determinou um comeo de conciliao do Silveira com o ambiente. le passeava agora distradamente os olhos pela trivialidade cosmopolita do recinto,--sse vasto quadrilongo sussurrante e refulgente, todo em branco e oiro, com os seus colunelos tarracos, os metais scintilantes das vigas dos flancos, o tilintdo lmpido dos cristais e loias, e,--constatava com orgulho,--as lusas caravelas simblicas pinturiladas com arrogncia nos luxuosos vitrais do teto. Interessava-o o ambiente e atraam-no as figuras. E com os seus eventuais companheiros de comida, agora, numa saborida mutuao de impresses, ia travando gradualmente conhecimento.--O espanhol, dr. Contreras, era mdico, pelos modos: um pobre diabo espalhafatoso e inofensivo... quando no exercia a profisso, e em quem a arrogncia dispersiva da figura buscava caridosamente iludir a inrcia tacanha do intelecto. Parece que o seu govrno, para se descartar dum importuno e juntamente evitar ao pas o aumento na cifra da mortalidade, o comissionra _in perpetuum_ para seguir estudando as condies de sanidade a bordo dos grandes transatlnticos. Um pretexto inocente e a misso mais a carcter para ste pobre Esculpio _ rebours_, cuja educao profissional cristalizra na teraputica obnxia dos purgantes e das sangrias. Norberto Mackenna, o joven chileno, era um pintor cubista que ao seu pas tornava, aps 4 anos de regalona vida em Paris, sectrio _enrag_ de Picasso e grande devorador de azeitonas. O moo brasileiro era o tenente da marinha Euclides Pereira, que ia matrimoniar-se a S. Paulo, de regresso tambm duma viagem oficial de estudo. O italiano, finalmente, sse dizia-se marqus e da mais alta estirpe. Descendia dos Colonna di Mafiori, e em lances sucessivos de azar desbaratra ao jgo o melhor da sua fortuna. Esta maldita obsesso desfolhra e deixra totalmente a nu, de prospia e de oiro, o seu frondoso e arcaico talo genealgico, abatido agora burgusmente ao mercenrio ofcio de balco. Porque o marqus ia a Buenos-Aires negociar em alfombras. E dizia estas displicentes coisas numa resignada bonomia, com clara singeleza, com altivez, quse com brio, mirando as unhas; e imobilizava-se em atitudes de dignidade distrada ante a natural incidncia da ateno alheia. Com o brasileiro seguiu o Silveira, no ascensor, ao salo da 1.^a classe, pronto irmanados os dois nesta instintiva aproximao em que os prendiam identidades seculares de lngua e de raa. Em cima, o recinto estava pleno da mais variada gente, e havia o confiante abandno familiar dos estmagos contentes. s curiosas, inquiries do Silveira mal podia o tenente Euclides, tam hspede ali como le, cabalmente responder, limitando-se quse a inform-lo sbre o que sabia das famlias suas compatriotas. E que estas no s abundavam ali, como tambm, com a sua vivacidade despretenciosa e a sua bonachona loqacidade, davam a nota dominante. Norte-americanos, e ingleses--les e elas,--mal avanavam, um instante, pelas portas laterais, as cabeas arrogantes e logo partiam, por um momento desviados na sua desportiva tarefa de fazer indefinidamente o circuto do barco, em largas e slidas passadas. Havia chilridos, cantos, vos, jogos inocentes de crianas; implicativos _snobs_ que continuavam a imperturbvel leitura trazida, sem intervalo, do comedor, forrados agora na aptica moleza dum _fauteuil_, cruzando as pernas; e ao lado duma aparatosa francesa, de cabelo duvidosamente loiro e traje no menos equvoco, um derrancado vlho sonoleava. Mas o Silveira, que se dirigia a Buenos-Aires, buscava de preferncia exemplares argentinos; queria verificar ali, em documentos vivos, flagrantes, se lhes assentava bem essa fama de galhardia, de distino, de urbanidade e opulncia, da beleza soberana nas mulheres e de enfatuado _estiramiento_ nos homens, que fazia do nome argentino o giro dominador pelo mundo. --De argentinos, aqui a bordo...--informou, circunvagando em trno a vista, o Euclides, hesitante,--no esta a poca... No dou conta seno duma famlia. E apontava-lhe, em cauteloso grupo parte, num dos tpos do salo, um homem grosso e grisalho, todo de negro, a face totalmente escanhoada, com uma senhora idosa, vestida de negro tambm, muitos anis e colar de prolas, sentada em meio das duas filhas. Poisavam singelamente, sem estudo, sem afectao, o ar abstracto, numa atitude natural de abandno tranqilo. As duas senhoritas principalmente parecia quererem delir-se numa suave atmosfera de simplicidade e renncia que era a anttese formal de todo o propsito de exibio galante: contudo havia na sua linha geral, sobretudo duma delas, um no sei qu de espiritual seleco, de fino, de subtil, de espontneamente belo e vagamente alado, que comeava por fixar com agrado a ateno e gradualmente nos trazia alma um superior encanto. Seguia interessadamente o Silveira, por entre as volutas quimricas do fumo do charuto, o exame desta esquiva e singular figura, quando, todo sorridente e afvel, se aproximou dle o marqus: que perdoasse, se acaso o vinha molestar... mas queria apresentar-lhe um compatriota assaz distinto, fidalgo tambm, como le... no tanto... e como le arrunado. Amvelmente o Silveira acedeu, e da a instantes sentia o efusivo aprto de mo do conde Amglio di Paoli, espcie de emrito charlato internacional, vivo, matreiro, na larga face a inaltervel palidez dos cnicos, farta cabeleira negra, a mirada penetrante e fugaz, os gestos abundantes. Duros golpes da fortuna,--dizia,--o haviam constrangido a demandar a Amrica para ver se conseguia colocar a meia dzia das melhores telas da sua esplndida galeria. Telas dos sculos XV a XVIII. Ricos pedaos da sua alma! Um sacrifcio enorme... No tivra a coragem de o consumar na Europa, onde o extraordinrio valor das suas coleces era alis bem conhecido. Exprimia-se com abundncia teatral de efeito, num atroplo de frases mortificadas exteriorisando como que o pejo da sua precria situao; e tudo era desatar-se em atenes e lisonjas perante sse grande aristocrata portugus em que a sua cabotina codcia farejava erradamente uma vtima. Luzia no _smoking_ uma roseta vermelha e branca. Porm, o Silveira achava-o plebeu, mrmente posto em confronto com o divino perfil, de Madona, da irlandesa que se lhe sentava ao lado. Era sua mulher. Num dado momento, a querer captar a confiana do Silveira, apresentou-a; depois, sempre nas suas prolixas aclaraes e deferncias, ia atropelando: que levava a assim... havia de ver! um pequeno mostrurio de obras tdas de mestres, que eram puras maravilhas. Vend-las-ia mesmo perdendo, que remdio!... E que, em Itlia, le era assim um como que avaliador oficial de objectos de arte, pois fra o inventor dum engenhoso processo de constatar a autenticidade dum quadro por meio da microfotografia. O nico infalvel! No sabia?... Era um mtodo ignorado, exclusivo seu, porm a um tam nobre senhor,--batendo-lhe amigvelmente no ombro, epilogava,--no teria dvida nenhuma em o fazer comparte do segrdo. O Silveira escutava-o numa indiferena corts, distradamente; enquanto o melhor da sua ateno se fundia com deslumbrada ternura na figura adorvel da irlandesa, que lhe agradava enormemente, com o seu ar repousado e cndido, a linha purssima das feies, o arranjo tico do cabelo castanho, o busto sbriamente redondo, o gesto singelo e nobre. Da que, nos breves claros de repouso que lhe consentia a chalra interesseira do marido, le fez perante a diva o ensaio de algumas amabilidades discretas... deplorvelmente perdidas,--logo le desolado verificou,--porque esta deliciosa filha de Erin no falava nem compreendia seno a lngua do seu pas natal, de que o nosso desapontado gal no percebia patavina. Quando, pelas 11 horas, desceu _cabine_, o Silveira trazia vivo e palpitante no crebro o baralhamento policromo e difuso de tdas aquelas figuras, tda essa efmera _kermesse_ de notas de acaso, na aparncia desconexas e de cujas cruas tintas, bruscas oposies e antitticas formas, reumava contudo um encanto especial, uma clara e singular harmonia. Enquanto se despia, le notou que ali assim fra, sua ilharga, no tringulo aberto da pra, havia tambm alegria. Ali, a noite era qusi total. Uma nica pra elctrica, com reflector, esclarecia apenas o limitado espao ao seu alcance, e a maior poro do recinto ficava sob o domnio impreciso de vagas sombras danando sbre montes de andrajos. No aplastamento prprio desta hora de repouso e sob o mesmo invarivel tldo negro, os grupos, srdidos, compactos, alargavam-se e faziam monte sbre rolos de cordas, sbre as bagagens, sbre mantas vlhas, troixas, sacos, sbre esteiras; e a escassez da luz erguia em deformaes de pesadelo, emprestava monstruosas ampliaes de horror a sse caprichoso arranjo de cansao e de misria. Mas havia ainda muita gente desperta; mesmo encostados _cabine_ do Silveira, dois rsticos italianos faziam pausadamente o interesseiro clculo de quanto poderiam vir a forrar, em cada ms, dos seus hipotticos salrios; um francs, mais longe, trauteava _couplets_ canalhas; e tda a sorte de vozes, de idiomas, de murmrios, gritos, expanses, risadas que eram lamentos, suspiros que eram bocejos, tda a gama fruste da animalidade, tdas as brutas exploses do instinto, se entrechocavam e faziam cro nesta extica Babel flutuante, grosso concrto brbaro que afogava o marulho manso das guas e que ainda o spro galhofeiro dum _harmonium_ vinha cobrir, a espaos, com a sua toada _chillona_. Acomodado j o Silveira entre os lenis, pareceu-lhe distinguir o quebrado dedilhar duma guitarra, acompanhado duns acordes de violo... Apurou o ouvido, no havia dvida... a voltam les, trinaditos, leves, como quem est afinando, sses sons tam seus familiares, tam seus queridos. E agora so j os preldios dengues do _fado_, um _fado_ choradinho e autntico como s a alma portuguesa, enamorada e fatalista, capaz de bem sentir. Da a momentos, em bom portugus, algum cantou: _Das barbas do Afonso Costa Mandei fazer um pincel Para escovar as botinas Do querido D. Manuel._ O Silveira saltou no leito, radiante, e ergueu meio busto, espera de mais, vidamente. J no se sentia tam s. A ironia gaiata daquela trova f-lo estremecer de vindicadora alegria. Esta descoberta inesperada espancava-lhe o sono, aclarava-lhe a alma. Oh, a justiceira voz do povo! O desdobramento do mote devia ser impagvel. Vamos a ver que mais vira... O ignorado trovador cantou ainda outras duas quadras, porm j sem intersse para o Silveira, porque gemiam lamechas trivialidades de amor. No entanto, o grato alvoro daquela primeira impresso ficou. No era s le... comprazia-se em repetir no ntimo, vivamente sensibilizado por ste trao imprevisto de afinidade moral com gentes de condio tam abaixo da sua. Tinha ali assim, tam perto, analogias de sentir e fveras de dio como as dle, e a sbita descoberta desta conformidade palpitante trazia-lhe confrto. Inimigos tambm do novo regmen... dando-lhe costas, maldizendo-o como le. E mais eram do povo, pudra!... do povo, sim... sse pobre e sempre ingnuo povo portugus, de cuja hipcrita adulao os rpublicanos haviam feito plataforma essencial de propaganda, e que depois do triunfo estavam agora burlando inquamente. Ah, mas les lhes diriam! Brava gente! E tinha-os ali seus visinhos... Havia que conhec-los, v-los de perto. Bem... E adormeceu contente. II O dia seguinte amanheceu para o Silveira outra claridade. Esta inefvel sensao de calma, de liberdade, de plena posse de si mesmo, que as viagens em ns despertam, fazia-lhe querer a vida e sacudia-o num alviareiro estmulo interior. De tudo quanto o rodeava crescia para le o intersse. Livre, pelo momento, de preocupaes sbre o futuro e assediado por todo um mundo de sons, aspectos, cres, idas e coisas novas, todo o seu encanto de viver se resumia na hora presente, e a alma dilatava-se-lhe num voluptuoso apaziguamento sem trmo, como essa lisa toalha imensa de mar, sem perfdias e sem cleras. A corneta chamara para o primeiro almo. Fra, pelo espao, havia sol, havia luz, e o tpido acariciamento da brisa casava-se numa euritma perfeita com o manso ronronar das guas. Neste plcido ambiente de espuma e oiro, as silhuetas saltavam ntidas, as tonalidades ganhavam valor, sentia-se mais amigo e mais prximo, mais potente, mais clido, mais fecundo, o divino alento criador da Natureza: e, perante o olhar extasiado do Silveira, todo o bigarrado movimento de bordo se esmaltava de tintas de relvo, de cnticos pagos, de brados gensicos, de inusitados brilhos, e os seus mesmos companheiros de embarque lhe pareciam os habitantes dum outro planeta, onde as paixes fssem mais fortes e a vida mais consciente e mais intensa. Sando, na direco do refeitrio, para o longo corredor, veio-lhe a viva lembrana dos seus ignorados, dos seus humildes correligionrios da passada noite, e ia a demand-los, com piedosa ateno, atravs a gradeada porta da masmorra que ali assim perto os mantinha a distncia, quando uma outra solicitao mais empolgadora e mais instante lhe rompeu da alma em alvoro: a imagem fugida e alada da joven argentina, entrevista tambm na vspera, no salo. Mas, por azar,--debalde o Silveira esperou!--nem ela nem ningum da famlia baixou a comer. No havia ento remdio seno confiar do acaso o providencial milagre de a ver aparecer.--Mas quando? mas aonde?...--E a sbe le de golpe no ascensor e vem atravessar o salo e faz o giro afanoso do barco, mirando em tdas as direces, perquirindo os bizarros grupos distribuidos preguiceiramente ao longo das cobertas, no alinhamento marcial das cadeiras de repouso. Absorto nesta preocupao essencial, o resto marcava zero para le, nada mais via ou pretendia, de nada queria saber. Acotovelava insensvel os arremangados homens do _sport_, cortava indiferente as interesseiras chalras de grossos burgueses, vestidos de fusto branco; por duas vezes houve que furtar-se, um pouco bruscamente, s louvaminheiras investidas do dr. Contreras, em termos de passar por malcriado; e por um triz no prga de brco sbre o convs com uma barafustante paqueta baana, magra, pequenina, ictrica, que comandava a poder de gritos e truanescas evolues uma chusma de pequerruchos. Por fim, essa adorvel argentina ei-la que a vem agora avanando... Vem s. Era alta, esguia, frgil e avanava leve e area, como um reflexo de si mesma, lembrando no porte e na frescura um dsses longos, finos e erectos fustes da _palmeira imperial_, com o vrtice perenalmente verde. Seguia breve e alheadamente, com uma simplicidade no isenta de nobreza, e foi sentar-se junto da me, uma repousada e aparatosa senhora que nos parecia forte da robustez peculiar que circunda certas mulheres e que denota honestidade. E de hora em diante o Silveira, feliz por aquela segurana de tranqila contemplao que emfim conseguia, j no abandonava mais o alvo querido do seu cuidado e atento ia e vinha, e desdobrava arteiras pausas, disfarces e rodeios, para poder, sem que fsse notado, entregar-se a esta viva e desbordante anlise que a sua alma se comprazia em prolongar, porque ela respondia excitao misteriosa que dentro de ns faz chispar o maravilhoso reflexo interior da simpatia.--Era curiosa, enternecedoramente curiosa, com efeito, esta linda desconhecida. Aparentava 20 anos, no mais. Farto cabelo castanho, _mousseux_, sem brilho, descendo em bands singelos a juntar-se sbre a nuca; pequenina testa espiritual, em tringulo; os olhos castanhos tambm, de leve desenho mongol, as sobrancelhas erguidas e lanadas sltamente; o nariz projectado direito e um pouco longo, toda a face alongada por igual, perfil grego, traado num como que afinamento idealista e ingnuo; o queixo pontuado finamente, os dentes brancos, muito iguais, e a bca breve, os lbios finos mas expressivos, resumindo o que porventura havia de vida e de paixo nesta criatura reservada e tmida. Nenhuma espcie de atavios: nem espartilho, nem jias. Apenas na base do pescoo, tico e longo como um mrmore da Jnia, um colar de corais napolitanos. As suas mos, de dedos brancos e finos como longos estames, e mais claras que o tom _mate_ do rosto, eram o prolongamento lgico de tda a figura, lembrando os tenros rebentos duma rvore de sonho. E, quando sorria, os olhos perdiam-se-lhe no vago, enquanto na filigrana hmida dos lbios perpassava um frmito breve de emoo. Na alma ardente do Silveira rompra agora o desejo veemente, irreprimvel, de mutuar impresses com a linda desconhecida.--Mas como consegui-lo, como chegar adonde a ela?...--considerava com afinco, instalando-se-lhe na frente, numa atitude de estudado abandno, os cotovelos sbre a amurada.--Tinha que haver uma apresentao, manobra tctica reconhecidamente difcil para o investimento corts duma famlia como aquela, que le no via comunicar-se com ningum, que ningum sadava e que a ningum retinha, mantida mui deliberadamente no seu desprendido crculo de isolamento e indiferena. Assim, uma aproximao em condies favorveis, segundo as regras do bom-tom, no era empresa vulgar.--O Silveira, de lbio pregado, reconhecia-o, e esta descorooadora evidncia, longe de o desalentar, mais o enardecia.--Havia que buscar...--Numa fvera crescente de impacincia, planizava estratagemas, ideava hipteses, amontoava projectos, que, mal esboados ainda, todos logo fracassavam. Ento, em alternncias de dulcssima pausa, como um blsamo, o spero aguilho do seu cuidado amolecia na contemplao deliciada e atenta dsse baluarte suave de iseno e de virtude. Mas logo, mais desptica, mais tenaz, a sua amoruda obsesso voltava, por cada um destes venusinos exames trazida a um enternecido exacerbamento que mais lhe acicatava a vontade e lhe acendia o desejo. Um momento veio ento em que o Silveira notou que, um pouco mais ao largo, ilharga e um tanto recuado das duas argentinas, um joven glabro e calvo, com o engerido busto dobrado sbre uma destas pequeninas mesas portteis de bordo, escrevia nervosamente. As garatujas do lpis seguiam numa carreira febril, dir-se-ia ao atroplo clido da improvisao, enchendo flhas sobre flhas sltas, que a aba loira dum grande _panam_ protegia da aragem dispersiva. E, sempre no mesmo propsito exibitivo e grotesco, a intervalos o iluminado escriba parava na empolgante labuta e imobilizava-se, como que colhido em pausas de transcendente laborao interior, com os olhos vagos postos ao alto e o lpis erguido digitalmente sbre o lbio sibilino. Depois, num mpeto criador, um estremeo simiesco o sacudia, e, com um risinho envaidecido, le recomeava inflamadamente a escrever. Ora, aconteceu afigurar-se ao Silveira que, numa destas estases de espiritual concepo, o biltre encarra particularmente a adorvel argentina, a criatura esfngica do seu sonho... pareceu-lhe mesmo que cambira com ela um qualquer familiar sinal de inteligncia.--Talvez tivesse a sorte de a conhecer! Feliz at insolncia... Bem, mas ento, nesse caso... havia que conhec-lo a le tambm!--E forte nesta ida, feliz por ste relmpago de aproximao salvadora, o Silveira estudava agora com agrado e analisava mais de espao a espao aquele que presumivelmente ia ser o auspicioso trao iniciai sua fortuna.--Era uma figura abortiva e grotesca, assim tortuoso, magrote, pequenino, com o seu bigodito loiro, raso raz dos lbios, com os seus olhos dum cobalto inexpressivo, com a cabea tda em tortumelos, romboidal, enorme, e, a partir do queixo para o coronal, aparada caricaturalmente em ponta, num dsses estiramentos cucurbitceos peculiares do Greco. E ainda o alongamento filiforme do pescoo sbre a ladeira dbil dos ombros mais acentuava o desliamento quebradio e vacilante daquela estranha figura. Coisa curiosa: sbre ste pescoo estriado, sbre estas mos nodosas, sbre esta cabea paradoxal que parecia recm-sada dum cataclismo, no havia a epiderme rugosa e spera que seria a condizer, antes se arredondava a macieza penujosa e clara duma pele de efbo, _mate_, adoando os contornos, com transparncias de aguarela e velaturas de arminho; a pele virginal e doce dum adolescente; a qual, entretanto, pelo mais irritante dos contrastes, passava sbito a uma rubefaco herpetizada e adusta no revestimento crassoso das desertas grimpas do crnio luzido. Vestia um jaqueto negro de lustrina, colete e cala de flanella crme, sapatos brancos, pegas rxas, a camisa mole _ajoure_, e a farta gravata de sda negra cada e slta num desmanchado lao de artista. Um mixto de pedantismo e inconscincia, de garridice e desmazlo. Propunha-se o Silveira abord-lo, quando um pequeno incidente surgiu, a cortar-lhe o propsito e coloc-lo num passo difcil... Era o conde Amglio que passava, mais a mulher, e que apenas avistou o grande fidalgo portugus e seu no menor amigo, logo de acercar-se-lhe, expansivo, sorridente, num afectuoso desbarato de gestos e mimadas atenes, pouco mesmo faltando para lhe acarinhar com a mo, familiarmente, o queixo. E assediava-o com perguntas, com propostas, ofertas, lembranas, solicitudes.--Que fazia ali assim? porque no vinha com les?...--A adorvel irlandesa, numa sublinha cativante, sorria tambm. O Silveira tinha calafrios, colhido assim de improviso, de sbito posto prova na duplicidade egosta dos seus instintos. Gaguejava de embarao, no acertava com uma posio, as palavras no lhe acudiam. Tomava-o uma espcie de embrutecedora raiva interior, ao ver-se assim entaliscado estpidamente entre essas duas solicitaes, qual delas mais viva e mais tenaz, do seu desejo. Ardia por fazer-se notar, por fazer-se admitir ao convvio da linda americana, cuja linha patrcia e esquiva tanto o intrigava; e muito lhe agradava por igual _Mrs._ Edith, cujas bas graas no queria perder, mas junto da qual tambm no lhe convinha fazer demasiado ostentiva parada de atenes, neste momento. Defendia-se por monosslabos, numa grande instabilidade de movimentos, crando como um colegial e mirando de escape, numa idiota solicitao de escusa, a bela argentina, que nem dava por le. Por fim, ante a insistncia pegajosa dos dois, cortou a dificuldade prometendo que breve iria, a estibrdo, ter com les; e tornou a crar mais forte quando o conde, j longe e ao dobrar a esquina do _deck_, se voltou num gesto afvel, acenando-lhe convidativo com a cabea. Da a instantes, liberto do arreliativo pesadelo, acercou-se dissimulado do incansvel rabiscador, o qual, no momento justo, arredra, num desvio brusco do antebrao, a grande aba do _panam_ protector de sbre as tiritas de papel, que logo desparramaram ao acaso, como arvloas, pelo espao. E logo tambm o Silveira, agarrando o pretexto, acudiu solcito, baixando-se e ajudando o desconcertado escritor a recolh-las. --_Un milln de gracias, caballero_. --De nada...--obtemperou, amvel, o Silveira; e com discreta ateno:--So produes inditas? --_Apuntes del natural_,--tornou singelamente o outro, sempre em espanhol,--esquissos, impressos, simples notas do momento, fugazes como ste instante de vida em que voamos. --Deve ser interessante. --No vale nada...--derivou o iluminado anotador, num gesto desprendido.--Um modo inofensivo de matar o tempo. Convidou o Silveira a sentar-se e acercavase-lhe, solcito, insinuante.--Sem dvida era portugus? Pelo modo, pelo acento, via-se logo... Muito folgava! le era andaluz. Um pouco periodista e um pouco homem de negcios.--Impingia-lhe o seu carto de visita, impresso em tipo gasto e vulgar, modestamente.--Ramn Alvarez, _tout court_.--Mas, sbre a caligrafia trpe dos caracteres, um empenachado elmo luzia herldicamente, mais trpe ainda.--le era duma famlia da mais antiga linhagem, famlia de cronistas, de poetas, de galans... e tivera sempre um grande fraco pelas letras. Tinha dois livros em preparao, uma novela e um poema po-histrico, e tambm um drama prestes a ser psto em scena pela Maria Guerreiro.--Oh, os intelectuais!--exclamou o incompreendido escriba, desarticulando o busto, rolando os olhos em xtase e, num bravo arranque de entusiasmo, atirando a enormidade paradoxal da cabea sbre a nuca.--So a flor por excelncia, a suprema exaltao da terra!--Infelizmente, le vivia... viviam os dois, que lhe perdoasse se tomava a liberdade de o dizer... mas l como c... viviam numa peste de pases de analfabetos, onde por via de regra os pensadores, os gnios, os grandes eleitos do talento e do saber, morriam de fome. De sorte que, assim, havia que ser-se ao mesmo tempo um pouco prtico.--Que remdio!--com enfado soberano rematou. E iludia o seu prosaico mistr de caixeiro viajante num vago eufemismo, dizendo que vinha Argentina estudar o pas. --E conhece argentinos?--logo o Silveira indagou com calor. D. Ramn meneou negativamente a cabea. --Alguma das famlias que vo aqui a bordo? --Tampouco. --Nem aquelas senhoras, ali assim, nossa direita? Essas menos do que nenhuma. Alvarez no conhecia nem tinha ganas de conhecer.--Muito cheias de prospia. _No le gustaba_.--E franzia o nariz com displicncia. Na irritao do desapontamento, o Silveira que teve ganas de lhe bater... Entretanto, na sua abundosa loquela, o Alvarez insistia que nunca podra aturar gente pretenciosa. Ele queria-se com gente alegre, comunicativa, franca, _sencilla_, gente moda do seu pas, da sua terra... com pessoas que nos pem vontade, no fraternal empenho de nos fazerem sentir que so nossos iguais, em vez de parecer que nos querem impr uma humilhante adorao.--Olhe! como aquilo. E apontava, de olhar incendido, uma linda morenita, mui viva e coquetona, tda de branco, que justo lhes passava na frente. Ia ladeada por dois outros tenros amorinhos, e as trs realizavam o mais delicioso grupo etrusco, assim caminhando rtmicamente, sltas e leves, as cintas enlaadas, os bustos danando, o cabelo ao vento. --_Qu monada!_ Aquilo, sim... Veja! Veja! Dizendo, o desengonado Ramn exagerava a sua abominvel aparncia fetal, ao erguer-se, todo dobrado, sbre a mesa, para corresponder s provocadoras sadaes que, passando, a rapariga lhe fazia com a cabea, com os olhos, com o leque, com as mos, batendo forte o taco, bolinando os quadrs lascivos. E quando a perturbadora viso se desvaneceu, le, familiarmente: --Prometi-lhe um soneto e neste momento mesmo o terminava. Quere ver? Procurou, com a pupila febril, nas tiras sltas, e erguendo uma por fim entre os dedos trmulos, leu ento, enfticamente, com cabotina audcia, como sua, o puro decalque duma das lricas mais inferiores de Manuel Palcio. Contra antecipadamente o seu instinto com a iletrada ignorncia do Silveira, o qual, tomando naturalmente por original a cadenciada toadilha, em marretadas de admirao vislumbrava agora nas insondveis cavernas cerebrais do Alvarez tubrculos autnticos de gnio. Porm j ste, num lume de vaidade, colhendo presto a papelada: --O meu amigo perdoar... mas ocasies destas no se podem perder. _La muchacha con seguridad_ espera-me. Est impaciente... _Hay que aprovechar, por Dios!_ E, arredando brusco a mesa, partiu de abalada, pequenino e torcido sob a aba descomunal do _panam_, como um chaparro anmico. Desapontado, o Silveira quedou-se uns segundos sentado ainda e imvel, na sua atitude de irremedivel lamecha, o busto abatido, as mos pendendo tristes entre os joelhos. Depois, tendo enviado um derradeiro olhar de desconfortado apetite sbre a espalda esquiva da linda argentina inabordvel, ergueu-se e partiu tambm, sacudidamente. Mal tinha dado a volta para estibordo, quando viu que a le se dirigia o seu afvel comensal, Euclides Pereira, ladeado por dois graves e idosos senhores, que deviam ser ingleses, a avaliar pelos cmicos desmanes em que les buscavam amvelmente contrafazer a sua imperturbvel e habitual tesura. O joven brasileiro apresentou:--_The Right Honorable the Earl of Horrowby_--_The Captain John Stayton_. Este segundo tartamudeou umas curtas frases guturais, que o Silveira no percebeu, lardeadas de profusas reverncias; e o tenente Euclides explicou ento que vinham pedir-lhe a honra de consentir em fazer parte do grande _Sports and Entertainment Committee_, e ao mesmo tempo convid-lo a assistir renio preparatria, que devia realizar-se, aquele dia mesmo, no salo de 1.^a--_the Social Hall_,--s 9 p. m. Erguido e dobrado numa atitude de nobre aquiescncia, o Silveira agradeceu, no ntimo envaidecido. E como que sentindo-se crescer, importante, alegre, seguiu com afectada indolncia direito ao conde Amglio, que de longe observra e compreendera a scena, e por isso o acolhia agora entre atencioso e mordaz, num risinho de conformidade patusca.--le tinha adivinhado... muito bem! muito bem! Fizeram o que deviam fazer, era de esperar.--E todo em aprovativas mesuras: --Sim senhor! muitos parabens. --_Very, praiseworthy_,--completou _Mrs._ Edith, com o seu cndido sorriso. Mas, encolhendo, modesto, os ombros, o Silveira: --Uma simples amabilidade. Nem eu esperava. Que valor pode isto ter? --Ah, pois ento no tem! les bem sabem a quem escolhem...--acentuou, lisonjeiro, o conde, com ar convicto; e maliceiramente rematou:--Olhe, a mim no me convidaram les. --Mas, que o devem convidar!--corrigiu com amvel intimativa o Silveira; e, num generoso assomo de importncia:--Se o conde quere, logo noite lembro o seu nome. --Oh, no, no... por amor de Deus! Essas honras, aqui, no trazem seno incmodos e maadas. Para o efeito, sou da plebe, prefiro que me considerem um annimo, um zero. No, no... Muito obrigado! Trocaram depois uma meia dzia de frases banais sbre a monotonia da vida de bordo, a extenso fatigante da viagem, a vulgaridade chocante dos passageiros, a m comida, o calor, o belo tempo que fazia. O conde tinha no regao um livro copioso,--_L'Argentine telle qu'elle est_, de Paulo Walle,--cuja leitura recomendou ao seu amigo; mas a ste interessava-o mais a silhueta ateniense, o abandno repousado e lnguido da irlandesa,--sbre a _armchair_, frente luz, estendida longamente, com os psitos brancos traados fra, no ar, deixando a divina modelao da perna a descoberto bastante acima do artlho, com uma cadncia suave e tranqila na ondulao rtmica do seio, os braos em ansa, as mos inertes em concha sob a nuca, e os grandes olhos de veludo mirando vago, ao longe, reflectindo no sei que molhado encanto, da ardsia fluida das guas, e parecendo seguir o vo dalguma quimrica viso na claridade material do espao. O toque para o _lunch_ veio cortar brusco ste primeiro ensaio de _flirt_, com o qual a alma oblqua do conde no parecia alis preocupar-se... Em baixo, mesa, a conversao arrastou-se montona, cortada e dispersa, como se cada um daqueles cinco fortutos comensais trouxesse agora por distintas e opostas coisas dividida a ateno e solicitado o esprito. Apenas, com familiar insistncia, se falou dos prximos festejos, sendo o Silveira e o tenente Euclides felicitados cordialmente por fazerem parte do grande _Committee_ directivo; e tambm o abstruso Mackenna se desatou num panegirismo entusiasta daquela aparatosa francesa cuja identificao moral e social trazia todos a bordo intrigados, graas mirabolncia equvoca das _toilettes_, e suporfera mansido e conscincia no menos letrgica do presumido marido.--Helena d'Ellery se chamava ela, j conseguira saber... mas, jurava! ainda havia de saber-lhe tambm prticamente a biografia.--O flcido marqus di Mafiori teve um risinho enigmtico, imperceptvel; ao passo que, na sua libidinosa querena, o outro: -- deliciosa! Tem o _chic_, o aperitivo acre do escndalo. _Hay que gustarla!!_ E na gulosa antecipao dsse defeso prazer sonhado atacava furiosamente o pires das azeitonas. A interminvel sucesso da tarde arrastou-a o Silveira enfastiadamente, em grande parte pelo brao solcito do tenente Euclides, que no se cansava de o apresentar s numerosas famlias suas compatriotas. E assim andaram deambulando amvelmente de grupo para grupo, sem que o Silveira conseguisse dominar a impacincia e vencer o tdio. As jovens brasileiritas, algumas bem interessantes, com as suas meigas expanses e a sua vivacidade ingnua no logravam entretanto cativar-lhe o esprito, enleado teimosamente naquele obsessivo empenho de se aproximar da argentina; os homens, sses sem maior ateno, mal trocadas as primeiras sadaes, logo reatavam o interesseiro dilogo interrompido, no falavam seno em cotaes da borracha e do caf, perseguiam miragens de fortunas fabulosas, desfiavam clculos que davam vertigens, denunciavam burlas que pediam gals, antecipavam quebras iminentes, todos vidamente engrenados no travamento egoista e brutal dos negcios, a que durante tda a sua vida o Silveira, por temperamento e por educao, se mantivera sempre altivamente alheio. Nada disto o satisfazia, nada o interessava, nem por momentos o prendia sequer. Ento, num dos seus vagos e atoados giros de bordo, atingiu o Silveira o trmo da coberta, pra, mesmo sbre o amontoamento heteroclito e srdido dos seus vizinhos da _cabine_, em baixo, aquela pobre gente da 3.^a classe. No trecho luzido e nu do convs que a projeco do grande tldo _gris_ deixava a descoberto, le viu que vrios bigarrados e mansos grupos subiam e desciam ao acaso, num constante vaivm, pelo sujo rasgo duma espcie de negra fossa, a um canto, e vinham em cima amadornar-se, plcidos todos e delidos como um sol de outono, todos na mesma calma resignada e humilde, apagados, doces, tranqilos. Os homens, pelo geral, em camisola e arremangados, a cabea nua, alguns descalos, estremavam-se segundo as afinidades de raa, e fumavam, assobiavam, rilhavam fruta, falavam tmida, espaadamente, como que narcotizados por aquele embalo montono da vida que, durante dias e dias, havia de baloi-los entre a gua e o cu. Muitos, num confiado abandno animal, dormiam. As mulheres, acocoradas, remendavam-se, preparavam tisanas, amamentavam os filhitos de colo ou catavam os mais crescidos. Numa clareira de escasso prazer, ao centro, e de roda do mesmo incansvel e folgazo _harmonium_, passava numa tropeada cantante um crculo folio, danando,--cujas atitudes pags uma loira e delgada _touriste_ ia esquissando a correr no seu _carnet_, deliciadamente. E o Silveira fazia a aproximao mental desta suave chusma humana, na sua conformidade evanglica, na sua inconscincia fatalista, na sua plcida singeleza e passiva sujeio ao destino, com os gestos duros, a pupila metalizada, a frase breve e a sfrega ardncia dos seus insatisfeitos companheiros de 1.^a... e achava aqueles mais felizes. Tocava o sol o ocaso, e o Silveira como que via agora, de roda de si, a uma outra luz, os homens e as coisas, cujos contornos se debuxavam numa agonia de tda a sua vida exterior, acendidos em tons violentos num esfumaado fundo de tristeza. Encarou numa instintiva interrogao o cu e surpreendeu, no seu desdobramento esfusiante, sse maravilhoso e deslumbrante scenrio cuja amplido magnificente tanto lhe haviam encarecido.--Era com efeito uma imensa, uma transcendente e apotetica sarabanda de luz, que mais que aos olhos lhe falava alma, e que em parte nenhuma como ali, em pleno oceano, podia abranger-se ntegra na sua avassaladora majestade, na sua incomparvel beleza, tomando totalmente meio cu, descendo suavemente do frio azul mineral do znite a um loiro clido de paixo, para depois, raz do mar, inflamar-se em _sanguneas_ vigorosas, esbrasear-se em lnguas de incndio. Na difuso ofuscante desta aurola de sonho, as _walkirias_ fantsticas de nuvens, encapeladas crca do horizonte, debruadas por aquela gama infinita de cres, facetadas nas mais atormentadas e imprevistas formas do relvo, tinham movimento, tomavam volume, inteno, vida, alma, carcter, improvisavam grupos que eram smbolos, formavam cruas oposies, saltavam em rondas caprichosas; e por fim tda essa manante claridade sideral despenhava-se, como um Niagara de oiro, macia, translcida, impecvel, sbre a imensa alfombra rtila das guas. A, na linha molhada do horizonte, o mar era fogo lquido, e nesta enorme brasa, crespa e fluda, a granada quse extinta do sol estrelava-se ainda para o alto num imenso leque de violeta e oiro, que a algodoada capela das nuvens contornava, e cujas ltimas trepidaes vinham, crepitantes e dispersas, morrer pelas silhuetas errantes, pelas escaiolas claras, pelas arestas vivas do navio arfando... ao passo que j, pelo difano e desbotado azul da metade oposta do cu, da penumbra vaga do oriente, o plcido vu da noite vinha subindo.--Era tda uma revelao esta soberba e inimaginvel orquestrao area de aspectos, de formas e de tintas; convertia num absurdo a impassibilidade tradicional do cu, fazia-nos crr na clssica sublimidade da vida olmpica dos deuses, dava-nos como que a sensao viva do Infinito. Seguia o Silveira desta hora doce e imensa a magia incomparvel, quando sentiu um toque familiar no ombro, que o fez estremecer. Era o pomposo Norberto Mackenna, que com um gesto alto e desdenhoso: --Ento, que faz aqui assim, tam s, meu caro?... Admirando o pr do sol, no verdade? -- lindo! --_Ya lo creo_. -- maravilhoso! Mas, num rebarbativo freio a ste entusiasmo ingnuo, o joven chileno: --Sim, bonito, ... mrmente para quem o contempla pela primeira vez. Mas no nos podemos ficar por aqui!--E ante a muda interrogao do Silveira, com infatuado ar, esclarecia:--Ora! Nas minhas primeiras viagens, fartei-me de fixar colises de cres como estas; mas no passavam de cpias servs, hoje no lhes atribuo importncia nenhuma.--Plantava-se com intimativo vigor diante do Silveira, que comeava a imagin-lo maluco.--Porque isto de pintura, meu caro amigo, tem que progredir, como tudo o mais; tem que radicalmente mudar de processos, entende-me?... Os valores ticos e estticos actuais so uma lstima... adstritos como ainda andam passividade idiota e servil de gastas formas milenrias. Temos que fazer mais do que ficar-nos a objectivar interminavelmente as vlhas concepes convencionais da beleza e do amor. _Hay que poner patas arriba_ a tdas essas frmulas mesquinhas. Oh, seguramente Picasso, Boccioni, Metzinger, Matisse, esto na razo! H que derribar por completo, que arrancar pela raz tda essa floresta vazia e pedante do Passado. Pois se ns temos de roda de ns, flagrante, inexplorada, imensa, uma nova maneira de criar e de sentir... Temos que renovar ao mesmo tempo o instrumento e a msica.--E movendo desordenado a cabea, os nervosos dedos arranhando inspiradamente o espao, a grenha revlta ao vento:--H que fixar o movimento, a velocidade, a conquista do espao, o delrio da carreira, a embriaguez do vo, as palpitaes do ter e as vibraes anmicas, todo ste travamento voltil e febril da vida, tdas as grandes conquistas arrancadas ltimamente pelo gnio humano Natureza inerte e hostil... No lhe parece? --Sim, acho que sim...--aventurou maquinalmente o Silveira, que o escutava indiferente, sem perceber nada, como quem ouve chover. Entretanto, diante do seu olhar deslumbrado e absorto, e como um eterno protesto vacudade insolente daquelas palavras, continuava a desenrolar-se a beleza perenal dessa agonia de luz dulcssima, salpicando de brilhos fugazes a capela rasteira das nuvens, que como que se abriam agora em magnlias, hortnsias, ltos, orqudeas e outras flores maravilhosas, semelhando um imenso fogo de artifcio imobilizado, no seu fulvo esplendor e no seu rasgo alado. Breves horas depois, no _Social Hall_, a prefixada renio do _Committee_ directivo de _sports_ e festas decorreu serena e rpidamente. Para ganhar tempo e facilitar trabalho, o secretrio leu um programa de diverses j prviamente elaborado, o qual foi aprovado sem discrepncia. Procedendo-se em seguida distribuo das respectivas funes pelos membros do _Committee_, Joo da Silveira veio a saber, com verdadeiro regosijo, que no lhe competia mais do que o encargo de fazer entre os seus compatriotas de bordo a _qute_ voluntria para as despesas.--E que no se aceitavam donativos superiores a uma libra.--Por outro lado, a tarefa era-lhe um tanto ou quanto fastidiosa. De portugueses, a bordo, o Silveira no se dava conta de mais que alguns, poucos, pequenos proprietrios e comerciantes, seguramente republiqueiros... bastava v-los. No lhe era nada agradvel tratar com essa ordem de gente. Mas, em suma, por uma vez e como eram poucos, a coisa resultava fcil, afinal. Era um alvio! Da a pouco, sbre uma das mesitas do _smoking-room_, iniciava le o seu trabalho, passando ao papel os nomes daqueles que j conhecia, quando sbito se lhe interpe arreliativamente luz a figura abundosa e afvel do dr. Contreras.--No sabia se vinha _molestarlo_...--Tinha um risinho solcito, de pretendente, ao explicar:--le estava crca, ali assim, vendo jogar, quando deu conta dle.--E apontava uma mesa de _brigde_, em que eram parceiros o Mafiori, o Mackenna, um ingls engelhado e esguio como um arenque sco, e aquele misterioso e derrancado aclito de _M._^{me} d'Ellery, a qual, complacente, se lhe sentava ao lado, de perna traada e fumando, num vontade petulante. O Contreras continuou:--Estava vendo jogar, por ver... No que fsse _aficionado_. _Ms bien le gustaba_ tratar com as pessoas de verdadeira distino. Oh, sem favor nenhum! Por isso tomra aquele atrevimento. E levemente incrdulo, dobrando-se para o Silveira, com o olhar astuto: --_Es usted republicano_? O Silveira teve um gesto solene de protesto. E servilmente o outro: --Ora! via-se logo... Podia l lr por semelhante cartilha _un caballero_ tam distinto! Eu, que sou eu, p'r'aqui um pobre _come-meajas_, e com republicanos tambm nunca quis nada. _No parto buenas migas con ellos_. Gente sem modos, sem educao... Nem a rpblica, meu caro sr., para ns.--Dogmticamente confirmava, arregalando os olhos:--Veja o que ela durou em Espanha!--E, com dulcerosa expresso, batendo a espalda do Silveira:--Pois, meu caro amigo, fao votos para que sse grande dia da restaurao lhes venha breve. O Silveira poisra a pena e erguera uns grandes olhos de esperana para o generoso interlocutor, seguro senhor agora da sua grata simpatia, e que com abandno familiar, sentando-se: --Diga-me, meu amigo... le a rpblica portuguesa sempre suprimiu as condecoraes? --Suprimiu tudo! --_Es lstima_...--comentou, de plpebra murcha, o Contreras; e depois duma pausa, coando a barba, tmidamente:--Eu muito gostava de ter uma condecorao portuguesa! --Sim? Pois deixe estar, que quando a coisa volte... --_De seguro_, promete? --Alcano-lhe uma... a Conceio, por exemplo. Palavra! --Ah, que agradecido eu lhe ficarei!--lamuriou o Contreras, enternecido, de mos erguidas.--_En cambio_ tambm prometo fazer-lhe _un regalo, un regalo precioso_... Achegou-se e com afvel intimativa, muito em segrdo:--Dou-lhe uma das carabinas apreendidas aos monarquistas portugueses, de que me fez presente _el alcalde_ de Vigo, grande amigo meu... uma carabina autntica de Toledo, como aquelas que os jornais disseram que o govrno espanhol havia vendido para o Paraguay...--Aqui ria grossamente, mostrando a rala devastao dos dentes:--Para o Paraguay, hein... No foi m _broma_ essa! E outra vez srio, e com um encarecimento hipcrita, premindo o pulso ao Silveira: --Uma preciosidade, uma verdadeira pea de museu... Era do Paiva Couceiro. III Na manh seguinte, ao _lunch_, j ao lado de cada talher, no comedor, havia a lista dos passageiros e do pessoal de bordo, em papel assetinado, impressa lindamente, e, junto, o Programa detalhado _of games and sports_ para durante a viagem. A primeira sesso,--jogos sbre a tolda,--realizar-se-ia j nessa mesma tarde. Por isso, o Silveira havia visto, logo de manh, um grande quadro negro posto a prumo no _Social Hall_, o qual era destinado inscrio geral dos jogadores, e que em menos duma hora aparecia abundantemente garatujado de caligrafias exticas, hieroglifando nomes brbaros. Agora, no comedor, o Silveira demorava com particular agrado a ateno sbre a beleza daquela composio tipogrfica feita a bordo, e no ntimo rendia o seu mais admirativo preito celeridade e limpeza como tudo ali assim caminhava. A seguir, e quando, postos de lado a Lista e Programa, desdobrava o guardanapo para principiar a comer, o Silveira notou que o tenente Euclides o mirava com uma expresso singular, entre alviareira e irnica, alegremente. E como a insistncia maliciosa dste prazenteiro olhar se prolongasse, levemente intrigado le ento aventurou: --Como o nosso Euclides est hoje contente! O brasileirito fez uma pausa de importncia, e depois olhando-o fito, com um cocegante ar de mistrio: --Tenho uma grande novidade a dar-lhe! --Coisa ba? --Bem agradvel, creio, lhe deve ser... --Homem, diga l! desembuche,--comandou, j tambm interessado, o Contreras dando um murro na mesa. Porm, numa suave negativa de cabea, o tenente Euclides: --Nada! O meu amigo perdoar... mas assunto s p'r'os dois. No pode ser... O Silveira, razovelmente intrigado, reptava-o a que falasse. Curioso por igual mas comedido, o nobre Mafiori, num protesto mudo de discreo, levou a mo ao peito, fazendo luzir as unhas. Porm, a tudo resistiu a alviareira e enigmtica expresso do brasileiro, que se manteve impenetrvel. Por fim, quando em cima, no salo, o Silveira, devorado de impacincia, voltou a interpel-lo, o bom Euclides aclarou: --No sabe voc?... J sei quem o nosso misterioso argentino! --De-veras!?... Falou com le? --Sim! falei... --E com as filhas? --Tanto, no. Mas poder voc faz-lo... Est aplanado o caminho. --Ento? ento?... E ante os olhos interrogativamente abertos e a bca espectante do Silveira, o amigo Euclides segredou-lhe ento, por entre cautas miradas em trno, espaadamente,--que se tratava, no dum argentino de nascena, mas dum vlho escandinavo, o dr. Justus Wimeyer, h trinta anos estabelecido no formoso pas Del Plata, para onde viera, moo ainda, exercer a advocaca, e onde fra cumulativamente jornalista e pedagogo, sendo agora professor jubilado da Universidade de La Plata, grande proprietrio no norte e homem de fortuna. --Como diabo soube voc tantas coisas?--exclamou, maravilhado, o Silveira, sacudindo a cabea numa comoo de espanto. --Pelo comandante do vapor, que mo apresentou,--o Euclides aclarou singelamente. --E que santo fez sse milagre? --Milagre nenhum... que o homem um grande fillogo, pelos modos; conhecedor profundo da especialidade e tendo a mania da derivao scientfica das lnguas. Quere obter certas indicaes prosdicas e sintxicas sbre o portugus. Uma madureza como outra qualquer. E, dizendo, Euclides Pereira ria bonachonamente. Mas, sbre brasas, o Silveira: --E depois? e depois?... Que, depois,--continuou, aprazivelmente irnico, o brasileiro,--depois, a pretexto de le falar portugus, aquele celebro, rompendo com a sua engomada reserva, pedira para ser-lhe apresentado. E vai ento le, para se descartar da estopada e simultneamente fazer um servio a um amigo, escusra-se, alegando a prpria incompetncia, e inculcra-o a le, Silveira, como um chavo na matria. --O qu!?--bradou ste, num salto de pavor, mas no ntimo radiante. --Assim mesmo!--confirmou jubilosamente o amigo.--A estas horas voc considerado pelo homem como um verdadeiro achado. Que mais quere?...--E levemente mordaz, batendo-lhe no ombro:--Agora, veja l como se porta. Olhe que eu disse que voc era um grande professor. --Quere no que a fez fresca!--lamuriou, atarantado, o Silveira, rascando a testa.--Indicaes prosdicas, sintxicas... sei l o que isso ! Estou bem aviado! --Ande, vamos! Foram encontrar o dr. Wimeyer no mais discreto recanto do salo, frente a uma mesa, sentado gravemente. No seu invarivel traje negro, e gordote, rosado, o sulco devastador das mltiplas rugas cortando em fundas ranhuras a descada oval do rosto totalmente escanhoado, com o seu ar didctico e tranqilo le parecia desfiar coisas transcendentes a dois desconhecidos, igualmente vlhos, que num religioso xtase o escutavam. Mal que viu aproximar-se o tenente Euclides com o amigo, o grave perorador interrompeu a douta parlenda e ergueu-se, a receber urbanamente os recm-vindos. Houve uma ligeira tremura de aproximao feliz no seu primeiro aprto de mo ao Silveira. E, depois de todos mtuamente apresentados, e convidados o Silveira e Euclides a sentarem-se, retomando a palavra, o dr. Wimeyer explanou com grave ar doutoral, num francs correctssimo: --Eu estava expondo a stes srs. a minha teoria sbre a morfologia secular das lnguas. a qumica do pensamento. uma coisa evidente, racional, matemtica, infalvel. Falta-lhe um novo Lavoisier a consagrar a sua axiomtica divulgao pelo mundo... As lnguas no so mais do que puros agregados... atmicos, por assim dizer. Creiam nisto... das relativas combinaes e reaces dos elementos radicais e fonticos dumas e outras que deriva a seriao fatal do seu parcelamento. --Mas, como se explica ento a formao caprichosa, arbitrria, de tantos idiomas e dialectos?--aventurou, com timidez, um dos vlhos ouvintes. --Ora essa! So as migraes, so os embates dos povos, a aco das latitudes, dos climas,--aclarou o vlho pedagogo com deciso, a fria pupila azul momentneamente acesa.--Nada h a de arbitrrio. Tudo obedece ao jugo imutvel de grandes leis de que ando perseguindo o segrdo. So afinidades que se exteriorizam, so electrons tnicos que se expandem. E so stes biolgicos reagentes que lenta e fatalmente opram o desdobramento das razes primitivas em grupos progressivamente diferenciados, na _tessitura_ incomovvel dos quais se vo manifestando e impondo ento modismos e qualidades peculiares, que l residiam j no estado latente. Vejam, por exemplo, entre o sanscrito e o grego, entre o celta e o latim, entre o mosrabe e o portugus...--E aqui, enviando uma terna olhada ao Silveira:-- sbre o que eu tenho que pedir bastante sua amabilidade, meu confrade ilustre, meu nobre amigo. O Silveira fez-se plido e tartamudeou um vago assentimento. Veio tir-lo do embarao uma cantante voz feminina, clara e virginal, que junto do dr. Wimeyer e no mais puro francs, aventurou com meiguice: --Poderias conceder-me um momento, papsinho?...--E logo, um pouco perturbada e dobrando-se, ao notar a assistncia:--Ah, perdo... mas eu no queria desarranj-los. Perante a deslumbrante apario, o Silveira ps-se de salto em p, aturdido, louco de prazer. As fontes latejavam-lhe, via tudo em branco... Mas j o encadernado professor estava de p tambm e cortsmente solicitava vnia para ausentar-se. Apresentou com simplicidade filha o Silveira, que, mudamente implorativo, se lhe interpusera no caminho.--Era Irne, a mais nova das duas... A doutora da casa,--sublinhou o pai com afvel desvanecimento. E da a instantes seguiam os trs, fcilmente acamaradados, para a coberta de bombordo, onde o dr. Wimeyer, na sua experincia de vlho viajeiro e por ser ste o flanco menos batido do sol, havia sensatamente marcado cadeiras para a famlia. A estavam, reclinadas molemente numa atitude elegante de abandno, a espsa do professor, D. Catalina, e a filha mais vlha, Dolores,--esta lendo uma qualquer Revista ilustrada, aquela imersa em repousada beatitude. Pai Wimeyer apresentou-lhes com um sorriso protector o Silveira, a quem fez mesmo depois sentar na sua cadeira, entre D. Catalina e Irene.--Que sorte!... nem de propsito...--E, trocadas algumas palavras a meia voz com a mulher, pronto voltou para o salo, a reatar a sua voluntria catequse interrompida. O Silveira ficou ento s e inteiro senhor do campo, na sua tam apetecida situao junto das trs senhoras. Encareceu com lisonjeiro calor o seu inexprimvel prazer de travar conhecimento com uma famlia _tout--fait distingue_ como aquela: assim lho haviam afirmado e via-se logo... Na mais amvel solicitude, buscava pela louvaminha _ outrance_ insinuar-se. E com um desvanecimento entre altaneiro e ingnuo, D. Catalina corroborava, explicava ento,--que era argentina, aparentada ainda com os Alvear, uma das raras famlias de aristocracia autntica que podiam contar-se no seu embrionrio, no seu mesclado pas de _chacareiros_ sem passado e adventcios sem escrpulos. Regressavam duma viagem de recreio, de seis meses, pela Europa.--E, a propsito, iam preguiosamente arrastando sse mais ou menos sabido travamento de vagos comentrios, de estribilhos banais, tda a sorte de frases feitas, sbre os encantos de Paris, as maravilhas da Sua, as preciosas coisas da Itlia. Neste terreno fcil de consabidas baboseiras, o tacanho Silveira, que tinha viajado algo e no era de todo alheio ao francs, acompanhava as trs senhoras lindamente. Mas, medida que o dilogo aquecia, o esprito vivo e original de Irene estremava-se, tinha um critrio seu, lampejava em pontos de vista pessoais, em contornos por vezes imprevistos. Discreteava com elevao sbre coisas da arte e do esprito. Em tda a Itlia, nada a cativra tanto como Florena.--Que ambiente divino! Ali tudo era fino, harmonioso, tocante, puramente lanado e superiormente belo. -- certo. At as mulheres...--arriscou, com instintivo acrto, o Silveira. -- a cidade de mais deslumbrante e copiosa tradio espiritual. Da sua arte divina a mesma Natureza tributria. o corao do mundo!--epilogou Irene com brio; e depois, voltando a fechar-se na sua tmida reserva habitual, singelamente:--Mas tambm, a propsito de arte, deixe-me dizer-lhe que admiro muito, que aprendi imenso neste rpido estudo da arte europeia, no h duvida. Oh, mas uma arte demasiado sbia, uma arte tda facturada e etiquetada de antemo, um curso forado de _savoir-faire_ em que os rasgos de gnio so espontados como se castigam as diabruras dum menino mal educado. Falta-lhe a espontaneidade, que smente o vio criador dos pases novos poder voltar a restituir-lhe. --O qu! tu crs na possivel afirmao duma arte americana, _ch_?--acudiu a irm de Irene, parando de lr, num desdem incrdulo. --Tanto como creio em Deus! uma questo de tempo. O Silveira prometeu-se interiormente consultar sbre o caso o Mackenna. E grado e grado a conversa do grupo tomava vida, cr, intersse, e travava-se mais quente e familiar agora, no relativo isolamento em que os ia deixando a debandada geral; pois tudo correra a estibordo, a presenciar o primeiro nmero dos jogos sportivos. E de saber que entre os mais entusiastas e ligeiros _aficionados_ passou a pequenina e desmanchada figura de Ramn Alvarez, o qual, ao ver assim de sbito o Silveira j mano a mano com as trs sechoras, teve um saltinho de angur e fechou num piscar de olhos patusco a parpsia do seu espanto. No pequenino grupo amigo de bombordo, depois de arte e de modas, falou-se na variedade, na magnificncia e beleza da paisagem europeia, na doirada opulncia da sua luz, nas carcias infinitas do mar, nas perspectivas majestosas da montanha. Mas tambm aqui a longa e espiritual Irene discordou, e erguendo froixamente o brao, sempre na mesma toada modesta e simples: --A est outra coisa... Quanto a esplendores de paisagem, a deslumbramentos e pontos de vista inditos, ho-de-me permitir que discorde; porm tenho minhas restries a fazer.--E com a expresso sincera e calma, sob o olhar atento da assistncia:--Eu no sei... talvez seja por efeito de haver nascido num pas horrivelmente chato e montono, mas a verdade que no meu conceito a Natureza, ao contrrio dessa apregoada opulncia, dessa mirabolante fecundidade e viva sucesso de aspectos que tda a gente lhe atribui, duma indigncia manifesta de iniciativa e inveno, no consegue renovar mais que os mesmos invariveis _coups de thtre_ e os mesmos cansados e gastos espectculos, seja qual fr a altitude ou o clima. Repete-se a cada passo. D. Catalina, no ntimo desvanecida, julgou oportuno intervir: --L volta esta minha filha s suas originalidades... Por mais que o pai a corrija... --_Mamita!_ original, eu?... quando exponho coisas que os outros podem observar por igual? --Os outros, no!--objectou Dolores, com mal contido azedume:--Eu pelo menos encontrei, e creio que encontraria sempre, o contraste mais formal entre os nevoeiros sujos de Londres, por exemplo, as imaculadas neves alpinas e as escarpas sangrantes da Siclia. Mas, na mesma dogmtica singeleza, Irene, de mo estendida, fechando com o polegar o indicador e abatendo as plpebras: --Tudo a mesma coisa! No dia em que tu tenhas o corao destroado, essa cora alvssima dos Alpes aparece-te suja como um trapo servido. O chamado esplendor do Mundo tudo quanto h de mais convencional. Depende de ns... de ns exclusivamente. sse consagrado chavo do deslumbramento pago das coisas no , no fundo, mais que o espelho da nossa sensibilidade, o reflexo exterior dos nossos estados de alma.--A irm e a me sorriam, com um ar incrdulo; e ela, persuasivamente:-- certo! Tal a sensibilidade no nosso ntimo braveja ou esplende, tal vemos de roda de ns a vida. So as mais das vezes as vibraes cantantes do nosso mundo interior que ao mundo exterior emprestam todo sse decantado brilho objectivo. um esplendor de emprstimo. Sem ns no valeria nada. --Est bem, est bem...--comentou D. Catarina, prolongando um risinho irnico em que havia um mal reprimido brilho de vaidade. De sua banda, o Silveira, de olhos muito abertos e no sabendo que contestar, limitava-se a assentir com vagos acenos de cabea, idiotamente. Assim, medida que o dilogo ganhava intersse, ia-o Irene esmaltando de notas originais, de impresses verdicas e frescas que ela extraa e desdobrava do ntimo, como um perfume que impregnasse o seu sangue, espontneas, vivas, palpitantes, e que deixavam o Silveira imerso num atolondrado mutismo, por serem coisas impenetrveis sua ignorncia e inacessveis ao seu critrio. Entretanto, o seu temperamento sensual, agora, acobardava-se... sofria a influncia transcendente e dominadora daquela nobre e espiritual figura. Irene inclinava-se de preferncia para le, naturalmente, e naturalmente ia desfiando os seus amveis paradoxos, sempre com a mesma voz lmpida e virginal, em frases breves como toques de pincel, vincadas pelo acento imperativo das inquietas mos, incendidas no lume sideral das grandes pupilas sombrias. E era como se na espiritualizao crescente das frases e dos conceitos a sua indumenta animal gradualmente se fundisse. Tda a impresso de matria desaparecia... os seus olhos eram reflexos de astros, os seus lbios eram tintas de emoo, os seus braos eram volutas de sonho; e um nimbo de harmonia dulcssima emanava, como um fludo mgico, de todo o seu atenuado ser, simples e tranqilo. No obstante, junto dela o corao do Silveira, como se aspirasse um ramo de flores de aromas violentos, batia mais apressado. Por fim, quando, passado algum tempo, as primeiras velaturas do crepsculo comearam a abater sbre o barco o seu vu de tristeza, D. Catalina ergueu-se, com as filhas, pedindo vnia para retirarem-se.--Aproximava-se a hora de comer.--Houve uma afectuosa sadao de despedida,--para Irene a ltima,--e depois o Silveira, imvel e em p no mesmo logar medida como ia vendo esta fina, longa e clara figura esfumar-se na luz fugacssima da tarde e delir-se na distncia, tinha a iluso de que ela no era mais do que uma pura abstraco, imaterial, intangvel, como le se lembrava de ter uma vez lido de Pierrot,--que nascera da projeco de um raio de luar sbre um muro branco... Essa noite levou-a deliciadamente o Silveira, embalado na casta volpia dum vago e alado sonho, erguido nas esprulas de oiro dum alheamento alto e inefvel. A abluo espiritual daquele curto dilogo com Irene afinra-lhe o sentir, infiltrra-se nas mais nobres e puras radculas do seu ser, e como que alimpra por momentos a sua alma fruste das escrias brutais do instinto. Na manh seguinte, ao despertar, notou que o _Almeria_ ralentra a marcha, e que lhe montava ao corao e lhe toldava o crebro o que quer que fsse de opressivo e clido. Ganhava-o a depressiva molenta do aproximar dos trpicos. Pela ventanilha, mesmo da cama, olhou ao largo e viu que barrava crca o horizonte uma espcie de ciclpico muro negro. Era o arquiplago de Cabo-Verde,--recordou. Lentamente, com uma delidora quebreira nos msculos dormentes, reagiu, ergueu-se.--Em cima, na tolda, no havia sol, e a luz diluia-se em grisceas e densas toalhas, dispersa como andava no peneiramento molhado da neblina, cortada como era por sse formidvel circuto de montanhas ridas e a prumo, escalando sinistramente o espao. No se divisava em tda esta imponente massa, de runa e de sombra, uma nota clara, um cntico de luz, uma choupana, um rebanho, uma rvore, qualquer perdido _oasis_ de frescura e de repouso. Era o repdio formal da Natureza. Dentro dste revlto anfiteatro de maldio e de treva, o mar, fundo, plcido, dum tom uniforme de pz com espelhamentos lvidos, parecia amortalhado, era como um lago dantesco estrangulado na convulsa paralizao dum cataclismo. E tudo falava de desolao e de morte neste atormentado prtico do Averno, nesta monstruosa cavalgata petrificada, pasagem de pesadelo tda em pontas speras e hostis, em escarpas que davam vertigens, em agulhas topetando o cu, em rampas escalavradas e adustas; terra de abominao onde a vida parra por completo... arestas sbre arestas, abismos sob abismos... e cuja trgica insensibilidade o mar, com os seus mansos rolos, buscava em vo comover, mandando-lhe o acariciamento deslumbrante das suas franas de espuma. Mal tinha o barco lanado ferro e j era simultneamente invadido, a bombordo e a estibordo, por um duplo cordo de negros,--puros bronzes vivos,--geis, luzentes, hercleos, a maior parte vestidos apenas dum p ainda mais negro do que les, e que trepavam lestos amurada ou marinhavam pelas cordas como smeos, para deixar-se escorregar depois sbre as vrias cobertas, trejeiteando, garatujando, saltando e em risinhos duros, como de canibais, mostrando o impecvel marfim dos dentes. Eram os carregadores de carvo que acudiam faina. Porm, seguidamente, da ensurdecedora algarada que subia do sem-nmero de pequeninas embarcaes rodeando, em baixo, o vapor, um outro impdico enxame de simiescos trues agora surdia, igualmente geis e negros, igualmente nus, mas stes na maior parte ainda impberes, limpos e de formas delgadas, desdobrando na sua extica invaso adorveis linhas de graa gentlica,--e todos na vibrante impacincia de disputar pelo mergulho a caa das moedas que de bordo os passageiros lhes atiravam, por divertir-se. Uns da casca frgil dos botes, outros pelas enxrcias e mastarus do vapor suspensos, toda esta coreia juvenil se agitava sfrega, todos pediam clamando, cabriolando, encrespando a figura, erguendo os joelhos, batendo as mos, desmanchadas nas mais inverosmeis atitudes, zurrando tda a classe de rudos brbaros; depois, quando a tentadora rodelita de prata ou de oiro traava o seu meterico brilho pelo espao, les atiravam-se a nado, de braos em ponta, como flechas, havia um abundante chapinhar nas guas, e da a segundos um dles reaparecia, amostrando e apertando a codiciada moeda na ponta do focinho triunfante. Com tda a sua abominvel selvajeria, o espectculo tinha um impressionante sabor pago a que o Silveira no pde manter-se alheio. Seguiu-o por algum tempo com agrado, vibrando ao contagioso estmulo daquele torneio brutal de agilidade e de fra; e apenas, uma que outra vez, ao lembrar-se de Irene, olhava receoso em trno, tomado por ela dum instintivo pejo... no apreensivo temor de quanto o seu virginal recato por aquela impudente exibio animal se sentiria ofendido. Nem ela, nem ningum dos Wimeyer apareceu, felizmente. O Silveira descortinou porm, no sem uma certa surprsa, gozando muito compadres aquele _sport_ brbaro, Helena d'Ellery e o Mafiori, ombro com ombro, e furtados discretamente ao besbelhoteiro rodeio das atenes no mais escuso ngulo da r, em cima, sbre a ltima coberta. Um vlho negro, derreado e esqueltico, se lhe acercou entretanto, ofertando produtos da indstria rudimentar do pas: colares, anis e broches de coral, saquitos de junco, blsas de sementes luzidas e duras como azeviche, grossas gargalheiras policromas tecidas de conchas, de corais, de pedras polidas, de caroos de plantas indgenas e gomas aromticas. Exprimia-se com dificuldade, gaguejando e mascando, num galimatias gutural todo em monosslabos, adulterao burda do portugus, cortada, spera, intraduzvel. De roda, uns tantos mais mercadores mendigos, como ste, circulavam tambm, oferecendo laranjas, bananas, ccos. E, vista assim de perto, a hirsuta e negra turba perdia aquela nativa selvajeria da sua primeira investida feroz ao vapor; buscavam suavemente comover a esquiva indiferena dos clientes, em gestos no isentos de docilidade, dobravam-se tmidos, humildes, e apenas se lhes traa a braveza inculta da condio no vido dilatar das chatas narinas, na escrutadora dureza do olhar astuto. Entretanto, por efeito do transbrdo do carvo, ganhava mais e mais a imobilidade gorda do ar um p negro finssimo, impondervel, que tudo inquinava, que tudo afogava, que tudo invadia, e que levado na asa fuliginosa do seu irresistvel poder emporcalhante, no havia brilho que le no apagasse, no havia limpa claridade que le no pontilhasse de sombra. Ento o Silveira, que comeava a ver o seu rico fatinho claro salpicado e mordido de minsculas lminas negras, como coleopteros daninhos, teve que renunciar a seguir aquela picante aproximao de Helena e do marqus, e resolveu deixar a tolda e internar-se no salo, seguindo o exemplo do maior nmero. Mas a logo, do canto duma mesa, o pequenino Ramn Alvarez a cham-lo em grandes gestos, com uma intimativa insistente, quse aflita.--Queria em primeiro logar felicit-lo... Que bem dirigido assalto, que sorte fulminante! Estava um outro Jlio Csar... Magano!--Depois, ao notar a expresso de desagrado do Silveira, numa brusca reviravolta, com um tom insinuante e outra vez aflito:--Que estava muito atrapalhado... Uma andaluza, que era um vivo demnio, pedira-lhe para escrever um pensamento no leque. E le, embaraado na escolha, no sabia bem por que decidir-se... --Tenho aqui tantas, tantas coisas! E estrangulava nas mos nodosas a cabea descomunal, nesta hora crtica por fra ardendo em plena gestao de baboseiras. Da a umas horas, no _bar_, juntavam-se os parceiros habituais do _bridge_, faltando apenas o marqus, que num estranhvel desmentido sua habitual correco, j ia tardando. Faltava tambm _M._^{me} d'Ellery, e o seu imprescindvel assessor, o vlho bonzo, fazia maaneta com as mos sbre o paninho verde e franzia a bca exangue, em mal reprimidos sinais de impacincia. Ento, manhosamente o Silveira tomou o Mackenna de parte, e por entre um risinho cheio de reticncias, cujo significado exacto ste no podia apreender, perguntou-lhe como ia a coisa? E logo, todo jactancioso, o outro segredava-lhe que ia lindamente! era uma conquista segura... O intrometido Contreras, que viera familiarmente imiscuir-se na conversa, tossicou, amolou, coou as barbas, incrdulo. E, com ar ofendido, o chileno: --Parece que o amigo duvida? -- que o vejo tornar as coisas fceis... No se caminha assim. Devagar, devagar... Entre o pensar e o fazer, _hay que tomar el tranvia_. --Se queria apostar? Porm o Silveira, que tinha danando-lhe pcaramente diante dos olhos o inopinado grupo do tpe da r, naquela manh, encolheu os ombros numa ironia mansa: --Eu j no digo nada... Havia agora cinco longos dias a passar antes que volvessem a avistar terra firme. Uma largussima sucesso de horas, sempre as mesmas, que seriam vividas inevitvelmente sbre a clida opresso daquela atmosfera pesada e espessa, que haviam de arrastar-se numa monotonia sem fim entre o proceloso encapotamento do cu e a opacidade revlta das guas. Ento, tda esta grande famlia que o acaso improvisra ali, sbre o piso encerado das vrias pontes e cobertas, naturalmente, a iludir a anestesia morna do tdio, vinculava-se, cingia-se mais, buscava a cada momento pretextos novos de aproximao, lances de mtua intimidade; teciam-se correntes sbitas de simpatia, havia um efusivo desborde de galanteios, atenes, franquezas; concertavam-se negcios e associavam-se intersses;--como se no precrio mbito daquela enorme jaula ambulante les constituissem um universo novo, como se dentro dsse frgil circuto de madeira e ao coubessem tdas as suas preocupaes, planos, sonhos, febres, ambies, desejos... o concrto do seu futuro e a incgnita do seu destino. Contudo, sobrelevando a irresistvel sugesto dste acercamento crescente de relaes e intimidades, o Silveira teve ocasio de notar que as senhoras Wimeyer, coerentes e imutveis na sua linha de inviolada iseno, no se davam seno com le. _Mrs._ Edith, que se havia despido sensivelmente da sua dignidade senhoril, andava agora tda entregue divertida seriao dos jogos. O ardente spro pantesta da desgarrada vida de bordo acendra-lhe a repousada candura infantil em espontneos mpetos; e a cada passo ela vinha e interrogava com vivacidade o Silveira, na sua qualidade de membro do _Committee_, sbre horas, datas e mais circunstncias e pormenores, que a redonda ignorncia do interpelado tinha que deixar invarivelmente sem resposta. Ela reptava-o amavelmente, em graciosos chistes e coquetonas burlas, a que servia de intrprete a complacncia cnica do marido.--Estranhava realmente no o ver inscrito em nenhum dos nmeros do Programa. J no dizia, em suma, no _Passo entre as garrafas_ ou na _Luta dos travesseiros_, que requeriam predicados especiais de agilidade e de fra; mas em qualquer outra coisa... por exemplo, na _Corrida das batatas_, tam fcil... ou ento no _Combate dos galos_.--Ao desenho grotesco desta idea, tda a patrcia figura da irlandesa estremeceu num jbilo: e arrebatadamente, batendo as mos: --Ah, sim! sim! a est... Queria v-lo de galo... Seria tam interessante! Redondamente, o Silveira, entre bisonho e indignado, escusou-se. Ela ento, num procurado ar inocente e um fiosinho meigo de voz, cheio de promessas: --Bem, mas promete-me que vai ao menos inscrever-se no _Enfiar da agulha_. fino! lindo! E com um risinho provocador a erguer-lhe a prpura sensual dos lbios:--Que fsse, que fsse... que ela lhe procuraria a vitria. Avizinhava-se a passagem do Equador, que seria celebrada a bordo por um grande baile de fantasia, antecipao muito a propsito do Carnaval, que vinha prximo, pois tera-feira gorda era j cinco dias depois da passagem da linha, por alturas do Rio de Janeiro. Prometia vir a ser ste Baile o nmero mais brilhante do Programa das festas, e, dois dias antes, j a populao feminina de bordo quse se no preocupava de outra coisa. Haveria prmios, adjudicados por votao geral; e admitiam-se duas classes de trajes de disfarce,--os improvisados a bordo e os trazidos j entre a bagagem. De famlia para famlia, de grupo para grupo, fantasistas, curiosas, insistentes, as interrogaes cruzavam-se; porm, naturalmente, cada um furtava-se, guardando absoluta reserva, e ento as mais aventurosas hipteses, as mais abstrusas e sltas imaginaes cresciam e batiam asas, como borboletas demandando a luz, de roda dste fechado crculo de mistrio. Boquejava-se apenas que o Alvarez preparava um nmero de sensao; que Pilarita Gomez, a desenvolta _morenucha_ que le cortejava, figuraria, a conselho seu, num _travesti_ algo picante; _Mrs._ Edith resistia inflexvel s inquiries dulcerosas do Silveira, que apenas conseguiu registar a renovao freqente das conferncias dela com o cabeleireiro; e sabia-se que a petulante d'Ellery ostentaria um primoroso traje de odalisca. Por sinal que, como ela, uma noite, na pequenina tertlia habitual do _bar_, se lastimasse de que lhe faltava um adrno a condizer, para a cabea, logo todo solcito e importante o Mackenna prometteu arranjar-lhe uma linda pea a propsito, meio turbante, meio diadema, havia de ver... qualquer coisa de abracadabrante, de sumamente artstico e grandemente extraordinrio. E o caso foi que, na manh seguinte, le a vinha instalar-se afanoso a uma das mesas do salo, munido de tesoura, compasso, rgua, esquadro e um frasco de cola, e sobraando um volumoso fardo; e convertia abusivamente ste liso rinco do _Social Hall_ em oficina, logo extrando dessa boceta de Pandora pelintra a mais desconcertante, a mais imprevista miualha, rodeando-se por um abundoso aparato de flhas de lata, de carto, de vlhos retalhos de cachemiras, sdas, veludos, de lantejoulas, sequins, rolos sujos de algodo e tiras de papel doirado. E dois dias pegados levou ali assim, riscando, talhando, cortando, ageitando, unindo, compondo prgas, chumaando relevos... enquanto limpava aodado o suor e arredava a melena, nos intervalos de pausa benefica que raro lhe concedia a congeminao febril dos dedos; e sempre espargindo uma nuvem impertinente de ciscalhos, de trapos, de escrias fulvas, perante a admirao trocista dos passageiros e a muda indignao do _steward_ da sala, chocado por esta suja infraco dos regulamentos. Por fim, naquela quinta-feira de compadres, logo na antemanh, o amplo convs de bombordo sofria uma transformao completa. As cadeiras de repouso haviam sido recolhidas aos flancos, e agora a marinhagem fazia quele largo recinto um emparedamento vistoso, colgando-lhe em trno bandeiras e flmulas de tdas as naes, sujeitas de alto a baixo por argolas e cordagens, batendo multicolores ao vento. At aconteceu que, por um lapso alis fcil de explicar, dada a mudana tam recente das institues portuguesas, a respectiva insgnia que aparecia desdobrada ao contrno drapejante do improvisado salo, era ainda a bandeira monrquica. No escapou ste inocente anacronismo ao Silveira, que, radiante mas cauto, se limitou a esfregar as mos num raivoso jbilo, felicitando-se no ntimo por ste como que pblico e espontneo desagravo que aos seus fidalgos brios o acaso, ali assim, vingadoramente lhe oferecia. Mas o pior foi que da a instantes passaram tambm dois outros compatriotas seus,--um caixeiro da firma Brando Gomes, de Espinho, e um agente da Camisaria Confiana, do Prto--adoradores incondicionais do Baslio Teles e antigos revolucionrios do 31 de Janeiro, os quais, tomando por uma deliberada afronta internacional aquela inofensiva exibio da bandeira azul e branca, logo protestaram indignados e, de caminho passando palavra aos correligionrios que iam encontrando, breve foram todos levar exibitivamente perante o Comissrio de bordo a expresso do seu _veto_ colectivo, em termos que o escandaloso smbolo teve de ser retirado. Enquanto a reparadora desmontagem se fazia, aqueles dois primeiros estrnuos zeladores da verdade histrica miravam de soslaio, trocistamente, o Silveira, com a pupila triunfante. E ste ento, como no havia a nova bandeira rpublicana a bordo, monogolava com tristeza:--Afinal, a se fica o meu pobre pas sem representao!--E depois, num soberano ar de desdm, com um risinho perverso:--Que realmente era como estava bem... que aquilo agora, com a rpublica, no era nao, no era nada. Fechado assim por essa improvisada cinta internacional o recinto, a mesma marinhagem com uma vivaz e alegre solicitude, festoava-o em abundncia de renques de flores de papel, aplicava-lhe, a multiplicar a iluminao, pras elctricas policromas. Por ltimo, o piso encerado foi passado a gis, para garantir a integridade corporal dos bailarinos. E durante todo o dia pode dizer-se que nesta parte reduzida do convs se resumiu o melhor da vida de bordo. Os que no trabalhavam, vinham ver. A certa altura, desceu mesmo a inspeccionar amvelmente o andamento dos preparativos, a scca figura esquiva do comandante. Tambm os Wimeyer vieram, num rpido giro, ver todo aquele arranjo, ao que les chamavam uma diverso _cursi_, mantendo-se altivamente alheios. Ao almo, no comedor, foi sensvel a ausncia das senhoras. E, fechados como se mantinham nas respectivas _cabines_, uma ba parte dos passageiros, no vivo empenho de ultimarem a tempo os seus disfarces, resultava assim que, por momentos, e a no ser a mancha arrogante de um ou outro contumaz grupo _sportivo_, o dilatado _stand_ do tombadilho aparecia deserto. Ao anoitecer, mal a corneta deu o primeiro sinal para o jantar, logo o comedor foi assaltado e invadido com uma grossa presteza, como at quela noite, em tda a viagem, no havia memria. que a direco do _Committee_ rogra aos senhores mascarados a fineza de descerem a comer, trajando j os seus disfarces; e assim os simples _mirones_ davam-se pressa em ir ocupar os seus postos de observao, na nsia natural de gozarem bem, desde o comeo, a apario picante das figuras. Da a minutos, os primeiros mscaras, logo acolhidos com palmas, desciam leves os cinco envernizados degraus da escada. A seguir, outros e outros, aquecendo de passo o ambiente do salo, que estimulado por esta ronda bufona de cres estrdulas, de silhuetas, formas, gestos, smbolos e brilhos imprevistos, vibrava e estralava de notas alegres, de comentrios patuscos, de aplausos, vaias, interjeies, pilhrias, burletas e volatas de risos. E que havia de tudo nesse desfile bigarrado e indito: traos ingnuos e arripios brbaros, a trivialidade e o indito, a brutalidade e a elegncia. Ora, eram selvagens negruscos que vinham aos saltos, guinchando e rolando, e _boy-scouts_, zuavos, marujos, _pierrots_, fazendeiros, _gauchos_, tangedores de gaita de foles; ora, insulsas meninas de bas famlias, que, ao amparo discreto de consabidas e recatadas formas, vestiam apagadamente de _Fada_, de _Noite_, de _Minerva_, de cigana ou ledora da _buena-dicha_. Na mesa do Silveira, s se mascarava o Mafiori, que no acabava de aparecer. No aparecia tambm, por igual, o Alvarez. A sua endiabrada Pilarita, numa _louche_ figurao de _apache_, estava lindamente, adorvel de canalhismo galante e desinvlta graa. _M._^{me} d'Ellery ostentava uma riqussima tnica oriental, tda oiros e sdas, a cabea sumia-se-lhe estrangulada no turbante birsamal do Mackenna, e vinha pelo brao passivo e solene do seu derreado protector, de lao branco e _frac_, tendo na lapela uma palma de esmalte verde. Tambm vinha em grande _toilette_, com a espalda provocadoramente nua e altos taces doirados, a jovem multimilionria Nora Scott, uma histrica mordida de zelos pela irredutvel esquivana do Silveira. _Mrs._ Edith foi das ltimas a descer, tda grave e senhoril, a par com a complacncia orgulhosa do marido. Trajava um elegantssimo _costume_ Pompadour, que como que a aligeirava, lhe adelgaava a redondeza helnica das formas e lhe punha asas na figura,--e que era todo le do mais puro bom-gsto e do mais escrupuloso rigor, desde a maranha luxuriante do penteado, desde as miuditas flores e as prguinhas leves da saia e _corset_, at s leves _mouches_ do rosto, fina pinturilha do leque picado de oiro, e tnue e espumosa renda do leno minsculo, amarrotado entre os dedos.--Oh, que esplndida!--rompeu exttico, sacudido de admirativa gula, o Silveira, mal que a viu aparecer e batendo palmas:--Bravo! bravo! Aquilo sim!...--E com a face congestionada, num cotovelo persuasivo ao Contreras:--H-de ter o primeiro prmio! Quando, por fim, uma redonda e rija morenita apareceu, com o busto saltante envolto na bandeira brasileira, os seus compatriotas, postos sbito em p, aclamaram-na num brado unsono, ao tempo que de todos os pontos da sala os aplausos estrugiam com delrio. E no atropelado desdobramento desta slta feira animal, o vasto recinto perdera o seu frio e composto aspecto habitual, na sua disciplinada ordenana um tolerante parntesis folio se abrira. Por entre o estrilante chocalhar das loias e talheres, a cada momento os comensais paravam de comer e os moos cessavam de servir, cortados e suspensos no contgio truanesco dste concertante brbaro, fustigado a espaos por frmitos de loucura. Pouco depois, em cima, ao compasso dum _two-step_ sofrivelmente semsaboro, _a quu_ cabriolante dos mscaras, desfilando marcialmente, fez o circuto do tarraco salo de baile. Apareceu ento o Mafiori, que vinha soberbo, encadernado em mandarim. Porm agora o grande xito da noite foi para Ramn Alvarez, que idera realmente uma improvisao feliz,--montado em andas e rodeado por uma espcie de grande roca cilndrica, feita em madeira leve e de cima a baixo encoberta por uma tnica de chita roagante, maneira dos santos de aldeia, na sua terra. Assim realizava um picaresco _gigantn_, que le animava procazmente, ao alto, com a autntica enormidade da cabea, prazenteira e afvel oscilando, tda em mesuras. E nenhuma sorte de mscara ou atenuador disfarce nesta estadeao impudente da figura. Apenas le avivra a spia e nankin a dura projeco das feies, e asperisra a poder de caio e zarco a macieza juvenil da face, tornada assim a raz lgica, natural, da adusta rubefaco do crnio. Era um prodgio de bom humor esta valente ampliao caricatural, ste autocomentrio alegre prpria disformidade. Entretanto, de roda, parede drapejante das bandeiras viera cingido e compacto inscrever-se o muralho dos curiosos. Grupos surrateiros conseguiam vir de fra e insinuar-se, impvidos e de p, avivados pelos rostitos frescos das _midinettes_ da 2.^a classe, trazidas arteiramente pelos oficiais de bordo a gozar o espectculo. O Silveira no teve descano enquanto no abordou a irlandesa, para lhe enaltecer numa mmica eloqente a impecvel distino da _toilette_. E ela, infantilmente: --_You like_? le, incendido e vibrante, confirmava,--que sim,--e sentindo um desvanecimento ingnuo em acompanh-la, procurava fazer-se compreender, num desbarato exultante de admirativas olhadas, galanteios, vnias e lisonjas, que s cessaram quando o imprvido gal notou que as Wimeyer tinham vindo plcidamente tomar, num reservado cantinho, as suas cadeiras. le ento desligou-se da irlandeza, e mudando de ttica, forte no seu propsito de fazer triunfar aquela deliciosa figura, digna de fixar amorosamente as prodigiosas faculdades de realizao dum Boucher ou dum Latour, tudo era chamar para ela as atenes, encarecer-lhe a propriedade impecvel do disfarce, a beleza galante do arranjo, e onde quer que le visse alguma pessoa do seu trato, na disposio de preencher a respectiva lista,--fsse embora um quse desconhecido,--a corria logo a tentar persuadi-lo, a pression-lo com vivacidade, a suborn-lo pela lisonja, no implacvel desgnio de fazer vingar o seu desejo. Grado e grado, porm, a presso sufocante do ar, a aglomerao, o calor, o contgio ertico das danas, iam determinando na foliona turba um comeo de enervamento que se exteriorizava em sensveis mostras de enfado, em estases mrbidos de cansao. J os homens passavam os lenos pelo pescoo, arejavam o nariz, enxugavam a testa; as ventarolas e os leques andavam abundantes de mo em mo, sempre na sua palpitao tremulante de passaritos assustados; e aos compassos convidativos da orquestra a ronda flamante dos pares ia rareando. _M._^{me} d'Ellery tinha calor, afogada no largo e fulvo amplexo da sua rica tnica oriental, molestada sobretudo por essa desgraciosa bisarma que lhe oprimia a cabea,--uma obstrusa composio da qual, para mais, ela notava que todos em roda mais ou menos claramente se burlavam. Porque nesta criao infeliz o Mackenna, fiel aos seus ideais cubistas, realizara, no o canto harmonioso de curvas que seria a condizer com o voluptuoso coleamento e as lnguidas suavidades daquele traje magnfico de sensualidade e de sonho, mas uma desconforme trre de pesadelo, tda em speras e duras linhas, em rasos planos, em projeces macias, em cruas e vivas oposies, em ngulos que se penetravam, em pontas que se hostilizavam, em arestas que ofendiam a vista. Era a cabea do Alvarez estilizada. Um retalho de pagode primitivo incrustado num ngulo da muralha da China. Por fim, num gesto de definitiva emancipao, a insofrida Ellery atirou com o molesto diadema para trs do piano, despiu a tnica, e provocadora e ardente, com a frescura rolia do busto bailando agora sob a branca blusa transparente, como lobrigasse perto o Alvarez,--que tambm se desembaraara do rodap de chita e das andas, ficando em mangas de camisa,--travou-lhe sbito do brao e rompeu com le num desenfreado _can-can_, que foi um escndalo para a poro grave e burguesa da assistncia. As Wimeyer haviam-se retirado antes; propcia eventualidade que o Silveira aproveitou para ir valsar com a irlandeza. Depois, como o momento das votaes se aproximava, ei-lo a de volta na sua furiosa, na sua amoruda galopinagem, de grupo a grupo mendigando votos, captando adeses, forando vontades. E o caso foi que logrou o apetecido xito; o primeiro prmio para os trajes j de antemo preparados foi com efeito conferido a _Mrs._ Edith, por maioria enorme. Dos homens, alcanaram naturalmente a primeira votao o Mafiori e o Alvarez. O prmio para o melhor disfarce feminino, improvisado a bordo, f-lo adjudicar a colnia dos saxes e _yankees_, por um sufrgio esmagador, a uma inglesa esnalgada e longa como uma chamin de fbrica, a qual tivera a suculenta ida de se mascarar, figurando uma espcie de cozinha ambulante,--para o que se deu ao trabalho infantil de semear e pendurar prdigamente, doidamente, ao acaso, pela sua vestimenta servil, cortada em grossa sarapilheira, uma heteroclita profuso de caarolas, tachos, cafeteiras, abanos, tenazes, ps, colheres, ramos de cebolas, toros de couves, mlhos de rabanetes, nabos e cenouras. Entretanto, o Silveira, querendo tirar partido da situao, havia passado com _Mrs._ Edith ao _restaurant_ improvisado no convs de estibordo, para celebrar com ela, a _champagne_, o seu triunfo. Breve apareceu porm o conde a cortar-lhes a efusiva comunho dos _toasts_, ponderando--que era tarde, tinha sono... e ela tambm devia estar fatigada.--Bebeu ainda uma taa de _champagne_, brindando pelo Silveira, e, em grossos bocejos, despediu-se e partiu, amparado em pso ao busto airoso e leve da mulher. Os outros comensais, de momento ali, foram tambm passo e passo desertando; de sorte que, em breves minutos, o Silveira surpreendia-se quse s e como que restando o nico assistente ainda aos ltimos acordes da festa agonizante. Sem embargo, no se sentia em disposio de descer _cabine_. Aquecia-o uma instintiva febre de movimento; carecia do rce fresco do ar e do embalo manso das vagas, que lhe mitigassem a mordente excitao, derivada das mltplas e opostas comoes da noite. Fazendo ento o giro distrado do barco e erguendo ao alto a espertinada cabea, fixou naturalmente o seu perdido olhar na imensidade calma do cu e da sua eterna abbada constelada. Liberta por agora da forte evaporao do dia, a atmosfera alimpra e despojra-se do vu cendrado da neblina. Apenas a diafaneidade impondervel do ter se baloiava entre as sombras vagas do mar e o vago luaceiro do Infinito. Eram sempre as mesmas constelaes fulgurantes, a mesma pregara de fogo, o mesmo brilho orgaco, aqui semeado ao acaso por entre flcos de neve ardente, ali afirmando aladamente no espao o seu fulgor solitrio. Contudo, era ste um cu diferente do que le estava habituado a ver na sua terra, era um cu menos povoado, menos esplendente, menos louo, e que por isso mesmo lhe parecia mais amplo, mais distante, mais solene, mais profundo. No tam densos e brilhantes se desparramavam aqui, e distribuidos por outra forma, os pregos de oiro dessa incontvel poalha sideral, esparsa pelo espao. Seguramente era ste o csmico scenrio prprio, a divina cpula de proteco adequada s ignoradas regies aonde le se dirigia, de mudas solides intrminas e imensas extenses desertas. Dentro, porm, da relativa parcimnia e o discreto brilho dsse caminho dos deuses, alguns sis se afirmavam potencialmente em fulguraes vibrantes. Um dles, principalmente, que bastante acima do horisonte se erguia tremulante, fascando, ardendo... Um grande diamante azul, prodigioso altar tendido ao fogo entre os astros e mantido pelas vestais incoercveis da Via Lctea,--suspenso pomo de luz viva, como que prestes a desprender-se da abbada celeste, atrado pela noite insondvel do mar e ancioso por descer a traspass-la com o dardo deslumbrante da sua claridade, para decifrar-lhe o mistrio e desvendar-lhe os segredos. IV Com a ateno dispersa e a alma prendida nesta viva e indita sucesso de impresses, dos ltimos dias, o Silveira esquecera fcilmente os seus humildes vizinhos de bordo, e nunca mais a sua grata sensibilidade estremecera no interrogativo anseio de conhecer bem na essncia, de palpar mais de perto, os sentimentos, opinies, tristezas, projectos, angstias, condies e desgnios daquela corda fruste dos seus presumveis correligionrios, que ali assim seguiam, mesmo a seu lado, promscuamente esmagados, baralhados, baldeados, delidos no empilhamento srdido da desgraa. Agora, porm, o vago amadornamento em que a temperatura tropical como que ensopava as vontades, e as tranqilas solicitaes que batida brava dos vrios jogos e diverses naturalmente se seguiam, dram azo a que na alma dolente do Silveira a imagem sadosa da Ptria esfumadamente esvoaasse, e, junto, a sacudisse o comovido cuidado pela sorte daqueles tantos ignorados irmos seus, atirados, sabia Deus por que duros e encontrados azares, ao traioeiro baloio da Fortuna. Por isso, numa linda manh serena e clida, logo a seguir ao _lunch_, ei-lo que transpe a portinhola gradeada do termo do seu corredor, e se aventura curioso pela suja e triste coberta da pra.--O mesmo mesquinho e srdido espectculo de sempre. No seu passivo abandno s ignotas flutuaes do destino, aquela caravana compacta de obscuros ilotas da Dr ia e vinha, anudava-se e distribua-se em formaes de acaso, era como um grosso formigueiro humano, incansvelmente montando e sumindo-se pelo negro culo que dava ao poro, cavado a um canto, fundo e insondvel como um abismo.--Porm a inesperada apario do Silveira causou ali geral estranheza. A descida dste importante, dste flamante e feliz desconhecido, t as patentes e repulsivas angstias daquela densa colnia eventual do infortnio, fazia que as suas desprotegidas camadas, dando-se um instintivo alarme, se repregassem,--uns por uma vaga e hostil desconfiana, outros como que pelo pejo da prpria misria. E o Silveira ia passando, ia seguindo compassadamente, manso e afvel, nos forados torciclos a que o obrigava o atravancamento pelintra do recinto; ia cruzando os grupos, com o ouvido colhendo, atento, os cortados trechos do dilogo, com o olhar mirando fito o desenho e o arranjo das figuras; e, por sentir-se ali o alvo admirativo das atenes, no ntimo contente. At que, por fim, se acercou familiarmente dum reduzido crculo de rudes gentes do campo, quse todos de ps nus, que se lhe afiguraram portugueses, pela linha, pelos trajes, pela expresso, pelos gestos tacanhos, pelo olhar ingnuo. Eram patrcios seus, com efeito. E le ento, protector, insinuante:--Que era tambm portugus e ia para Buenos-Aires. Muito estimava conhec-los... E queles que seguiam por igual para a Argentina, muito prazer teria em v-los e servi-los por l... --_Agardecido_, muito _agardecido_, senhor!--balbuciou, de lbios confusos, um meio ancio vestido de saragoa, rapado e calvo, descobrindo-se. Dulcerosamente o Silveira completou: --Em fazer-lhes todo o bem que possa. --Ai, que palavras de anjo! que rico senhor!--exclamou, com a voz molhada, uma trigueira e rude quarentona, de saia de flhos, cabeo de morim branco e uns pequeninos olhos doces, perdidos na aspereza da face enrugada e curtida. E num cotovelo entusiasta ao companheiro:--Ouviste? ste arrastou meladamente, dobrado numa mesura e parando de rilhar uma banana: --No faltar ocasio. Procurando gradualmente insinuar-se, o Silveira tornou: --Vem ento procurar fortuna? --Se aquilo por l est tam mau... senhor! --Ento?--o Silveira logo comentou, com um risinho perverso:-- o que vocs ganharam com a rpblica. --Eu c nisso, senhor, no sei falar... --le a coisa j l vinha detrs...--aqui se permitiu arteiro observar, adiantando-se um rapago amplo e forte, de cala de bombasina, camisola e grande chapu cinzento, enquanto raspava um fsforo no quadril, para acender o cachimbo. O Silveira teve uma azda, imperceptvel contraco dos labios. --Parece-te? --Sim, que isto com'o outro que diz...--retrucou, sempre no mesmo ar intencional e altivo, o marmanjo.--Com rei ou com roque, ns c, os pobres, ficamos sempre com'o o carrapato na lama. E aspirava voluptuosamente as primeiras fumaas do tabaco ardendo. O Silveira, despeitado, manteve uns segundos de arreliativo silncio; mas logo, dominando-se: --Bem! pois, repito, naquilo em que eu os possa servir... Interessam-me todos muito. J vem que vim de propsito para conhec-los.--E num refinamento interesseiro da sua amvel solicitude:--Qual de vocemecs o que canta tam bem o fado? Houve de roda uma vibrao unnime de envaidecimento alegre. --O guitarrista? Ah, isso h-de ser ali assim o Matias _gingo_. --Matias! Matias! --_Adrega_ aqui, demnio! Dirigiam-se a um pobre rapaz, delgado, pequenino e doente, que junto dum outro grupo, de pernas cruzadas, no cho, estava vendo jogar as cartas; e que ao ouvir que chamavam pelo seu nome com tam empenhada intimativa, rolou moroso os olhos, primeiro, depois ergueu-se com dificuldade, indeciso, e veio por fim avanando, a cabea nua, arremangado, descalo, derreado e inerte, preguiosamente. Acolheu-o o Silveira numa efusiva expanso de agrado, ameigando a voz, erguendo os braos. --Ora viva l! meu caro Matias. --Em bem o diga e bem lhe v tambm, senhor,--murmurou com humildade o recm-vindo. --Algarvio? --De Fornos de Algodres, fidalgo. --E p'ra onde se dirige vocemec? Argentina ou Brasil? --Com sua licena, vou-me at Argentina, senhor. --Bem, muito bem! Palpita-me que ainda l havemos de ser dois bons amigos.--E ante o olhar oblquo e a bca de espanto do Matias, batendo-lhe afvel no ombro:--Eu queria felicit-lo pela sua rica voz, por aquelas tam lindas trovas... cantadas realmente com uma inteno, com uma expresso, com um mimo e uma f que querem dizer muito... --Nada, senhor. --Ora! no me diga voc que as no escolhe, que no exprime nelas o seu verdadeiro, o seu ntimo sentir... Mas simplriamente o Matias, de braos pendentes, como um mno, encolhendo os ombros: --Eu no sinto coisa nenhuma. --Ento, aquela _piada_ ao Afonso Costa, na outra noite? --Sei l! Aquilo uma moda que anda l na minha terra. Que seja essa ou que seja outra, que minga faz? O Silveira estremeceu e os olhos chisparam-lhe furiosos, num repelo de contrariedade. Os demais sorriam. --O qu!? pois, verdade, voc no liga maior sentido aos versos? no contrrio rpblica? -- fidalgo, que a minha pobre guitarra est um chanfalho vlho, e eu _mesmamente_ de polticas nada entendo...--E, estimulado pela olhada atrevida que o homem do cachimbo lhe mandava, o Matias acentuou com firmeza:--E como est certo, sim! Que essa gente grada, com o devido respeito, faz tam pouco caso de ns, que ainda o menos que ns podemos fazer pagar-lhe na mesma moeda. Desconcertado, nervoso, o Silveira mendigava de roda, com o olhar imperioso e intranqilo, uma simpatia, uma adeso, um qualquer desmentido a estas descabidas e arreliantes afirmaes, tam longe da sua espectativa como fra do seu desejo; e como fixasse com particular insistncia um aldeo alto, espadado e sco, logo ste, singelamente, o destroado chapu de palha girando na concha das mos calosas: --Eu c, meu senhor, a minha poltica ver se alcano a juntar uns cobres com que possa depois viver tranqilo no meu torrosinho, mal'a mulher e os filhos. E j que me no fui frica, malhar nos pretos, resolvi deitar t ao Brasil, em cata da famosa rvore das patacas. O que a sorte quiser... --Quere ento dizer que tambm voc se conforma com essa usurpao trpe da rpblica? --Se ela est, j agora deix-la estar. No ntimo vxado por mais ste desengano, renitia entretanto o Silveira na sua raivosa inquirio.--E voc?... E tu?... E tu que dizes?--Todos se fechavam porm no seu invarivel obstinamento humilde; e foi ainda o moceto do cachimbo quem ps termo ao inqurito, sentenciando implicativamente: --Est muito bem! O que que se ganha agora com mudanas? E atirava, arrogante, o chapu para a nuca, as narinas e os lbios fumarando num regalo. --Scia de palermas!--no se pde o Silveira conter que no exclamasse, na insofrida exploso do seu despeito.--Por isso haveis de ser sempre os eternamente explorados.--Deu de roda umas passadas curtas, arrepelou o bigode, coou a nuca; e depois, conciliadoramente:--Mas, em suma, no vale zangar... Sou aqui vosso vizinho, e amigo, repito, apesar de tudo.--Deu dinheiro ao Matias para uma guitarra nova; depois, num largo gesto altaneiro, ao grupo:--Bem! adeus! Ainda vos hei-de fazer abrir os olhos. E desandou bruscamente, perante a indiferena burlona da assistncia. Da a minutos, em cima, e amarfanhado numa das espssas poltronas do _Social Hall_, ruminava em desalento ste propagandista infeliz o imprevisto e burlesco insucesso do seu inqurito, quando se lhe dirigiram Euclides Pereira e o conde de Horrowby, que precisamente o andavam buscando. Tinha que descer com les _peluqueria_, a escolherem as prendas para os prmios ganhos nos diferentes jogos, e cuja distribuo solene estava marcada para antes do grande Concrto final, naquela noite. Era uma diverso a propsito, quebrantada presso do seu desnimo. No se fez rogar; e a descem os trs a internar-se na _cabine_ inimaginvel do barbeiro de bordo,--um cubculo acanhado e abafadio, batido quela hora ardente pelo sol, com duas exguas lucarnas apenas sbre o mar, e que alm do mobilirio e utenslios indispensveis ao completo exerccio da profisso, era todo riscado em prateleiras, e oprimido, atravancado, estrangulado, povoado de ls a ls, tomado de alto a baixo, por uma aluvio inverosmil de tda a sorte de pequenos artigos para negcio, desde as jias, as mil luxuosas bugigangas de perfumaria e _toilette_, at s peas mais comuns de vesturio e adrno, e um perfeito arsenal de brinquedos infants. Havia espao para tudo, menos para o ar, neste pequeno recinto aplastador que realizava um paradoxal desmentido impenetrabilidade da matria. Uma temperatura de fogo e um arranjo de _casa de prego_. A bonachona espsa do conde chegou ao mesmo tempo. E logo o mestre-barbeiro,--um francs ruivo e claro como um cacho da Champagne,--a saltitar vivo e ligeiro em trno dela, pedindo indicaes, apontando, mostrando, trazendo coisas. A cada nova oferta, que o meliante sabia alertemente encarecer, a bondadosa e imperturbvel senhora, sossegadamente, examinava rejeitava ou escolhia, e solicitava gentilmente o parecer dos seus trs colegas, que se limitavam a baixar num assentimento corts a cabea. Ento, logo o esperto _figaro_ apartava contente a mercadoria, anotava qualquer coisa no seu _carnet_ e passava a impingir outro artigo. E assim montona, infindvel, secante se foi prolongando a tarefa, ste duelo picante de aplicao ferido entre a esperta indstria do barbeiro e a solicitude impvida da condessa, insensvel ao calor, refractria impacincia. No assim o Silveira, que enjaulado naquela inaco e enervado pela temperatura asfixiante, mudava de posio a cada momento, tressuava, sentia tonturas, e ia buscar a incidncia mais favorvel do ventilador ou abanava-se com duas ventarolas ao mesmo tempo, increpando-se ntimamente por ter vindo. E neste abrasador suplcio passou uma hora que lhe pareceu um sculo. Por fim, noite, realizou-se no _Social Hall_ a solene distribuo dos prmios, rodeada dum cerimonial quse diria litrgico, atenta a dignidade, a seriedade, a compostura, a _tenue_ escrupulosa e as compenetradas atitudes por todos ali invarivelmente mantidas, desde as primeiras s ultimas figuras. O mostrurio fascante das prendas pompeava as suas gulosas tentaes esparso em abundncia sbre uma grande mesa, colgada de veludo-cereja, no tpo do salo, sbre um estrado; roda, exibia-se o grupo esfngico dos membros do _Committee_, de _frac_ e lao branco, e a condessa de Horrowby, em grande _toilette_, sentados todos gravemente. Posto em p o conde de Horrowby e feito um grande silncio, le ento, arqueando numa atenta _reverence_ o peitilho reluzente, mordiscou por entre dentes _for the select assembly_ um pequeno _speech_, quse inaudvel,--dobrado e pregado sempre no mesmo ademn corts, inexpressivo e imvel, os braos longos e hirtos, de punhos sbre a mesa. A seguir, sentou-se, e simultneamente, como que impelidos pela mesma mola, erguiam-se a condessa e o capito Stayton; passando ste a chamar em voz alta os premiados, cada um dos quais, em traje de cerimonia tambem, avanava, franqueava em respeito o majesttico recinto do estrado, colhia das palmoiras enormes da condessa a bugiaria que lhe fra destinada, e retirava mudo e feliz, num vago atordoamento de prazer, ante as palmas convencionais e os _hurrahs_ complacentes da assistncia. Seguiu-se o concrto, cujo programa houvera, em ba verdade, um certo embarao para organizar. No abundavam a bordo os _virtuosi_ nem os amadores, tornando-se assim deveras rduo o problema de renir e combinar alguns nmeros mais, alm do chirroteio mercenrio da orquestra. Prestou o Silveira na apertada emergncia um assinalado servio, pois conseguiu o concurso difcil das meninas Wimeyer, que condescenderam graciosamente em exibir-se, por uma ateno muito especial para com le, executando Dolores ao violino uma melodia de Schumann, acompanhada ao piano pela irm. Por isso lhes couberam a bem dizer as honras da noite; assim como ao Alvarez, que recitou uma desgrenhada elegia sentimental,--_Coraes famintos_,--composta, informava o Programa, expressamente para aquela noite; e tambm a um vlho ingls, todo branco, de olhar menineiro e afvel, que se distinguiu improvisando um humorstico monlogo todo obrigado a contraces faciais, trocadilhos ingnuos e risveis infantilidades, com que os seus conacionais gozaram imensamente. O _God save the King_, pela orquestra, e por tda a sala, de p, escutado religiosamente, ps o termo de rigor a esta escovada tertlia da noite. E foi a ltima diverso do Programa de festas. No dia seguinte ia comear o progressivo xodo dos passageiros, atingida como seria ento a costa das primeiras terras do Brasil. Foi, primeiro, Pernambuco,--a lucilante Veneza tropical,--luminosa e tranqila emergindo, como uma evocao de balada, da brava fria impotente das ondas, incansavelmente erguidas, roladas e desfeitas contra a ruiva muralha irredutvel dos seus recifes; e prolongada depois suavemente, para lste, por uma fresca, macia e tenussima restinga de terra que pelo mar fra se estirava indefinidamente em ponta, como uma imensa piroga verde, empenachada pela umbela grcil das palmeiras, salpicadas de chacaritas brancas. Foi, trinta horas depois, a esbelta Baa,--o vlho emprio tradicional do tempo das lusas descobertas,--reclinada molemente sbre uma luxuriante alfombra de mato e flores, esmagada de trres, pletrica de igrejas, e quela hora matinal batida e incendiada em cheio pela carcia gloriosa do sol nascente. Tda a clara cidade assim palpitava, fulgurava, ardia numa crepitao paroxsmica de cr que emprestava a sse quente deslumbramento panormico o mais antittico relvo, na crua passagem do verde espsso e sombrio dos speros taludes, a seus ps tendidos, para a policroma brbara dos trajes da multido formigando ao longo dos cais e para as tintas berrantes saltando, ladeira acima, no anfiteatro louo da casaria. Dois dias depois,--justo em tera-feira gorda,--j devia o _Almeria_ lanar ferro na incomparvel baa do Guanabara. Era um dos grandes acontecimentos da viagem. Reganhra agora uma inquiritiva animao a vida de bordo, onde todos mais ou menos expressivamente manifestam o seu intersse, todos aguardavam com vivacidade crescente o recorte ferico e deslumbrante, na linha molhada do horizonte, dessa esplendorosa, dessa surpreendente e colossal orquestrao de luz, de cr, de exuberncia e de relvo, que era Rio de Janeiro, a maravilha do mundo. Os nacionais tinham um legtimo sentimento de vaidade, os estranhos nutriam uma no menos legtima sofreguido do indito. Entre os mais interessados e inquietos, era de notar a vibrante impacincia do joven Mackenna. Porm certo que no era prpriamente a antecipada visionao das pinturescas maravilhas do Rio que num alvoro idealista lhe sacudia os nervos de artista; uma outra oculta determinante havia, mais prosaica, mais animal, a acender-lhe no olhar e a fazer-lhe correr nos gestos esta sfrega palpitao de todo o seu ser, irrequieto e vido. que precisamente no Rio de Janeiro a formosa e esquiva _M._^{me} d'Ellery ia desembarcar; iam os dois ali separar-se, talvez para sempre, neste limite fatal posto ao seu ameno convvio; e assim le tinha forosamente que precipitar a soluo ao seu assdio galante, nesse apertado prazo de dois dias. Com uma assiduidade, uma persistncia incansvel, com um calor por vezes audaz, nos ltimos tempos o jactancioso gal fra apertando gradualmente o seu amavioso crco, e segundo as mais ostensivas indicaes, com o melhor xito; porm no obtivera ainda a rendio definitiva. Ao mesmo tempo, acontecia que o seu feitio demonstrativo e pomposo fizera com que ste singelo episdio de cortesana banal dsse bastante nas vistas. Havia um pequeno grupo de besbelhoteiros trocistas que o espiavam; e os mais ntimos a cada momento lhe disparavam chistes, o estimulavam com depreciativas aluses, celebravam antecipadamente o seu fracasso, assediavam-no de burlas molestas e stiras importunas. No havia pois um minuto a perder. Na prova, ruidosa e fulminante, do seu triunfo estavam igualmente empenhados a linha do seu amor-prprio e o fogo do seu desejo. Foi o motivo pelo qual, na noite dste domingo, o Mackenna imps um implacvel bloqueio sentimental aos domnios afectivos da francesa. Havia no convs de bombordo o costumado baile semanal; e o meliante tda a noite danou com ela, e nos intervalos levava-a ao _bar_, a beber, e insinuava-lhe coisas clidas e perversas, despedia-lhe frases imperativas, aventurava proposies equvocas, a tudo o que a ladina respondia com sorrisos que eram incitamentos, com evasivas que eram provocaes, com abandonos que eram capitulaes, com estremecimentos que eram promessas. Mas nada de lhe conceder a aquiescncia ntida, formal, a uma entrevista. Exasperado ento, mas sempre optimista e ftuo, o Mackenna deliberou recorrer ao assalto. Seria o supremo recurso salvador. E filosofava convicto:--Serem tomadas viva fra era, com efeito, o melhor prazer para estas taboletas avariadas duma menos que problemtica virtude. Era o que aquela bbeda queria... Era o mais seguro caminho. Mas tom-la de surprsa, com xito, como?... Naquele meio acanhado e bulhento, sem a tcita anuncia dela, era difcil. S se fsse de manh... O derrancado Sganarello levantava-se tarde; os seus prros movimentos de tabtico e a indolncia filha do tdio retinham-no de ordinrio na _cabine_, at muito por sse dia dentro; por ste lado estava seguro. Se le ento, nessa propcia hora matutina, pudsse surpreender Helena! mas surpreend-la bem de-veras, apanh-la de improviso, em condies morais e materiais de no poder oferecer-lhe maior resistncia...--Inflamado, enardecido, espremia a inventiva, planizava, rebuscava. E sbito, batendo na testa, com um relmpago genial na noite ardente dos grandes olhos negros:--Ah, a est! No banho...--Passou imediatamente ao _deck_ da sua imaginada vtima; abordou com discreo o _steward_, cuja cumplicidade concluiu por obter a trco duma ba gorgeta; e recolhendo depois _cabine_, todo o resto da noite levou embalado, aquecido na regalada anteviso do saboroso triunfo que para le seguramente ia marcar o delicioso alvorecer do dia seguinte. Na primeira manh ei-lo logo a p, lsto e pimpante, procedendo s habituais ablues, fazendo uma _toilette_ minuciosa. Depois, mansamente, deixou a _cabine_ e escoou-se para o corredor, tendo vestido um garrido _pijama_ todo em borlas, alamares e vizes de sda, a cabea nua e a perfumada melena ondeando. Sem perda de tempo estava em cima, no _deck_ de Helena, e aventurava-se afoito ao recinto dos banhos destinados s senhoras. A trocou um breve e furtivo olhar com o _steward_, que lhe fez um sinal afirmativo de cabea; avanou gil uns passos, relanceou em trno os olhos cautos, e tendo-se certificado de que ningum passava crca, arpoou o boto duma determinada porta com os dedos trmulos, entreabriu-a... e ia entrar de salto, quando de dentro estrugiu um grito de pavor, um argnteo e agudo grito feminino, ao passo que de dentro tambm, acudia sbita e inesperadamente, ante a mirada atnita do Mackenna, o sobrecenho grave e a mo rosada do Mafiori, a cerrar a porta. Foi a bordo um pequenino escndalo. Apesar da sua relativa presteza e moderado rudo, esta scena picante no passou de todo despercebida. Ao partir para a sua _donjuansca_ investida, no se deu conta o Mackenna de que dois dos seus alegres espias, atrados por no sei que divinatrio instinto, o foram seguindo. E stes, naturalmente, da esquina do exguo corredor, mal assomando as cabeas, haviam saboreado o burlesco fracasso da desastrada aventura; ao tempo que, simultneamente, das portas dos banhos contguos alguns interrogativos bustos surdiam tambm, ao aflitivo alarme daquele agudo brado feminino. Nem uns nem outros alcanaram contudo divisar a ponderada silhueta do Mafiori, dentro da _cabine_,--o que teria sido para a sua curiosidade doentia o cmulo do regalo. Mas haviam visto o bastante para a ntida compreenso do sucedido. De sorte que, da a minutos, j a notcia do truanesco sucesso havia feito o giro alegre de bordo, com fulminante rapidez solicitada vidamente, de grupo para grupo, e logo passada e acolhida em acres segredinhos, vivas chamadas e perversas reticncias. E de bca em bca, ste singelo episdio ia tomando vulto, agrandava, complicava-se; por ltimo, j afianavam a vingadora interveno do marido, falava-se em vias de facto. Daqui, uma notoriedade bem pouco invejvel para o desabusado Mackenna, que arrastava agora pelos recantos mais escusos a sua vaidade amarfanhada, como um stiro batido, e j no sabia por fim onde meter-se, certo como era que por tda a parte um malicioso intersse acolhia a sua apario, logo farto sublinhada de bisbisoteios de risos, faccias e burletas. As mulheres olhavam-no com piedade indulgente, os homens com humilhante mordacidade, no isenta de inveja. E agora a leve e adoidada _Pilarita_, mais do que ningum intrigada e impaciente, querendo fina fra saber _lo que pasara_, batia os psitos e golpeava com os punhos a pequena mesa onde abancava o Alvarez, o qual se mantinha impenetrvel, enquanto zombeteiro e veloz anotava o episdio nos seus inseparveis linguados, desorbitado em trejeitos loucos. Nesta divertida manh, hora do almo, nem _M._^{me} d'Ellery baixou ao comedor, nem o Mackenna. Entretanto mesa dste, o picaresco assalto matinal foi o tma obrigado da conversa, apreciado com jocosa vivacidade por todos, excepo do Mafiori, que se manteve mudo, bonacho e plcido como nunca, nos intervalos de comer fazendo bolinhas de po e mirando desvanecido as unhas. Pouco tempo depois, em cima, e de p contra um ngulo da amurada, reniam-se em ntimo grupo o Silveira e o Contreras, com o tenente Euclides e mais dois amigos. A veio naturalmente balha o caso-Mackenna. --_Picarn!_--comentou ruidosamente o Contreras, desmanchado em grossas gargalhadas. O brasileirito, vendo o magno acontecimento pelo seu cndido prisma de noivo, fulminava-o com sincera indignao, taxando de imperdovel desafro um desacato assim, quela hora do dia. --Eu acho imensa graa... c dos meus!--acudiu, tolerante, o Silveira, esfregando as mos de contente. O conde Amglio, que chegra justo ao tempo de recolher as homlias ingnuas do brasileiro, rugiu ento ameaadoramente. --Havia de ser comigo. Todos se voltaram, a encar-lo com fixidez espectante. E le, num sobrecnho de arrogante desdm: --Conheo de sobra os processos e os ards dsses pulhastras. -- conde...--murmurou baixinho o Contreras, mirando cauteloso de roda e puxando-lhe do brao. Amglio porm, de olhar duro, alteando a voz, minaz e insensvel ao aviso: --Mas conheo-lhes tambm a grande cobardia essencial. Sei que sses bandalhes no so fortes seno diante de saias. --Ah, sim?...--interveio o Silveira, picado de intersse, adiantando-se.-- conde, amigo conde, se no indiscreo, conte-nos l... --Bem simples! Tenho mulher, sabem... Pois nunca hesitei um momento em lavar com sangue, no campo da honra, tentativas de ultraje semelhantes. Era agora o Contreras que pvidamente, apurando o ouvido, se acercava; ao passo que o Silveira, positivamente desconcertado por esta sbita revelao, no conde, de inimaginados brios, inquiria, em dvida: --Algum duelo? --Cinco. Nada menos de cinco. --De morte? --No! nunca chegamos a tanto...--aclarou o conde com moderada importncia; e num assmo quixotesco, arredando as bandas do jaqueto e enfiando os polegares nos sovacos:--Mas a todos tive a sorte de aplicar o merecido castigo. O tenente Euclides voltou-se discretamente, a dissimular um risinho incrdulo. O Contreras afastou-se, manso e humilde, coando compenetrado a cabea. De sua banda, o Silveira rejubilava. le desconhecia o conde neste seu intempestivo disfarce cavalheiresco e brigo; aquelas teatrais bravatas de espadachim pareciam-lhe uma contrafaco absurda, no as tomava a srio, no cria nelas.--Minotauro travestido de Othelo, podia l ser!--E contudo a pundonorosa exploso do conde estimulava-o. Ante a ameaa cocegante de perigo, um lume de reaco viril lhe afogueou o rosto ardente, e o seu carcter amorudo e ribaldo espertava, vibrava de belicosos mpetos, lata de energias novas.--Agora sim! que le ia afervorar nos seus prfidos galanteios junto da irlandesa. At provocao! at ao escndalo!--A ver se conseguia fornecer ao marido o pretexto para mais um lance de honra que lhe permitisse, porm desta vez com sorte adversa, contar a meia dzia. A chegada ao Rio de Janeiro realizou-se infelizmente de noite. Um pouco de marejada e o vento contrrio haviam ralentado a marcha do _Almeria_, que assim, quando lanou ferro, da formosssima capital brasileira apenas deixava entrever vagas formas de relvo, manchando, amplas e azis, a imensa tla difana da sua claridade deslumbrante. Muita gente desembarcava aqui; de sorte que, j horas antes, eram algo de inabordvel as imediaes do portal, onde se acotovelavam e prensavam duramente, numa gerarquia brbara, as famlias impacientes por chegar; e onde, tambm, sbre improvisadas alfombras de lona, se amontoavam, num grosso empilhamento inverosmil, fardos, malas, caixotes e bas de tda a espcie, mantas, chapus, parguas, papagaios, cachorros, sagus, cstos de flores e cabazes com fruta. Por tda a parte havia cmbios cerimoniosos de cartes de visita, ou efusivos apertos de mo, amveis oferecimentos, beijos, abraos, risos, tristezas, miradas sadosas, lgrimas furtivas. Mas aos felizes que tocavam ento o termo da viagem, havia que agregar ainda os que se propunham desembarcar como simples turistas, para verem alguma coisa, para gozarem, movendo-se um pouco, estas quantas horas de paragem benfica do vapor ali; e sobretudo, sentindo-se dominados pela ardente baforada de loucura que lhes vinha de terra, para irem ali passar uma ba noite _de garufa_. Apesar de bastante instado para baixar tambm, o Silveira resolveu ficar. O tenente Euclides oferecera-se amavelmente a ser-lhe companhia e guia na cidade, mas por aquela noite smente;--le bem devia compreender,--a noiva esperava-o com ansiedade, e tinha que seguir no primeiro trem para S. Paulo, logo na manh seguinte. Por igual os Wymeyer, tmidamente sondados, redarguiram, com mal contido desdm, que no desciam... que para quem, como les, vinha da Europa, no valia a pena. Para mais, a colnia inglesa de bordo, ponderando muito sensatamente o horror de brrata, confuso e desordem que devia ser, para um recm-chegado, aquela noite de Entrudo, no Rio, resolvera, em vez de desembarcar, fretar antes um vaporsito onde passasse despreocupada e ntimamente, ela s, algumas horas, bordejando a baa, fazendo o suave e demorado contrno daquela fantstica decorao, vogando plcidamente ao voluptuoso embalo daquele mar de sonho. Era uma ida deliciosa. _Miss_ Nora Scott convidra o Silveira para a encantadora excurso. Os Amglio iam tambm.--Que mais queria le?... Para ver o Rio tinha o dia seguinte.--Resolveu, pois, ficar; e, depois de jantar, sem fazer maior caso da estrepitosa festa carnavalesca que a criadagem de bordo organizra na ponte da 2.^a classe, tomou ao portal e desceu ligeiro ao vaporsito, cuja silhueta coqueta se desenhava em baixo, convidativa e luzente, no regao manso das guas trepidando, fumarando, bailando alegremente. Da a minutos, punha-se em marcha, e sobre o seu minsculo convs, escassamente alumiado, foi difcil nos primeiros momentos a identificao das figuras. A infeliz Nora Scott foi a primeira a fazer-se reconhecer pelo Silveira, abordando-o e abandonando-se-lhe com carinhos, incendida como ela vinha nos seus propsitos firmes de seduco, provocante, amorvel, tda tules e rendas. Porm, ao primeiro pretexto decente, o Silveira afastou-se; e pronto a estava le j ao lado da sua apetecida irlandesa, trepados, muito amigos e compadres, os dois mesma clara-bia que dava luz s cmaras interiores, falta de mais cmodo assento. O conde mantinha-se longe e a velatura crepuscular do ambiente era o mais discreto cmplice, agora, a esta doce e inefvel aproximao, sem testemunhas e sem peias.--O ar estava tpido, tranqilo e na sua morna quietao o crespo afago da brisa passava como a carcia dum leque de plumas. De roda, pelo caprichoso e largo desdobramento da cidade, as avenidas e os cais da beira-mar, iluminados profusamente, eram um colar fascante de pedraria e oiro, riscavam rtilas e esplendorosas curvas. E no tinha fim, no tinha limite esta invaso delirante da claridade. As suas imensas linhas de fogo sinuosavam, penetravam-se, contrapunham-se, prolongavam-se, cortavam-se, profusas, ondeantes, e por fim seguiam sltamente ao largo, pontilhando a vaga opacidade da trva, densas, vivas e espertas sempre, embora grado a grado amortecidas e apequenando, na distncia. Se o vapor se aproximava da terra, junto com os jorros da luz branca, que davam uma ntida viso fragmentria das coisas, vinha ento o grosso co da foliona febre da multido, em lufadas alucinantes.--_Mrs._ Edith e o Silveira seguiam muito amigos e unidos, sentados sempre a par,--e isolados no seu mtuo embevecimento, alheios ao tempo e ao logar, a favor da parcimoniosa luz postos a seguro de vistas importunas,--gozavam juntos, mudamente, a infinita delcia daquela hora incomparvel, admiravam enleados, pela borda sinuosa dos cais, aquela parada inflamada e ardente, essa corda, sse rosrio interminvel de sis, mais rubros, mais claros e mais firmes que os sis do alto... esplendente barra de oiro cravada no drso glauco do mar por alfinetes de prata, aguada mgica de luz esparsa, no insondvel mistrio da noite subindo e indefinidamente alastrando, diluindo-se, esbatendo-se, perdendo-se, a danar anamrfica pelo espao. A certa altura da noite comearam as libaes. O estalar das primeiras rlhas de cerveja e de _champagne_ foi o apetecido sinal para o fcil repdio das frmulas coercivas da etiqueta. Gradualmente agora iam sendo postas de banda as peias, as convenes banais da cortesia, para deixarem um pouco de campo ao exerccio livre do instinto. Muitas das senhoras ento soltavam os _voiles_ ou deslaavam as blusas, afogueadas; os homens arremangavam-se. Num progressivo calor, e numa contagiosa e audaz alacridade, dentro de cada grupo os movimentos, os gestos abastardavam-se, e subia o diapaso delirante das sadaes e dos _hurrahs_. Veio mais tarde o momento em que, por uma adaptao condizente ao epicreo abandno desta hora libertina, alguns deixavam-se resvalar das suas _cadeiras_ e tamboretes para as tbuas rasas do convs, onde se quedavam molemente estirados, numa beatitude inerte, a cabea pesada oscilando, o dorso contra a amurada. O Conde Amglio, esquecido da mulher e dando ao dmo os seus brios postios, divagava de grupo para grupo, abundante e palreiro, feliz, o olhar empanado e a taa vazia na ponta dos braos froixos, cambaleando. Havia uma nica nota de excepo, um absurdo protesto passional, em todo este cro vibrante de alegria; era a longa figura trgi-cmica da desgrenhada Nora, hirta e de p, amparada ao mastro de ppa, mirando com deciso o mar, num pendor teatral ao suicdio... Ao passo que no muito longe, o Silveira e a irlandesa, cada vez mais cingidos, trocavam, amorosos, as taas, afim de penetrarem-se mtuamente os segredos, e le, no podendo, em linguagem compreensvel para a sua amada, expressar tda a veemncia do fogo que lhe abrasava a alma, substituia com vantagem o calor sugestivo da frase pela eloqncia muda dos contactos. Na manh seguinte, sim, deu-se pressa o Silveira em demandar a terra. E ao avanar, curioso, os primeiros passos pelo liso empedrado do cais Pharoux, sentia-se bem, o corao dilatava-se-lhe, estimulado e contente ao reconhecer-se num ambiente amigo. Tudo ali, com efeito, lhe avivava impresses flagrantes, lhe evocava de Portugal a lembrana prxima e querida, tudo,--desde a analogia cantante da linguagem aos traos e ademanes conhecidos das figuras, desde o tipo sbrio e macio das construes brita mida e ao desenho do mosaico dos passeios. Tomou um automvel e mandou bater ao acaso, num giro de reconhecimento rpido s mais celebradas coisas da cidade. O _chauffeur_ era portugus, tomou familiarmente assento ao lado dle. A ba disposio do nimo fazia-o mais acessvel, o simpatismo sugerente do meio tornra-o jovial, aquecia em frmitos de fraterna expanso a sua sensibilidade agradecida. Por isso, a cada momento, naquela vertiginosa abalada, o feliz viajante ia cortando os esclarecimentos fugazes do condutor por admirativas exclamaes e brados entusiastas, quando no descia a indagaes mais ntimas, inquirindo com afectuoso intersse o _chauffeur_ na sua filiao, antecedentes e condies morais e materiais de vida.--Se viera para a Amrica havia muito tempo? Se estava contente? se tinha valido a pena? --Alguma coisa se faz, meu amo...--contestou afvel, num risinho esperto, o interpelado. --E muita famlia l em Portugal? --Mulher e trs filhos. Quanta _mosca_ posso forrar, p'ra l vai inteirinha. --E sadades da ptria, no tem? --Que ptria, senhor?...--acudiu com amarga resignao o _chauffeur_, olhando de espao o Silveira.--A gente, em vindo p'r'aqui assim, no temos mais ptria. Por c chamam-nos _galegos_; se volvemos a Portugal, somos _brasileiros_. E encolheu os hombros com tristeza. Assim mano a mano chalrando, indagando e informando, mutuando fugazes impresses, colhendo notas inditas, percorreram os dois o amplo coleamento ureo-verde da avenida Beira-mar, visitaram Botafogo, fizeram o rodeio dsse retalho paradisaco que so as praias do Leme, Copacabana e Ipanema, internaram-se pelo delicioso ddalo de sombras, palacetes, _parterres_ e jardins do bairro das Laranjeiras, deitaram ainda ao Jardim Botnico, e foram por fim almoar ao morro de Santa Teresa. Larga e formosssima jornada. O Silveira estava encantado, aturdia-o a clida vitalidade do ambiente, sentia-se bbedo de magnificncia, de luz, de cr, de movimento e de rudo. Feria-lhe com agrado a ateno o escrupuloso aceio das ruas, a variegada tinta das construes, o abundante luxo decorativo das rvores e das flores, e, por uma estranha anomala dste scenrio mole de prazer, o tom sempre atarefado, o crso afadigado e ligeiro da multido, palpitando, tumultuando, fervendo numerosa e incessante, como uma grossa onda de renovao a correr, generosa e fecunda, por essa densa rde de artrias da abundncia e da fortuna. Bem mais porm que a obra magnfica do homem o impressionou o esplndido vigor da Natureza,--as colossais dimenses e o atormentado aspecto dessa grande pasagem eruptiva tda em bruscas oposies e em arrancadas titnicas; prodigiosa armadura cujo torso arfante, rompida, aqui, ali, a sua espssa crsta verde, fra atirado vertiginosamente a prumo, formando atrevidos minaretes naturais donde se abrangiam panoramas maravilhosos; estonteadora ronda de montanhas fechando zelosamente na concha dos seus flancos viridentes, como entre mos de gigantes um brinquedo, o formigueiro policromo e frgil da casaria. Mas era demasiado grandioso e solene. Perante a melindrosa sensibilidade de europeu, do Silveira, tanta soma de majestade raiava j pela tristeza; sobrelevando sua exttica admirao por tam desconcertante e caprichosa exuberncia, havia o que quere que fsse de vagamente constritivo e grave, que o esmagava, que lhe pesava na alma, como um fatdico prenncio de desgraa. Porque le no encontrava aqui, nesta luz crua, nestes mameles adustos, a vegetao suave e amiga, as delicadas e mltiplas nuanas, o brando afago, as acariciadoras sombras do torro bemdito que lhe embalra a infncia. Aqui, na sua fechada monotonia, a sombria capa verde do slo spero e convulso tinha um no sei qu de opressivo, de hostil, de trgico; na impenetrvel noite do seu mato torcido e hirsuto pressentia-se tda a sorte de quimeras ruins, de repts, de feras, de monstros, espiando-nos. Era um den traioeiro... inadaptvel seguramente poesia dos contos de fadas, simplicidade ingnua das buclicas tangidas melanclicamente, na grave e dulcerosa paz dos campos, pelos contemplativos pastores da sua terra. Horas depois, noite, e quando outra vez a bordo, o temperamento vibrtil do Silveira ardia por expandir-se, debatia-se no vivo empenho de transmitir impresses aos companheiros. Os Amglio acolheram-no com frieza, fortemente ressentida como estava _Mrs._ Edith por no haver ido com les. Ramn Alvarez, envernizado e rubro como um tomate, tambm pouco o atendeu:--no estava de acrdo, ia morrendo assado... tinha achado uma estopada!--Voltando-se para o Mackenna, ste no o deixava falar, porque, no seu ftuo egosmo, tudo era por sua vez encarecer-lhe os surpreendentes _motivos_ que esquissra para um soberbo quadro simbolista.--Havia de ver!--Valeu-lhe por fim a sua grande amiga espiritual, a loura e tmida Irene, que com amvel complacncia o escutou longamente. No dia seguinte tocavam em Santos; e enquanto o Silveira se debruava atento sbre o aparatoso e slido desdobramento e o trfego colossal do prto,--bem comparvel ao de Liverpool, lhe haviam dito, e via que com razo,--a de acercar-se-lhe o pai Wimeyer, que, sempre no antegsto falaz do seu tam almejado inqurito gramatical, todo o oportuno ensejo aproveitava para lisonje-lo. E com familiaridade cativante, numa erudio muito a propsito:--que le, como bom portugus, devia sentir-se orgulhoso e contente, ali... vendo, e pisando podia dizer-se, terra da celebrada baa, pitoresca e tranqila, onde, quatro sculos antes, aprora a primeira expedio enviada de Portugal para colonizar o Brasil; e que era ali a outrora ilha de _Enguguass_, sabia bem... assim como foi dali que partiu breve para o interior, nesse tempo, trepando e transpondo picamente a abrupta Serra do Mar, a expedio que havia de fundar a legendria _Piratininga_,--a encantadora S. Paulo de hoje.--Confundido por esta extica demonstrao de tanto saber, o Silveira aplaudia, num risinho envaidecido; e quanto embaraosa iniciao dessa prometida sabatina gramatical, o aterrado argente ia engenhosamente iludindo--que j agora, por poucos dias, seria melhor, com outro descano... em Buenos-Aires. Bastantes passageiros mais desembarcaram aqui; gradas figuras da finana e da indstria, ricos fazendeiros do interior, caixeiros-viajantes, mulheres de prazer, artfices, obreiros, pees, representantes de empresas estrangeiras. Assim, aquele reduzido mundo que o bero reluzente do _Almeria_ sbre as guas baloiava alegremente, ia em repetidas golfadas rareando; e ali dentro a vida fechra-se em pequenos crculos de discreta intimidade, cada vez mais singela, mais suave, mais familiar, medida como o termo da viagem se acercava. Amiudavam-se agora e edulcoravam-se, naturalmente, aqueles almos e fraternais colquios de Irene com o Silveira,--o que no era para ste, alis, empresa fcil, apetecido alvo como le se sentia, a cada momento, do _contrle_ implacvel de _Mrs._ Edith, vida por igual da sua presena e ciosa do seu convvio. Ele porm sabia, sempre que isso lhe convinha, desembaraar-se dela, invocando dstramente os seus compromissos gramaticais para com o pai Wimeyer; depois, uma vez junto dste, difcil lhe no era tambm deix-lo, na improvisada simulao de qualquer solcita _dmarche_ junto da filha; por fim, quando, de longe, a querenosa mirada de _Mrs._ Edith lhe significava a impossibilidade formal de manter-se mais tempo, sem escndalo, junto da linda argentina, le a expressava pezaroso, perante esta, o seu inadivel dever de cumprir para com os Amglio uma qualquer obrigao de cortesia, e partia imediatamente. E assim neste divertido crculo vicioso de inofensivas invenes ia salvando com arte as dificuldades e preenchendo saborosamente as horas. O certo era que a doce freqentao espiritual de Irene fornecia ao Silveira uma derivante deliciosa cada vez mais dominadora e mais atraente, aos desafos sensuais da irlandesa. No raro passavam agora horas seguidas ss os dois, j caminhando mui camaradas, par a par, a fazer uma e muitas vezes o giro completo do convs, discorrendo com intersse juvenil sbre coisas de nada, ligeiros, felizes, a frase slta e leve no ar cortante; j imobilizando-se sbre um ponto ao acaso da amurada e a, sonhadores e mansos, balbuciando a sua mtua emoo em termos vagos, imprecisos, como a dana incoerente dessas fugazes _liblulas_ do mar, os peixes-voadores, que les viam em baixo mergulhando e saltando atoadamente na imensidade azul das ondas. E momentos havia em que o esprito subtil de Irene, ao calor desta casta intimidade, se alava em sublimados conceitos, desatava-se em coisas transcendentes, soltava palavras raras e profundas. Uma que outra vez sucedia o temperamento msculo do Silveira aquecer e inflamar em arroubados mpetos a sua alma enamorada... Porm ento, invariavelmente, a cada discreto ensaio de galanteio, a alma timorata e nobre de Irene fechava-se como em maro um boto de rosa; se le permitia, com um pouco mais de vivacidade, ao corao pronunciar-se, ela acolhia-se a um mutismo impenetrvel, no perdia o ensejo de levemente lhe fazer sentir quanto a trivialidade mesquinha do amor hora era insofrvel para a sua sensibilidade e ofensiva para o seu orgulho.--Queria ver nle um amigo, nunca um adulador.--Contrito e humilde, o Silveira resignava-se... e a figura melindrosa e isenta de Irene aparecia-lhe ento como um dstes tipos de virtude slida e doce que nos reconciliam com a existncia e nos fazem tomar em respeito a vida. Em breves dias, uma linda manh veio em que, no balanceio perptuo do mar, a translucidez movedia das guas agora engrossava,--embaciava-se, parecia coberta por uma bostelosa mscara de lama. Eram as infinitas aluvies terrunhosas do Plata, cuja foz incomensurvel, avassaladora e ampla como um mar, a pra arrogante do vapor atingia neste momento. J por estibordo se descortinava a airosa silhueta do _Crro de Montevideo_.--Um outro nome bem portugus...--voltava a observar-lhe o pai Wimeyer com amvel solicitude.--Corrupo de _monte vi eu_, no era assim?... Perpetuava a primasia na descoberta e acusava sintxicamente uma linda transposio, como tantas havia na formosa lngua de Cames. Tinham muito que conversar...--E batia-lhe no ombro afvelmente. Mas o Silveira mal o ouvia. Neste feliz momento, os seus brios patriticos empolgavam-no, sobrelevando aos quimricos terrores pela ameaa das doutas interrogaes do pedagogo. O corao dilatava-se-lhe envaidecido, porque le notava como durante a sua viagem, no decurso de todo ste largo roteiro abarcando dois hemisfrios, desde a largada inicial das bcas de luz e oiro, do Tejo, t embocadura brumosa e intrmina do Plata, le viera medindo, reconhecendo, verificando, palpando sempre, ininterrompido e eterno, o trao, a marca indelvel dsse temerrio arranque das descobertas... viera seguindo as aladas fugas do sonhador esprito portugus, tivera a prova constante do seu gnio martimo afirmada e selada picamente, cruzra o imperecvel sulco aventureiro do seu caminho de glria.--Que outro povo podia vangloriar-se dum prodgio igual?...--Perante esta ntima evidncia, sacudia a cabea com arreganho e atirava uma depreciativa mirada de desdm a essa humanidade inferior que o rodeava... a le, senhor do Universo. Passada a encantadora capital uruguaia, no restavam agora ao _Almeria_ mais que oito escassas horas de viagem. Todos tinham pressa de chegar e afanosos seguravam o tempo, compondo, cerrando as malas, dando instrues aos _stewards_, buscando e preparando a continudade das relaes ocasionalmente entaboladas.--Os Wimeyer ofereceram ao Silveira a sua casa de Buenos-Aires, _calle_ Paraguay. O Mafiori a todos anunciava bem alto que ia hospedar-se no _Plaza-Hotel_. Mas os mais, pelo geral,--como o Mackenna e o Alvarez,--no sabiam; iam confiados ao acaso ou haviam-se entregado ao solcito critrio dalgum amigo. Os mesmos Amglio no haviam tambm escolhido domiclio. Assim, para poderem depois vir a saber uns dos outros, concertaram renir-se ou enviar o seu _adresse_ ao _Caf da Paris_, na noite seguinte. E ainda, da suja promiscudade da 3.^a classe, no deixou de vir humildemente o Matias, na companhia confortante de mais dois patrcios, a demandarem interesseiros o Silveira, confiados na sua espontnea promessa de proteco, para lhe pedirem numa lacrimosa lamria que no os olvidasse, e desejando saber onde haviam de procur-lo. A cada momento, espontneos, vivazes, por entre a atramochada barafunda das bagagens, formavam-se grupos e travavam-se furtivos dilogos, palpitando da inquieta indeciso daquele instante. Mas dilogos eram stes que na sua impacincia mordente, no seu vo fantasista, em vez de aproximarem os interlocutores, distanciavam-nos. Cada um ntimamente se perguntava--que sorte iria ser a sua?... Aquelas quentes e efusivas palavras ningum as apreciava maiormente, ningum lhes dava inteira ateno, porque elas mesmas logo em cada um dsses insatisfeitos espritos sugeriam e despertavam, para alm do seu significado real, outros planos, idas, desejos, ambies e projectos que os levavam para muito longe... Porque assim neste vertiginoso e dissolvente aturdimento que ns vivemos hoje a vida. Ningum se instala nela com permanncia,--nem nas casas que alugamos agora, j com o antecipado desgnio de as largar manh, nem nas dedutivas evidncias da nossa razo, nem na voz instintiva da nossa conscincia, nas nossas paixes, apetites, dios, amores, intersses. Nada para ns hoje santo, grande, estvel, firme, definitivo. Mudamos com uma rapidez assustadora e uma lamentvel inconscincia, de ocupao, de famlia, de ideal, de carcter. Nada h duradoiro. A febril obsesso de edificar o futuro furta-nos ao gzo tranqilo e salutar da hora presente. A glria duma inveno feliz, o lucrativo xito dum negcio, o aplauso por uma obra benemrita,--que foram o produto de longo e persistente labor, as mais das vezes,--contudo, apenas conseguidos e j no nos satisfazem, no nos arrebatam, no nos empolgam; raro a compensadora embriaguez do seu triunfo nos senhoreia por completo a alma. Devora-nos o apetite inquietante, e sem repouso, de novos riscos, lances, emoes, aventuras novas. O torvelinho trgico da vida desliza e corre sbre ns sem nos penetrar, como a gua pelas penas dos cisnes. A nossa existncia atropelada e incerta tem a _allure_ constante duma carreira, um _film_ alucinativo e ardente, cuja precipitada mmica nem nos abonda vontade, nem nos cumula o desejo. uma hiperblica e vertiginosa curva sem termo, cujos ramos ideais mergulham no Infinito. Assim, andamos incessantemente aos cotoveles felicidade, sem saber v-la, sem a apreciar, sem a sentir. Ao cabo, morremos sem haver vivido. ...Quando, seguramente, a base mais slida, mais coerente e mais lgica para a plena posse do futuro, seria, maneira antiga, organizarmos o presente com serenidade, tratarmos com esmerado carinho as fugitivas delcias de cada hora que passa, apreciarmos, em suma, e penetrarmo-nos bem do valor intrnseco de cada dia,--como se o mundo fsse a acabar nessa mesma noite. V Buenos-Aires, finalmente! O _Almeria_ agora avanava cautela, flanqueando devagar as sucessivas bias distribuidas, como um rosrio de lumes, ao longo do estreito canal que dragagens contnuas mantinham aberto, cavando um sinuoso sulco de ldo na chata pastosidade daquele esturio imenso. Anoitecia. O cu conservava-se nublado, mas calmo, e nessa infinita tela _gris_ o carvoamento confuso das linhas da costa adquiria transparncia, tinha um encanto singular, banhava-o uma potica e vaga suavidade. Na bruma indecisa da noite j o Silveira podia descortinar, convidativa, avanando e crescendo do boleado mistrio do horizonte, uma linha caprichosa de farolitos e de mastarus, primeiro; depois uma complicada e imensa teia flutuante, a mais inextricvel maranha de tda a sorte de embarcaes, trechos de docas, atributos nuticos, pontes-levadias, guindastes, galpes, bandeiras; a seguir, a linha quebrada e geomtrica, o viveiro apopltico das _azoteas_, das trres, das cpulas; das agulhas, terraos, chamins e cornijas rendilhadas, marcando por uma extenso sem limites, no seu pululamento proteiforme, o contrno manso da cidade; e logo, j ntidos, j no primeiro plano, os alinhados globos elctricos, a calada _embadornada_ e os pantagrulicos armazns marginais da terra firme. A a tinha agora, a clebre, a grande cidade de trabalho e de esperana, de pensamento e de aco, de labuta e de prazer, de maravilha e de sonho. A Terra da Promisso actual, o _Eldorado_ mais em voga, o smbolo da abundncia paroxsmica, do homem prspero na terra magnnima! A metrpole ideal da magnificncia e da fortuna, da opulncia e da belza! Emfim... Buenos-Aires! O ar, pesado e espsso, impedia a viso clara, e era como se todo o espao se houvesse diluido numa obliteradora meia-tinta, numa suja mucilagem que delia os contornos e comia o brilho s coisas; contudo, tanto quanto podia adivinhar-se das condies de desarolo e vida daquela planura intrmina, o mbito dste prto modelar era enorme e colossal o seu movimento. Um enxame, um delrio. Crescia grosso para o alto um como que resfolegar de opresso, a afirmao potente, a rebeldia sujeita de fortes energias represas, dessa floresta de chamins fumarando, dsse empilhamento martimo de monstros de tdas as idades, de mquinas de tdas as formas, dimenses, feitios, cres, que latejavam e arfavam com veemncia, ora premindo-se, ora evitando-se, em risco de se entrechocarem e que a limosa torrente do Plata no seu gigantesco dorso embalava brincando, docemente, por uma extenso sem termo e sem medida. Pela carcassa formidvel dste bratro de enormidades os homens, iluminados de escape, lidavam como formigas. Saltavam choques brunidos de metais do alto bjo flamante dos grandes transatlnticos, havia roces de cremalheiras, roldanas, cordagens, quedas surdas de fardos, vozes agudas de comando, tangiam as sinetas de bordo, as sereias apitavam; na gorda pacificao do ar, saturado de maresia, sentia-se, a quando e quando, um chapinar de remos, batendo claro no intervalo dalgum trinado lamento de guitarra; e no fundo humilde de alcatroadas barcaas fumegavam, a um lume discreto, caldeiradas apetitosas. E agora j, com o avano lento e crescente do paquete, aquele primeiro esfumado e negro bosquejo da cidade povoava-se, tomava volume, aclarava, definia-se a cada momento; aqui, alm, bisbilhoteiras luzitas saltavam, riscando arruamentos, desvendando interiores, trmulas e brancas como estrlas; ou eram os grandes rclames luminosos que no seu relampaguear interesseiro chispavam sbito, como borboletas de fogo, estremando planos, talhando duras silhuetas na sombra e em manchas fortes como _gouaches_ lambendo os panos do muro; esbatidamente. E agora tambm, a favor da molhada ressonncia que lhe emprestava a proximidade das guas, vinham acariciar o ouvido atento do Silveira as sonoras trepidaes da vida urbana,--o _tlim_ nervoso dos tranvias, o lento arrasto das carroas, o prego dos vendedores de dirios, o buzinar dos automveis, o trapejar das oficinas. Atracado ao cais o _Almeria_, e enquanto a marinhagem ajustava a _passerelle_ para o desembarque, Joo da Silveira buscava com af em baixo, na multido apinhoada crca, sob a _marquise_ monstro da aduana, a figura pequenina e viva do seu amigo Pedro Azeredo.--Um convicto monrquico tambm, igualmente fidalgo, da linhagem seis vezes secular dos Azeredos, senhores de Penamacr e redondezas, alferes de cavalaria ao tempo da revoluo, e que naturalmente, incompatvel com o salafrrio regmen da Rpblica, seis meses havia que viera para a Argentina, com licena ilimitada.--L estava le,--via-o agora!--plantado bem na frente, mesmo na orla do cais, e correndo a amurada com a mo em pala sbre os olhos, ao alto erguidos. Soltaram um simultneo brado de cordealidade alegre, ao reconhecerem-se; e o Silveira, tam pronto como pde, desceu, rompendo em cunha a atropelada impacincia da grossa onda cosmopolita que jorrava de bordo. Um quente abrao, no cais, de efusiva ternura; logo o Silveira confia do corretor do hotel e tediosa reviso e entrega da bagagem; e breva saltam os dois para um automvel, que, indicao dada pelo Azeredo, partiu roncando. --Ento, como vais tu?...--rompeu ste, num claro riso, saltando e sacudindo a espalda ao amigo com a mo em leque, todo voltado para o recm-vindo. --E tu, meu alma do diabo?--acudiu vivaz o Silveira, fitando, confiado, o companheiro e premindo-lhe afvel os joelhos. --Menos mal, meu vlho. Ganha-se _plata_. Hei-de-te contar...--E com desdenhosa arrogncia, atirando o palhinha para a nuca:--Bem melhor do que l nessa pepineira de rpblica. Mas o Silveira, que no cessava de mirar a um e outro lado, interessadamente: --Parece-me uma grande cidade, esta? --_Como no!_ --E bela, caramba! --Grande, grande...--corrigiu com sentencioso ademan o Azeredo.--Sobretudo grande. Quanto a beleza, _hay que distinguir_. Com efeito, o Silveira achava tendido sbre aquela vastido sem termo um como que mortio pano de melancolia... Escasso movimento e pouca luz. Seria por motivo talvez do enfado da viagem, mas parecia-lhe aquilo triste. O automvel deixra a larga avenida marginal e subia agora uma pequena rampa, empedrada a paralelippedos, sulcada de _rails_ e tomada a todo um lado por um macio casaro banal, atijolado e de balces em arcaria, de comesinho aspecto colonial, sem vo, sem majestade. O Azeredo aclarou: --Aqui tens a chamada Casa do Govrno... _La Casa Rosada_. Residncia do Presidente e instalao de vrios ministrios. --No vale o nosso Terreiro do Pao,--com impertinente fatudade o Silveira anotou. --Foi feito noutra poca, noutras condies. No se comparam. Seguia-se uma grande praa rectangular, definida pelas cimalhas caprichosas de imponentes palcios barcos, e num dos extremos, longitudinalmente cortando-se, direita, uma colunata helnica de templo. --Ali a Catedral, vs?--ciceronava entretanto o Azeredo.--Logo ao lado, a Municipalidade. Aqui ilharga o _Banco de la Nacin_, a Blsa. Tens pois aqui assim, logo por entrada, o corao, o ndice poltico do pas, o centro burocrtico da cidade. O vasto recinto, tirante as ruas perifricas, estava quase totalmente tomado por uma catica profuso de materiais em osso, via-se coberto por um pejamento heteroclito e informe de linhas abstrusas, brbaras, de coisas duras, cortantes, agressivas, sujas,--montes de saibro, calia, areia, pilhas de beton, caixas de lato, barricas, vagonetes, vigas de ferro, cabrestantes, escadotes, carretas, arames em puas hostis, barracas de taipa, casotas de zinco, pastas de lama. E desta hirsuta barricada, ao centro, sbre esta aluvio industrial monstruosa, de destroos de runa e de tesas projeces suspensas, uma ingnua figurita, espcie de Palas, no vrtice duma pirmide de _confiture_, dbil e s no espao, assomava com tristeza. --Tda esta confuso por causa das obras do ferrocarril subterrneo,--tornou o Azeredo, solcito.--Como o _Metro_ de Paris... Ou melhor! muito melhor! Ah, indubitvelmente um grande melhoramento.--E enquanto o automvel rodava esquerda, passada a Catedral:--Eu queria levar-te pela Avenida de Maio, a principal artria da cidade; mas creio que no ser possvel. --Tambm anda em obras? --Tambm... em parte. Mas no por isso. que estava defeso, e muito bem, estender hoje o _crso_ por aqui; mas, a despeito da probio municipal, a multido agora noite conseguiu invadir a Avenida e todo o campo pouco para ela. No ouves?... Pelo ar gordo e parado montava e alastrava um grosso resbunar pago, o relincho orgaco da multido em febre, avassalando, acanalhando o espao, tomando e prostituindo tdas as direces, sobrepujando e sujando todos os rudos. Havia um vago clamor sobrenadante, assobios, gritos, risadas, fanfrrias desafinadas, canes estrdias, e a espaos buzinava spero pelo ar o trilo irritante das cornamusas de barro. Era a despedida foliona do Carnaval, retida com ardor, prolongada com delrio. Eram os ltimos arrancos da bruta bambocha anual em que a essa fera travestida, que o homem, se permite desdobrar slta as suas inclinaes e regressar sua origem. Naquela noite dionisaca, a presso clida do ambiente era engrossada pela onda impdica dos desejos. Adivinhava-se a vulgaridade, a brutalidade, a volpia srdida, a fria ertica, os grotescos desmandos do instinto plebeu, nesse asfixiante turbilho animal, brigando, rugindo e tressuando. Como se por completo se houvessem delido tda a luminosidade, todo o espiritual enlvo, todo o fino ar, tda a aristocrtica leveza da magnfica cidade, paresiada neste momento por um espasmo vsgo de loucura. Na raz mesmo da Avenida, ao fundo da praa, o automvel teve que parar. Dois polcias a cavalo davam-se a prros para regular aquela desordem e facultar o trnsito aos veculos, positivamente bloqueados, na frente, pelo marulho compacto da multido, nos flancos, pelo aprumo bisarmal dos prdios. Num ligeiro estremecimento de contrariedade, disse o Azeredo para o _chauffeur_: --Bem, tome a por Rivadavia e veja se pode dar a volta por Cerrito. Apemo-nos em seguida.--E, com ar enfastiado, para o amigo:--Aqui, o entrudo o que tu vs: uma coisa antiptica, vulgar, uma festa do populacho. Depois, quando o automvel, desandando lentamente, conseguiu retomar caminho: --Mas que mania foi essa de hotel? -- o mais prtico, meu filho. --Bem: se chegasses aqui s, absolutamente sem conhecimentos, de acrdo. Mas tendo-me a mim... Instalavas-te na minha penso. Eu at falei dona da casa... Estarias mais cmodo e mais barato. Como em famlia. --So essas familiaridades que eu detesto, que eu temo,--objectou num instintivo horror o Silveira. --Tonto! Ao contrrio, delicioso...--insistiu o Azeredo; e, saltando sempre, com o seu riso escarninho:--H l um matrimnio srio, provincianos _burgssos_, que convidam tda a gente a jogar o quino. Quando no h _plata_ p'ra gastar fora, compreendes, excelente... H mais duas francesas, muito reinadias, que tem a excentricidade de no receber visitas seno meia-noite passada. H uma professora de _tango_, um estudantito de medicina, um caixeiro da _Ciudad de Londres_ ... e ento uma _gaja_ chilena, menino!--aqui o Azeredo sublinhava o seu entusiasmo, mirando em alvo, com requebros lbricos,--uma viva, _morenucha_, gordota, com uns olhos assassinos que trespassam a gente! --Atiras-te? --Ela parece-me amvel, isso ... Tem um filho que um _pibe_ insuportvel... Outro dia, com uma seta, de papel, ia-me vasando um lho. Ah, mas pelas celestiais delcias que se adivinham na me, aturam-se bem as diabruras do filho. Prudencialmente, ao cabo duma pausa, Joo da Silveira mascou: --Bem, tudo isso eu acho detestvel... Quero estar independente, livre, absoluto senhor meu, entendes?--E como fazendo um exame de conscincia:--No que s vezes, sem querer, prendemo-nos, e uma maada depois para sacudir essas seresmas. --Ora!--com um desdm superior objectou o Azeredo.--A gente defende-se...--E voltando a insistir:--V l, meu vlho, se preferes, anda. Ainda ests a tempo. --No, no... Prometo ir, mas de visita. Uns minutos depois, junto a uma esquina, apeavam-se; e o Azeredo deixava o seu amigo no _Cecil Hotel_, onde lhe tomra alojamento. E, ao despedir-se:--que no dia seguinte no poderia vir logo de manh, porque tinha o escritrio; mas pela tarde, s 4, viria busc-lo para darem uma volta por Palermo e _fazer_ em seguida a _calle_ Florida. --V l no te constranjas... --Qual! Se o que eu fao habitualmente. o _chic_...--E com o lho ladino:--_Noblesse oblige_. --Bem, est direito. Depois jantas comigo. Na manh seguinte, o Silveira que dormira como um bispo, levantou-se bem cedo, banhou-se com deliciada pausa, e enquanto esperava o _desayuno_, foi abrir os dois largos batentes da porta do seu quarto, rasgada em balco sbre a rua. Era no ltimo andar do hotel, a uma altura onde chegavam j mortias num adormecimento lnguido as pulsaes fortes do exterior.--Ele queria ver a cidade com ar de dia, no seu fresco aspecto matinal, no brio potente da sua vitalidade, erecta e liberta emfim das vagas figuraes da sombra, daquele pesadelo de animalidade e desordem, da passada noite.--Sau ao ar livre e avanou o busto com avidez, a mirar a extensa, a plena toalha de movimento, de vida e de luz que lhe oferecia, em baixo, o trao imponente da Avenida de Maio. Era um golpe de vista bem digno duma grande metrpole, no havia dvida, essa formosa e ampla linha correndo dum jacto, inflexvelmente, limpa e direita, da pirmide rudimentar da Praa de Maio esbelta cpula monumental do Palcio do Congresso. E esbeltos eram por igual os opulentos prdios marginais, caprichosos, brincados de formas, atirados com arrogncia para o espao: Traziam-lhe reminiscncias de Paris na sua _patine_ cinzenta e montona, nos seus rendados balces floridos: e de Paris eram tambm a atmosfera velada, o asfalto luzido, o ar discreto, as filas de mesitas redondas acaparadas sob os tldos dos _cafs_ e _restaurants_, a entestarem, numa disciplina idlica perfeita, com os renques de pltanos muito escovados, tosquiados com simetria e alinhados marcialmente ao longo dos passeios. Contudo, abrangida daquela altura, a magnificente artria resultava estreita em relao com o vo possante, com as macias dimenses da casaria; das franas das rvores, dos postes telefnicos, dos colunelos da luz elctrica, de tdas as arestas, de todos os ngulos, de tdas as curvas e ressaltos daquela floresta arquitectnica, restos ignbeis de serpentinas pendiam esfarrapados, tremulando ao vento; e aqui tambm, a intervalos, tomando por vezes a extenso de quarteires inteiros, voltava o Silveira a ver com desgsto o mesmo pejamento industrial com que, durante o seu breve percurso, esbarrra na vspera,--havia trechos largos de calada esventrados de ls a ls, fundidos em abismos de trva, rasgados e cavados em boqueires hiantes, como chagas, que geomtricas vedaes de zinco ondulado debruavam, polvilhadas de purulncias de cisco, escoradas por eczemas de barro, e de cujo negro ventre revlto subia incessante um bater ciclpico de picaretas e ferragens, na mais irritante dissonncia com a gritada fria dos preges, o compassado chouto das tipias, todo sse marulho vago das ruas. Pelo ladrilho pardo dos amplos passeios marginais farandunava uma peonagem atarefada e compacta, de tdas as origens, de tdas as idades, feitios, tamanhos, cres,--o mostrurio ofegante do universo, o resduo aventureiro de tdas as raas, sbre cujo movedio plasma, salvando a onda banal dos jaquetes e dos chapus de palha, se afirmavam, aqui e ali, exticamente, figuritas nervosas e amarelas de _nipons_, o tudesco slido e arrogante, _kpis_, turbantes, chimarras, _ponchos_; grupos de homens espadados e arremangados, de avental, a cabea de boina e o grosso artelho nu sob o farto _calcetin branco_; tipos refeitos de mulheres de aspecto arisco, o rosto acobreado e exttico, a saia muito farta tecida em tons berrantes, e descido o cabelo esfngicamente, frente das orelhas, em duas tranas negras. Correndo a parte central da Avenida que se mantinha vivel, pelas suas pores livres, uma dupla fila de cches e automveis subia, e outra descia, infindveis, incessantes, sem claros e sem trgua, aglomerados e suspensos por vezes, em ndos de embarao, ao cruzarem as ruas transversais, donde perpendicularmente golfavam a jrro mais automveis, mais cches, mais ciclistas, mais cavaleiros, mais preges, tda a ordem de obstculos, na sua invaso resfolegante engrossados ainda pelo pesado tropear das galeras, dos _camions_, das carroas e tranvias. E desta forte trepidao material e espsso escoamento, o fluxo e refluxo interminvel, era regulado, s esquinas, numa sorte de automatismo consciente, pelo basto vigilante dos polcias. O comedor do hotel era na _planta baja_, furtado s vistas do pblico por brancas e discretas _brise-bise_, mas invadido em cheio pelo marulho atroador da rua. Tudo isto estimulava mais e mais a espertinada ateno do Silveira, que, apenas findou de almoar, subiu a tomar a bengala, o chapu e as luvas; e num momento a o temos no pequeno vestbulo outra vez esperando que o porteiro lhe tomasse um _taxi_, onde a asa pitoresca do movimento lhe acalmasse a actividade e lhe dsse pasto ao intersse. No tinha fim determinado. Queria ir dar uma volta de aventura, ao acaso, puramente ao arbtrio do _chauffeur_ e ao sabor do imprevisto. Mesmo que outra coisa podia le querer, por agora, no conhecendo nada da cidade?... Apenas recomendou silhueta automtica do condutor, que, de mos ao leme, sem olhar aguardava indiferente,--que no queria estar a parar constantemente... e ento que fsse por onde houvesse menos confuso, menos movimento. O vlho _auto_ partiu logo, tomando a oeste, e pronto desembocou numa praa amplssima, desbordante de luz, num aceio irrepreensvel as suas largas avenidas de asfalto reluzente, e orlada apenas, como que provisriamente, de casitas abarracadas e construes mesquinhas, na cimalha _tape l'oeil_ duma das quais, espcie de mercenrio frontespcio de instalao de feira, mugia a toada populacheira e alde dum realejo. A todo o fundo, desdobrava-se e crescia majestoso para o alto, no seu deslumbramento marmreo, o Palcio monumental do Congresso, vaidoso e lindo no estadeamento olmpico das suas colunatas, nos seus astragalos e flores clssicos, nos seus gnios de bronze, nos seus grupos alegricos, na linha purssima e alada da sua cpula sem par, traando suavemente, na mansa tela lils do cu, uma grande parbola de arrogncia e de sonho. Entretanto, e apesar da nobre e empolgante linha geral do seu conjunto, esta mole colossal, erguida ali, no suportava a vastido da perspectiva, sentia-se esmagada pela imensidade absorvente do recinto. E ste aparecia-nos tambm inexoravelmente tomado pela mesma grossa e incmoda farfalha industrial que, parecia, aqui avassalava tudo; por tda a sorte de vedaes, de mquinas, de materiais, de esboos de construo e montes de escrias. Uma como que subverso de terremoto se produzira, ao centro, protuberado horrivelmente de pequenos Atlas de ferro e ao, de Himalaias de cascabulho, de Jungfraus de lama. Apenas, neste estrangulamento de srdidas durezas, algum triste e anmico trecho do relvado, mais resistente, conseguia oferecer ainda uma acariciadora mancha de frescura; e num dsses perdidos osis de plcida harmonia debuxava-se, solitrio e nostlgico, o bronze do atltico _Penseur_, de Rodin, na sua acefala paradoxal, na sua absurda corpulncia. O mesmo edifcio do Congresso, que o Silveira deixra agora sua esquerda, estava por concluir, com o poderoso flanco sem epiderme, amparado em andaimes, esperando o revestimento para as arestas descarnadas e o tijolo ennegrecido. Internou-se a seguir o automvel por uma rua espaosa e clara, espcie de _boulevard_, no seu arranjo cuidado e simtrico, na sua dupla fiada de rvores, no delrio policromo das taboletas, nas artsticas vidreiras, na sua vida sussurrante. Alongava-se a perder de vista, e na sua orla barulhenta as _talages_ comerciais e os tldos dos _restaurants_ sucediam-se e disputavam primazias em alternncias coruscantes. No letreiro duma esquina, de corrida, o Silveira conseguiu lr--_Rivadavia_; e ento recordou que esta era talvez a principal artria _portea_, e decerto a mais extensa, a de maior tradio, como que a coluna vertebral da cidade. Depois, fortutamente e a intervalos, consoante o giro caprichoso do veculo, o Silveira deu-se conta de passar por uma rua Andes, cruzar a com um grande edifcio pesado e austero, meio hospital, meio academia; a seguir outros arruamentos, quse iguais, todos com lacnicas designaes,--Crdoba, Triunvirato, Santa-F, Las Heras, Montevideo... por fim j nem tomava tento por onde ia e abandonava-se, alheadamente, incerteza voluptuosa do desconhecido. Mas eram sempre as mesmas ruas infindveis, riscadas a cordel, invarivelmente chatas e implacvelmente direitas. Em vo se buscava neste taboleiro de xadrez colossal, a adoar-lhe a hirta algidez sem termo, o desafgo verde e livre dum _square_, o perfume sorridente dum jardim, um refgio amigo de sombra, a carcia duma curva, o boleamento duma colina. De onde a onde, algumas tacanhas _plazuelas_ se riscavam, certo, porm submetidas por igual mesma implacvel esquadria, como que incrustadas na massa barrenta dos prdios, e na sua tmida penumbra alimentando uma flora de claustro, recolhida e triste. E por tda a parte tambm, mais ou menos, o mesmo pejamento de coisas tscas e informes, o mesmo prurido desconcertante de renovao: ou era a calada, esburacada em longos trechos e o trnsito impossibilitado pela aglomerao impertinente de paralelippedos, em monte, de tubagens em linha, de rolos de cabos, de maaricos, paz, alvies, lanternas; ou eram os primeiros ensaios de _rascacielos_, com seu rodap de tapumes lambusados de cartazes irritantes e aprumando hirsutos no vcuo os seus esqueletos de tijolo e de ferro.--Uma cidade colhida em gestao flagrante, sacudida num estremeo apopltico de vida, onde tudo estava por fazer, onde nada se conclura ainda. No seu subsolo esfarrapado e arfante, sob a sua carapaa movedia e spera como o drso dum monstro antediluviano, bravejava uma caudal fremente de energias, reacionava no mistrio a qumica formidvel dos interesses e a impetuosidade brutal dos instintos. Nada quieto, nada seguro, nada inerte. Havia um eterno ponto de interrogao suspenso sbre o seu arranjo definitivo, no se atinava com o termo a esta sua cavalgada frentica na conquista delirante do progresso e da fortuna. Em contraste aberto com os populosos aglomerados das grandes capitais europeias, aqui em Buenos-Aires as casas, de frente angosta e profundamente esticadas, no tinham, pelo geral, mais que o andar trreo. A lisura convidativa da _pampa_, deserta e sem obstculos, incitava a esta expanso librrima, o que explica que Buenos-Aires abranja hoje uma rea superior de Londres. Alm disso, como o valor da terra nas zonas de vida mais intensa sbe vertiginosamente, por isso tambm, na economia do seu lgico desdobramento, as sucessivas construes tendem a irradiar para a perifera, como os tentculos dum aracndeo colossal, neste seu denso rastejamento sem freio e sem medida. proporo que se distanceiam do centro, as edificaes apequenam-se, rustificam-se, vo gradualmente despindo o carcter urbano, solidarizam-se, confundem-se com a terra, e a sua construo mais e mais simples, at descerem s combinaes rudimentares do tijolo, da taipa e do adbe. E no fcil fixar o limite a ste encurralamento galopante para o Infinito. O Silveira considerava com particular intersse a fisionomia, tda peculiar, das construes principais,--essas altas bisarmas que rompiam desamparadamente, aprumadas e esguias, do rasteiro cordo habitual da casaria, e que assim desdobravam no espao livremente os seus flancos, no impenetravelmente murados, ao modo de Lisboa, como tumbas, porm abertos e entremostrando a trechos a sua estrutura intestina, no escalonamento paralelo dos vrios andares sobrepostos, e, em cada andar, na sucesso linear dos compartimentos, cujas portadas se entreviam superando, muito alinhadas, a aresta do parapeito discreto dos _pasillos_. Tambm lhe chamou a ateno o decorativo luxo exterior, o rebuscado adrno das fachadas. E ste vicio era geral; nos palcios mais opulentos como nas vivendas mais comesinhas, prevalecia e ressaltava inaltervel uma indumenta excessiva da _ptisserie_ italiana; em todos havia, um gongorismo de ornatos desbordante, uma nsia eruptiva de contornos, um espolinhamento doido de torciclos barcos, de emblemas, de flores, de amorinhos, caritides e quimeras. As paredes mais modestas no dispensavam alguma mscara de fauno ou uma lira entre malmequeres e rosas; mas eram sempre capas e capas de redundncias sobrepostas, era um atropelado derroche de cimentos e argamassas que retinham a luz, que arranhavam o gsto e varriam tda a sobriedade e pureza de linhas. No havia arquitectura, mas apenas _albailera_. Contudo, esta pesada obsesso do relvo era vantajosamente resgatada pela nobre linha geral das construes, elanadas sempre e escalando a altura com brio, num soberbo arranque de abastana e de fra. As janelas no prescindiam, em geral, do confortvel resguardo das persianas, de madeira ou de ferro, e adiantavam-se em amplos balces rendados, muitos dles picados garridamente de floritas rubras e com finas enredias verdes colgando. Mas nem uma vaga silhueta de mulher neles vinha debruar-se, ningum se via s janelas, cujas persianas impertinentes, inexorveis, se mantinham, de alto a baixo, hermticamente cerradas. E as portas, estreitas, igualmente impenetrveis, sentinelas fieis da felicidade e do amor... Impossvel surpreender a mais fugida nuana da vida interior destas esquivas bocetas, furtadas tam melindrosamente ao rce brutal do mundo. Isto dava-lhes um tom singular, um ar recatado e discreto, o que quere que fsse de aristocrtico e isento, contrastando afinadoramente com o grosso industrialismo plebeu que lhes marulhava em trno. E um outro mundo se adivinhava, com efeito, tecendo o seu manso ambiente inefvel adentro dstes misteriosos ninhos da paz e da virtude. Como se o carcter argentino, carinhoso, manso e precavido, cavasse um deliberado abismo de meticulosa defesa entre a rude guerra aberta dos negcios e a macieza impenetrvel do seu ninho! Como se a feio e o clculo, numa trgua prudente do seu antagonismo, o levassem a lanar uma barreira irredutvel entre as douras plcidas do _home_ e os atrictos desgarradores do intersse, entre o corao e a banca, entre o lar e a rua! C fra um balco, ali dentro um altar.--Seria assim?...--A verdade era que, com tda a sua pacotilha ornamental, o seu aspecto provisrio e o seu precrio arranjo, a grande cidade voltava agora a oferecer e como que confirmava, ante a sensibilidade esperta do recm-vindo, o mesmo indito e especial encanto, a mesma potica e vaga suavidade daquele esquissado carvoamento das suas primeiras linhas na calma tla _gris_ do cu, na passada noite... Um no sei qu de atraente e aprazvel, de afvelmente acolhedor, de harmonioso, de limpo, de fidalgo, que le, um hspede de horas, no sabia ainda se atribuir claridade essencial das almas, se ao respiro salutar das coisas. E sentia-se bem, afinal. Tendo voltado ao hotel, e agora reclinado molemente numa poltrona modesta do seu quarto, o desabusado morgado de Mosteir repassava mentalmente o seu expatriamento voluntrio e iludia o tempo numa saborida evocao retrospectiva de gratas lembranas, de projectos, de sonhos, de scenas vividas, de prazeres, de desejos suspensos. Primeiro a Ptria; mas o intervalo ainda curto do seu distanciamento e o torvelinho de ineditismos ofuscantes que, desde a partida, o vinham assediando, no permitiam que o vinco nostlgico por enquanto se afirmasse na vibratilidade demasiado inquieta da sua alma; depois, aqueles tantos dias de bordo, essa deliciosa bambocha de pequeninas audcias, desiluses, surprsas, _flirts_, intrigas, tdios e ridculos de raiva que era brisas e de gozos que eram espuma, correra-lhe um pano de olvdo sbre o passado; entre o que le fra, e o que era, haviam marcado uma eternidade e cavado um infinito.--De Portugal, agora, queria l saber!--Apenas recordava, num desdm superior,--que aquilo l devia ser uma maada, com os _carbonrios_ a ditarem a lei, os conventos feitos quarteis, os novos sem religio, os vlhos sem garantias, e uma mania de escolas por tda a parte, tudo muito malcriado e ningum conhecido. A seguir, recordou vagamente os dois irmos.--O que fariam les?...--Ainda o mais vlho, o Jos, advogadote rbula e manhoso, saberia tirar proveito dos conflitos jurdicos que, com a Rpblica, eram agora bastos como os cogumelos depois da chuva; mas o Bernardo, o mais moo, um pateta feito agrnomo fra de empenhos, um _come-santos_ sempre metido por _lausperenes_ e romarias, como se aguentaria, agora que o Afonso dra com os santos em terra?...--Ora! no fsse _tanso_.--Por fim, ao evocar a visagem chorona e os ademanes trgicos da noiva quando lsse a sua carta de despedida, o lbio varonil ergueu-se-lhe num leve sorriso, entre comiserativo e trocista, e os olhos ftuos, erguidos ao teto, semicerraram-se, a seguir a indecisa imagem da pobre Laurita, que em espiralamentos caricaturaes le via subir, envlta na fumarada tnue do charuto, seguida pela ronda desolada e grotesca da famlia. O derivativo patusco da viagem, isso sim... tinha sido bom a valer!--E j de repente voltava a danar-lhe, efmera e jovial, pela retina tda a divertida sucesso de episdios que durante sses deliciosos vinte dias haviam marcado um dos captulos mais saborosos e interessantes da sua vida. De tudo um pouco le havia logrado provar nesses adorveis _instantneos_ breves, e fugazes como _fogos-ftuos_, feitos de saltantes contradies e antteses sbitas. De tudo,--desde os trgicos pavores da tempestade t aos desmanes hilares do ridculo.--Que rico tipo aquele pedincho Contreras, com as suas intrujonas promessas e os seus apetites decorativos... e a cabea e as piugas do Alvarez, as fanfarronadas postias do conde, as doutas madurezas do Wimeyer... o Mackenna com a sua pomposa inpcia, o Mafiori com a sua astcia mansa. E, das mulheres, quanto no valia essa esnalgada e inspida Nora, a querer teimosamente enred-lo na tentao paradoxal dos decotes... e que apetite de formas, que rico amor, a irlandesa... e a formosura alada, o requintado esprito, a indecifrvel iseno de Irene! Esta, sim, que dava que pensar...--Por uma natural associao de idas, o Silveira conjugou mentalmente a pdica abstno, o carcter retrado e tmido da linda argentina, com o ar recatado e discreto que le de passagem surpreendera, por igual, na fisionomia atraente da cidade. E todo ste ambiente embocetado e austero, longe de o acobardar, estimulava-o, era um desafio picante ao seu gnio enamorado e volteiro, acendia-lhe os brios varons em tonadas ardentes de desejo. Na segura anteviso dos mais belos triunfos, dilatava guloso as plpebras, movia numa pregustao sensual os lbios gordos.--Ah, que o seu instinto adivinhra! Devia por ali assim vir a passar bem bons bocados... E aplaudia-se de ter vindo. Pouco depois das 4, fiel ao seu compromisso da vspera, chegou o Azeredo. A tarde estava um encanto. A luz esbatia-se suavemente na mole carcia do ar, hmido e tranqilo. Tomaram pronto um _auto_ os dois amigos e dirigiram-se ao parque famoso de Palermo, anunciado nobremente, ao comeo da avenida Alvear, pelas faustosas decoraes da _Recolta_, em cujo preguioso declive majestosas linhas arquitetnicas enquadram harmoniosamente rasos e amplos taboleiros verdes, mosqueados de tintas policromas, um precioso _bouquet_ de frescos relvados, de minsculos jardins, de bosquetes, sbes floridas e tosquiadas sombras. aristocrtico e lindo. E a seguir, descendo sempre suavemente, a mesma sumptuosa e ampla artria se continua, atirada com arrogncia numa dilatada conquista de espao, numa extensa projeco rectilnea sbre cujo asfalto polido deslizam, rodam e se cruzam alegremente as equipagens luxuosas e os automveis de preo. Definindo a todo o comprimento o eixo da bela avenida, acompanha-a e ergue-se a perder de vista, no seu fino recorte areo, uma floresta linear de esbeltas lmpadas ornamentais, da renda brnzea dos braos tendo suspensos grandes pomos brancos, e a lavrada raz mergulhando na macieza de esguias e escovadas _pelouses_, picadas de estatuetas decorativas. Depois, naturalmente, e fiel aos consabidos dogmas triviais da esttica urbana, o formoso crso, deixando o largo aprumo inicial, passa a desdobrar-se e a colear em mesurados lacetes de roda do grande lago, ao qual por seu turno no faltam as casotas, pontes rsticas, lilipucinas cascatas, esguichos anmicos, barquinhos, grutas do estilo, e o gongrico _restaurant_ de rigor. Agora, neste consagrado circuto da moda, de-veras embaraante, pejorativa, enorme, a afluncia de veculos, cuja marcha se torna grave e cheia de importncia. H um refinado propsito de ostentao, uma patente fria exibitiva; a cada passo, neste afluir compacto da assistncia, produzem-se engorgitamentos, empastes, ndos, que obrigam a paragens sucessivas; tudo servindo de pretexto amvel mutuao de sorrisos, acenos, agrados, cmbios de frases familiares entre as pessoas conhecidas. H vida, h movimento, h opulncia, h rudo; mas tudo cerimoniosamente espontado, sem espontaneidade e sem brio. De famlia para famlia, de curva para curva, a cada novo cruzamento neste mostrurio ambulante de vaidades, as vsgas miradas perscrutadoras, os desapontados gestos, a raivosa estupefaco, as bcas sumidas de inveja, impem-se ao brando rodar das equipagens e ao bisbisoteio da chalra sobrenadante. E em tam pomposa parada de atrelagens, alguns vlhos _fiacres_ vo ainda derivando de escape, ao largo, num repdio de instinto, humildemente, como que vxados no seu anonimato de misria. Ao mesmo tempo, uma afluncia enorme, desbordante e luzida por igual, circula e galreja a p, bordejando abundante as _aceras laterais_, taquinando com airosa presteza a areia fulva dos passeios. Com saltitante orgulho o Azeredo vai mostrando ali ao amigo uma que outra figura conhecida. O Silveira, todo na hora presente intercala com gulosa vivacidade as sltas interrogaes que lhe acodem a propsito, no impressivo relato da sua excurso da manh. Nota com espanto como, aqui, adorveis grupos de _seoritas_ se permitem deambular, rir, volitar livremente, fra do lho suspicaz das mams, desenvltas, seguras, num confiado aprumo e em plena independncia. Nota igualmente que os homens vestem em geral com desafectada elegncia, e que as mulheres teem uma _allure_ cheia de graa, uma linha de conjunto harmoniosa e fina.--Mas a moldura que a Natureza oferece a ste palpitante quadro social tristemente desataviada e mesquinha. A vegetao pobre. Abunda a mancha verde-sujo dos _eucaliptus_, formando por vezes tufos gigantescos, e avultam alguns macios mais de chores, de pltanos, de cedros, de salgueiros; porm a maior extenso dste chato parque embrionrio,--meio _square_, meio pntano,-- povoada por uma fruste vegetao arbustiva, sem brilho, froixa, mal cuidada; e h avenidas inteiras orladas por pobres palmeiras _dpayses_, o tronco ano, a folhagem esfarrapada e lvida, que na sua enfermia invalidez so um eloqente protesto mudo contra a incongruncia edlica, arrefecem o ambiente e tornam a perspectiva dolorosa. E ainda de notar que, para alm dum reduzido permetro, neste arremdo incipiente do _Bois_, o traado pretencioso dos bons caminhos de rodado, das leas luxuosas, se interrompe sbito a cada momento, cortado por tda a sorte de obstculos. Se em qualquer direco o desprevenido turista pretende um pouco mais ao largo aventurar-se, logo a lhe barra arreliativamente a marcha uma passagem de nvel de ferro-carril, a armatura bisarmal de alguma grande construo em osso, ou os intransponveis valeiramentos de charcos, barrancos e atoleiros de tda a espcie. As rodas dos veculos afundam-se e peganham impotentes na revlta viscosidade das argilas empapadas. No h continudade nem segurana de trnsito nesta desarticulada rde de aberturas. E debalde alongamos interrogativamente, a um e outro lado, a vista morosa e cansada. Por tda essa montona extenso de rsticas _parterres_, a luz rasante do crepsculo apenas faz agora saltar o estagnado espelho dos lameiros e aguaais, que salpicam bastos, com as suas placas corrosivas, como pstulas, a inevitvel sucesso das lamas de mato ruo e rasteiro estranguladas entre a via-frrea e o Plata, onde a luz falta e a humidade abunda. Na volta, j noite fechada, o _boulevard_ aparatoso de Callao flambeava de cr e regorgitava de vida. Outra das grandes e opulentas nervuras da cidade. Tudo brilha, tudo vibra, tudo reluz neste largo e inquieto diorama. Na mesma sombra h movimento. Sbre o piso esmerado, de madeira em paralelippedos, os numerosos veculos teem um rodar suave e acariciador, sem estrpitos e sem sobressaltos, como se corressem sbre alfombras. Pelos largos passeios marginais, na onda ronronante da multido, saltam vivas as arestas e as figuras cortam-se com violncia, surpreendidas em flagrante e trazidas ao mximo relvo pela modelao crua em que, do mesmo passo, as envolve o grande jrro de luz branca, dos candelabros do alto, e as espadanas de luz doirada golfando dos _escapartes_ scintilantes. O Silveira seguia interessadamente o indito desdobrar desta cinta magnfica, com a alma tda nos olhos e a ventonheira cabea passando, em sbitas e incansveis alternncias, dos flores repolhudos dos palcios toalha esplendente da rua; quando, de repente, imperativo, nervoso, arpoando forte o brao ao amigo: --Ah, menino! pronto, pronto... ali! manda parar. --Aonde? --Ali! ali!--insistiu, na mesma imperiosa querena, o Silveira. E apontava um grande letreiro, projectado, altura dum 2.^o andar, perpendicular sbre a rua, onde em flamantes caractres sucessivamente brancos e rubros, se lia--*Idiomas Berlitz*. Mas, incommovvel e suspenso, o Azeredo, sem perceber: --Ora essa! e porqu? Ests doido?... --No, filho! manda parar, j te disse... Preciso adestrar-me no ingls, p'ra me entender com uma criatura deliciosa que conheci a bordo. Se tu a visses! Agora o Azeredo ria a perder, sacudindo esperto o busto, espalmando as mos sbre os joelhos. --Ah! ah! ah! Essa nem parece tua. --E ento?--retrucou, fazendo um mmo de srio, o Silveira, quse ofendido. --Pois tu no vs?... Por mais _apurado_ que quizesses andar, nunca lograrias arranhar algo, e bem pouco, do ingls, seno passados dois ou trs meses. --Tanto tempo? --Seguramente. E entretanto a mulhersinha teria sabido arranjar... quem melhor a entendesse. Cabisbaixo e um pouco triste, o Silveira ruminava mentalmente uma aquiescncia. E com o lho ladino, o amigo: --No me sejas zonzo, rapaz! Em matria de amor as mulheres no querem saber de palavreado. Obras, obras...--E com um desprezivel dar de ombros:--Que diabo! nem pareces portugus. O _auto_ seguia sempre, mole e suavemente. Deixada para trs a falaciosa esperana dsse letreiro redentor, j os dois amigos atingiam de novo a Praa do Congresso e seguiam ao longo de Rivadavia, a internar-se no chamado _centro_ da cidade.--Infindveis ruas estreitas e banais, perpendicularmente enastradas, no seu hirto paralelismo e na sua esquadria inflexvel riscadas sempre indefinidamente. A esta hora ruidosa e opressiva da noite, elas so como que metericas fendas lineares talhadas a prumo, num rectilneo enfiamento sem termo, ao longo do ferro e o cimento _recoc_ dos grandes quarteires macios. No h um desafgo, uma abertura, uma fuga de espao livre ou um claro de benfico repouso, neste atropelado escoamento de coisas brbaras e difusas. Foram ruas bastantemente espaosas e amplas, h quarenta anos, para suprirem ento ao movimento de duzentos ou trezentos mil habitantes; porm hoje, deplorvelmente adstringindo ainda o corao duma cidade cuja populao quintuplicou, tornadas duma lamentvel e nociva insuficincia. No seu estrangulamento arcaico chocam-se, cruzam-se e baralham-se delirantes tda a casta de obstculos e de rudos. A cada momento h que parar. De quarteiro para quarteiro, a cada passo o moroso avano cortado por embaraosas suspenses, em inalterveis sucesses de minutos que parecem sculos. Enfastiado e impaciente, o Silveira props ao amigo apearem-se.--No podia aturar mais aquela maada! A p sempre girariam melhor.--Mas nem por isso a mudana de instrumento locomotor lhe trouxe a ambicionada largueza de movimentos. Pior agora, talvez... Pelos passeios laterais, mancos e exiguos, mal podem caminhar duas pessoas a par; e ainda h que seguir com invarivel aprumo e a maior cautela, afim de evitar o rce brusco dalgum dsses tilintantes e monstruosos _tramways_ que teimosos e incessantes lhes passam, com estrepitoso fragor, rasos mesmo pela aresta, em risco de nos levarem um brao ou estriarem uma perna. Debalde no cruzamento das ruas a polcia, numerosa e atenta, faz cabalsticas manobras com o seu basto providencial, no honesto esfro de regular os detalhes da circulao. Resulta sempre uma empresa rdua, por vezes herica, a ordenada canalizao da trbida torrente, do atrito cosmopolita dessas grossas _mangas_ humanas, jorrando em sujas golfadas por um afunilado labirinto a sua hipertrfica exuberncia. Bem queria, uma por outra vez, o Silveira deter-se um pouco, a analisar uma figura, a sondar uma perspectiva, a anotar um pormenor, a observar as _montras_... breve reconhecia ser, ali, tam singelo acto um cometimento defeso maior destreza humana; e tinha que arrancar brusco e retomar caminho, entalado, enovelado entre os cotoveles nervosos do amigo e a congestiva onda da multido que o levava por diante. Depois, se le por acaso, inadvertido, voltava a abandonar a sua posio de equilbrio periclitante para contornar o arreliativo tapume dalgum prdio em obras, para dar o passo a uma dama, para alcanar o amigo, para atravessar a rua, logo de cham-lo brutal realidade,--e por vezes simultneamente,--a busina dum _auto_, as campanhas das bicicletas ou o timbre estridente de mais um grande _tramway_, cuja massa atravancadora, farfalhante, enorme lhe cortava sbito a frente, ringindo, pesadamente, com a esmagadora fria dum mastodonte a abrir caminho pela selva. O Silveira sentia-se enervado, aturdido. Aquele caminhar fatigante fra de opressivo, o grosso marulho sobrenadante, a profusa luz dos cafs, dos teatros, _tiendas_ e _cinemas_, entontecia-o. Entretanto, prendia-lhe a ateno a _talage_ caprichosa e berrante das numerosas lojas de engraxador,--peculiares de Buenos-Aires,--com as suas estravagantes decoraes, o seu afanoso saracoteio, e o imprescindvel fongrafo, ao fundo, sob o relogio, entre arbustos anmicos e hilariantes cartazes, roncando alegremente. Mas nem a lhe era permitido o gzo inocente dum pouco de exame tranqilo; porque, se um instante le parava porta dum dstes interesseiros especmens da fantasia napolitana, logo de assalto, altura do ouvido, lhe rompia o tmpano, fazendo-o estremecer e fugir, a estentrica voz do pregoeiro, tam nasalada e estrdula como as vibraes do fongrafo do fundo, para a rua a sibilar clamorosamente: --_Gay ass_... --_Gay asiento, cabayero!_ Teriam os dois caminhado assim pouco mais dum quilmetro, quando muito prazenteiro o Azeredo, sustando o passo ao amigo: --C estamos em Florida. Uff! Aqui no h trnsito de veculos a esta hora. tudo para o belo _flirting_...--E todo aos saltinhos, tomando-lhe do brao:--Anda ver o _chic_, meu rapaz! O mesmo alinhamento angosto e banal das demais ruas em trno, cujo inflexvel e cerrado travamento forma o clssico sistema vascular desta parte da cidade. A mesma congestiva afluncia, o mesmo crso embaraoso e difcil, o mesmo movimento, o mesmo rudo tambm; mas tudo isto aqui constituido apenas pela dissonncia de vozes, o afanoso giro e o formigueiro sussurrante da multido a p, que, livre do tropo aplastante dos veculos, em plena alegria e em plena expanso, revoluteia, afli, chalra, insinua-se, resvala e afirma-se prepotente, tomando vontade a rua tda, as suas impressivas silhuetas saltando ntidas e as sombras mordendo em vincos de agua-forte a espelhada fludez do asfalto reluzente. a hora elegante, a hora preferida. Sente-se e sa brando o peganho abundante das passadas, ao longo dste grande salo a cu aberto. Ao alto, pela noite nevoenta do cu, superando o estrangulado limite dos prdios, recortam-se, penduram-se, cruzam-se e danam em profuso tda a sorte de rclames e adornos luminosos, formando por vezes, de lado a lado, caprichosos viadutos, ou suspensos em esplendentes rosrios que entornam a sua luz gloriosa sbre o boleamento arquejante e febrl desta grande feira gentlica. Em baixo, a sucesso dos estabelecimentos luxuosos interminvel: uma dupla feira, magnfica, deslumbrante, de grandes _magasins_ de modas, livrarias, floreiros, _bibelotages_, _tea-rooms_, _talages_ industriais, armazns de msica, adorveis pequenos sales artsticos, rijos mostrurios de artigos de _sport_ que prendem um momento a ateno dos homens, cristais de ourivezarias faiscantes que incendem em pecaminosas tentaes o perdido olhar das raparigas.--Qualquer coisa como a _Rue de la Paix_ ou _Bond Street_, porm com mais mpeto, mais cr, uma vida mais compacta e mais intensa, e sobretudo com uma percentagem muito superior de mulheres bonitas. ver a harmoniosa graa com que elas caminham, no seu passo miudito e firme, airosas, leves, naturalmente distintas, requintados exemplares da espcie, felizes pelo segrdo dste seu donaire especial, feito de nobreza, de doura, de confiana e de vaidade. Os homens marcham com uma tonada, uma segurana e um garbo igual, pisando ademais como senhores, no convicto orgulho de si mesmos, incompatveis, v-se, com o instinto da economia, altaneiros e certos na generosidade sem fim do seu torro bemdito. E todo o mundo anda ligeiro. Claro que no corriqueiro programa dste obrigado passeio elegante, de cada dia, a melhor e mais grata funo consagrada ao galanteio feminino. pinturilada porta da confeitaria _L'Aiglon_ estacionavam grupos de _mirones_, a cada momento renovados, tam de-pressa sumidos no grosso embate da onda, como logo refeitos galhardamente; por tda a parte se disparam frases amveis e se despedem olhares gulosos ao venusino apetite das lindas _seoritas_ que por entre o deslumbramento mgico das lojas desfilam incessantes,--mais claras que as luzes, mais adorveis que os _bibelots_, de maior preo que as jias; mas tudo isto expedito, fugaz e feito com slta deciso varonil, em breves pausas de cavalheiresca excepo abertas na febre geral do movimento, deixando a perder de vista e afundando num abismo de ridculo a pasmaceira lamecha habitual da nossa Rua urea e do Chiado. --Que tal achas, _ch_?!--indagou o Azeredo vivamente. E com os olhos extraviados de jbilo, o Silveira: -- encantador, divino! Esta a minha terra! Assim fizeram os dois o percurso total da formosa rua, desde as aristocrticas instalaes de Harrods, passando pela arte postia da _London Gallery_, a arcaria pedante do _Jockey-Club_, a branca portada do _Charpentier_, as _montras_ suculentas da _Rotsserie Sportsman_, t ao grosso amontoamento burgus dos armazens de Gath & Chaves. Ao cabo, j sbre a Avenida de Maio, o Azeredo assinalou trocista curiosidade vida do amigo a chamada _esquina de los otarios_,--pasccia aresta de voluntrio suplcio onde o amor pelintra dos caixeiros e amanuenses vem baboso e marruaz aguardar a sada das costureiras. E aqui nste estrepitoso cruzamento de duas das suas principais artrias, atinge o mximo da intensidade e da cr a agitao resfolegante da cidade. Dsse compacto torvelinho, da baralhada onda de tda essa grossa turba em delrio, ergue-se em quentes lufadas e toma e embebeda o ar uma clamorosa ressonncia, que a evidenciao triunfante do bem-estar fsico, da fecunda actividade, da pletra de fortuna e de riqueza desta moderna Cartago,--a vontade feita moeda, um dos grandes fcos da capacidade potencial do homem sbre a terra, portentoso centro de atraco, emprio colossal do trabalho fascinante e criador, caldeado na protica ardncia das mais vlidas esperanas e as energias mais potentes das raas de todo o mundo. VI Bem disposto e vido por continuar o seu interessante exame objectivo da cidade, o Silveira no dia seguinte ergueu-se cedo e desceu pronto a rua. Andadas no mais de trs _cuadras_, ei-lo de novo na Praa do Congresso. Dez horas da manh. Fazia um dstes claros, suaves e incomparveis dias de outono de Buenos-Aires, em que do cu alto e lmpido, de pura safra desce uma luz de oiro vlho a acariciar tranqilamente as coisas. Os raros relvados do centro da praa, com a sua rociada lanugem verde, formavam apetitosos ninhos, e a airosa cpula do Parlamento, ao fundo, cortava-se na frescura opalna do ar em figuras de aguarela.--Mas agora o Silveira notou que logo ao primeiro ngulo do vasto recinto, sua esquerda,--junto base duma esttua que era a consagrao ornitolgica dalguma grada personagem, de mataces e labita, desta as abas danantes brigando simblicamente com as asas duma guia,--um joven de lunetas e gravata branca, desbarbado como um _clergyman_, trepado a um banco, acenava e arengava com entusiasmo a um hipottico auditrio que no vinha. Atrados pelo colchete dos seus dedos suplicantes e pelos seus brados convictos, acodem primeiro alguns rotos _canillitas_, vendedores de jornais; vrios cocheiros e _chauffeurs_ em repouso vo depois at le preguiosamente arrastando-se; vem ainda, estimulados por ste comovedor desbarato de eloqncia no vcuo, os poucos desocupados que pelos bancos prximos amadornavam a sua indolncia. Curioso e atento, o Silveira acercou-se tambm.--Discreteava sobre poltica ste improvisado apstolo da rua. Falava em civismo, em liberdade, em igualdade, em conscincia, no sagrado exerccio do sufrgio, nas inauferveis regalas do povo. Figurava enfticamente o concurso s urnas como a benfica corrente arterial da vida colectiva, como a maior conquista e o mais grato dever moderno. A sua persuasiva parlenda rola sempre sbre a mesma ida, torturadamente exibida num laborioso acrobatismo de logares-comuns; dir-se-ia que le prolonga deliberadamente o seu exrdio, a dar tempo a que a assembleia cresa. Agora h j mulheres tambm entre os ouvintes. E o glabro orador ento aquece, afervora no entusiasmo. Imagina-se compreendido e ala-se em conceitos galantes, em primores de frases, desbrida-se em raptos de baixa lisonja sbre as reivindicaes feministas e a sublime misso social da mulher. Gesticula como um energmeno, os desmanes da inspirao e o tom da voz sobem de ponto, j com jupitereanas fulminaes contra os abusos de caudilhismo, a influncia desptica da riqueza e a corrupo sistemtica dos grandes satrapas do poder,--inofensivas objurgaes abrangidas entretanto pela alada coerciva da polcia.--Porm o Silveira acha ste mandado charlato poltico menos interessante que os seus pitorescos competidores _callejeros_, os barafustantes pregoeiros de pomadas e elixires maravilhosos. E o assunto no o prende maiormente. Afasta-se com tdio. Segue ento percorrendo a p a esplndida rua Callao, num regalado vagar, saborosamente. Fareja com libidinoso apetite as morenas crioulitas que passam, em cabelo; esmiua com a vista maravilhada e cativa tda essa opulenta sucesso de _magasins_ elegantes, luzidas _talages_, soberbos hoteis e palcios sumptuosos. Mas eis que, ao desembocar na praa Rodriguez Pea,--oh! fastidiosa surprsa!--_mutatis mutandis_, ele a vem encontrar repetida a mesma scena de h pouco. Igualmente aqui um veemente e fogoso orador blsa sbre um auditrio escasso e mesclado, por igual, a mesma encomendada torrente de diatribes e proclamas. Com a diferena que ste trigueiro e barbado, de aspecto faanhudo, tem um _taxiauto_ por pedestal, e sua ilharga flameja com triunfante arrogncia uma bandeira partidria. O pior foi que numa das mais impetuosas fugas da sua inflamada homlia, um polcia aproxima-se, intervm, exige-lhe a apresentao da licena; o interpelado titubeia, estaca, empalidece, busca em vo um papel salvador nas algibeiras... e por fim lana mo resoluta ao leme do _auto_, va e desaparece, entre os bonaches aplausos e as casquinadas trocistas dos assistentes. O Silveira lembrou-se ento de ter lido, ou lhe terem dito, que naquele momento a luta eleitoral _battait son plein_ na grande capital _portea_. Estava-se em pleno perodo eleioeiro, para a renovao parcial de senadores e deputados. Os socialistas, na impetuosidade juvenil da sua formao, tinham perante os vlhos partidos arreganhos nunca vistos. stes respondiam com uma animao e um calor igual. Da a encarniada vivacidade da luta, e a dispersiva abundncia de tdas essas arrebatadas prdicas de moral poltica, cuja copiosa fria palreira o Silveira ligou naturalmente profuso berrante de cartazes com muitos pontos de exclamao, e de anodnas efgies de bons burgueses, aspirantes a pais da ptria, que le via por tda a parte colados s paredes,--sbre todos batendo o _record_ da flamncia e do rclame o busto implicante dum j maduro candidato a senador, de grande flor na lapela, no redondo caro sensual uns olhitos muito vivos e o grisalho bigode erguido. Assim se explicava essa divertida e basta erupo de relmpagos de civismo, por conta prpria ou encomenda alheia, um pouco maneira inglesa. Porm nada disto podia maiormente interessar quem, como o Silveira, se expatrira de vontade, muito de indstria para furtar-se ao galimatas poltico e no mais ser parte nem presenciar, sequer, as sujas dissenes e as chinfrineiras brigas em que se esfacelava a sua querida terra. Tambm, pelo momento, le comeava a sentir que j conhecia demasiado, para um hspede de horas, como le, os aspectos exteriores, o ambiente vulgar e comum de Buenos-Aires.--Isto s no lhe bastava, no era nada. Queria ir mais alm...--Mordia-o o desejo veemente, picava-o o apetite agudo de transpr essas portitas de sacristia, de franquear essa freirtica barreira de inexorveis persianas com que le esbarrava por tda a parte, tendidas hermticamente; queria, em suma, desvendar um pouco o pensamento, a alma da encantadora grande cidade que le escolhera para refgio, surpreend-la nos castos mistrios do _hogar_, conhecer-lhe as caractersticas morais, penetrar-lhe a vida ntima,--o que le de antemo sabia, pelo Azeredo, ser algo difcil. Entretanto nessa tarde, para aproveitar o tempo, e, como bom tctico do galanteio, para no perder o contacto com as ticas perfeies e as claras promessas de _Mrs._ Edith, decidiu ir de visita aos Di Paoli. Tinha-os ali assim crca do hotel, na mesma Praa do Congresso. Uma modesta penso que lhes haviam agenciado, em casa duma distinta camarada de arte,--explicra-lhe o conde pomposamente. Era um simples rs-do-cho, como tdas as antigas casas de Buenos-Aires, com a porta e a seguir duas janelas. No humbral da porta havia um singelo _placard_ de metal brunido, onde em negros caractres se lia: _Lady Cowpel, miniaturista_. Entrava-se, subiam-se trs pequenos degraus, e passada uma estreita porta envidraada, tinha-se o invarivel e minsculo vestbulo, estiradamente continuado por um lgido corredor descoberto, que uma longa fieira de discretas portas flanqueava, e que era alto, fechado ao fundo por uma esguia charola de dois andares.--Uma mocita de touca e avental branco acudiu entrada do Silveira, a inquirir: --_Qu desea, seor?_ Os Amglio haviam tomado o primeiro compartimento, logo direita,--o melhor da casa,--correspondente s duas nicas janelas dando sbre a rua. A esperta _mucamita_ adiantou-se e foi golpear porta, melindrosamente blindada de persianas fixas de madeira, como tdas as mais. O mesmo conde veio abrir; e logo com expansiva alegria, ao dar com os olhos no amigo: --Ah, o meu caro Silveira! Que bela surpresa!--Abriu convidativo a tda a largura o batente da porta:--Entre, entre... queira entrar. O Silveira hesitou, ao ver o conde em mangas de camisa, e do mesmo passo surpreendendo num relance a atravancada desordem do aposento. --Venho talvez incomodar... --Qu! Incomodar?... De modo nenhum. Pelo contrrio! Entre... Fez muito bem!--E para o interior, num altear imperativo da voz, anunciou afvelmente:--Edith! o snr. Joo da Silveira. O recm-vindo arriscou ento alguns tmidos passos no baralhado pejamento do recinto. Era uma vasta pea, alta e triste, forrada a papel vulgar, esfarpado a trechos e comido junto ao teto por eczemas de humidade. Sbre a lisura de bistre do soalho encerado, arrastavam-se um pouco por tda a parte as maletas, as caixas de chapus, os sacos de viagem, e havia pulverulncias lineares de terra e lixo definindo geomtricamente o bjo de grossos caixotes de pinho, intactos uns e outros j eventrados, com as desprendidas tampas postas ao alto e eriadas de grandes prgos, hosts e recurvos como garras. Em meio da sala o conde, sempre convidativo e afvel, e depois de haver cerrado a porta, apressou-se a explicar: --No repare neste desarranjo, meu amigo. Eu estava desenfardando e arrumando p'r'a assim de qualquer forma os meus ricos quadros. Parece que no sofreram com a viagem. --E so muitos? --Ao contrrio. Mas valem pela qualidade. Um tesouro!--E num convencional arrebite de vaidade:--Oh, que deslumbrante exposio eu vou fazer aqui! Passou a mo nervosa pelas negras ondas do cabelo, moveu o trax numa leve opresso de cansao, e mesureiro, abundante, sempre inaltervelmente plido, apontou desvanecido ao irracional exame do Silveira a atramochada distribuo das suas telas, umas j penduradas, outras ainda provisriamente postas de espalda contra o rodap surramposo da parede. E tambm junto a esta um petisito obreiro, arremangado e trepado a um escads de tesoura, como que aguardava ordens, inexpressivo, imvel, de braos pendentes e o pesado martelo da mo suspenso. O Silveira julgou oportuno convidar polidamente: --Bem, mas porque no continua?... Eu no quero que faam cerimnia comigo. --Cerimnia, nenhuma. muito amvel... que estou um pouco cansado,--obtemperou naturalmente o conde, enfiando o seu leve jaqueto cinzento. Fez um sinal ao mocito da escada, que desceu e sau em seguida; e tranqilamente, sentando-se, acendendo um cigarro:--Temos muito tempo. Neste momento abria-se uma espcie de envidraada porta de alcova, no mais escuso recanto da casa, e por ela fazia a sua apetecida apario essa sonhada delcia de _Mrs._ Edith, singelamente vestida,--uma saia corrida de fina sarja negra, blusa branca de _liberty_,--e o mesmo liso penteado em bands Clo, o mesmo divino perfil de Madona, o mesmo ar repousado e ingnuo, a mesma ateniense modelao das formas. Avanou sorridente ao Silveira, sadaram-se familiarmente, como dois bons amigos. Logo ela recolheu pronto a mo, perturbada e esquiva ao beijo demasiado expressivo do seu admirador; e tudo era depois circunvagar, perante le, os confrangidos olhos pela sala, e enconchar e alargar e mover com vivacidade os braos, em adorveis gestos de escusa. O marido solcitamente interveio:--que o seu nobre amigo j sabia... desculpava tudo. E para o Silveira continuou, desabusado e simples, aclarando: --Obtivmos por muito favor esta pequena instalao, que est longe de ser decente... e muito mais longe de ser barata. Imagine: esta sala e dois pequenos quartos, interiores, escuros, nada mais... quinhentos pesos por ms. E a sco. Uma barbaridade! Temos que ir comer ao _restaurant_ Santini, que nos fica a cinco _cuadras_, na _calle_ Paran.--Aqui a condessa fz notar com repulsivo enfado, que, demais, tdas as manhs a laboriosa preparao dos banhos e ablues era uma tragdia. E no mesmo tom o Amglio confirmava:--Uma roubalheira! uma maada! Conheo Londres, Viena, Berlim, S. Petersburgo... pois, senhores, j vejo que no h como Buenos-Aires para fundir dinheiro! --No nada tranqilizador sse anncio para mim. --Aqui o pretexto para tam alta renda que as peas esto mobiladas. Mobiladas!--comentou o conde, com uma desdenhosa mirada em trno, encolhendo os ombros.--Mas de que maneira! No se recomendava com efeito o mercenrio recheio da vlha sala nem pelo confrto nem pelo aceio. De reposteiros, cortinas ou alfombras, no havia vestgio. Ao meio da principal parede, um aparatoso e ratado grande contador japons, ainda com preciosas incrustaes de laca e marfim, mal amparava a poder de cunhas e remendos a sua ruina claudicante. Havia mais uma meia dzia de desparelhadas cadeiras, tamboretes e _fauteuils_, com o estfo esfiampado e sujo; uma _tagre_ banal com conchas e bzios, um piano; e ao centro uma mesa redonda, coberta por um coado e lustroso pano franjado, de lanujem verde, agora ciscado abominvelmente de pequenas ferramentas. Com um novo lastimoso dar de ombros, tornou o conde para o Silveira: --Nem uma chvena de ch lhe podemos oferecer! --_To morrow_...--acudiu a mulher com adorvel carinho. E muito solcito o conde, interpretando: --manhan... Oh, manh, certamente, com o maior prazer!--E obsequiosamente lembrava:--O que podemos agora preparar-lhe um _punch_. Vai feito? O Silveira recusou delicadamente.--Por modo nenhum! bastava-lhe gozar a sua amvel companhia.--_Mrs._ Edith ofereceu-lhe _bonbons_, atalhando assim gentilmente o previsto fluxo de consabidas frases lisonjeiras que de seguro ia seguir-se. E levemente ruborizado, o Silveira, a derivar, com os lbios melados da guloseima e do desejo: --Diga-me, conde... e a sua exposio onde a vai fazer? --Ainda no sei... Sei apenas, isso sim! que vou _pater_ tda esta gente--rematou com a mais segura ufania, atirando fra o cigarro, os olhos muito brilhantes. E posto sbito em p, tomando com deciso o brao ao amigo: --Isto um mostrurio de puras maravilhas. Veja, veja... venha ver! Comecemos por o que est j aqui assim vista. Aqui tem mesmo na sua frente um Hobbena, o maior paisagista holands depois de Ruysdaelf; a seguir, um Corot, o grande psiclogo da paisagem; e agora em figura, note! um dsses graves e aristocrticos retratos de Gainsboroug, que se pagam hoje a peso de oiro; outro, do seu mulo e contemporneo Reynolds; ali, um belo estudo de Salomon Konink; mais alm, v anotando sempre! uma cabea de Ticiano, de quem o Tintoreto dizia que pintava com carne moda. E por ltimo,--plantava-se com intimativa diante do Silveira boquiaberto,--por ltimo, nada menos que um Velasquez! um genuino Velasquez, ouviu?... o maior, o mais assombroso pintor de todos os tempos.--A seguir, indicando pelo soalho os caixotes intactos:--Fra o que est ainda p'r'a assim...--E sempre na mesma teatral fatudade, dando um giro triunfante pela sala:--No lhe dizia eu!?... realmente uma dr de alma ter de desfazer-me de coisas tam raras e tam belas... oh, mas ao menos encontro lenitivo na ida de que o meu sacrifcio h de dar brado! e de que ficar memorvel na grata lembrana dstes bons _porteos_ a maravilhosa seleco de obras-primas cuja aquisio eu venho facilitar-lhes... um relicrio de Arte como les no viram nunca, como no teem nada que nem de longe se parea sequr! _Mrs._ Edith, que depois de cautelosa inspeco acabra por sentar-se no menos avariado dos tamboretes, seguia esta flamante parada esttica, sorrindo vagamente, numa complacncia tranqila. E do fundo do seu obtuso espanto o Silveira, para o marido: --Devem ser telas muito caras? --Seguramente. --Prprias talvez melhor para Museus. --Ah, no... aqui todavia h riqussimas coleces particulares. Duas ou trs, pelo menos. Eu estou bem _renseign_... Sei como hei-de manobrar.--E ladinamente, piscando o lho:--A coisa segura! Perante tanta soma de glria e de fortuna, uma instintiva dvida chispou na ptrea ignorncia do Silveira, que aventurou tmidamente: --E, perdoe o meu amigo, so bem autnticos? Um claro riso triunfal aqueceu a cnica face do charlato. --Ora eis a precisamente a garantia do meu xito, a chave do meu segrdo! o caso daquela minha inveno... Eis o ponto onde eu queria chegar. Convidou o amigo a sentar-se, sentou-se defronte, e sentencioso, pausado, dobrando frente o busto, os cotovelos sbre os joelhos: --Oia... O amigo sabe que tem sido sempre um problema difcil poder constatar-se com segurana a paternidade dum quadro, especialmente dos antigos, recorrendo apenas aos meios indutivos e dedutivos at agora em uso. Vamos a ver...--Contava pelos dedos.--A anlise qumica das cres empregadas no basta: primeiro, porque os discpulos dos grandes mestres ficam usando, geralmente, as mesmas pastas e as mesmas tintas, o que j estabelece confuso; segundo, porque, alm disso, as melhores ou piores condies de conservao duma tela, a humidade, o calor, as tropelias dos vrios retocadores e tcnicos, e mil outros malefcios, chegam muitas vezes a p-la em estado de no ser possvel emitir uma opinio segura sbre a sua idade e procedncia. Bem, mas poder ento recorrer-se, dir-me ho, ao exame e confronto do estilo, da maneira do artista. Ora aqui igualmente o bom critrio falha, falto de apoio srio, porque no s, para cada artista, essas variantes no processo pictural se produzem de ordinrio caprichosamente, seno que ainda, quantas vezes! os adeptos e os continuadores duma escola acabam por apaixonar-se pelas caractersticas de execuo do chefe e vo at assimil-las maravilhosamente. A tem o meu amigo Perugino e Rafael: dois temperamentos artsticos de bem diversa ndole, no certo? E contudo, comparados em algumas das suas melhores obras, parecem idnticos. Contrariado e aborrecido por ste giro erudito do dilogo, o Silveira esboou um gesto de impacincia e mandou uma implorativa mirada a _Mrs._ Edith, que folheava uma revista ilustrada, distradamente. O conde prosseguiu: --H ainda a considerar os testemunhos da poca, os chamados documentos histricos, dum grande auxlio, seguramente. Mas tambm stes s por si no bastam. Porque por igual freqente deparar-se uma ou outra tela atribuida a qualquer dos grandes mestres da pintura, sob cujo nome tal ou tal quadro foi inscrito nos Catlogos, e afinal vir a averiguar-se que le para semelhante obra no contribuira mais do que com a ida e dra a firma, tudo o mais tendo sido feito por algum dos seus discpulos. Olhe, a tem: o famoso _Retrato do Rabbino_, durante muito atribuido a Rembrandt, porque em tudo correspondia _maneira_ consagrada dste genial pintor, hoje catalogado como obra de Salomon Konink. E quantos exemplos mais! Agora, sim, a condessa, condoda da mortificada expresso e a confrangida atitude do Silveira, tossicou, ergueu-se e veio de novo oferecer-lhe _bonbons_, piedosamente. Enquanto, palreiro e implacvel, sempre sentado o marido: --Esta deplorvel deficincia de elementos de _contrle_ d como resultado que a gente percorre os principais Museus da Europa e a vai encontrar, ainda hoje, muitas das suas melhores obras registadas e inscritas sobre designaes deficientes ou imprecisas. A clebre _Visitao_ e a _Ressurreio_, do Museu de Berlim, ainda hoje se no sabe a que primacial pincel atribui-las. O mesmo acontece com duas _Madonas_, um _So Loureno_, um quadro do _Glgota_, um _Retrato de Guerreiro_ e vrios outros, todos peas de subido valor, no Museu de Budapesth. O Catlogo contenta-se em nos dizer que so da Escola italiana. E semelhantemente em todos os grandes museus do mundo. Pois bem! amigo Silveira...--acentuou com jubiloso orgulho, abaritonando a voz, aprumando o busto,--para preencher tam lamentveis lacunas achei eu o processo! _Eureka!_ a minha grande descoberta, a minha glria, o meu segrdo. Todos c viro ter... infalvel! E quere saber onde pela primeira vez ficou irrefragvelmente provada a eficcia, a importncia, a utilidade mundial do meu invento?... Foi em Londres, na _National Gallery_. Conhece?... H ali um grande quadro, _The Old Grey Hunter_, que andava catalogado como obra original de Paul Potter. Porm, recentemente, o dr. Bredius formulra a sse respeito dvidas ponderosas, inclinando-se a atribu-lo antes ao belga Verboeckoeven. Grande polmica nos jornais e revistas da especialidade, socorrendo-se cada um dos contendores s suas melhores razes e argumentos, numa renhida discusso sem fim... e sem resultado. Vai eu, que me achava ento em Londres, aproveitei... a ocasio era formidvel!... propus-lhe _crnement_ resolver a dificuldade, pr a limpo a questo, aplicando o meu processo microfotogrfico. Acolheram-me a princpio com um scepticismo incrdulo, mas acederam por fim. E sabe o que aconteceu?...--E arrebatadamente, erguendo-se, num fogoso mpeto de vaidade:--Provou-se, mas provou-se por uma forma insofismvel, entende? que o quadro fra realmente executado por Potter... porm Verboeckoeven pintra o cavalo. No manso rosto complacente de _Mrs._ Edith, e ante a estupefaco alarve do Silveira, perpassou o comentrio burlo dum sorriso. Enquanto doutoralmente o Amglio, em p diante do amigo: --Porque ste meu processo no s nos d a segurana absoluta de saber se um quadro antigo ou moderno, mas qual artista, moderno ou antigo, foi o seu autor.--Sacudiu a cabea e ergueu as mos com encarecimento.--O que ento se nos revela portentoso! Tenho a provas... hei-de-lhe mostrar.--E agora modestamente, encolhendo os ombros:--E contudo um processo bem simples e ao alcance de qualquer que tenha uma certa prtica de fotografia.--Voltou a sentar-se, e com dogmatismo pedante, feita uma pausa de importncia:--A questo esta: cada artista, quando pinta, e considerado ste acto sob o ponto de vista puramente _mecnico_, poisa as tintas na tbua ou na tela _inconscientemente_, tem um toque digital invarivel, traa inadvertidamente uma grafia peculiar, que as centenas de pontas do seu pincel vo de improviso riscando, numa impressiva obedincia ao automatismo nervoso, e naturalmente rtmico, da sua mo. um movimento irreflectido, instantneo, um rasto imperceptvel, que ao mesmo artista escapa, que o seu esprito no dirige, que o seu lho no alcana... e contudo ficar marcando por uma forma incontrovertida, eterna, insofismvel, a genuna autenticidade da sua obra. Qualquer coisa,--entende?--como o reconhecimento duma assinatura por um perito calgrafo, visto que a pena pode considerar-se como um pincel de duas pontas. O certo que os trabalhos de qualquer pintor,--quere sejam as tentativas indecisas da primeira mocidade, quere os documentos fortes da idade madura, quere ainda as j canadas produes da sua ltima maneira,--quando submetidos prova microfotogrfica, e basta ampli-la oito a dez vezes, revelam todos um trao, um toque, uma caracterstica idntica. Em cada uma dessas minsculas anlises se apura sempre, invarivelmente, que as sdas do pincel, uma por uma, vo deixando um fino sulco, ora retilneo, ora quebrado, ora curvo, ora mixto, afectando infinitas formas, porm _idntico_ sempre quando se trata do mesmo artista, e diverso se se comparam artistas diferentes.--E novamente posto em p, sem pausa, sem piedade, no seu monoplio sem trguas da enfriada ateno do Silveira, que debalde ensaiava um derivativo inocente da fugitiva contemplao da irlandesa:--Que me diz a isto, hein? --Eu acho maravilhoso!--acudiu compenetradamente o Silveira, na sua ingnua credulidade; e erguendo-se tambm:--Deve dar-lhe um dinheiral! --Dinheiro e fama. --No precisava deixar a Europa. Tinha a sua fortuna feita. --Alguma coisa se fez j por l... Porm a divulgao de benefcios dstes deve estender-se e apregoar-se bem por todo o mundo. Havia que traz-la a estas improvisadas organizaes sociais da Amrica.--Esfregava as mos de contente:--Vou acabar com a perniciosa oligarquia, com a daninha praga dsses falsos peritos de arte, verdadeiros criminosos, que por tdas as grandes cidades enxameiam e manobram impunemente! E, aqui em Buenos-Aires, conto limpar as galerias particulares de todos os falsos mamarrachos que uma cabotinagem sem escrpulos tem sabido impingir-lhes, a pso de oiro, como obras primas. Vai ver! vai ver! --Uma tarefa benemrita... --E lucrativa, pode dizer sem escrpulos. E os negros olhos ladinos do conde tinham a metalizada expresso duma voraz confiana, ao atribuir-se por ste modo, com o mais audaz desplante, o primado da inveno e o exclusivo da aplicao dum processo que, ao tempo, estava sendo praticado com xito notvel por Laurie nos Museus inglses e por Thionville nas Pinacotcas da Blgica e Frana. Por fim o Silveira anunciou que ia retirar-se, desapontado gal, ante o fracasso formal da sua visita. E solcitamente o conde: --Ento j?... --So horas. --Bem, mas volta manh, no assim? Queremos muito v-lo aqui. --_Without fault, to-morrow_,--instou numa sublinha amvel a condessa. --Teremos j ento a casa um pouco em ordem e as tlas tdas vista,--tornou afvel o marido; e persuasivamente, quse ao ouvido, batendo-lhe no ombro:--Tenho a um pequeno Boucher e um Bastien Lepage que lhe devem convir... H-de gostar. O Silveira sentiu frio na espinha e tomou pronto o chapu, para despedir-se. Crescia-lhe agora na alma, contra a gananciosa estratgia dste charlato sem igual, um vivo movimento hostil, de tdio e de repulsa. Pensou vagamente em no voltar... Porm quando, ao receber as ordens da condessa, sentiu nos lbios a carcia do veludo tpido daquela mo pequenina, todos os seus apetites ribaldos espertaram e o reganharam num instante. Rejubilou, aqueceu... e sau, leve e ufano, todo j no fantasioso encanto das delcias da tarde seguinte. Era uma quinta-feira, dia habitual de _carreras_. Um passeio ao Hipdromo estava indicado. Para poder obsequiosamente acompanhar o amigo, o Azeredo obtivera permisso de faltar nessa tarde ao escritrio. hora prpria, tendo antes apalavrado um _taxis_, seguiram alegremente para Palermo os dois, e em breve se incorporavam e deliam na grossa e luzida _queue_ interminvel, de pees de tdas as classes e matizes, de veculos de todos os preos, de meios de conduo de tda a espcie, que, naquele desapoderado crso favorita diverso _bonaerense_, de tda a parte afluiam e acudiam avassaladoramente, bolsando gente a monte do estribo plebeu dos _tramways_, atirando de golpe as portinholas dos _wagons_ na via-frrea, fazendo pomposamente buzinar e rodar a sua opulncia pelo brunido asfalto das avenidas. Considerava o Silveira com estranheza tam nutrida e animada concorrncia a um dia de semana, um dia de trabalho. O Azeredo explicou-lhe:--que todo o mundo ali jogava, moos e vlhos, pobres e ricos, enfermos e sos, mortos e vivos... as mulheres e as crianas. Era a tintineira geral. Quem no podia dar-se ao luxo de vir a Palermo, fazia obra pelos palpites alviareiros das gazetas. que o jgo, a alicantina, a explorao, a fraude, o intersse, a indstria da burla e o recurso ao azar, eram o vcio, a paixo, o mbil dominante, o desptico nervo propulsor da vida da grande cidade. Os que no apostavam nas carreiras especulavam em terras, jogavam nas loterias ou na Blsa. E ainda havia os que tudo isto sabiam muito bem fazer, ao mesmo tempo. Da coisa mais inocente nos surdia um _estafador_, das mesmas pedras da calada nos tomava de assalto, a cada passo, um ladro ou um agiota.--E abrindo depreciativamente os braos, rematou: --Uma grande banca ao ar livre, uma batota ao abrigo das leis, o que tudo isto. --E tu?...--indagou o Silveira, num despreocupado sorriso. --Ah, eu das corridas gosto. Bem vs... sou de cavalaria. Aos domingos sou infalvel. Cruzavam ao tempo a aparatosa _grille_ de bronze, da entrada, e penetravam no largo e luminoso desafgo do _stand_, que, com as suas luxuosas tribunas, rsticos palanques, pequeninos ronds, _pelouses_ e minaretes, recordou ao Silveira Longchamps, porm mais pobre de pasagem e com menos perspectiva. E, de roda, em pintalgados grupos sbre a escovada areia sltamente ondeando e farandunando, a mesma concorrncia habitual a stes logares, em tdas as grandes cidades; os homens, grandes, fortes, serenos, trajando com severa elegncia, o tipo do espanhol com vontade, no inteiro domnio de si mesmos; as mulheres, desgarraditas e leves, numa harmonia de conjunto impecvel aquatintadas finamente, a airosa silhueta cingida com meticuloso escrpulo ao crte dos figurinos parisienses, mas sem afectao, numa _tenue_ de bom-tom, num _virtuosismo_ ponderado e honesto, a que faltava aqui a nota _criarde_ das _demi-mondaines_ lanando o estouvado prego das ltimas extravagncias. Era um pouco tarde. J os primeiros nmeros do Programa haviam passado, e estava-se num intervalo. Havia um grosso embate mundano junto aos vrios _guichets_ dos cbros e vendas. Cortava a suavidade pacfica do ar o zangarreio spero, burlo, de dois aeroplanos. Crca do recinto da pesagem, um rijo moceto trigueiro, desbarbado, gordote,--de grra, _veston_ de presilha e polainas,--ao defrontar com o Azeredo exclamou familiarmente: -- amigo Azeredo, _como le va_? --Bem, _gracias_! meu caro Jorge. E _Usted_?--acudiu, com um cordeal aprto de mo, o interpelado. E seguidamente, apontando ao lado o Silveira:--Permite-me que lhe apresente o meu querido compatriota e amigo Joo da Silveira?--E logo para ste, com insinuante expresso, completava:--O sr. Jorge Saavedra, argentino, cavalheiro muito distinto, um dos meus melhores amigos. --_Ah, tanto gusto_...--mastigou entretanto Jorge, numa sublinha indiferente quele _shakehands_ banal a um desconhecido. Mas, tomado de sbita simpatia ao encarar melhor a figura aberta e varonil do Silveira, tornou com intersse:--E h muito que se encontra em Buenos-Aires? --Recm-chegado apenas... h dias. --E que impresses tem do meu pas? Agrada-lhe? --Enormemente! Uma linda cidade e um povo cultssimo. Deve ser encantadora aqui a vida. O Saavedra sorriu, num jubiloso estremecimento de vaidade. Enquanto, tocando-lhe na espalda, o Azeredo: --E os seus favoritos hoje?... Agora, no _handicap_? --No corre nenhum produto de marca... _ch_, c dos meus. No me interessa. --Bem, e a seguir, no clssico _Montevideo_? --Oh, bem fcil... A vitria seguramente vai ser de _Packoy_. --Tambm vou por le, sim. Linda estampa, elasticidade, nervos, magnfico sangue... --E montado por Arturi. No h que duvidar! D trs quilos de vantagem; porque est bem seguro da vitria. Caminhavam agora de manso os trs, marginando a pista e sem maior intersse pela corrida, pronta e fcilmente acamaradados. Jorge Saavedra desfazia-se, a um e outro lado, galanteador, afvel, em rebuscados cumprimentos, protectoras miradas e acenos abundantes. Os olhos espertos do Silveira perdiam-se nas cres berrantes dos _jockeys_, na vivacidade marulhenta do recinto, na perturbadora abundncia de deliciosas figuras femininas. O Azeredo rejubilava, irrequieto, vivo, sempre aos saltinhos; e com familiar confiana tornou para o Saavedra: --Diga-me, amigo Jorge, e para o clssico _Chevalier_ que aposta fez? --Isso nem se pergunta! Vou por _Canora_. --Como _Canora_!? vontade de perder _plata_... Eu aposto por _Chaica_. --_Chaica?_...--atalhou por sua vez o Saavedra, parando, com um rir trocista.--S por _broma_, _vamos_... _Es una cabuleadora_. -- filha de _Pearl Rivel_!--redarguiu com intimativa o Azeredo, formalizado.--Ora essa! Cumpridora a mais no poder ser. A sua primeira prova foi a primeira vitria. No se lembra? no viu que _performance_ mais distinta?... No trno desta manh sei eu que fez os 700^m em 41''. --No importa! no importa!--objectou Jorge, reatando a andar, implicativamente.--_Canora_ filha de _Old Man_ e procede do _haras San Jacinto_, bom no esquecer. voluntariosa, por vezes, tem um jgo irregular, certo. Oh, mas no h a uma competidora com _ms clase_ e melhor estampa! --No domingo perdeu. --Por meia cabea, smente. --Pois hoje perder por cabea e meia. --_Ya lo veremos_,--pontualizou o Saavedra com arrogncia. E de repente, esperto e firme, agitando imperioso o brao:--O _Montevideo_, agora! Ateno! Se _levantan las cintas_... A partida! a partida! Os seis ptros da escolhida _quipe_ para o clssico _Montevideo_ haviam largado, com efeito, a tda a rdea, imponderveis, distensos, o pescoo em flecha, disparada a garupa, os jarretes flamejantes fazendo voar a terra. Com simultneo gudio do Saavedra e do Azeredo, _Packoy_ iniciou galhardamente a direco do movimento e nesse posto de honra se aguentou e cumpriu, durante os primeiros 600^{m}; porm depois, de tranco a tranco marcando cada vez mais curto, inexplicvelmente, foi-se deixando levar de vencida por forma que, ao desembocarem na grande recta final, o seu distanciamento era j sensvel. Entretanto, _Grey-Eyes_, um enxuto e gil potrito castanho que se estreava nesta corrida, atacando por fra, ganhava o posto dianteiro, que manteve at final, vitorioso _leader_, ao passo que _Packoy_ apenas em quarto logar alcanou a mta. O Azeredo barafustava e erguia os punhos cerrados, em ganas contra o _jockey_ duma arremetida justiceira, furioso, saltitando. Enquanto, numa concordante exploso de clera, o Saavedra: --Por culpa daquele _imbcil_ de Arturi! Sempre com a mania de conter as montadas, a reservar-lhes o maior esfro, para efeitos teatrais, no momento decisivo. E depois d destas _planchas_! Iam tam bem... O que le precisava! E golpeou desapontado com o chicote a sbe florida da vedao, deslocando-se em largas e violentas passadas, o lho minaz, as narinas aflantes. Trouxe-lhe uma compensadora desforra a corrida seguinte, que resultou um verdadeiro _match_ entre _Chaica_ e _Canora_, a sua ardente favorita, a qual por mais de meio corpo atingiu primeiro o disco. Porm desta vez Jorge, delicado e comedido, no querendo ferir os machucados brios do Azeredo como prtico do _turf_, celebrou com moderado entusiasmo o seu triunfo. Faltavam ainda duas corridas; porm o Silveira de relgio na mo, tomado dum vago embarao, arriscou--que no podia demorar-se. O Azeredo, que estava ao facto do compromisso galante por le tomado na vspera, desculpou-o. Mas, sinceramente penalizado, o Saavedra, dando preguioso a mo a ste fulminante captador da sua simpatia: --Retira j?... _Qu lastima!_ --Eu que sinto imenso ver-me forado a privar-me, assim de repente, de tam amvel companhia. Mas... o Azeredo sabe... -- certo, ... Precisa deixar-nos--confirmou pronto o amigo; e sbito com um jubiloso relmpago na pupila insinuante:--Mas eu tenho uma ida, amigos! Podemos comer hoje os trs juntos. uma compensao.--Premiu afvelmente o brao de Jorge:--_Tiene Usted compromiso_? --No... para hoje, no... --ptimo! Considere-se ento convidado, hein? --_Convenido_. --s 8, no _Petit Salon_.--E com vivacidade, para o Silveira:--Tu espera-me no hotel. Vou-te buscar. Sadando ligeiramente, o Silveira partiu logo. Pouco depois das 5 horas estava em casa dos Di Paoli, tendo antes comprado, na passagem por Callao, um fino ramo de _muguet_, a flor predilecta da condessa. Fez retinir fortemente o boto elctrico. Ia decidido a atirar-se de vez, a arriscar um resoluto golpe de audcia que pronto lhe assegurasse o triunfo definitivo.--E que auspiciosos prenncios para o seu intento! _Mrs._ Edith estava s, e um verdadeiro apetite, arranjada lindamente. Pela abundncia clida do cabelo uns toques dstros de ferro haviam passado, ondeando-o ao de leve; no menos dstras pinceladas de _kohl_ haviam engrossado a linha sensual dos clios, haviam como que incendido num voluptuoso fogo latente a macerada sombra das olheiras; e daquela plstica impecvel os movimentos rtmicos podiam ntegros surpreender-se e adivinhar-se, pelas indiscretas lisuras e os denunciadores refegos do precioso _kimono_ de sda _grenat_ que os cingia apenas, sltamente, deixando por inteiro a nu os antebraos e a alvura do colo deslumbrante, que nas suas linhas de contacto com a sda adquiria reflexos duma rosada e fluida transparncia, como se fra carne feita de prolas modas. Foi um verdadeiro _coup de foudre_ para o Silveira a inopinada fortuna desta situao e o supernal encanto desta figura. Beijou a mo da condessa e entregou-lhe o ramo, tremendo ligeiramente, sem palavra ferir, a lngua sca e os lbios frios. Ela correspondeu deixando fugaz entrever, num sorriso discreto, a rociada frescura dos dentitos brancos. Agradeceu o mimo da lembrana em carinhosas palavras, para a rasa insuficincia linguista do Silveira arreliadoramente intraduzveis. A seguir, muito naturalmente, prendeu sbre o corao dois dsses cachos de minsculas caoletas perfumadas, e sem perturbaes nem pressas, o olhar vago e repousado, sempre tranqila, foi acomodar os restantes com atento esmero numa enfusita de vlha faiana, que trouxe da alcova.--Veio ao tempo a _mucama_, trazendo numa bandeja o ch e dois pratitos mais, um com _sandwiches_, outro com bolos secos, sofrivelmente sdios. Disps em silncio o servio sbre o pano coado da mesa e rodou num instante. Na mente escandecida do Silveira o desejo, o ardor e a fria ertica subiam de ponto. A sua incorrigvel fatudade, os numerosos e fceis triunfos que ilustravam a sua larga flha de conquistador, debruavam-lhe das falaciosas cres dum prisma demasiado optimista a singularidade algo problemtica da situao; faziam-lhe tomar por claros propsitos de seduo, por um convite formal ao galanteio, o que no passava talvez dum ardiloso lao feminino. Pelo momento, a condessa convidra-o simplesmente a sentar-se e servia-lhe o ch, com adorvel intimidade, era certo, num abandno insinuante, avanando para le o brao nu, enquanto as amplas prgas do _kimono_, dobrado frente, desnudavam por igual, em perturbadores relances, a rsea maravilha do colo erguido em suaves ondas de pecado. E tentava explicar-lhe:--O conde no estava... no poderia talvez vir seno tarde.--Quando o Silveira tal chegou a compreender, sentiu nas orelhas um calor de evidncia, e na noite ardente das pupilas relampeou-lhe um cntico de vitria... Mas aqui o seu grande embarao! Queria mostrar-se um gal altura, dominador seguro dste lance de favor; urgia que iniciasse verbalmente o seu ataque; porm como?... se stes soberbes ingleses faziam gala em no manejar outra lngua seno a sua! Como em nenhum idioma os dois podiam claramente entender-se, as suas abortadas tentativas de dilogo resultavam assim um desbarato de palavras, confuso e estril, um titubeio divertido e por vezes cmico, um atabalhoado duelo de absurdos, desfechando sempre na mesma burlesca e formal impotncia, cortado de suspenses, sublinhado a risadas. Havia que suprir a deficincia da frase pela abundncia e a vivacidade do gesto, muitas vezes. E lascarinamente o Silveira aproveitava para desbordar-se em atrevidas manobras digitais, para arriscar sorrateiros toques sugestivos e ensaiar, como filhas do acaso, aproximaes lascivas,--que _Mrs._ Edith acolhia entretanto com inaltervel singeleza, como que sem dar-se conta, desprevenidamente, abotoada numa cega inconscincia infantil e numa frialdade desesperante. Esta atitude inverosmil da condessa desconcertava o Silveira, punha-o doido de despeito, de raiva e de desejo.--Que demnio! Voltava a esbarrar com a mesma diva impassvel, a mesma criatura calma, desentendida e ingnua do comeo da viagem... Vo l entender mulheres! Essa deliciosa, essa picante doidelas dos dias de Entrudo escapava-lhe outra vez!--E no desnorteado furor que o aquecia, le j descia a processos de mau gsto, cometia imprudncias, roava-a ombro com ombro, apertava-lhe o pulso, tocava-lhe o p debaixo da mesa.--Ento, sbitamente, e como que obedecendo a algum convencionado sinal, fez a sua inesperada apario na salinha a dona da casa, Lady Cowper, sobraando um paquetito.--Alguns dos trabalhos das suas discpulas, que ela vinha obsequiosamente mostrar ao recm-vindo.--O Silveira teve ganas de lhe morder. Ela era uma quarentona repulsiva e obsa, vestida de amarelo, pequena, ruiva, de olhos claros, marcada por abundantes sarapintas de bistre na face enlagostada. Mesureira, bajulando, adiantou-se a sadar, com o seu sorriso verde de criatura falhada, e logo a sapuda concha das mos sardentas a semear pela mesa uma parada de midas bugigangas. Eram rebuscadas miniaturitas, medalhas e iluminuras banais, camafeus, embrechados, pirogravuras e esmaltes, de pssimo desenho, duma execuo vidriosa e dura como o aspecto paleoltico da professora. Esta porm, importante e de p, o ventre contra a mesa, no despegava de encarecer essas efmeras obritas de _virtuosismo_ barato, mostrando-as com ufania, uma por uma.--Que visse bem... aquele finssimo esmalte _Lus XV_... sse delicioso retratinho com moldura _Imprio_... _uma liseuse_ para um livrinho de Horas... esta preciosa moldura gtica em cobre rebatido. E aqui... e agora... e isto mais. Verdadeiras peas de arte, havia de convir. O que no admirava, feitas como eram tdas por meninas da primeira sociedade.--Exprimia-se num mau castelhano, horrivelmente gutural, ora aspirado, ora cortante, como golpes de machado rasgando lenha. E passava sem cessar a aborrecida miualha s mos do Silveira, que no propsito inocente de correr breve com a importuna, tomava fulo cada pea e logo a arrumava, aps um exame sacudido, sumrio, quse agressivo. Baldo estrategema, porm, porquanto aquela empatadora inexorvel tomava agora familiarmente assento ao lado dle, e numa astuciosa derivante, erguendo a esborifada cabea e passeando com admirao as pupilas deliquescentes pela sala: --Soberba coleco! no haja dvida. Um verdadeiro museu. Fazia a minha fortuna... J reparou bem, sr. Silveira?--E num propsito de baixa adulao, com intimativa, alongando o brao:--E que fino, que lindo o retrato da senhora condessa! Que no est favorecida... S agora o Silveira notou que, com efeito, uma aparatosa fileira de tlas, em ricas molduras doiradas, remoava e fazia viver dos brilhos da sua cantante policromia a tristura pelintra das paredes. A um canto havia, contrastando deplorvelmente, pela realizao e pela factura, com todo sse broslamento sbio de figuras, de planos e de tintas, um perfil a leo da condessa. Como j fazia escuro, _Mrs._ Edith dirigiu-se ao prendedor elctrico, a soltar a luz; no momento justo em que o marido entrava e vivaracho, alegre, atirando o chapu, seguiu direito ao Silveira, a apertar-lhe a mo. E logo, dando-se conta do ponto onde curiosa a sua ateno incidia: --Aquilo um modesto ensaio meu. No vale nada. --O modlo no podia ser melhor... O conde baixou a cabea e dobrou-se, num grato desvanecimento. -- que eu pinto tambm um pouco, no sabia?... Tdas as belas manifestaes da arte teem em mim o mais insignificante dos seus cultores. A seguir, desatou-se em prolixas e sabujonas desculpas por ter vindo assim em _retard_, faltando, bem a seu pezar, a um compromisso para le tam aprecivel. E esfregando as mos com rudo: --Mas estou contente! Parece-me que tenho j local para a exposio... e de graa. O salo dum compatriota meu, que fotgrafo, na _calle_ Viamonte,--a fotografia mais elegante, mais _smart_, mais _select_ de Buenos-Aires. Lady Cowper, sentindo agora a sua presena dispensvel, havia deslizado ignoradamente. Entretanto o Amglio, com o olhar vivo e matreiro, em presunosas atitudes tomando a sala tda: --E ento, agora, v bem como so preciosas as minhas tlas! Que grande lio esttica eu venho trazer a esta gente, que coleco rara, que magnfico conjunto!--Depois, cabotino, insinuante, travando confiado o brao do Silveira e pondo-o na frente dum pequeno _estudo_ de pasagem, onde uma figurita banal de alde se esboava, perdida numa _aleluia_ primaveril de papoilas e malmequeres:--Aqui tem o seu Bastien Lepage. --O meu qu?... --O quadrito, sim, que lhe destino. Uma pequena maravilha, como v... Note como ali assim a figura poisa singelamente e sem _ficelles_ de destaque, tocada simplesmente, com o mesmo valor de todos os mais acessrios do quadro. Era, como sabe, a caracterstica dominante dste grande mestre naturalista.--Encarecia sugestivo a expresso:--Uma tentao, no ?...--E suasivo, assentando-lhe a mo sbre o ombro:--Que me diz? Cabisbaixo e mudo, vergado ao pso do fulmneo ataque, o Silveira interrogou numa mirada suplicante _Mrs._ Edith, cujos olhos doces esboaram uma solicitao de anuncia, irresistvel... E le ento, pvido e submisso: --Bem... mas por quanto? --Oh, meu caro amigo! Isso uma questo puramente secundria. Entre ns, j v... Qualquer coisa... Nem vale a pena falar... Se as coisas me correrem bem, terei at muito prazer em lhe fazer presente dle. --No, mas eu que no quero... --Depois! depois! Sbito, numa bem marcada simulao de desinteresse, o conde sentou-se ao piano, e sltamente: --Quere ouvir uma valsa que improvisei esta manh? Vou tambm dedicar-lha. E, com um ar bomio impagvel, bamboando o busto, os olhos em branco e a cabea sbre a nuca, fazia gemer numa batida montona de compassos triviais as cordas desafinadas. Nos nervos em sobressalto do Silveira corria o mesmo frio arrepio da vspera, agora mais spero, mais persistente... subsistindo ainda e vibratilizando-o, minutos depois, j rua fra, junto com o exaspro ntimo pela sua passividade, a sua indeciso, o seu acobardamento estpido ante aquele descarado assalto integridade da sua algibeira. Numa vergonha instintiva, absteve-se de contar o humilhante episdio ao Azeredo, que pouco antes das 8 veio demand-lo ao hotel, conforme se combinra. Saram logo depois, a p, a tomar a _calle_ Esmeralda, e por esta se internaram at ao ponto onde uns mocitos de libr encarnada lidavam porta dum grande barraco, murado de espelhos. -- aqui, meu vlho. Espera um instante. Dizendo, o Azeredo entrou ligeiro e atento, a buscar se acaso o Saavedra j estaria, e a marcar uma mesa; enquanto c fra o Silveira seguia alheadamente o taquinar miudito das _muchachas_ que entravam para o _cinema_ defronte. O Saavedra apareceu por fim, s 8 e meia.--Vinha um pouco em atraso... mas era muito ba hora, _verdad_?--Acolhido pelo festivo aplauso dos dois amigos, e num momento estavam todos mesa. Jorge vestia agora um _jaqu_ negro irrepreensvel, fechando por um s boto e extremamente cintado, colete de bandas brancas, folgado e muito aberto, uma linda prola a prender o n esguio da gravata, cala raiada de fantasia e bota de polimento. Foi le o investido das graves funes da escolha do _menu_.--_Petits canaps_ de _caviar_ para _hors d'oeuvre_, uma rica _crote au pot_, filetes de linguado com mlho de ostras, depois uma _entrada_, espargos, e por fim um prato crioulo, o coireceo _churrasco_, especialidade da casa.--A questo das bebidas foi rdua, pouco menos de insolvel. O Silveira lembrou tmidamente o _Colares_, que no constava da lista, no havia; ento Jorge patriticamente insistiu que provassem _Trapiche_: porm o Azeredo ops-se, com um depreciativo distender do lbio, e optou-se afinal por um qualquer _Borgonha_ de duvidosa procedncia. Jorge iniciou a comida com apetite, e agitava-se petulante, ufano, folgazo, todo ainda no vibrante estmulo das emoes hpicas da tarde. --Oh, aquela impagvel _Canora!_ que _preciosura!_ Viram bem?... Correu os 1:400 metros em 1',22. verdadeiramente o _record_ mundial da velocidade, jmais registado nos anais do _turf_. Eu esperava muito dela, mas no tanto, palavra! Vale o seu pso de oiro. --De quantos quilates?--amolou, trocista, o Azeredo. --Oiro portugus, antigo... do tempo dos vossos Brass,--soube ripostar pronto o Saavedra, numa lisonjeira evocao que os dois acolheram com um quebrado sorriso. E sempre contente:--O certo que esta vitria no s exaltou os meus brios, como trouxe a mais agradvel compensao aos meus desastres anteriores. Porque, meus caros amigos...--E numa aberta de intimidade, abatendo a voz, dobrado sbre a mesa:--Nestas duas semanas ltimas de _carreras_ saram-me da algibeira ao redor de trs mil pesos. _Un clavo_... Mas a pap direi que perdi trezentos.--Depois, atencioso e outra vez natural, para o Silveira:--E em Portugal h _aficionamiento_ pelo _sport_ hpico? --Um pouco... --Bastante! bastante!--acudiu o Azeredo, num saltinho convicto.--H muito bons cales. Tem agora havido, no hipdromo de Palhav, uns concursos internacionais muito brilhantes. --Ah, eu recordo-me de ter visto no _Palace Thtre_,--obtemperou Jorge, complacente, atacando a sopa,--um _film_ intitulado _Os Centauros portugueses_, que era realmente admirvel. --Sim! sim! trabalhos da nossa escola de Cavalaria. --Que _raids_! que saltos... que segurana, que destreza! No se pode exigir mais. --E pode o amigo diz-lo sem favor. Superior aos italianos!--jactancioso o Azeredo rematou. E serviu cordialmente vinho ao Saavedra, que, da a momentos: --Eu p'r'a semana volto ao campo. Tenho tda a famlia l, aqui j tratei do que tinha a tratar, e pap no abona mais _plata_.--Encarou numa penhorante afabilidade o Azeredo:--O amigo, j sei, no pode vir... _qu lastima_!--E para o Silveira, abruptamente:--Porque no vem comigo? Ante a inesperada oferta, os olhos ladinos do Azeredo dilataram-se de espanto, quse incrdulos, e o deslumbrado Silveira aprumou-se, num estremecimento de grata surprsa. Com sincera espontaneidade Jorge insistiu: --Venha! Digo-lhe isto de vontade. --Muitssimo agradecido. --No conhece ainda pap nem a minha famlia. Mas no importa! Fra da cidade no h protocolo nem cerimnias. E eu posso levar as pessoas que me apetea. Tenho carta branca, _ch_... fao o que quero. --Vai, vai, meu rapaz!--estimulou, crepitante de jbilo, o Azeredo. --Bem v, Buenos-Aires neste tempo detestvel!--tornava entretanto, com enfatuado ar, o Saavedra.--No h ninguem, morre-se de tdio. As famlias com quem se pode tratar, _la gente bien_, est tudo fra... veraneiam pelas _estancias_, como ns, pelo Tigre, Montevideo e Mar del Plata. Bastantes deitam t Europa. E quem no tem _mosca_, _ch_... para dar-se qualquer dstes inocentes regalos, encurrala-se hermticamente em casa. --Pouco mais ou menos como em tdas as grandes cidades. --_Si pues_... Porm o sr. escolheu realmente para a sua digresso America uma poca aborrecida. No h _recibos_, festas, no ha _Coln_... _Nada ni nadie_. _Que va uno hacer_?...--Encolhia os ombros com enfado; e a seguir, alegre, fanfarro, abanando promissoramente a cabea:--Mais tarde, no inverno, sim! a grande animao... teatros, bailes _farras_, _clubs_...--Franzia brjeiro os olhos:--E h ento por' assim umas _tertulias_ de concorrncia mesclada, que so deliciosas... onde _uno afila_ vontade e onde no faltam _mujeres guapas_ entre as quais se pode mesmo, manobrando com discrio, _sacar una bolita_... Passava junto dos trs, neste momento, um curioso tipo de vlho precoce,--desbarbado, pequeno, os lbios sensuais, longo nariz rebatido, na prga froixa das plpebras a marca lvida das viglias. O Saavedra premiu-lhe familiar o antebrao: --Meu caro Belisrio, como vais tu?... Senta-te um pouco. Queres comer? --Ainda agora eu almocei... E com um arrastado ar _blas_, sem mesmo olhar os convivas, molemente, afastou-se, dandinando. Jorge aclarou: -- Belisrio Ruz, grande amigo meu... um incorrigvel _guarango_, um _picaro redomado_. Aparece l pela _estancia_, algumas vezes. Depois, na mesma cativante afabilidade para o Silveira, reatando: --Espero que se resolva e me d o prazer de acompanhar-me.--Que eu nada mais posso oferecer-lhe, l baixo, que uma casa de campo modesta e mais modesta ainda a companhia. Pap, mam e _mi hermana mayor_... _Nadie ms_... Que eu tenho uma outra irm, casada; porm vive em Paris. Tem um filho, de 16 anos, que um rico amor de sobrinho. So os encantos de pap... Mas, j digo, esto longe. Aqui na _estancia_ o amigo sentir-se h um pouco s... porm o que lhe vai faltar em atraces de convvio caseiro, sobrar-lhe h em hospitaleira franqueza, em pitoresco, em indito, em sol, em liberdade. --Estou positivamente encantado... --Mam uma santa. -- certo,--corroborou com amvel convico o Azeredo. --Passa os dias pelos _ranchos_ da redondeza, a mitigar dores e adoar misrias... Agora minha rabugenta irm, a pobre Clia--tornou Jorge com uma afectuosidade tolerante,--essa aparece pouco e anda sempre de mau humor, porque lhe faltam as igrejas.--Depois, com mal contida ternura:--Resta pap... ste um caturra adorvel, um moralista, um filsofo, um sonhador... mas moda antiga. E ento que morre por conversar! Em le apanhando uma vtima a geito, nunca mais acaba. Um _latero_ muito sofrvel, j o sr. fica sabendo... Mas h que desculp-lo: homem doutra poca, conhece a histria com'os seus dedos, foi contemporneo de tdas as grandes figuras da nossa brilhante renovao social e intelectual, de h quarenta anos. De sorte que, assim, na sua ronceira opinio, tudo o actual mau... no h nada como os homens, os sentimentos, os costumes e as coisas do seu tempo. At a nossa mesma casa aqui em Buenos-Aires, h-de ver... como que uma flagrante exumao do passado. Escura, desconfortvel, triste, cheia de coisas vlhas... parece um tmulo. E imediatamente, a desvanecer a impresso de enfriamento que por ventura a sinceridade juvenil da sua exposio houvera feito alastrar no simpatismo espectante do amigo: --Agora tambm devo dizer-lhe: se acaso a minha prima Maria Mercedes se resolve a aparecer, como prometeu, ento tudo aquilo toma outra vida, outra animao... como a passagem da noite ao dia, torna-se a _estancia_ um paraso. --Com efeito! --Ela uma criatura preciosa, rara, singular! dito por todos... deslumbrante como uma deusa e perigosa como um demnio. --No tenho a honra de a conhecer,--acudiu ladino o Azeredo; e todo vibrante, num gesto cmico de defesa:--Nem quero! Jorge sorriu; e com intimativa crescente, comprazendo-se na sua galante e calorosa apologia: --P'ra mim no, que temos demasiada intimidade, mas p'r'a grande maioria dos homens esta minha prima o que se pode dizer uma verdadeira tentao.--E insinuante, jovial, quse orgulhoso, detalhava:--Viva, rica, com 25 anos e sem filhos, fresca, novinha em flha; pode dizer-se... apetitosa; e numa terra como os srs. dizem que esta nossa, de mulheres bonitas, passando por ser das mais formosas. Imaginem! _una monada_. O Silveira escutava, silencioso e cabisbaixo, sob a tirania voluptuosa dos sentidos. Jorge completou: --Depois, ilustrada, viva, inteligente. Que ditos finos, que conceitos subts, que mordacidade, que esprito, que respostas a tempo! E o que aquilo vai buscar p'ra tma de conversa! S ouvindo-a... Aqui h uns dias, o dr. Farmin Gonzles, um dos nossos homens de mais _verve_ e maior prestgio intelectual, quis medir fras com ela. Pois, senhores! a flhas tantas declarava-se vencido. --Nessa contingncia me no verei eu... juro!--tornou o Azeredo, no seu gesto gaiato. De sua banda o Silveira, estimulado, baboso, aventurou: --Deve ter muitos admiradores? --Seguramente! So aos centos. Como por exemplo, ste _imbcil_ Belisrio. Porm, ela _no les lleva el apunte, ch_... No h um que se possa gabar! mais indomvel e arisca que uma _potranca perdedora_. Ter ocasio de ver... Servia o moo, ao tempo, o clssico _churrasco_,--uma pantagrulica montanha, cebcea e sangrante, de carnes laceradas em bruto, de gorduras, ossos, coirama tendes, chamuscada e encorreadas fveras. Numa instintiva nusea, o Silveira arredou a travessa, desviando os olhos. --Deus me livre! Isto alimento para estmagos blindados. --Tudo vai do hbito...--comps o Azeredo docemente. Ao passo que Jorge, com um ademan desdenhoso e implicante, voraz, servindo-se com abundncia: --Eu acho delicioso! E uns breves minutos mais passaram os trs amigos nesta charla despreocupada e alegre, espontnea exteriorizao da mtua simpatia, da ntima conformidade de sentir que tam auspiciosamente parecia lig-los, e que a esticada munificncia do Azeredo quis que fsse selada a _Champagne_. despedida, depois, por seu turno Jorge intimou que voltassem a renir-se, domingo prximo, no Hipdromo.--E que nessa noite comeriam com le no _grill-room do Plaza_. --Ser a despedida. Retiro tera ou quarta-feira; porm no descanso sem colhr a certeza de que no irei szinho... E, na solicitao gentil duma anuncia, cravava os olhos expressivos no Silveira, que, gulosamente, com a perturbadora viso dessa misteriosa prima a incender-lhe a fantasia e a arranhar-lhe o desejo: --Estou quse resolvido... No domingo seguinte, pela tarde, ao entrar o Azeredo, no hotel, pelo quarto do Silveira, encontrou-o de mau humor. Amadornado no _fauteuil_, junto janela, lia distradamente um jornal, que atirou longe, mal sentiu o amigo, num movimento brusco e fransindo a testa. --Que tens, amigo Joo, que isso?... --Nada... --No... algo tens que te contraria ou aborrece. O Silveira permanecia bisonhamente mudo. At que, a novas instncias do amigo, e com mal contido despeito, num sacudido gesto de desgsto: -- que, francamente, no compreendo esta gente! O Azeredo sentou-se-lhe defronte, e meio curioso, meio trocista: --Que mal te fizeram?... conta l. --Por vrias vezes te tenho falado no meu delicioso convvio a bordo com os Wimeyer, sabes?... Eu ingnuamente supus que se tratava duma espontnea e lial amizade, que nos ligaria o que quere que fsse de sincero, de ntimo, de cordeal, no verdade?... alguma coisa mais do que essas mentidas e efmeras relaes contradas em viagem, e que, uma vez terminada esta, logo esquecem, como se largam as malas. Pois imagina tu que ontem, como era natural, fui visit-los. Vem-me porta uma criadita espevitada e com cara de fasto, que me recebe desconfiada, arisca, quse hostil, mal amostrando a cabea pela porta entreaberta. Depois, apenas eu declino o meu nome e anuncio ao que ia, retruca-me logo com uma grande secatura:--As senhoras no recebem.--E, zs! tam pronto colheu na mo os meus cartes de visita, sem dar mais cavaco, d-me com a porta na cara. O Azeredo torcia-se em esgares trocistas e ria, ria, gaiatamente. --Ah! ah! ento por isso tanta arrela? --Tu ris?... --Sem dvida. --Achas pouco? --Acho que no tens motivo nenhum para tam saloia indignao, e que o que te aconteceu tudo quanto h de mais natural.--E doutoralmente explanou:--Pois ento tu pensas que isto aqui assim como l na nossa _parvnia_, onde estamos sempre de braos abertos para acolher quanto importuno se lembre de nos ir moer a pacincia e estragar as horas?... Annh! aqui fia mais fino... Aqui tudo anda cerimoniosamente regulado, pautado e medido; as relaes e os negcios, os dios e as afeies, o sentimento e o intersse. --Um pouco como em tda a parte. --Aqui mais do que em parte nenhuma... Cultiva-se a sociabilidade a distncia. Famlias que se dizem ntimas, vem-se duas vezes por ano. Olha, sabes que mais? tens que comprar um livrinho que a h, de marroquim azul e flhas doiradas,--custa-te dez pesos, o equivalente a quatro escudos,--barato no ... mas, alma piedosa como tu s, deves d-los por muito bem empregados, porque essa _massa_ destina-se ao custeio duma obra pia qualquer, privativa funo do _high-life_: a Associao _del Divino Rostro_. uma coisa do tom.--E, reatando:--Ora nessa espcie de mundano florilgio tu vais encontrar, metdicamente distribuidos por ordem alfabtica e pdicamente apartados segundo os sexos, todos os nomes, sobrenomes, apelidos, moradas, e a direco telefnica mail'a indicao dos dias de receber, das famlias que se przam, tda a grada gente. um cdigo inviolvel, sabes? um ndice de elegncia, um complicado e melindroso calendrio social, cujas efemrides so infalveis... So dogmas, so escrituras. Por isso o seu conhecimento, o seu uso se torna imprescindvel _ los muchachos distinguidos_ como tu.--Ao ameno afago destas leves humoradas, o rosto cenhudo do Silveira desanuvira; e prazenteiro e custico, o amigo:--J sabes pois que fra de tais prazos rituais da etiqueta, nenhuma dessas meticulosas figuras acessvel. No so criaturas reais, so abstraces, so smbolos... sobretudo agora. De sorte que, realmente, demand-los nos dias dos seus convencionais eclipses, conforme tu fizeste, um triste documento de plebeismo, uma _gaffe_ imperdovel. --Quro l saber!--atalhou de mpeto o Silveira, num sobranceiro dar de ombros, mas no ntimo vxado, erguendo-se. --Que remdio tens tu! se quiseres tratar com gente limpa,--contestou, numa ironia amvel, o amigo; e rpidamente, tendo consultado o relgio, erguendo-se tambm:--Vamos, que so horas. Depois, j fra no _hall_ os dois, e enquanto esperavam o descensor: --Tu deves mas aproveitar e ir at ao campo. Repara bem que ste convite do Saavedra foi um rasgo positivamente imprevisto, raro, excepcional... eu ainda no quero crr. s um burro de sorte! Porque no est nada isto no carcter argentino. So amveis e hospitaleiros stes bons _porteos_, certo... porm morosos sempre e difceis na exteriorizao do seu agrado.--Bateu-lhe no ombro com entusiasmo:--Caste-lhe em graa, no h duvida! --Sei l... --E depois, stes Saavedras so das poucas famlias autnticas de antiga linhagem, que, com os Vicente Lopez, os Lastra, os Alvear ou os Acosta, ainda a figuram e manteem as nobres tradies do vlho tempo colonial. So ptimas relaes, j vs... e a melhor chave pr'a te franquear no inverno o ingresso ba sociedade, como desejas. Atingiam, em baixo, a rua; e ento o Silveira com os lbios crspos e uma vaga onda lbrica a empanar-lhe o esmalte dominador dos olhos, aventurou docemente: --Aquela prima... --A est! P'ra mais, com o lascivo apetite da prima j a aquecer-te os miolos... E mais, quem sabe? talvez que a ela lhe quadres. Marcha! marcha, homem! Que mais queres? O Silveira atirou-se de golpe, apreensivo, sonhador, para o ffo recanto do _taxi_ que haviam tomado, e enquanto faziam o caminho de Palermo, poucas palavras trocou com o amigo. Ia alheadamente escrutando os indecisos aspectos morais da sua situao. Repugnava-lhe aquela fria subalternisao, aquele anonimato estril do presente; vinham vagamente acariciar-lhe a fantasia miragens promissoras do futuro.--A coisa afinal estava bem clara: essa ideal Irene aparecia-lhe uma criatura inabordvel... a amizade desbordante dos Amglio no passava do verniz caviloso duma descarada explorao. E dos mais... disse! Nem conhecimentos, nem apetites. Que demnio fazia le ento com tal gente, ali assim?... Seria perder o seu rico tempo. Pouco menos que um achincalho. Soberanamente ridculo... No era p'r'o seu feitio!--Assim, quando os trs, j noite feita, regressaram do Hipdromo, estava justo que o Silveira acompanharia Jorge _estancia Amlia_. Belisrio Ruiz tambm por l devia aparecer. Lialmente, o Azeredo lamentava no poder fazer parte do rancho, e aplaudia-se de haver sido o espontneo e gostoso interventor daquelas duas abertas simpatias juvens. E numa efusiva e sincera mutuao de impresses, os trs foram seguindo, chalrando compita, deblaterando anecdotas, concertando planos, visionando fortunas, soprando projectos irisados dos cambiantes esplendores da mocidade. Passada porm a avenida Santa F, o _auto_ teve que ralentar sbito a marcha, e qualquer coisa de anormalmente pejorativo e tumulturio lhes travou com fra a ateno. que na sua frente, agora, uma formidvel e pesada barreira, uma barricada estrepitosa e farfalhante, se fechava, de _tramways_, de cavaleiros, ciclistas, coches e _autos_; de meios de conduo de tda a casta, cada um vibrante e lerte na ncia de adiantar-se aos demais, e o seu arrastado travamento paralisando o trnsito, tomando de ls a ls a rua tda. No era smente a luzida afluncia dos que de Palermo regressavam, como les; era algo mais que o grosso movimento domingueiro, habitual da rua: era qualquer coisa de deliberadamente chocarreiro, de impetuoso, de trocista, de hilare e audaz ao mesmo tempo, cujo atropelado escoamento se fazia com dificuldade e de cuja turbulenta acumulao expluiam risos, motejos, apupos, estraladas fulvas de ridculo. Quando, a poder de pacincia e tempo, os trs amigos conseguiram atingir a praa Rodriguez Pea, tiveram por fim a noo clara da grotesca realidade.--O amplo recinto estava tomado e abarbado literalmente pela multido, que, parada e compacta, desbordando a areia rubra das alamedas, pendurada das rvores em cachos, posta em pinha sbre as tenras _pelouses_ machucadas, escutava e recolhia em xtase a torrentuosa eloqncia dos vrios oradores fantochando de riba dos bancos a sua mmica redentora. Jorge avanou, impaciente, a cabea, despediu o seu inquiritivo olhar ao largo, e logo, retrando-se novamente e com mal contido desdm: --Negcio de eleies... logo vi. um comcio dos radicais. Ao mesmo tempo, porm, e fazendo o ruidoso circuto da praa, uma _queue_ por igual cerrada de veculos se lhe enrolava em trno, atulhados por uma turbamulta de rapazolas que, chinfrineiros, implicantes, chasqueando, assobiando, berrando, buscavam por meio dum alarido infernal amesquinhar e abafar as iluminadas vozes cvicas dos apstolos do centro. --stes so os socialistas,--tornou aclarando Jorge; e num crescente mau humor:--O alargamento do sufrgio deu nisto! De roda crescia tambm naturalmente a onda dos _mirones_, atrados pelo inditismo do espectculo. Porque parecia uma espordica prolongao do Entrudo, formava o mais canalhesco e adorvel dos contrastes, esta palindia colossal,--a solene gravidade e a impertrrita coragem dos meetingueiros fieis, parados e atentos tomando em massa o vasto recinto, com a algareira sublinha daquele rodeio impudente dos contrrios, afogando-os numa implacvel cinta de arruaas, de burlonas apstrofes, vaias, chistes plebeus e guisalhadas de troca. E nenhum dos dois bravos campos se dava por intimidado ou vencido, nenhum queria ceder. Nesta inofensiva e gritada briga mantinham-se testarudamente rivais; os de fora na sua truanesca assuada, os de dentro na sua caturra perseverana. O Silveira e o Azeredo seguiam a scena sorridentes, num maligno regalo; ao passo que Jorge, sem perder a sua linha de pretenso aristocrata, enfastiado e severo: --Parece um bando de _patoteros_! Scia de _gringos_... A culpa da polcia. VII s 7 horas precisas da manh, o Silveira entrava na estao _Constitucin_, com um moo carregando as suas duas ligeiras maletas de _touriste_ e uma chapeleira de coiro; e em vo demandava agora, pelo imenso e sombrio _hall_, a presena do seu amigo Jorge, que chegou nos ltimos momentos, correndo aodado bilheteira e logo tomando de assalto um dos _wagons_ de 1.^a, j de portinholas cerradas, justo ao tempo em que o silvo da locomotiva arquejante dava o sinal de partida. Cmodamente instalados os dois num compartimento que ia vazio, pronto acendiam os cigarros e, baixando a vidraa, seguiam despreocupadamente o manso e buclico deslise da pasagem, na fina aquatinta daquela deliciosa manh, clara e tranqila. Primeiro, o complicado e barco bracejar, o espreguiamento indefinido do arrabalde da cidade,--_tiendas_, _conventillos_, fbricas, riachos, poos, jardins, _azoteas_ sbre monturos, calias entre arvoredos,--tudo isto cortado a cada instante pela paragem barulhenta nas estaes, tudo riscado de vagos esboos de alinhamentos de ruas, abertas no slo virgem, e que, longe a longe, raro marcavam apenas, como afoitas vedetas, umas fieiras de casitas sltas, cada vez mais raras, mais sumrias e mais humildes. Depois, no progressivo despovoamento da planura, vinham os altos tufos desgarrados de eucaliptus, dominantes e protectores como guardies do deserto, vinham os penachos sussurrantes dos lamos e dos salgueiros, os bosquetes, os telheiros, os _ranchos_, os sarais, as lomas de areia; e, contidas na utilitria rde de inmeras vedaes de arame, as primeiras manadas de gado pastando suavemente. A pastosidade atascadia do terreno e a vizinhana do mar empapavam de humidade o espao; a relva fumegava, e as esfumadas tintas do ambiente esbatiam-se numa mortia e branda deliqescncia, feita de calma e de frescura; passada porm a estao _Ferrari_, a linha frrea internava-se, inflectindo marcadamente ao sul, e ento o ar ia alimpando, aquecendo, j as linhas eram mais firmes, os contornos definiam-se, e por fim uma enxuta _aleluia_ matinal realava e doirava, a perder de vista, aquela rstica pacificao dos homens e das coisas. O trem seguia sempre pelas suas implacveis e vibrantes talas de ao, ferralhando, arfando... Ante a gostosa complacncia e a interessada ateno do Silveira, o seu amigo, que conhecia naturalmente a regio a palmos, ia de espao apontando panoramas e desfiando pormenores, fazia o cadastro pitoresco do pas, obsequiosamente. At que, andadas assim crca de 2 e meia horas, atingiam a encantadora cidadesita de Chascoms. Aqui havia que deixar o trem de ferro para empreenderem caminho a oeste, hora e meia de auto at _estancia Amlia_, o apetecido termo da viagem. Jorge Saavedra julgou oportuno aproveitar esta mudana para fazerem, antes de seguir adiante, o circuito rpido da linda povoao, marginando a melanclica laga que a rodeia por oeste e pelo sul, depois passando frente ao _Club de regatas_, ao _Hospital de So Vicente de Paulo_, dando a volta da _Praa Municipal_, e tornando por fim beira da laga, em piedosa visita ao desmantelado cemitrio vlho, dentro de cuja rocalha carcomida, e por entre a parada fnebre de ciprestes, destacava a mancha ratada e lvida duma alvenaria simblica. Com um sobrecenho comovido e grave, o Saavedra explicou: -- o moimento memria dos chamados bravos do sul, que aqui sucumbiram na famosa jornada de 7 de novembro de 1839, paladinos sublimes do engrandecimento ptrio, pela libertao da sua estremecida terra batendo-se como lees, dando de barato em holocausto a vida. --Contra quem lutavam les? --Era um grande movimento insurrecional organizado contra o tirano Rosas, sabe?... Uma das pginas picas da nossa histria, quse desconhecida, entretanto, apesar de haver sido escrita com sangue autntico de heris. --E tiveram por c muito tempo de guerra civil? --Uns quinze anos, nada menos! _Una barbaridad_. Felizmente, j no do meu tempo... Mas ste santo movimento emancipador, aqui, foi a brava seqncia do clebre _pronunciamiento_ de Dolores, cinco dias antes. Tenho-o ouvido contar a pap centos de vezes. Diz le que ste comovente episdio dos que mais nos engrandecem, mais nos honram... e que deve ser magnificado como o precursor imortal dos dias gloriosos de Caseros.--E com progressivo e varonil entusiasmo:--Pelos modos, os revolucionrios vieram por' acima capitaneados por Castelli e concentrados primeiro em Dolores, o bero humilde dste movimento redentor, como lhe disse. E havia um entusiasmo doido! tinha-se o triunfo como certo, contava-se com que as fras do temido caudilho Granada se passassem aos revoltosos, esperava-se o refro prestigioso de Lavalle,--que sei eu?... A gente de Rosas saltou-lhes ao encontro, mas c os bravos do sul repeliram-na, apesar de constituir a vanguarda inimiga a famosa cavalaria de Catriel, uma indiada temvel! Quando de repente... no sei bem como aquilo foi, parece que houve traio dum capito... O certo que, seguros j os revolucionrios da vitria, de repente as coisas mudam, a gente de Rosas encurrla-os contra a laga, les resistem, e um a um vo cando, raros tendo escapado morte. Uma coisa bela!--Agora Jorge fremia de raiva, e indignadamente:--Pois, a seguir, sses brutais vencedores, dignos servos do tirano, todo o dia levaram chacinando, degolando, lanceando a torto e a direito, por essas ruas. Inocentes, vlhos, mulheres, crianas, tudo a eito! Uma vertigem de canibais, macabra, horrvel... E foi como ficou assegurado por catorze anos mais o domnio feroz do ditador! Mas o automvel deixra a calada e breve reganhava o campo, internando-se, salteiro e ofegante, no majestoso encanto da solido, investindo com o desconhecido. Pela carreteira mole e insegura, no seu rodar silencioso, aventurosamente se ia deixando envolver e perder-se no problema insondvel da imensidade. Porque sua ilharga e na sua frente, alargando, crescendo, agrandando sempre, inexorvel, montono, desdobrava agora a sua toalha de fertilidade inexgotvel o maior celeiro do mundo,--inestimvel manancial de produo e tesouro de abundncia em que os nativos firmam a sua imprevidncia, os colonos a sua esperana, os mercadores a sua codcia e os milionrios a sua riqueza. Comeava o desdobramento da interminvel _steppe_ argentina, a lendria _pampa_, essa famosa e imensa planura verde, dum verde caracterstico e prprio, um verde que fra de carregado e sombrio, quse azul; assim como, ao alto, o azul da abbada celeste, a poder de claridade e leveza, quse branco; assim como, na sua fecundade palpitante, quse negro o sulco rasgado na crsta hmida da terra. E no h suspenses, crtes, paragens, no h derivao nem termo, nesta avassaladora invaso do Infinito. Por essa divina manh de outono e sbre a suave pradaria sem fim, paira a carcia inefvel duma poesia dulcssima... e da luz a difana pureza esbate e aparta em cristalinas nuanas a tonalidade cambiante das coisas; aqui, em rsticos e tenros _bouquets_, as floritas prpura da luzerna; logo, o verde gordo dos pastos, mosqueado da manchita griscea ou bistre dos mansos gados, ruminando; mais alm, definido pela lacrimosa fita dos _sauces_, o colear rumorejante e claro das ribeiras; ou a ndoa triste dos currais, dos _ranchos_, das _taperas_, dos celeiros; ou a imobilizada ondulao das dunas de areia, com a epiderme rugosa e rida estriada pelo vento; ou ainda a ponta lvida das mseras e frgeis _carpas_ dos colonos, grupadas como as tendas dos _beduinos_ no deserto. De raro em raro, sbre a esmagadora rasoira da solido virgulando tnues e mal perceptveis, como infusrios, as _cuadrillas_ minsculas de pees cingem-se terra e incessantes moirejam, como formigas,--uns colhendo o milho em sacos, outros acamando o rastolho, outros, mais previdentes, j rastreando, arando... E sbre a gleba recm-revlta, nos vidos mamilos dessa fresca terra virgem, a bno gloriosa do sol, como querendo antecipar-se fecunda labuta do homem, ci e entorna-se, palhetada, coruscante, em prdigas sementeiras de oiro. No ltimo limite da percepo visual, tam ao largo como pode alcanar a nossa vista cansada e exttica, o esmalte plido do cu e a linha fsca do horizonte tocam-se, mas no se confundem. So dois antagonismos, so dois infinitos, duas grandes interrogaes, tangentes mas opostas, raiando e barrando a tda a volta a imensidade do espao, como os dois batentes da incorruptvel porta do Mistrio. Ao mesmo tempo acontece que, na chata uniformidade dste solo raso e sombrio, os mnimos acidentes topogrficos, os contornos mais insignificantes, um ligeiro mdano, uma leve salincia, qualquer nfimo relvo, como se projectam inteiros na despejada tela do horizonte, e pela sua mesma raridade, ganham assim valor, crescem, avolumam, assumem dimenses gigantes, e alam-se e aprumam-se bruscamente, caprichosos, enormes, como solitrios ilhus no bero cavo das ondas. Tal imponente e vago mamelo que ao longe nos aparecia como um punhado ciclpico de rochedos, medida como depois, fazendo caminho, dle nos acercamos, vai apequenando, minguando, a aproximao desbasta-o, come-o a realidade, as suas linhas reduzem-se... a termos que, quando lhe passamos perto, temos que verificar por fim, desencantados e tristes, que essa miragem hiperblica da solido no era mais que uma modesta mda de palha ou de feno, uma casota humilde, um po, um _hangar_ ou um monte de estrume. Por igual, o ligeiro arcaboio em ferro das bombas elevadoras de gua, com o seu areo penacho rodiziando ao vento, figura-se-nos a macia evocao dalguma lbrega trre feudal, rasgada em seteiras, cingida em barbacs, coroada de ameias. H pequenas _estancias_ que parecem cidades, toias de mato que parecem florestas, simples lomas que parecem montanhas. E por vezes, sbre o esfumado pedestal dalguma dessas perdidas cumieiras distantes, vinca-se e agranda sbito, monstruosa e negra na claridade sideral do ambiente, qualquer coisa como a mgaltica renovao de algum lendrio animal sagrado, e que no mais entretanto do que a pacfica silhueta dum cavalo ou dum toiro imvel e sonhador na muda passividade do deserto. O silncio vasto, esmagador e solene como um crpe de olvido, como uma mortalha de sombra... apenas de longe em longe picada pela microscpica nota estrilante, encarnada ou azul, de algum raro saiote feminino. Nesta melanclica extenso sem fim, tnues nuvens grisceas se desenrolam por vezes e vo correndo... o penacho arquejante duma locomotiva, a poeira erguida por uma tropeada abundante de vacas ou de cavalos; mas tudo isto sempre fugaz, miudito e distante, como impondervel, sem importncia e sem rudo. E sbre o domnio infinito da solido paira um fundo imanente de tristeza. H tmidos lamentos pelo ar, e os sulcos abertos pelo arado so como as crspas vibraes duma resignada angstia, duma dr enfreada e humilde... que a dr da prpria terra. Porque esta a terra maravilhosa das brbaras lendas _gauchas_, terra de promisso, de paz e amor; terra de humildade e de sacrifcio, a terra fatalista, a terra paciente, a terra mrtir,--retalhada primeiro pelo ao dos conquistadores, que, empapada de sangue indgena, havia de mais tarde florir na assoberbante iniquidade dos latifndios; hoje com no menos avassaladora impudncia assolada e batida em tdas as direces e sentidos, pisoteada pela bota surramposa de tda a sorte de colonos, violada pela torpe especulao material de tdas as raas. A prdiga, a inexgotvel, a doce e lendria _pampa_... Um momento veio em que, direita e muito ao largo, sbre uma ligeira ondulao como que assoprada na frialdade jacente da planura eterna, comeou a definir-se, a crescer e a afirmar-se potente, na claridade vtrea do cu, uma ampla construo, tarraca e singela, hospitaleira a sorrir entre o arvoredo. E logo Jorge, convidativo e alegre, alongando o brao: --L est a nossa casa. Pronto vamos chegar. Bem situada, no acha?... Alcana-se a grandes distncias. E ademais fcil de reconhecer, por aquele grosso penacho verde-negro que se lhe ergue um pouco frente, no v? --Sim... Distingo perfeitamente. -- um vlho _omb_, no sei quantas vezes secular... um dos raros exemplares que por' ainda restam desses abominveis veteranos do deserto. O Silveira aprumava-se e movia-se a cada instante, buscando concretar impresses, progressivamente interessado; enquanto ao lado dele, Jorge, preguiceiro, indolente, com a sua ligeira ponta de fatudade, ia explicando: --E, sabe o meu amigo? h muito que vamos j caminhando por terras nossas. Tudo isto em volta. Ao redor de seis mil hectares. No nada... Mas, em suma, p'ra passatempo chega bem.--E regaladamente, estirando-se mais, tirando o chapu e com a mo suave acamando o cabelo negro e corredo:--Pap poderia j ter alargado a propriedade, mas no quere. Est contente com o que tem. que stes campos p'ra cria de gado so o que h de melhor, porque do magnfica luzerna; e so igualmente imelhorveis para tda a casta de produo agrcola. Tambm, por isso, reservmos apenas uma tera parte para ns, e o mais anda tudo p'r'a assim repartido por essa malta de _gringos_. O pior que nem todos so pontuais na renda, h que ser-se duro com les. Porm do vida a estas redondezas e precisamos dos seus braos no fim de contas. Formam uma famlia j bem numerosa... e por vezes bem incmoda. Com efeito, para onde quere que o Silveira alongasse, cativado, a vista, invarivelmente ia encontrar, aquecendo o ambiente e salpicando de pitoresco o espao, a nota viva, rude, impressiva, da utilitria obra do homem: a um lado, sempre a mesma basta e complicada rde das vedaes de arame a dividir os _potreros_ travadas e geomtricas como os alvolos duma colmeia, disciplinados crceres ao ar livre por onde os contemplativos rebanhos arrastam mansamente a sua vida vegetativa e incerta; ao outro, por igual a mesma intensiva e estreita parcelao da terra, aqui riscada em hortas, vicejando em pomares, vergada ao pso das colheitas, ali eriada ainda do rastolho, ou j limpa, revolvida, fresca e fumante, esperando as sementeiras novas. E por tda a parte tambm, ao acaso semeadas e dispersas, como tubrculos, rugosas e negras como concrees de _tophus_ bretoejando na uniformidade epidrmica daquele slo gordo e hmido, destacam as casotas sumrias dos colonos, mseras choas de barro amassado com palha e feno, tendo cavado na frente um pequeno po e ilharga o inseparvel forno,--redondo ste, enorme, dominador, como um zimbrio, muito liso e claro. Atingiam agora os dois amigos a gradaria singela de ferro que circunscrevia um tsco e reduzido esbo de jardim, frente almejada _estancia_. Ento o Silveira pde notar de relance: esta era um grande edifcio quadrangular, de modesta elevao e linhas simples, apenas um andar sbre o trreo, e tudo em alvenaria escaiolada a cr de ervilha. Numerosas portas, tdas de crte igual, ofereciam acesso ao andar trreo, altura de cuja cornija uma espcie de farta cobertura de _hangar_, em zinco ondulado, avanava e corria a tda a volta, protectoramente tendida sbre o amplo _pasillo_, ladrilhado a mosaico e vindo sua frente apoiar-se em colunas. Depois, transposto o largo porto do jardim, francamente aberto, e dados alguns passos mais, Jorge e o seu hspede deixavam a espaldas a atormentada silhueta do vlho _omb_; e agora, j junto casa, a projeco area do _hangar_ mascarava-lhes a viso do andar superior, e tinham ali ao seu alcance, em baixo, transposto apenas um degrau, o piso sombreado e confortvel daquela espcie de garrida galeria andaluza, adornada por vlhos lampies de cobre, enredias, gaiolas de canrios, faianas com plantas, cadeiras de _hamaca_ e mesitas de vrga. Pai Saavedra estava com o _mayordomo_, no seu escritrio,--informou o _mucamo_ que acudiu solcito entrada dos recm-vindos. Era a primeira casa direita do vestbulo. Jorge pediu vnia por um momento ao amigo e entrou. O tempo suficiente para o Silveira, continuando o seu sucinto exame, notar a tica singeleza e o escrupuloso aceio do pequenino trio, luminoso, arejado, o brunido soalho em pedra mosqueado de miuditos arabescos, e do estuque cinzento das paredes pendendo em simtrico arranjo cabides, petrechos de caa e armas gentlicas. A face oposta entrada era tomada tda por um grande vitral colorido, ocasionalmente aberto, e desvendando assim o risonho _patio_ que no seu interior os sossegados muros da rstica habitao enquadravam ciosamente,--apenas com uma furtada aberta, ao fundo, para a vaga imensido do campo. Devia ser a cozinha a casa que a, interrompido o circuto, formava ngulo, porque sua porta uma mulher estava pelando aves, sbre um balseiro fumegante. E no longe, junto ao po de gancho e roldana, um peo, arremangado e de leno ao pescoo, brunia metais de arreios, com um balde entre os joelhos. Mas j Jorge voltava, risonho, ligeiro, no momento justo em que tambm o _mucamo_ e um outro peo entravam do jardim, conduzindo as malas. --Pap est s e morto por v-lo, amigo. _Pase! pase!_ E da a instantes o Silveira colhia o efusivo aprto de mo dum bom vlho afvel, rosado, pequenino, que com uma voz enternecida e confiada lhe dava as bas vindas. --Imenso gsto em conhec-lo... Que honra, que prazer nos d! Que bem que fez em vir! --O prazer, o encanto todo meu. Estou imensamente reconhecido... --Como, reconhecido?... Qual! _Qu esperanza_... Pelo contrrio, a nossa gratido que infinita p'ra todos quantos teem a complacente bondade de vir alegrar esta nossa solido aqui. E quanto ao meu amigo, j sabe... recomendado por Jorge, considere-se da famlia. --Isso dos livros!--exclamou Jorge jovialmente, num aprovativo acno da cabea. E o pai com a mais desafectada naturalidade para o Silveira, simples, insinuante: --Perdoe-me se o fiz esperar... _Este_... estava aqui caturrando com o meu _mayordomo_. Coisas fastidiosas por vezes, mas inevitveis... coisas prticas. Contas atrasadas que p'r'a andam... E manh dia de abater gado. -- c p'r'o consumo da _estancia_,--acudiu obsequioso Jorge, interrompendo.--Dois dias por semana. -- certo,--mansamente o pai confirmou.--Um servio corriqueiro, trivial. Pois stes _capatazes_ so uns _atorrantes_ e vingam-se, sempre que podem, da sua condio subalterna, sacrificando, p'ra nos fazerem dano, os melhores exemplares, ou ento mandando abater rses nocivas, enfrmas. O demnio! H que andar sempre em cima dles. _Mucho ojo!_ --E um bom _rebenque_, no seria pior...--completou Jorge, ameaador, com um gesto expressivo. Calmo porm e bonacho, o pai corrigiu suavemente: --Cala-te! No digas barbaridades.--Depois, amvel e voltado para o Silveira, derivando:--Bem, mas isto no so coisas p'r'o nosso querido hspede. Vamos ao que lhe interessa. A minha senhora no sei se est... minha filha Clia tampouco. Queria apresent-lo... Porque,--e num mimalheiro sorriso, indicando Jorge--com ste _gran bribn_ mais, somos aqui tda a famlia. E carinhosamente Jorge, abraando o pai sbre os ombros, com uma liberdade e uma irreverncia chocantes para os rgidos preconceitos educacionais dum europeu como o Silveira, ripostou: --_Qu rico tipo!_ Os miuditos olhos garos do bom vlho molharam-se de ternura; e outra vez voltado para o hspede, com a mesma acolhedora expresso, bondadoso, aberto: --Em suma, daqui a um momento juntamo-nos todos mesa. Vai ver: pouco e ruim... mas sabemos ser amigos, de todo o corao e co'a melhor vontade. O vlho Saavedra dizia estas coisas com uma familiaridade calorosa e espontnea, com uma simpleza tocante. Era uma figura interessante e invulgar. Vestia todo de negro, tinha um ralo bigodito em escva, a barbicha grisalha, aparada e tsa por igual, contornava-lhe a face de orelha a orelha, e volta do imaculado colarinho sem goma enrodilhava-se um farto leno de setim, como h sessenta anos, negro por igual e retido frente por um n com duas pontas. Dois fundos vincos entre os cilios, a clara testa repregada e vibrtil, o crnio mal guarnecido de longas e sedosas cs, amplo e redondo, denunciavam o homem de pensamento e de sonho, um recto entendimento alumiado por uma ingnua alma. Flagrante espelho desta, os seus pequeninos olhos hmidos, dum verde atenuado e translcido, eram fontes de doura, palpitavam duma mobilidade inquieta, mantinham ainda essa fcil emotividade que o apangio das crianas. Vibrava pronto, ao sensitivo rodeio das impresses. Os seus lbios eram ungidos de bondade, e tinha o gesto acanhado e infantil das criaturas que menosprezam o mundo, que evitam o convvio social e deliberadamente se mantem esquivas ao atrito deletrio dos homens e das coisas.--Assim entrevisto na meia-tinta austera daquela casa mobilada parcamente, ste doce e pequenino vlho aparecia aos deliciados olhos do Silveira como uma encantadora quimera, um absurdo, uma anmala figura perdida... como algum anacrnico painel j lambido da _patine_ veneranda do passado. Era o vivo e adorvel _pendant_ dsse outro leo de franco e rude batalhador que le agora descobria sbre a macia secretria de roble, tomando a parede. Ento Jorge, que lhe surpreendeu o movimento, adiantou-se a explicar: -- meu bisav, o criador desta _estancia_. --Um andaluz inteligente e trabalhador,--acudiu o pai quse ao mesmo tempo,--mas pobre como Job, que veio p'r'a assim sem um centavo. --Felizmente, vejo,--o Silveira julgou oportuno observar,--aqui a fortuna sorriu-lhe. --Ah, no h dvida... e le bem o merecia,--acudiu com desvanecimento o vlho. Depois, espontneo sempre e afvel:--Mas enquanto se no almoa, venha vendo a nossa casa.--Abriu a pequena porta direita, e, tendo antes feito passar o Silveira:--Aqui tem... _este_... a nossa biblioteca. Um severo e discreto compartimento, recebendo luz apenas do _hangar_ exterior e totalmente vestido em volta por uma alta cinta de estantes de carvalho, em cujas prateleiras bambas um milhar de sonolentos volumes se alinhava gravemente. Do escasso trecho de parede sbre uma das portas pendia uma litografia detestvel de Domingo Sarmiento. Sbre a estirada mesa de leitura havia desparramadas algumas pequenas estantes de dobradia e um grande e aparatoso tinteiro, coroado por um Napoleo de bronze com um termmetro no trax e um relgio no ventre. Entretanto o bom vlho, complacente e palreiro: --No passa dum gabinete de leitura modesto, uma tentativa, um esbo, um ensaio, como v... Mas h a de tudo um pouco: filosofia, literatura, jurisprudncia, viagens. O agradvel e o til. E as melhores _Revistas_ e alguns livros portuguezes. De sorte que, j sabe, quando esteja aborrecido de ns ou lhe apetea isolar-se, ste o cantinho que lhe convm. Os livros que nunca nos pregam _lata_; a gente larga-os sem cerimnia, quando muito bem quere. E ainda so os nossos melhores amigos. Mas aqui Jorge interveio, e com vivacidade: --Pap, lembra-te de que o nosso hspede h-de querer lavar-se, mudar de roupa... --Ah, sim... _este_... perdo! Vamos ento lev-lo ao seu quarto. Fica-lhe aqui j, no seguimento para o interior. A direita o meu arquivo. Abriu outra porta, esquerda, e entrou com os dois amigos numa ampla pea, fresca e clara, tendida de cassas e _cretonnes_ e mobilada a pinho de Flandres, com duas janelas abrindo para o campo e, fronteira, uma porta sbre o _patio_ interior. --Veja se lhe agrada. --Oh, sr. Saavedra... --Tem que se contentar, melhor no lhe podemos oferecer. Mas, veja... comunicao directa com a biblioteca, e ali a seguir, _toilette_, banho e mais servio. Creio que aqui assim na _planta baja_ sempre fica mais em liberdade e mais cmodo. Mesmo ns no _piso alto_, que dispe de menos espao, no temos seno os quartos da famlia. Quere dizer, h uma nica excepo: os aposentos dessa endiabrada _Miqutas_... que, a bem dizer, famlia tambm.--E batendo com as mos em concha e sorrindo, na lisonjeira evocao duma pessoa querida:-- o benjamin da casa. O que ela faz... o que aquilo diz, imagina e inventa! Um vivo demnio! E logo Jorge no mesmo admirativo tom para o Silveira: -- a prima Maria Mercedes. No lhe dizia eu?... Pouco depois do meio-dia, a grande sineta do ptio tangia para o almo. Tendo acabado de ajustar a gravata e enfiar os anis, e dada uma ltima casquilha mirada ao espelho, o Silveira abriu a porta do seu quarto e transps compassadamente os geomtricos canteiros, debruados de buxo e salpicados de japoneiras, _aucubas_, _pitcarnias_, cravos, rosas e malmequeres, seguindo diagonalmente em direco ao po, a cortar caminho para atingir o comedor, que lhe ficava no recanto em frente, a entestar com a cozinha. Dentro estavam j Torbio Saavedra e a mulher, que recebeu o Silveira carinhosamente.--Era uma grande senhora adiposa e obsa, um monolito ambulante, o crasso busto sumido na montanha enxundiosa dos quadris, os braos macios e curtos, as mos como palmoiras. Tinha uns longos lbios froixos, a face pendente, e o assetinado fulgor dos olhos castanhos perdia-se afogado na papugem abundante das olheiras. Tda de negro, como o marido, com o volumoso espaldo dos ombros resguardado por uma capota ligeira de veludo. O seu ar era repousado e lnguido como o das criaturas que se sentem instaladas na vida cmodamente, sem alternativas, angstias, apetites, preocupaes nem dios. O seu aspecto desprendido e plcido apenas estava desmentido por um antittico resduo de vlhos e irredutveis coquetismos no colar de grossas prolas que em vo tentava remoar-lhe as pelhancosas estrias do pescoo, bem como na origem, claramente industrial, do loiro inaltervel do cabelo. Tomou ela a cabeceira da mesa, ao passo que, cerimonioso e lento, o Silveira entendeu dever manter-se a distncia, apoiando maquinalmente as mos sbre o espaldar da cadeira que a lhe correspondia, como no ntimo desgnio de quedar-se ali. Mas sbito, sorridente e num piedoso alarme, a dona da casa: --Ah, no, no meu caro sr.... a no! sse o logar da _Miqutas_. Conservamos-lho sempre... como se ela esteja. Queira tomar assento aqui. E indicou-lhe o logar de honra, sua direita, que o Silveira acudiu a ocupar, pressurosamente. Entrou neste momento, do ptio, Clia,--uma joven de aspecto bisonho e triste, o busto dobrado, os olhos baixos, flcida, delgada, ictrica. Vestia blusa branca e uma singela saia de cr indecisa, e da mesma indecisa e mortia cr tinha a epiderme, os olhos, os lbios e o cabelo, lambido como um penteado de colegial e repuxado nuca. Quando lhe apresentaram o Silveira, dobrou-se mais, baixando as plpebras, cortejou a distncia, sem lhe estender a mo e sentou-se logo esquerda da me diante dle. Entretanto pai Saavedra vinha tomar logar ao lado do hspede, e desdobrando o guardanapo com mpeto, alegre, menineiro: --Vamos a isto, que so horas! Uma criadita comeou servindo carnes frias; e para o Silveira, muito atenta, D. Teresa: --No lhe podemos aqui oferecer grandes mimos culinrios... tem que desculpar... porm um bom _puchero_, isso sim! como certamente no come na cidade. Imediatamente o vlho Saavedra lhe pedia para avanar o copo, e vertia nle com afectuosa solenidade um vlho Jerez como no havia de encontrar muito. S de casa tinha quarenta anos. E de passo explanou-se falando sbre as apregoadas excelncias e virtudes do Madeira--que le apenas conhecia vagamente... um vinho de reputao mundial e ali na Argentina quse desconhecido. --Ah, um vinho precioso, divino!--exclamou o Silveira com orgulho, dealbando os olhos.--P'ra mim superior ao Jerez... ao mesmo Prto. mais aromtico, mais gordo, mais suave. E prometeu presente-los com uma poro de garrafas, que ia j no primeiro correio pedir a um seu amigo. --E de doce no gosta?--tornou solcita e voltando-se para le, D. Teresa, entre duas garfadas. --Bastante. --Pois nesse particular que poderemos ser-lhe agradveis. Em doces de cozinha especialmente...--E com mimada ufania, apontando a filha:--Aqui tem uma especialista. --No digas isso, _mamita_!--gaguejou Clia ariscamente, retrando-se e como querendo anular-se sob a mesa. Mas, sem dar tento de ouvi-la, sempre no mesmo tom mimalheiro a me a insistir: --Quando est de mar faz um _dulce de leche_, uns _huevos quimbos_, como no possvel imaginar melhor.--E ante a modesta esquivana da filha:--_Verdad!_--Depois, mirando-a amorvelmente:--Quem te no fez freira! Mas agora D. Torbio, que no cessava de, a curtos intervalos, olhar com impacincia a porta em frente dle, murmurou contrariado: --Que haver passado a sse Jorge, que no aparece? Grande algarada entretanto no exterior. A terra estremecia ligeiramente, como sacudida pelas atenuadas vibraes dalgum terremoto distante, e de envolta com a trmula comoo dsse largo abalo, montava, crescia e espirulava grossa pelo ar uma difusa e vaga ressonncia, que parecia feita de vozes humanas, saltos, roncos, mugidos, tropeadas brutas de animais, e choques bruscos de ferragens. Poucos minutos depois, entrou finalmente Jorge ao comedor, e vivo e corts, enquanto se sentava ao lado da irm: --Peo perdo se venho em atraso... Demorei-me a ver passar essa _tropilla que se va al rodeo_. No ouvem?... --Ouvimos, ouvimos, sim...--contestou D. Torbio, j tranqilo.--E ento?... --No sei... vi s de relance. Porm tenho o lho bem experimentado... havia ali grandes falhas. --Ests sempre imaginando o pior. --Muito roubada ia, pap... podes crr! Por exemplo, das nossas _vaquillonas_ Shorthorn no vi nem meia! E eu sei donde nos vem o dano... --Bem, bem...--conciliadora a me rematou.--Senta-te e come. Seja que no seja, no ocasio agora p'ra nos azedarmos com retaliaes e suspeitas; estamos mesa. Terminada a frugal refeio, Jorge opinou irem tomar o caf ao ar livre. Breve vinham buscar logar fra, naquele aconchegado e tranqilo recanto ao abrigo do ressalto da _azotea_, entre o pequeno po e a cozinha. Meia dzia de cadeiras de vrga de ferro, pintadas a verde, rodeavam uma tsca mesa de eucaliptus, em volta da qual os cinco se sentaram indiferentemente. O Silveira, porm, para melhor poder observar o recinto, postra-se de costas junto parede; e ento pde notar que, sua ilharga e um pouco arredada, uma outra cadeira havia, porm esta mais confortvel, ampla e de aparatoso espaldar com a cabeceira acolxoada, e tendo mais, na protectora concha dos braos, duas almofadas de setineta azul guarnecidas com renda de bilros, molemente adormecidas. -- a cadeira da nossa _Miqutas_...--murmurou D. Teresa com meiguice--Todo aquele preparo, veja... Chamamos-lhe a menina das almofadas. uma comodista! Pairava um suave e acariciador ambiente, uma lisa atmosfera de sonho, de calma e de beatitude. Aquele quadradito horto, fechado por espssas e mudas paredes, matizado de flores quietas e tristes, parecia a remota e nostlgica evocao dalgum claustro, furtando o esprito realidade, transportando-o a um outro mundo... Nessa embaladora hora de ssta, a majestade do silncio amigo apenas era cortada pelos vagos sussurros tilintantes que vinham da cpa e da cozinha. E, oposta a esta, via agora o Silveira a caixa da escada para o andar superior, o qual, em cima, acanhadito e modesto se desenhava, mas tomando apenas parte da casa, pouco mais do que a frente. Rodeava-o a tda a volta uma garrida varanda, de grades de madeira, em profuso festoada de arbustos, e vestida e enredada de trepadeiras, por entre cuja engalanada opulncia as floritas maceradas da _balsamina_, embebedando o ar, rompiam abundantes, e onde alegre e crepitante saltava a mancha escarlate das _estrelas federales_, grandes como girasis, com os seus estames de oiro, e as longas ptalas aveludadas e sangrantes como tiras de prpura. Ento com repousada familiaridade D. Teresa aventurou: --Que tal encontra o nosso refgio? --Delicioso, minha senhora. A mim parece-me completo. Mas logo Clia, com uma mansido em certo modo implicante, tomando a chvena da bandeja que a serva lhe oferecia: --Ah, isso que no! Peo desculpa, mas no estou conforme. P'ra completo falta-lhe alguma coisa. --Vossa excelncia dir... --Pois ento no salta aos olhos? Esta casa, tal como , quero-lhe muito... claro. Mas nem por isso deixo de convir que ela no passa duma acumulao semsabor de enojosas coisas materiais. Nada que nos fale alma, que nos aquea o corao, que nos eleve o esprito... No h uma nota de deal, um qualquer _motivo_ religioso... um painel, uma cruz, uma capela. --Onde vs tu por' capelas ? - observou D. Torbio, sorrindo burlonamente. -- pap! por tda a parte... menos aqui. No vs a, a no mais de oitenta quadras, na _colnia Esperanza_? E na _estancia_ das Argerich, e na das Moreno?... Dize antes que no queres. --Tem pacincia, minha filha, mas eu sou um grande cultor do passado: o que quero conservar ntegro e singelo, tal como recebi, sse nosso ninho. P'ra que deturp-lo agora com enxertos? --Meu pai, que profanao! --Profanao seria desfigurarmos com excrescncias dispensveis a amiga pureza tradicional de coisas com que fomos criados. --E de muito mau gsto,--sublinhou Jorge com impertinncia, traando as pernas. --Todavia teem-se farto de construir p'r'a assim tdas essas bisarmas de _cabaas_, depsitos, armazns e celeiros. -- l ao largo, filha. E so coisas precisas. --A religio no o menos,--acudiu pronto Clia; e como que logo arrependida dste sbito mpeto de vivacidade, suasiva e mansa reatou:--Pois ento, por exemplo, aqui ao fundo e do lado de l, formando esquina, uma simples ermidita no ficava tam bem? --Cortava o trnsito. --Ainda ficava espao bastante. Sr. Silveira, que lhe parece? Colhido de golpe por esta interrogao, que era uma evidente demanda de auxlio, o Silveira titubeou um instante; mas logo, afvel e galante, recobrando-se: --Eu em assunto de tamanha transcendncia no sei, realmente... no queria atrever-me a emitir opinio. Parece-me entretanto que se poderia... sem nada quitar ao carcter desta adorvel construo... --Como? como?...--fez Clia, muito interessada, adiantando-se e abandonando a chvena sbre a mesa. --Fazer um pouco como na Europa... l pelas nossas terras. O trao da conciliao seria talvez erigir por' assim um retbulo em azulejo, figurando a divindade de sua maior devoo, e que saltasse, nada mais, da esquina dum muro ou embutido na parede. -- certo! --E ento com uma lampadasinha frente, tda a noite acsa, at teria um certo _cachet_. --Como compreendeu bem o meu pensamento!--exclamou Clia, erguendo as mos em xtase, enternecidamente, os olhos hmidos, e a um e outro lado movendo-se com presteza, alegre, triunfante:--Valeu, pap?... _Mamita_, ouviste?...--E batendo palmas:--Seria lindo! Depois, vibrando ainda na exultante comoo e notando a tmida bandada de avesitas que manso e manso de roda dela vinham abatendo-se: --Ai, que j me esquecia das minhas inocentes amiguinhas! Dispensem-me, sim? Atravessando o ptio, subiu num relance ao primeiro andar; e da a instantes esta apagada e asctica figura reaparecia ao alto momentneamente aquecida e chegando a parecer formosa, no enquadramento rstico da varanda, donde o seu brao amorvel comeou espargindo bagoadas de arroz e punhados de milho sbre a graciosa farndola de _chuos_, viuvitas, tarambolas, flamingos e pombas, que pedinchonas e vidas se abatiam sbre o terreiro, patitando, volitando, ruflando... Havia que organizar o programa da tarde. Mas de repente o cu encapotra e o vento forte de oeste presagiava tormenta. Sinalou D. Torbio o fenmeno com desgsto, bordando lstimas sbre aquela tremenda instabilidade do clima regional, em que no havia nunca que ter confiana, nem mesmo no outono, a melhor quadra do ano. Assim, embora Jorge tivesse at j mandado aparelhar dois cavalos para uma saltada ao campo, foi julgado como de mais prudente aviso no sarem e entreter o resto do dia num exame mais detido _estancia_. Tomados os chapus, e tendo pedido vnia s senhoras, D. Torbio e os dois jovens encaminharam-se ento suave atraco do campo, tomando aquela aberta posterior do ptio e dando o flanco cozinha. E logo a havia a notar, entestando com esta diagonalmente, uma espcie de longo e raso aqueduto, em tijolo, que disparava depois rectilneo e rasteiro pela lisa planura sem termo, at ir mergulhar e perder-se por fim num fechado penacho de eucaliptus, longe, muito longe, j no esfumaamento vago da distncia.--Era o encanamento que trazia a gua para toda a sorte de usos domsticos. O vlho po do ptio para pouco mais servia do que para regas... estava condenado. Depois a seguir prolongava-se paralelamente, a um e outro lado, uma dupla fita de leves, sdias, frescas e arrogantes construes, dando a nota actual, porm mantidas tdas, no mesmo enfiamento das paredes da casa primitiva. Eram a carapaa industrial da _estancia_, o seu fecundo trao de unio com o utilitrio credo do presente, os maravilhosos instrumentos, ali, desta subjugante caudal de energias duma nova raa, que so o segrdo do portentoso milagre da prosperidade argentina. Era o hino fulvo da riqueza, o _allegreto vivace_ da abundncia. esquerda, sorriam os rubros tldos e as alvenarias deslumbrantes das cavalarias, estbulos e currales para gado, erguiam-se as afusadas _torricellas_ e mirantes da fbrica de lacticnios, das vrias _cabaas_, _tambos_ e celeiros. Vinham de dentro perfumadas, tpidas emanaes de feno e de amjo, um gensico alento, um ar criador, um bafo gordo e tenro acusando o protico germinar da vida. Quando os trs passavam, do brunido tejadilho dum _haras_ surdiu e avanou para les, coquetona, mimalheira, familiar, uma linda e enxuta cabea de cavalo castanho. Jorge acudiu desvanecido: -- o meu rico _Emir_... um autntico meio-sangue, um corredor de primeira. Que dizes, _mi valiente_? E do lindo animal acariciou o focinho brincalho, vibrtil, em curtas pancaditas, suavemente. Passando ao lado fronteiro, a as instalaes novas, nas suas apagadas cres, na sua arquitectura sumria e rude, tinham o que quere que fsse de mais poderoso e mais severo. Singelos e amplos armazns, por vezes simples _hangars_ cobertos de zinco e telha de Marselha, eram contudo o centro propulsor, a potente fonte dinmica de tda aquela parada enorme de trabalho. Ali se alinhavam por dezenas as carretas de mo, os grandes _camions_, as zrras e as locomotoras, brunidas, scintilantes; depois havia os grandes aparelhos geradores da energia elctrica, duas mquinas _desgranadoras_ para descascar o milho, uma _esquiladora_ para a tosquia de ls, trs _trilladoras_ para apartar o trigo, a luzerna e o linho; e, a seguir, os interminveis depsitos dos produtos habituais do pas,--o milho em pirmides colossais, o trigo empilhado em sacos, a luzerna e o linho acamados sbre a lisa sucesso dos mostradores, esperando a secagem definitiva.--O vlho Saavedra, passando orgulhoso em revista ste formidvel organismo industrial, parecia remoado, ia acumulando detalhes, multiplicava as instrues, fazia pr a seu tempo cada pea em movimento; extasiava-se e como que se identificava com tda aquela batida vibrante de luz e de rudos, com o engrenar suave das rodagens, a galopada arfante dos metais, o alucinado spro das turbinas. E ento, fatigado a espaos mas no vencido, parava e encolhia os ombros, sorridente: --Isto j no so coisas pr'a mim... Mas, que remdio! se ste meu filho de nada quere saber... --Eu nunca, pap, poderia substituir-te capazmente,--advertiu Jorge, num parntesis hipcrita de modstia. Mas logo o pai com carinhoso desdm: --Vs, os rapazes de hoje, no valeis nada! Porm a ateno do Silveira fatigava-se e ao seu carcter volteiro e indcil ste rgido e automtico aparato industrial interessava-o mediocremente. s 5 horas, outra vez no mesmo aconchegado recanto do ptio, reniam-se a tomar _mate_. Desta vez, por uma ateno especial para com o novo hspede, a tradicional bebida foi servida, no na lisa concha habitual, porm numa antiga cabacita de prata, vlha no mais de cincoenta anos, modesta data que entretanto, perante o ingnuo critrio dste pas nascente, assumia fros dum raro valor arqueolgico. Foi a preciosa pea trazida da _tagre_ envidraada do salo, onde em religioso recato era conservada com outros mimos mais e sadosas relquias de famlia. Era duma cinzeladura rudimentar. O seu redondito bjo assentava sbre um trip de cabeas de grifos estilizadas, e ostentava no anverso, emergindo triunfal dum entrelaamento gordo de folhagens, o suave escudo argentino.--Depois de cuidadosamente escaldada, D. Tereza verteu-lhe pelo afunilado gargalo a rica infuso do _mate_ a ferver, introduziu-lhe uma cnula tambm de prata com o fundo em crivo,--a clssica _bombilla_,--e logo de oferecer obsequiosamente o indito aparelho ao Silveira, que, na sua titubeante inexperincia de suco da _bombilla_, queimou a lngua, apressando-se a passar o brbaro instrumento dona da casa. Os circunstantes sorriram ao observar o cmico efeito, por demais esperado, da desastrada iniciao do recm-vindo. Mas logo se repuseram. E agora a preciosa tacita foi passando de mo em mo, e lbios aps lbios foram sucessivamente abocando sem escrpulo o mesmo tubo aspirador como quem se desobriga dum rito sagrado, num recolhimento quse solene, num inaltervel silncio, de longe e apenas vagamente cortado pelo mugido das vacas e o balar dos cordeiritos que vinham dos currales distantes. A seguir, por uma natural expanso neste ambiente de pacificao cordeal que a familiar cerimnia desdobrra, a bisarmal D. Teresa deu conta do seu piedoso giro de manh. E naquele bondadoso ar habitual, repousado e manso, convictamente imps ao marido: --J outro dia to disse, tem pacincia... mas h que perdoar a renda a sse pobre Juan Valrio. Que desgraada gente! Se tu visses... --Mais outro?--balbuciou o vlho Saavedra com fastio. --le est com um antraz, tolhido, rodo de febre... bem sabes. --Ento no lho queimaram?--atalhou Jorge, numa ligeira impacincia. --Sim, porm j tarde, infelizmente! Parece que no escapa. Que vai a pobre da mulher fazer? --Tem os filhos. --Que filhos? No blasfmes. O mais vlho, depois daquele desastre na via-frrea, ficou sem uma perna. E nem um centavo lhe deram de indemnizao. A filha desarvorou com _uno tal por cual_... O mais moo foi de conscrito. --H-de voltar. --E enquanto no volta?--acudiu Clia com carinho. Seguiu-se uma breve pausa de embarao. D. Torbio, agora silencioso, bamboava o busto hesitante, e os seus pequeninos olhos verdes adoavam, molhavam-se de ternura. Por fim, com maligno sarcasmo, Jorge: --Bem, bem, _mamita_... perda-me que te diga... mas o certo que estamos aqui merc da ganncia de todo o _gaucho vividor_. Por ste andar, daqui a pouco seremos ns que teremos que pedir por esmola aos nossos colonos que nos dem algo com que viver! E levantou-se sacudidamente. Um novo silncio se abriu, arreliativo, apremiante, o qual Jorge aproveitou para senhorear-se do Silveira e lev-lo consigo, atravessando pronto o ptio e logo alcanando a desafogada galeria da entrada, onde le se atirou aborrecido para uma cadeira de _hamaca_ e acendeu um cigarro. Das nuvens grisceas e rasteiras caam os primeiros salpicos de gua, e o joven Saavedra lamentou que o tempo os _embromase_ por aquela forma, impedindo-os de sair, logo no dia da chegada. Lamentou-se igualmente da insuportvel monotonia e da extenso sem termo, ali, das noites. Bocejou e alongou preguiceiramente os braos, numa mole distenso de tdio. Mas logo, insinuante, gaiato, aprumando-se e assentando familiar a palma da mo sbre a coxa do amigo:--Que no lhe dsse cuidado! le sabia bem como e aonde amenizar um pouco a coisa... Os vlhos recolhiam cedo, ficavam os dois em liberdade; e ento nada os impedia de irem por' onde melhor quadrasse... Tambm havia meio de _farrear_ pelo campo, correndo essa _chinera_ em roda.--E, como antecipado aperitivo, j o inflamado moceto deblaterava e fazia correr a viso de vrios episdios patuscos, ante o lho lbrico do amigo. noite, sbre o jantar, passou o pequeno grupo ao salo de _recibo_,--o primeiro compartimento esquerda do vestbulo, na frente da casa.--Uma arcaica moblia estofada, envlta em protectoras lonas; fogo de aparatoso friso em escaiola, simulando mrmore, com relgio e castiaes de prata; fronteiro, sbre o sof, um grande espelho com a moldura ratada; quadritos a missanga pelas paredes, e, sbre dois singelos trems doirados, vasos barcos de antiga porcelana, com flores de cera sob redomas de vidro.--Logo de entrada o vlho Saavedra, correndo a um armrio e com os olhitos codiciosos, invitou para uma partida de xadrez o Silveira, que declinou com mal dissimulado horror a iminente estopada. Entretanto, D. Teresa vinha abater-se em pso sbre o queixoso sof, que se enrugou, gemendo; e chamava para o _fauteuil_ ao lado o hspede, a interrog-lo sbre coisas de Portugal. Da mesma forma, Clia, jucundamente posto agora de parte o seu aspecto bisonho e arisco, tomada de sbita e grata simpatia por ste galhardo advogado, ao almo, do seu desejo, interpelava-o com piedoso intersse sbre os lindos templos que l devia haver, na sua terra... e preciosssimas alfaias religiosas, relquias autnticas, oiros, pratas, pedrarias, magnficos tesouros.--Desvanecido e importante, o Silveira fazia acenos aprovativos de cabea: falou na custdia dos Jernimos, nos retbulos da Madre de Deus, nos paramentos de Mafra, nas riquezas de S. Roque. E ntimamente maravilhava-se daquela sua espordica exploso de patritica scincia. Por seu turno ento D. Torbio, espontneo, afvel, acudindo gostoso deixa: --Ah, no h dvida, Lisboa uma linda cidade, e um admirvel povo, o portugus! O Silveira soergueu-se e dobrou-se numa lambida mesura. E o bravo pai Saavedra, confirmando: -- certo! Os senhores, sonhadores e plcidos como so, teem um grande esprito de iniciativa. Eu sou insuspeito. _Este_... Veja o meu amigo... Eu descendo de espanhis, tenho algo dsse sangue impetuoso e ardente da terra que o smbolo vivo da bravura, o bero esplendente da alegria, da arte e da beleza. Sou um admirador incondicional e formo ainda um rebento distante dessa formidvel, cavalheiresca e valente Espanha, ptria do amor, filha do sol, senhora do mar, _nodriza de mundos_! Contudo sou o primeiro a reconhecer, e tenho o maior prazer em dar disso pblico testemunho, que o progresso social da nao lusitana leva bem um sculo de dianteira ao dos outros povos ibricos. --Demasiada amabilidade... --Quere ver?... Max Nordau tem razo... Ainda durante dois sculos o _muezzin_ havia de continuar a evocar os crentes maometanos em Sevilha, em Granada, em Crdoba, quando j o vosso Afonso III repelira dos Algarves o ltimo rei moiro. Meio sculo antes que Colombo, de pas para pas correndo, como um mendigo, obtivesse dos reis catlicos as caravelas com que veio descobrir a Amrica, j o Infante D. Henrique descobrira as costas de frica t muito alm do Equador. Muito antes que Carlos V levasse a bandeira espanhola para alm do Mediterrneo, Portugal conquistava Ceuta. Pombal expulsou de Portugal os jesutas, quando ainda em Espanha luziriam sinistras por muito tempo as fogueiras dos _autos de f_. Portugal foi dos primeiros pases a repudiar a pena de morte, a abolir a escravatura; e ltimamente, renegando os vlhos dogmas centralistas de tda essa Europa rgida e feudal, adiantou-se a formar com a Sua e a Frana uma valente trilogia democrtica. No tudo isto verdade?... Aqui tem, meu caro amigo... _este_... porque eu tanto os aprecio e admiro! No foi muito do agrado do Silveira ste fecho revolucionrio da apologtica parlenda; contudo, como rplica obrigada, espraiou-se le ento em lisongeiros encarecimentos bordados sbre a formidvel exuberncia e o vertiginoso progresso da admirvel nao argentina. Entretanto, sse bom _calavera_ de Jorge aproveitra o giro erudito da palestra para escapulir-se. E a estava agora Clia de novo a contas com o pai, litigiando a favor da sua litrgica birra.--Que tinha um nome demasiado profano a _estancia_. Era at um repto de orgulho feito ao cu. Foroso baptiz-la.--O pai torcia-se contrariado, desfiava perante a piedosa querena da filha todo um rosrio de ponderosas objeces, mastigava, opunha-se. --No, filha, que ida! Bem vs, no pode ser. Sabes que ste grande nome, _Amlia_, justamente consagrado aqui como em tda a rpblica, no o caso dum nome banal, no uma designao anodina, arbitrria, familiar, pueril, no! Tem a sua santidade tambm... um smbolo de dedicao e herosmo, evoca uma das pginas mais impressionantes da nossa histria. Porm j me e filha, sem darem maior tento resistncia formalista do bom vlho, com cuja doce aquiescncia, contavam, afinal, tudo era discutirem agora e esmiuarem meticulosamente qual dos cerleos habitantes deveria como futuro patrono da _estancia_ merecer-lhes a preferncia. E tinham dvidas, hesitaes, receios.--Talvez a adorvel _Virgen del Pilar_, duma lenda tam popular e tam potica... Contudo, a _Virgen del Carmen_ tinha mais tradio crioula. Ou ento seria melhor _San Lorenzo_, protector das bas colheitas. E porque no _Santa Brbara_, advogada contra as tormentas? Ao que, trocista e afvel, o bom vlho Saavedra: --_Este_... j agora, p'ra que ningum l no cu fique descontente, chamem-lhe--_De todos los Santos_. Por fim, a cortar crce a dificuldade, os trs foram unnimes em convir que a _Miqutas_ decidiria. E sbre ste ditame conciliador a patriarcal _tertulia_ fechou, por aquela noite. D. Teresa ergueu-se pesadamente, com austera gravidade obtemperando--que j eram as dez passadas... havia que despertar cedo, ali: ela para os seus pobres, o marido para a _peonada_ do campo.--Depois, j fra, no vestbulo, e como ltima das solcitas indicaes com que a bondadosa senhora despediu o Silveira, aconselhou com carinho--que, em suma, a estao j ia avanada... mas em todo o caso, pelo sim, pelo no, que no se esquecesse de cerrar o mosquiteiro. Neste acolhedor ambiente de lmpida cordealidade e benfico repouso foram decorrendo para o Silveira deliciosamente os dias. Ali le encontrava uma ntima e perfeita conformidade entre a amiga efuso das almas e o afago tranqilo das coisas. Embalavam-no na mesma onda de beatitude e carinho, o sorriso afvel das figuras e a placidez infinita da pasagem,--aqui tam diversa das fragoeiras e montanhosas agruras dos crros da sua terra. Tinha uma vida leve, encantadora, fcil, vida de confiana e olvido. E todo ste suave meio, abundante em agrados e repassado de indito, trazia ao seu ser moral e fsico um salutar estmulo. Assim, logo em cada antemanh, a estava le a cavalo e partia, de ordinrio com Jorge, ou com o _mayordomo_, a surpreender na sua complexidade pitoresca, na sua poesia sdia e rstica, a labuta spera do campo. Pelas manhs limpas e claras, ainda mal o oriente aquecia da carcia auroral do sol, e j le seguia com algum _capataz_ a verificar o estado dos _alambrados_, a revizar e contar o gado. Assistia ao apartar das rses, aprendia a ferrar, a castrar, a _carnear_, a _investir_, a atirar o lao. Muita vez ento le estacava, e, com mal contida inveja, quedava-se em admirativa contemplao perante a nobre silhueta dalgum _paisano_ montado que passava arrogante e viril a aprumar-se e a crescer na lisura uniforme da plancie. Encontrava realmente belas, impressivas, soberbas de linha, de mpeto e de carcter, cada uma destas rudes e ntegras figuras, curtidas pelo ar, tisnadas pelo sol,--mescla de oiro e bronze, e como o mesmo bronze duras e indobrveis,--envaginadas toscamente na sua singela blusa e na _bombacha_ ou enfiando o _poncho_; ao pescoo, com um n frente, o indispensvel leno enrolado; protectoramente a cabea envlta nas grandes abas do clssico _chambergo_; do cinturo, sbre os rins, o inseparvel _cuchillo_ colgado, e o lao e as _boleadoras_ na garupa; as retsas botas coladas e firmes sbre os aparatosos estribos, de tbua ou de coiro, profusamente rendados de guarnies de prata. E ento, naturalmente, ao vl-lo assim contemplativo e atento, Jorge orgulhava-se e compartia daquela admirao complacente do amigo. Logo, comprazia-se na exaltada apologia dsses centauros errantes da planura, completava-lhes a fisionomia moral, enaltecia a sua bravura, a sua generosidade, a sua altivez, o seu desprendimento, o seu desprzo estico pelo dinheiro, a sua resignada submisso ao destino. Galopando eram um turbilho, parados eram esttuas. E acumulava pormenores, desfiava anecdotas.--Jmais consentem _que les pisen el poncho_. Eram de sua natureza altercadores e briges, cultivando apaixonadamente, como um _sport_, tdas as vrias formas da luta, porm nunca a sua lisa alma abrigava o rancor e poucos baixavam ao crime. Cada um dstes bravos senhores do deserto poder dar um heri, raro um facnora. Uma vez vencedor desinteressa-se pronto do vencido, que desdenhoso se limita, quando muito, a marcar com o estigma cortante dalgum _tajo en el rostro_, um simples _barbijo_. Mas, breve, com o glorioso avanar do dia apertava o calor, e ento quse certo era irem os dois amigos demandar por um instante o confortvel refgio de algum dsses humildes _ranchos_ dos colonos agrcolas, sumarssimas construes de palha e barro, tmidas e mseras palhoas que abrigavam sob o teto, raso e intonso, uma vida tam elementar como as suas paredes eram primitivas. Ausncia quse total de moblia, reduzida a alguns polidos crnios de vaca servindo de assento, e a raros catres ou esteiras sltas sbre a terra nua. A alimentao parca e simples, por igual: carne, po, _mate_, acar, e mais um pouco de arroz nos dias de festa. Um campo rudimentar de aco e um reduzido vo de desejos. O miudito espao fechado por estas ingnuas tcas flor da terra, parecia entretanto naqueles depressivos momentos, ao quebrantado nimo dos dois jovens, um delicioso rinco do Paraso. No que ia tambm um pouco de sugestivo encmio feito convictamente pelo colono ao prprio ninho. --Passa-se aqui melhor que na cidade, senhores... O _rancho_ fresco no vero e quente no inverno. Na Argentina corre geralmente despreciada e ignorada a obra, sbre tdas fecunda, do colono, do emigrante, merc do anonimato inquo a que a relega ainda a persistncia tenaz da tradio romntica do _gaucho_. E contudo, aqui, as flutuaes na produo da terra dependem essencialmente e so inseparveis das vicissitudes da vida do colono estrangeiro, progressivamente vinculado pelo mortificado plasma do prprio suor mesma terra. E em primeiro termo beneficiosa influncia e ao pastoso esfro dessas proticas aluvies humanas que ste privilegiado torro, de flancos sangrantes, deve a maravilha da sua abundncia e o milagre da sua riqueza. Pela tarde, depois de uma breve ssta, novo giro. E, nesta vagabundagem de acaso dos dois amigos, vinham a ser estases de obrigado repouso as vrias _pulperias_ (casas de venda) com que les deparavam no caminho, umas rodeadas de meia dzia de casotas mais, outras singelas e ss aflorando tmidamente, como incrustadas na monotonia imensa da pasagem. A _pulperia_ participa simultneamente do carcter de taberna, centro de renio, estao postal e loja de comrcio,--um comrcio sem especializao e sem limite, extravagante e imundo _bric--brac_ de objectos para todos os usos, de utenslios para tdas as necessidades, de produtos de todos os pases, de farrapos de tdas as pocas. Na primeira casa dste gnero em que o Silveira entrou, surpreendeu-o a confusa variedade, a atropelada profuso e o baralhamento infinito das coisas disparatadas e antitticas que dste catico mostrurio formavam o recheio. A um canto, ao lado do mostrador e tomando tda a parede, havia um desordenado empilhamento de atributos hpicos,--cabeadas, rdeas, freios, selins, aoites,--crestados j uns pelo uso, novinhos em flha os outros. Ao lado oposto, era uma brbara inundao de ferragens de tda a sorte, de cilindros e novelos de fio de ferro, de fusis e petrechos de caa, ferraduras, martelos, cravos, navalhas, facalhes, tesouras, tudo isto alternado com prateleiras cheias de produtos de drogaria e especialidades farmacuticas. Ou eram fieiras de lmpadas de petrleo suspensas sbre sacos de milho, feijo e arroz; ou ainda, um pouco alm, os mais trpes especimens de calado vlho pendurados mistura com rsteas de alhos e mlhos de cebolas; ou a tentadora bateria de cervejas, do _brandy_, do _whisky_, dos licores, nos seus frascos rutilantes; ou, emfim, as cabacitas de _mate_ e as peas de algodo de cres berrantes, infalvel engdo s predileces lous das raparigas. Abancavam os dois amigos a alguma das mesas livres e pediam cerveja, flanqueados de crca por outras mesas, de roda das quais pacficos grupos, de gente rude e simples, bebiam _cana_, jogavam as cartas ou concertavam transaces comerciais, dilatadamente. De quando em quando, algum novo fregus entrava, sadava com gravidade, despedia um vago olhar em trno, depois ia sentar-se e ficava-se indefinidamente silencioso, esquecido, quse imvel, enrolando o cigarro, antes que exteriorizasse a sua inteno ou manifestasse o seu desejo. Porque o _gaucho_ nunca tem pressa. Habituado como le anda a medir o tempo segundo a declinao do sol, assim perante o seu modo desprendido e calmo de encarar a vida, uma hora a mais ou a menos no conta uma aprecivel diferena. A _pulperia_ , para ste dominador lendrio da _pampa_ argentina, mais que um vicioso centro de atraco: um inviolvel asilo de meditao e de repouso. Casa-se ntimamente com a sua inata altivez, com a sua natureza indolente e agreste, a soberana e apartada independncia, o calmo e tpido ambiente dstes baratos _oasis_ industriais, onde le em pleno olvido dormita e sonha, enquanto, fra, por essa extenso sem fim, dardeja fogo o gldio em brasa do sol ou fustiga o ar a asa revlta da tormenta. Por vezes havia na taberna um guitarrista; e ento os preguiceiros _gauchos_ desentorpeciam, chalravam mais alto e bebiam mais forte, estimulados pelo zangarreio mole e sensual dos _tristes_, _vidalitas_ e outras corridas rias crioulas. E tambm, a espaos, uma que outra vaca ou bezerro, metendo a cabea, vinham mugir familiarmente porta; enquanto os gafanhotos e as borboletas a cada momento entram e sem volitando, zombeteiros e livres, num como que desdm trocista por sse mesquinho produto da indstria humana que se permitira a ousadia de vir ali ridculamente enxertar-se na majestade soberana do deserto. Porm para o feitio mulherengo e ribaldo do Silveira, as mais saboridas horas nesta folgada digresso campestre, eram sem dvida as noites. Inaltervelmente Jorge, com o seu faro infalvel de vlho garanho regional e fiel s baixas solicitaes do seu instinto, conduzia ento o amigo s estaes galantes da redondeza, a essas abscnditas e errantes _pulperias_ do amor, asquerosas e imundas _madrigueras_, cheias de mugre, o ar afrontoso e envenenado, crasso de emanaes carnais, nublado de fumo de tabaco, onde sstros e descompostos grupos de chinas da nfima espcie se deslocavam nas lbricas contorses de algum acanalhado _tango arrabalero_, e no mais trpe delrio de gestos e visagens porfiavam em inflamar o apetite mrbido dos visitantes, desmanchadas em bailuchos desonestos, abertas em risos que davam tristeza, dobradas em carcias que infundiam asco, sltas em requebros que faziam mdo. O Silveira no descia a misturar-se na agitao insalubre do torvelinho; porm mentalmente embebedava-se na contemplao desta dionisaca pardia, comprazia-se no exame de tam ignbil espectculo. A exsudante coreia animal enardecia-o. Ao passo que o seu amigo Jorge, menos isento e mais frascrio, por vezes se emborrachava a perder, apostado no clssico _tomo y obligo_ e confundido com a ronda esborifada e bestial do mulherio. Por fim, andados uns dias mais, o Silveira, reputando-se um esperto conhecedor j da regio, emancipou-se. Agradava-lhe agora de preferncia, uma ou outra vez, sair le s e aventurar-se em soltos rumbos pelos dilatados panoramas da redondeza. As fragoeiras qualidades do seu gnio requeriam esta expanso librrima. O aguilho vago da incerteza era um estmulo mais a acicatar-lhe o vivo apetite do indito, neste seu investimento solitrio do Desconhecido.--Assim aconteceu que, uma tarde, depois de haver gozado algumas horas andando s inculcas, szinho e ta, pelos campos, quando pensou em regressar _estancia_, pela primeira vez hesitou na direco a seguir e comeou a dar-se conta, com arreliador desagrado, de que pisava um pas ignorado, alheio, hostil... compreendeu que se havia perdido. A sua ilusria presuno de infalvel batedor do campo atraiora-o. No sabia onde estava. Debalde interrogava e buscava ansioso profundar o mudo enigma do espao. Na inquieta demanda do rumo perdido, ensaiava ao acaso veredas e trilhos novos ou fazia longas e fatigantes caminhadas, que, como num circuto infernal, o traziam invarivelmente ao mesmo ponto de partida. J a noite vinha prxima e os pontos de referncia conhecidos falhavam-lhe. Olhava ao largo e respondia-lhe o desdm burlo da imensidade. O mesmo dcil animal que le montava, parecia tomado tambm,--caso raro,--duma indeciso, duma ignorncia, dum receio igual, e a cada momento estacava, fitando as orelhas, e num interrogativo ruflar, nervoso e lerte, alongava as narinas fumegantes.--E no aparecia viv'alma!--Teriam que ficar p'r'a assim, Deus sabe como, aonde e por quanto tempo... Nem um ente vivo que os encaminhasse! no apontava um sinal, no alvejava uma casa. No surdia por acaso algum dsses vlhos e graves _rastreadores_ que,--le ouvia contar,--seria capaz de met-lo a direito, descobrindo e estremando-lhe o decalque do passo da montada no piso batido e poeirento da planura. Nem tampouco se fazia o milagre de le encontrar um dsses subts _baquianos_, inverosmeis topgrafos, que sabem o curso de todos os mananciais, conhecem os vaus de tdas as ribeiras e so peritos em discernir, um por um, entre milhares de caminhos... Ento, na sua insistente e mida inquirio do ambiente, o Silveira notou sbito, e ali bem perto, uma sbe de arbustos bravos para l da qual havia seguramente algum. Sim, porque, no obstante a calma paradisaca do ar, as suas flhas tinham rces metlicos, e os ramos abanavam, estalidavam, dobravam-se e erguiam-se em choques rumorejantes. Dirigiu para ali o cavalo e breve distinguiu atravs da folhagem as indecisas linhas dum grupo: duas figuras, mas evidentemente em briga, porque, ao seu impulso, a trama verde da precria vedao tinha deslocaes violentas, crispava-se em bruscos sacudimentos, e de envolta com a sua arrepelada flutuao vinha o resfolegar opressivo e anelante de pessoas que lutam ardidamente... Curioso, o Silveira apeou-se de golpe e deu volta. E viu que um sujo e intonso labroste estrangulava nos braos brutais o corpito espavorido e vibrtil duma joven alde, que se debatia exasperadamente, e que aquele animal queria viva fra sujeitar ao cevo do seu desejo. O corao do Silveira teve uma retraco de generosa angstia, um lume vingador lhe passou diante dos olhos e atirou-se, de salto, contra o cobardssimo stiro, aplicando-lhe bruscamente um formidvel murro contra a nuca, e logo, cingido cerce com le, afogando-lhe o pescoo com as mos tirantes, duras, implacveis como duas tenalhas de ao. Subjugado pela inopinada e valente agresso, o imundo labrego no teve mais remdio seno deslaar os braos, largando a presa; e queria voltar-se e defrontar duramente o adversrio; porm antes, cedendo ao garrote aniquilador da asfixia, cambaleou e tombou desfalecido na mesma terra revlta pela sua bestial investida. Dominador e soberbo, com o revlver pronto assestado, o Silveira ameaou: --Se te mexes, co! fao-te saltar os miolos. O contricto matulo, estendido e inerte, esboou um esgar implorativo, sem palavra ferir, erguendo os braos suplicantes. Aproveitou o Silveira ste favorvel instante para lanar um olhar de piedoso intersse sbre essa ignorada flor da selva que le providencialmente acabava de salvar, a sua pequena desconhecida. E logo o vencido rstico, surpreendendo a momentnea distraco, saltava lsto em p e pronto a arremeter como um toiro, lvido de raiva, com uns olhos de morte, contra o seu garboso rival, brandindo o traioeiro _cuchillo_ no brao homicida. Porm acudiu a tempo, de sua banda, a rapariga, alcanando-o animosa pela espalda e pendurando-se-lhe do brao em pso, a segurar-lhe o pulso. Foi um momento, o bastante para o Silveira, de revlver sempre assestado, retomar o seu ascendente e obrigar o meliante a largar o ferro. E v de zurzi-lo depois com o chicote desapiedadamente, cobrindo-o de improprios, fazendo-o rodopiar sbre os rins, arregoando-lhe a face, varejando-lhe os quadrs, e cortando-lhe os joelhos. E o confuso marmanjo, outra vez de braos ao alto, no fazia agora mais que recuar, recuar passivamente... t desaparecer por fim na sombra, derreado, aturdido, cego e vagamente ameaador, rugindo. Podia agora enfim o Silveira contemplar mais em sossgo a curiosa figurinha que tinha ali assim a seu lado, retrada e tmida, tda tremulante e magoada ainda da repelente luta de h pouco. A estpida scena fra tam breve que a le nem dra mais tempo que para fixar-se bem nos gestos e atitudes do seu caviloso contendor. Da indefsa vtima dste no chegra a lograr formar-se uma noo definida e clara. Agora, sim... Era uma linda e adorvel _morenucha_, pouco mais de nubil, delgadita e enxuta, dum moreno de bom tom, um moreno atenuado e lnguido, apenas mais vigorosamente mordido na macieza tostada da nuca, no nankin macerado das olheiras. Calava uma espcie de tscas alpercatas brancas e grosseiras meias negras, de l; sbre a saia, muito curta, negra e rstica por igual, e em cujos tupidos refgos a estreiteza anadiomnica dos quadrs se perdia inteiramente, abatia-se a fmbria slta duma blusa clara, de riscado; e pela colina apolnea dos ombros, firmes e redondos, uma floresta de fartos cabelos negros, naturalmente ondeados, desparramava-se em desalinho. O fresco e apetitoso dasabrochar duma esplndida flor do campo. Tinha uma expresso singular, entre menineira e selvtica, uma como frescura moral de clara fonte. A mais pura linha de contrno ovalava o seu rosto cheio e singelo, cr de trigo maduro, animado por uma bca que era um alapo de desejos, aquecido por uns deliciosos olhos negros, cheios de fogo, olhos que se no fossem tam puros seriam a perdio da sua alma. E a clida veemncia do temperamento, as demasias do sentir latente, a flama espirrante da sua vida interior, denunciava-as bem a tinta mate da epiderme,--essa cr hepatizada e ardente das loucas depositrias da paixo. Com paternal carinho o Silveira, adiantando-se, preguntou-lhe--como tinha sido aquilo? que se havia passado?--E ela, cndidamente, com um pso de vergonhoso embarao a velar-lhe as palavras e a abater-lhe as plpebras: --_Yo andaba buscando una tropilla de cabras que se me ha extraviado, cuando ese gringo_... --Pobresita! A esta sincera exteriorizao de piedosa ternura no teve a suave rapariga uma palavra de comentrio... porm a comoo empanou-lhe os olhos e um spro de enternecida gratido lhe fundiu a alma. --Como te chamas?--familiar o Silveira tornou. --_Luisa, servidora de Usted_. --E ento agora vais p'r' tua casa? --_Si, pues_. --Muito distante? --_Sesenta cuadras, no ms_. --Se queres, eu te acompanho. --_Bueno, seor_. Numa instintiva e afvel confiana, ela avanou dois passos, o Silveira tomou-lhe a mo esquiva, e os dois acercaram-se ento do cavalo, a que o dono tomou a rdea. E queria que a pequena montasse, e cortsmente insistia, para furt-la fadiga molesta de tam longa caminhada. Porm a gentil rapariga, tenazmente, escusava-se.--_Que no, qu esperanza!_--E por seu turno, desprendida e solcita, teimava em que le que tinha de aproveitar a montada. Era o natural... Um senhor da cidade, tam fino, tam delicado!--Por fim, a rodear amigvelmente a dificuldade, resolveram por mtuo acrdo seguirem, j agora, ambos a p.--Passariam trabalhos iguais... assim, nem um nem outro teriam que dizer.--E foi como alegremente iniciaram ento a penosa jornada, pronta e infantilmente acamaradados, com o cavalo mo e marchando a par e passo os dois,--ela mocanqueira e feliz por tam fidalga companhia, vaidoso le e arrogante por ver-se o depositrio ocasional daquele tesouro,--mano e mano divagando, mansos e graves, na luz indecisa do crepsculo, pela orla sinuosa dos caminhos. Nesta hora recolhida e melanclica, j o sol baixava a rasar a purpurina fmbria do horizonte, envolto numa conflagrao de nuvens que o toucavam, redondas e infladas, como o penacho dum elmo rutilante. E o seu estirado reflexo incendia o imenso lenol pampeano em fulvas reverberaes, como um vasto claro de incndio, no mais puro e mordente contraste com a leveza espelhada do cu, infinitamente calmo, fundo e difano, cuspido apenas ao alto de breves nuvens policromas.--Andando sempre, amavelmente o Silveira ensaiava, a curtos intervalos, travar dilogo e entabolar conversa, a fazer um pouco o conhecimento da sua misteriosa companheira. Lusa porm tinha dificuldade em compreend-lo, fazia-o a mido repetir as frases; e apenas se ela consentia depois em deixar escapar alguns raros, intervalados, curtos e soltos monosslabos, como gotas de gua reumando num subterrneo. E a seguir logo ela recaa no mesmo mutismo concentrado e aptico, fechava-se na sua invarivel reserva, na sua tmida esquivana, marchando silenciosa e humilde, ao lado do seu generoso amigo, com a repousada majestade da pasagem nua do deserto. Contudo, a poder de pacincia e mimo, o Silveira conseguiu inteirar-se de que ela vivia separada e longe do pai e da me, por contendas de famlia; e que trabalhava a jornal, mais um irmo, na fazenda dum dos mais acaudalados chacareiros da redondeza. Igualmente conseguiu torn-la sabedora do motivo da acidental apario dle por ali. E ento era de ver como a graciosa _morochita_ vivamente se interessava.--Ah, a estancia _Amlia_?... Conhecia muito bem: _una ricura! Qu buena seora_ a D. Teresa! _Seorita_ Clia, _una santa_... Por sorte, era p'r'os mesmos lados da sua chcara. No havia dvida, ela lhe ensinaria... E tudo mais que le quisesse... No havia por'li assim rinco nem caminho que ela no _supiera al dedillo_. Conhecia-os com'os os seus dedos.--E, dizendo, tornava-se comunicativa, e afogueada, risonha, saltitava de prazer, tda na vibrao exultante de poder ser til a ste bravo e louo desconhecido a quem ela devia mais que a vida. Porm, sbito, a atraente campesina estremeceu, e, dando um salto, atirou-se contra o flanco protector do amigo. --_La lechuza! la lechuza!_--murmurou com supersticioso terror a timorata rapariga. E apontava um pequeno ponto escuro sbre um poste telegrfico, ilharga do caminho. Ergueu o Silveira, alarmado, na mesma direco os olhos e pde distinguir uma pequena ave, de cr quela hora indecisa, e que lhe pareceu um pouco mais volumosa que os tordos que le sabia tam bem caar, na sua terra; porm com uma grande cabea chata, solene e doutoral, vagamente humana, e poisado com uma gravidade que lhe dava o mais estranho ar, uma bizarra mescla de ridculo e de mistrio. Confrangida e de cabea baixa, apertando os braos, a pobre Lusa entaramelava,--que aquilo era uma ave m, agoireira, sinistra! Mal ia aos que _la lechuza_ fitava assim... como a ela estava fazendo agora! Era o mais temido avejo do campo, o mensageiro da fatalidade, um prenncio certo de desgraa.--Animoso e incrdulo, o Silveira buscava tranqiliz-la.--Que no dsse f a essas estpidas crendices dos vlhos tempos. Quem cria agora em agoiros?... Tonterias! Era um pobre animal inofensivo e simples, como tantos outros.--Lusa porm convictamente protestava.--Que no! todos os dias se estava a ver... Ainda no havia muito tempo que um tio dela cara e morrra afogado num po, por ir perdido a querer furtar-se perseguio duma aventesma destas, por uma noite assim... E a amsia ltima do patro? E a filhinha do sr. juiz de paz?... No havia nada peor! Tinha a sua vida cortada... E, num mixto de ansiedade e horror, de quando em quando ela indagava a presena, pelo espao, dessa azarenta mancha indecisa... a qual por seu turno, de poste para poste, de boua para boua, surda e fantstica, avoejando, implacvelmente os ia seguindo sempre,--na sua grande cabea redonda, invarivelmente sbre os dois apontada e fixa, luzindo ameaadores e presgos dois pontos fosforecentes. Sentindo contra o seu flanco a palpitao do corpinho fresco e tremulante da rapariga, o Silveira aquecia. Dirigia-lhe palavras de carinho, cingia-a pelos ombros, afagava-lhe paternalmente o cabelo. Neste delicado momento, senhoreava-o uma cida perturbao, desdobrava-se-lhe a alma numa inquietante duplicao de sentimentos, participando a um tempo da piedade e do orgulho, da vaidade e do desejo. Quando considerava a justa oportunidade, o xito feliz da sua cavalheiresca aventura, isento e honesto o corao alargava-se-lhe; e, ao mesmo tempo, por todo o seu ser em alvoroo despertava uma sensao de terna e estranha voluptuosidade,--o apetite vago de possuir a sua linda e frgil tutelada para continuar a proteg-la... Assim foram longamente caminhando, na progressiva invaso da trva e do silncio, minsculos e ss os dois na imensidade, alumiados j pelo sonambulismo errante das estrlas. Por aquela agonia dulcssima de tarde, o crepsculo da luz e o crepsculo da tradio fundiam-se. Era o charro e vazio esbatimento, era a definitiva eliminao de todo sse mundo de encantadoras e imaginosas fices que, antes, volitando irisadas e leves, como borboletas, esmaltavam de poesia a esfumada atmosfera dste pas fantasista e ingnuo,--hoje irremissvelmente dispersas, trituradas e desfeitas pelo industrialismo feroz da hora presente. No mais serenatas, encantamentos, fadas, demnios surdindo dos poos, virgens penteando-se ao luar, bruxas alucinando donzelas, sereias a adormecer gigantes... No repouso letrgico da planura, o nico rudo perceptvel era por acaso o rouco soluo de alguma locomotiva, raspando ao longe. E neste apaziguamento sem termo, na absoluta desolao desta soledade infinita, a monotonia sem fim da _pampa_ alastrava como uma imensa mortalha,--era um mar morto num pas de olvido. Haviam atingido o ponto obrigado da separao, o teimo fatal deliciosa e imprevista caminhada. Foi quando gravemente o Silveira estacou frente sua linda scia de jornada, e tomando-lhe as duas mos, encarando-a bem nos olhos, suasivo e meigo: --Ento, muito cansada? --_No... aunque fuera doble del camino_,--murmurou Lusa docemente. --Espero que nos tornaremos a ver... --_Quien sabe?_--devagar ela suspirou, furtando os olhos, com um peganho vago de tristeza. E dos dois as mos trmulas e frias deslaaram-se, houve um mtuo breve acno de despedida e voltaram-se costas, num eloqente mutismo, seguindo cada qual o seu caminho. O Silveira, porm, tam pronto deu no seu novo rumo os primeiros passos e sentiu que lhe faltava o que quere que fsse... e contra o seu querer no despegava de pensar, apiedado, quente, com uma devoo enternecida, na misteriosa apario dessa adorvel e paradoxal criatura, tam sobranceira ao mal, tam pura em meio de tanto ldo, tam segura da sua imunidade, tam resoluta diante do perigo. Quis v-la uma vez mais.... parou, voltou-se. Mas, impelida por idntico desejo, ela voltra-se tambm... E nesta simultnea permuta de olhares, confusa ao ver-se surpreendida, a alvorotada criana deu logo rpida a espalda e disparou, correndo. VIII Longe, na _estancia_, a extraordinria demora do Silveira tinha tda a famlia Saavedra em cuidado. J eram as 9 horas passadas e ningum pensava em comer, polarizada e anciosa como todos tinham a ateno no pvido receio de que ao seu simptico hspede houvesse sucedido alguma coisa... A conjurar os maus fados, a mstica Clia no cessava de marmotar ntimamente rosrios sbre rosrios de intercessoras preces. E j o irmo havia feito convocar uma dzia de pees, para que montassem pronto a cavalo e batessem de roda os caminhos, quando finalmente, aodado e ofegante, o Silveira apareceu. Entre fatigado e confuso, desfazendo-se em implorativas frases, em instantes justificaes, em escusas humildes, contou ento mesa a sua romanesca aventura. O pequeno crculo amigo escutava-o num pique de intresse crescente, que subiu de ponto t assumir os contornos duma enternecida piedade, quando le, tendo anotado por uma sacudida mmica a rpida e sumria exposio da luta, se comprazia depois, turbado e quente, na sentida descrio da sua pequena protegida. Ento os aplausos choveram claros, abundantes, envolvendo o destemido gal no mais propcio ambiente de favor, de agrado, de entusiasmo.--Uma aco de cavalheiro! Parecia mandado pela Providncia ali... Fra lindo!--E com uns grandes olhos pezarosos, as duas senhoras:--Pobre _chica_! essa... andar assim exposta... E como muitos males acontecem... por'mor da necessidade, tantas vezes!--Smente Jorge, ftuo e incrdulo, punha neste ingnuo crculo a nota discordante.--_Qu chica_! que perigos, que necessidades! _Pura parada, zonceras, bromas_ ... Fra um caso trivial aquilo. le estava farto de conhecer essas falsas virtudes do campo: eram umas sabidonas, umas impostoras, umas ratas sbias da moralidade, rles virgens de contrabando.--E como, santamente indignada, a irm protestasse, com arrogante scepticismo, num risinho chocarreiro o impertrrito censor desafiava:--Mandassem-na p'ra le, que logo a desmascararia! No dia seguinte, de manh, correio. Pai Saavedra aguardava com impacincia os jornais, que deviam j trazer o resultado das eleies em Buenos-Aires. Confirmava-se a vitria dos socialistas. E desgostado o bom vlho, depois de lr os nomes dos novos deputados e a crescida cifra que haviam alcanado no sufrgio popular, disse para o filho e o hspede, enquanto depunha as lunetas, abanando a cabea com tristeza: --Acho um mau sintoma... Isto um contrasenso, um absurdo, frtil em resultados negativos que breve vo dar o seu pernicioso fruto, ho-de ver... No faz sentido, no se compreende: uma sociedade minada pelo socialismo e tda regida ainda por leis gticas e romanas. Esperava tambm notcias da famlia, de Paris, que havia j tempos que no vinham. E numa piedosa tristeza, encolhendo os ombros: --Aquele meu neto! S escreve quando precisa de dinheiro. Igualmente o Silveira havia recebido correspondncia da Europa, e que de Buenos-Aires obsequiosamente lhe remeteu o Azeredo. Primeiro, largas notcias dos seus primos de Tourais, informando-o que aquilo por'li ia mal... o Douro estava descontente. O vinho todo nas adegas, os preos arrastados e mesmo assim ningum comprava. Efeito em ba parte da proteco escandalosa que o govrno da Rpblica continuava dispensando aos vinhos do sul, que pelo Prto e Gaia entravam descaradamente. E que os lavradores estavam furiosos, os jornaleiros com fome, os povos na misria. A continuarem assim as coisas, muito sangue ia correr! Falava-se em revoluo, e, em ltimo caso, o Norte saberia bem emancipar-se polticamente dsses soberbos e egostas mandes de Lisboa!--Todo ste inflamado rol de ameaas o Silveira leu breve e distradamente, sem dar ao assunto maior ateno, como se se tratasse de remotas coisas passadas nalgum pas desconhecido. Tinha agora uma carta do seu irmo Bernardo. Lamuriava a sua falta de trabalho, a ignorncia rotineira dos lavradores, a descrena e a impiedade corrompendo tudo... e pedia-lhe dinheiro. Soltou-a das mos com indiferena. A seguir, outra carta. E le conhecia bem esta letrinha tortuosa e mida, traslado flagrante do carcter mimalheiro e vibrtil da sua olvidada noiva.--Umas dzias de linhas lacrimosas, desgrenhadas, lgubres... bagoadas de nnias e lamentos, amargas recriminaes lricamente contornando, como lianas de queixumes, todo um florilgio veemente de paixo. E exprobrava ao seu ingrato prometido essa evasiva hipcrita da sua dignidade em briga com o seu amor... e que tal amor por ela nunca le sentira... por isso que o verdadeiro amor um sentimento exclusivo, dominador absoluto, que com nenhum outro se compara, de nenhum pode aceitar limitaes nem sofrer competncias. Vinham ainda solenes protestos duma vida tda de isolamento, de absteno e renncia, t que o seu amado voltasse. Aludia-se vagamente ao suicdio...--Porm, ainda na mesma alheada e fria disposio de nimo, a ateno do Silveira correu ligeira sbre a enternecida pgina, desviando logo a vista indiferente e arrojando-a ao lado com tdio. Agora, um exemplar de _La Razn_, de Buenos-Aires, com um longo artigo marcado a lpis azul e um bilhetito dentro. Era daquele seu peripattico scio de viagem, o Ramn Alvarez, que com desbordante ufania lhe noticiava estar contratado para escrever nesse dirio umas crnicas literrias semanais que firmaria com o seu pseudnimo de guerra,--_Carrasco Bossa_. E sessenta _nacionaes_ por cada uma. Bem bom! A ia a primeira.--O Silveira nem uma linha leu sequr; e v de tomar por fim a ltima carta,--esta sim! que o fez dobrar-se, nuns grandes olhos espectantes, e foi logo aberta com o maior intersse. Vinha de Espanha, tinha o carimbo de Orense. Era um dos seus amigos da fracassada conspirata monrquica a participar-lhe--que as coisas iam bem agora... ali trabalhava-se mais vontade, as autoridades faziam a vista grossa, les tinham armamento, dinheiro, quantidade de gente instruida. Desta vez seria a valer! E que estava por pouco sse pesadelo trpe da Rpblica!--E na sua confiada anteviso do termo breve do seu exlio, do advento vingador do seu triunfo, o Silveira lia e relia com demorado calor o sugerente papel acariciado entre os dedos, e um frmito de incontido jbilo vinha bailar-lhe na aresta dos lbios trmulos. Mas seguramente aquele era o dia das novidades, porque hora do _mate_ um inesperado telegrama chegou, dirigido a D. Teresa.--Era Maria Mercedes que anunciava a sua visita, para a manh seguinte.--Foi todo um gudio, um encanto, um alvoro, uma festa. Ao mgico influxo da prazenteira notcia, a arrastada e montona vida habitual da _estancia_ ganhou alento, alma, calor, transfigurou-se. J um spro de cordial eflvio vibratilizava o ambiente, e as fisionomias tinham um outro ar, as coisas brilhavam duma claridade nova. E tda a tarde, depois, para sses reservados aposentos do andar superior um carinhoso movimento convergiu, de solcitos mimos, previses, atenes, cuidados. Os serviaes arrumavam, espanavam, varriam, traziam lenis e toalhas, faziam as camas; Clia foi incansvel na conduo de flores, em sbias instrues ao pessoal da cozinha; e de sua banda os dois Saavedras, pai e filho, porfia volviam a desfiar, cada um por seu modo, os singulares atributos e as adorveis perfeies da nova hspeda, perante a picante emoo crescente do Silveira. noite discutiu-se quem havia de ir estao receb-la. Clia e Jorge estavam indicados; porm o Silveira desejaria acompanh-los tambm, e a dvida era se teria logar. Porque a _Miqutas_ trazia seguramente a inseparvel Dorita mail'a _niera_: eram assim ao todo seis pessoas, e o auto no comportava mais que cinco. Contudo, a momentnea dificuldade comps-se pela desprendida insistncia de Jorge--em que seguiria ao lado do _chauffeur_. Na manh seguinte, hora justa do horrio, o trem de ferro parava em Chascoms. E na obscura mancha _gris_ dos raros viandantes que saltaram, v de recortar-se, num forte e eurtmico destaque, a esbelta silhuta duma mulher redondita e grande, os olhos negros, loira, aparatosa, avanando com lentido, de cabea erguida e sorriso aberto, na flexuosa molenta dos movimentos revelando todo um contrno de divindade pag, e ora amplificada em ademanes de ranha, ora quebrada em mimalhices de criana. Vestia um singelo traje _tailleur_, de miudito xadrez preto e branco, gorro de fazenda e cr igual, um tenussimo vu de _foulard_, preso em duas largas pontas sob a nuca, e luva e sapato branco. Trazia ao clo um delicioso cosito, de focinho afusado, os olhos como contas de azeviche e o friorento corpinho por completo forrado no esplndido _manchon_ natural do seu longo plo, cr de rato. Seguia-a uma criadita delgada e joven, vestida de negro, com uma menina dos seus 10 anos, plida e frgil, pela mo. Logo Clia e Jorge correram direitos a sad-la, e depois das primeiras acolhedoras demonstraes fizeram-lhe a apresentao amvel do Silveira que Maria Mercedes acolheu com distrada indiferena. Poucos minutos andados, instalavam-se todos no auto; no logar de honra, de saber, a formosa viva, com um banquinho puxado aos ps e logo uma ffa almofada trazida para sob a espalda; depois, ao lado, a pequena Dorita e Clia; e na frente, de costas ao _chauffeur_, a _niera_ mail'o Silveira, que gentilmente Jorge obrigou a tomar assento junto e _vis--vis_ da sua tam encomiada prima. Breve, e uma vez o auto em marcha, o dilogo abriu-se, animado e impressivo, todo neste cortado e vido travamento de monosslabos em girndolas, curtas frases sibilantes, simultneas e bruscas exclamaes, atoadas perguntas sem resposta e relmpagos de inquiries em suspenso, que caracterizam, de ordinrio o primeiro contacto afectivo de pessoas ntimas, h muito separadas pelo tempo ou a distncia. Maria Mercedes, naturalmente, dirigia-se de preferncia a Clia e quando muito, uma que outra vez, ao primo, no se dando conta absolutamente para nada da presena do Silveira, que frente a ela seguia apagado e mudo, numa vaga humilhao, o rosto invarivelmente paresiado numa lrpa expresso de convencional agrado. Vieram primeiro solcitas indagaes sbre a preciosa sade dos tios Saavedras; e como corria o tempo na _estancia_, a peonada, as flores, a vizinhana, as colheitas. Depois, a maligna coscovilhice habitual sbre o mundo imenso das amigas. Uma viperina reportagem verbal que fazia o regalo do feitio burlo de Jorge e com que os mesmos piedosos escrpulos da irm gostosamente se acomodavam.--Trazia-lhes um grande _bouquet_ de novidades, um punhado de revelaes inditas, imprevistas... Incrvel! no breve espao de dois meses, que de coisas entre trgicas e patuscas, se haviam passado. E que imaginassem... A Pilarita Flores, sempre era certo! rompera o casamento... um compromisso tam antigo... e tam a fundo. E depois do que se dizia! Agora o noivo, furioso, ia-se fartando de dar lngua e o mal no era seno p'ra ela. O puro do escndalo! Porm outra melhor: aquela sonsa da Marta Wilkinson, a casada, sabiam?... sempre afinal deixou o marido. Tendo um filhito de seis anos! onde que se viu isto? E tudo p'ra juntar-se com sse _farabute_ de Sottardo... ordinrio, feio, pobre, um rles aventureiro. Fugiram p'r'a Europa, cr-se; enquanto o marido, deixando o filhito av, se foi p'ra Crdoba esconder a vergonha. Porm tam descarados os dois, que, antes de abalarem, ainda estiveram no _Hotel Majestic_ uns quinze dias, sem recato, sem mdo, sem pudor nenhum, fazendo pblico alarde da sua revoltante mancebia... Mas pelos modos aquela gentinha Wilkinson era uma bem triste famlia! A outra irm de Marta, a mais nova, a morfinmana, l estava no sanatrio de Rivadvia... Apenas dezanove anos e doida de todo! --Uma famlia _cursi!_--sentenceou Jorge com enfado. E a prima, seguindo rdidamente o seu implacvel relatrio, acrescentava,--que sempre se confirmavam as escapadas furtivas da mulher do Santelmo Martinez _garonnire_ do Avellanoso. E que, pelos modos, no _hogar_ sem mcula dos Perez se descobrira _recin_ um par de ilegitimos _polluelos_... --Perdida gente!--lastimou Clia num compungido suspiro, baixando com beata compuno os olhos. --Agora quanto a pequenas notas de ridculo,--continuou a viva, mudando de tom, num ar mais ligeiro e mais facto,--tenho tambm uma cabazada cheia. Ai! se fsse a desfi-las tdas... Basta s que vos diga: essa impostora da Anita Castex h mais dum ano que no paga modista, porm manda p'ra l as amigas tdas; as toltas das Molinas, apertadas pelo cbro de contas que lhes vieram da Europa, tiveram que vender o melhor das jias e da moblia; o mais assim.--E ao cabo dste regalado _raid_ pelos meandrosos domnios da m-lingua, a aparatosa viva balbuciou com ar enjoado:--Mas, em suma, sejamos tolerantes, deixar l...--E logo, num imperceptvel bocejo, com uma adorvel depresso de fadiga:--Mas, meu Deus! esta horrvel caminhada no tem fim. Sinto-me fatigada, sabem? --Como fatigada, _ch?_--levemente trocista acudiu Jorge,--por uma viagem tam curta? Uma criatura que anda sempre dum lado p'r'o outro... --Tambm verdade, sim, viajo muito.--E com um requebrado suspiro:--Ainda a melhor maneira de iludir a triste vacudade da minha vida. Durante tda essa deliciada sarabanda de sociais mexericos, continura a marcar zero para a assistncia aquele anonimato humilhante do Silveira. Debalde le a quando a quando demandava, a que lhe dsse importncia e valor, o generoso amparo da inocncia, nalgum implorativo olhar despedido com um sorriso a Dorita, a qual, tda ouvidos s perversas revelaes da viva, invarivelmente lhe voltava o rosto enfastiado. Lembrou-se o pobre ento, como ltimo recurso, da bondade infinita dos ces... e tratava, com timidez, de interessar em seu favor a enternecida ateno do lindo animalito ali enovelado diante dle, mirando-o com familiaridade, pedindo-lhe a patita, esboando no ar com a mo em concha vagos gestos de carinho. Bateu certo, desta vez, porque Maria Mercedes, sensvel a sse timorato ensaio de irracional galanteio, j condescendia em envolver a figura suplicante do Silveira no amavioso crculo da sua ateno e dos seus conceitos. E coquetona e lnguida, um pouco teatral, continuava: --Pareo alegre, muita vez... certo. Das minhas _abrumadoras_ crises de desnimo desperto sbito, e esqueo-me de mim mesma a inventar movimento, a organizar festas, diverses, prazeres... Oh, mas tudo puro engano! No so coisas que brotem c de dentro. a maneira mundana de me aturdir... de iludir ste afrontoso tdio do meu viver, entre sentimentos que me enganam e pensamentos que me aborrecem. E agora, num atencioso e directo relancear de olhos ao Silveira, com familiar singeleza: --Mas eu sou uma criatura feita de contradies... no faa caso do que eu digo. Porm o exttico Silveira nem a ouvira, todo preso e incendido na devoradora contemplao daqueles grandes e divinos olhos, que le agora pela primeira vez surpreendeu em tda a plenitude dos seus belos traos fulgurantes... uns olhos clssicamente distanciados, negros, profundos, e que eram como um ardente cu estival: com relmpagos e sem nuvens. Ao tempo, do assento da frente, Jorge debruava-se, torcendo a espalda, para a prima, e ligeiramente irnico, apontando o cosito: --E que nova raridade essa agora? --Ah, e bem raridade, _ya lo creo_!--logo a viva contestou, fazendo de agastada.--_No lo diga Usted por broma._.--E com intimativa:-- um autntico _Pomeranian_. Talvez no haja mais quatro em todo o mundo!--Passou a mo caridosamente pelo felpudo crro do animalito.--Meu querido _Riddle, verdad_?...--Depois outra vez para Jorge, naturalmente:--Comprei-o agora, h meses, na minha passagem por Boston. --Muito caro? --Cinco mil _dollars_. --Que coragem! --Ah, mas fui prtica...--apressou-se em aclarar com ladina expresso Maria Mercedes.--A emprsa que mo vendeu, segurou-me ao mesmo tempo a vida dle em igual quantia, por dez anos. E j ela novamente, com amvel ateno para o Silveira: --E, diga-me, meu caro, h quanto tempo se encontra na Argentina? --H apenas dias. --E que impresses tem? --Oh, as melhores do mundo, minha senhora! um pas encantador. --Cale-se! cale-se! --E porque hei-de eu calar-me, se digo a verdade?... se eu no vejo por tda a parte seno a mais deslumbradora e magnfica expanso de cultura, de actividade, de progresso, de abundncia e de beleza? --Mau! mau!--tornou graciosa a viva a atalhar, erguendo o brao com enfado, fransindo o nariz com tdio.--A temos ns que escutar uma vez mais sse hipcrita e estafado _clich_ de quantos gnios de exportao, emritos vividores e fracassados socilogos, nos visitam. --So espcies zoolgicas a que eu me orgulho de no pertencer. --Fao-lhe essa justia. Mas por isso mesmo lhe peo que, pelo amor de Deus! no me continue nesse tom incondicionalmente bajulador, que, fora de falso e gasto, em vez de nos desvanecer, nos irrita e nos desgosta... Busque antes ver as coisas como elas so realmente. Fale-nos da pobreza da nossa pasagem, da monotonia e solido do nosso campo, do nosso feitio desbaratador e indolente, da nossa vaidade insolente de _parvenus_, da nossa penria de inventiva, a nossa fatudade, a nossa ignorncia... a mal alinhavada _pastiche_ da civilizao europeia a que em ltima anlise se reduz tudo isto. --Como? como?...--acudiu Jorge, voltando-se brusco, num vivo rebate de orgulho, visivelmente contrariado. --Parece-me severo em demasia o quadro,--urbanamente entendeu o Silveira dever contestar.--O que a vai, minha senhora! -- prima! isso tambm agora...--ao mesmo tempo protestava Clia com indignao. Porm de sua banda a viva, serna, imperturbvel, e seguindo na solcita catequese do Silveira: -- que eu desejo que venhamos a ser dois bons amigos, e p'ra isso, condio imprescindvel, ter que ser sempre franco comigo, h-de ter opinies suas, pintar-me os homens e as coisas sinceramente. Ter que ser, sobretudo, original... No lhe quero ouvir baboseiras. Semierguido e dobrado numa vnia galante, exultante de prazer, com o seu mais fino sorriso o Silveira aventurou: --Original?... Numa coisa seguramente eu no poderei s-lo, minha senhora... --E ento? --Na incondicional admirao por si. Visvelmente lisonjeada, Maria Mercedes cambiou com a prima um expressivo olhar de agrado; enquanto, num risinho mordaz, o irmo: --Sempre galantes stes portugueses. --Aprenda, aprenda... --Ora! vlhos modismos pigas de h cem anos...--logo o moo argentino ripostou com desdm; e com desenvolta petulncia rematou:--E qual a mulher que os merece? Nesta slta e frvola chalra foram rpido consumindo o tempo; a termos que j em breve, como de improviso, vinha cortar-se-lhes na frente, prxima e amiga na infinita rasoira semsabor do horizonte, a torcida e rugosa carcassa do vlho _ombu_ da _estancia_. Pronto o auto parava junto ao gasto porto da entrada, onde, comovidamente acudindo, os dois vlhos Saavedras fizeram sua hspeda dilectssima a mais efusiva e carinhosa acolhida. No faltaram c fra os curiosos; bem como dentro, ao longo do jardim e seguindo pelo vestbulo e pelo _patio_, o grosso dos serventurios e pees da casa, alviareiros e contentes, cerimoniosamente alinhados. E por todo sse alvoroado cortejo Maria Mercedes passou num arrastamento de importncia, meiga e solene, devagar, entornando graas, dadivando sorrisos, naquele seu ar a um tempo menineiro e senhoril, com aquele precioso dom de atraco a distncia de que ela tinha o segrdo. Todo o almo foi um encanto; e no seguimento festivo da tarde, depois, a vinha uma incessante, interminvel romaria de bons _paisanos_ dos arredores, por onde correra boato da chegada da sua grande e formosa amiga, e que enternecidamente lhe traziam a homenagem das suas sadaes humildes, concretamente afirmadas por adorveis oferendas de _pan dulce_, ovos, mel, _biscochuelos_, cabritos, leites, aves e flores. Sbre o comer, noite, naquele repousado salo da frente, recobrou desusada animao a familiar tertlia. Nem D. Torbio pensou no derivativo soporfero do xadrez, nem tam pouco ao filho acudiu o emancipador recurso de alguma das insalubres _juergas_ nocturnas. Todos se sentiam bem, deliciadamente presos na atraente e dominadora presena de Maria Mercedes, a qual para o jantar fizera grande _toilette_,--com a farta e ondeada maranha do seu cabelo fulvo contornando-lhe a primor as tmporas, e contra a nuca aplicada e erguida em roscas petulantes; e aberto no mais indiscreto decote o ligeiro corpinho, de musselina negra com vidrilhos, que deixava livre o colo, os braos e as espduas, sbre cuja redonda nudez uma levssima _charpe_ slta, e negra tambm, movida ao artificioso capricho das mos da viva, realizava sua tentadora gimnstica de pecado... ao embevecido Silveira permitindo surpreender, nos deslumbradores claros dessa mmica perversa, a fluida solidez dos msculos escorregando, como numa banha de sda, sob a quente alvura da pele, suavemente... E quando no era a carcia ateniense do gesto, era a graa mrbida das atitudes, era a iluminada vivacidade da expresso, o enigmtico ninho de promessas da bca suculenta, a espiritual malcia dos olhos grandes e profundos, despedindo misteriosas flechas de fogo, que, quando as plpebras baixavam, parecia que se partiam na aresta sensual das longas pestanas negras. A pouco de entrarem no salo, a linda e aparatosa viva, sentindo-se o alvo comovente das atenes, com marcada complacncia arrastou uns poucos passos lnguidos, teatralmente, poisando de importncia; e logo de arrojar-se com indolncia sbre um _fauteuil_, e num ar mimalheiro e infantil, a cabea froixa, os olhos vagos, achegando ao flanco as almofadas: --Ai, mas que bem que eu me sinto aqui! entre pessoas sinceramente amigas, sem fingimentos, sem peias... e sem cuidados. Como eu vou poder descansar! --Ah! ah! Mas descansar de qu?...--cascalhou Jorge familiarmente. --Com a vida que levas...--ainda a irm dste comentou, sorrindo. --O qu? vocs pensam que eu na cidade no fao nada? --Claro! Uma perfeita _haragana_. --Pois enganam-se! s 7 da manh j eu estou a p.--E ante o sorriso incrdulo da assistncia confirmou com ardor:--Palavra de honra! Apesar de ter confiana na _ama de llaves_, passo logo revista casa tda. Depois, s 8, vem a massagista; s 9 a cabeleireira e a manicura; s 10 tenho o _desayuno_ e cuido um pouco da _nena_. A seguir, at ao almo, encosto-me um pouco, isso sim... uma grande regra de higiene: conserva o bom parecer e evita a magreza. Mas durante o resto do dia, naturalmente, depois, o meu procurador, quantidade de coisas da beneficncia e uma sca de voltas, compras e visitas. De sorte que assim noite, quando acabo de comer, sinto-me fatigada... e a pelas 10 ou 10 e meia, quse invarivelmente, deito-me. J vem... --Com efeito!--encareceu D. Teresa com agrado. --Deito-me logo, certo. Embora s vezes tenha convidados, que todavia ficam e me desculpam.--E na espontnea demanda do infalvel testemunho da sua inocente afilhadita, que acabava de entrar, Maria Mercedes rematou:--Dorita, no verdade? A precoce e dbil criana dobrou numa ponderosa afirmao a cabea; e a seguir, abandonando a boneca sbre uma cadeira, avanou vagarosamente a acercar-se da viva, a cujo lado, tomando-lhe com ternura a mo, se enovelou, j com um ar composto e grave de pessoa adulta,--o seu rosto srio e os pequeninos olhos claros, muito abertos, revelando tda a acudade mordente da ateno para apreender e quanto possvel assimilar, no enunciado e na inteno, o desenho sinuoso do dilogo. Entretanto, com burlona ironia tornou Jorge: --Pois aqui, querida primita, j sabes... h tambm que trabalhar. --Pronto!--rompeu, saltando de mpeto, a viva.--Teem programa? --Espervamos por ti,--aclarou D. Teresa. --O teu _veredictum_ essencial,--completou pai Saavedra com ternura. --Bem, pois vamos ento a ver... J pensaram em algo? De roda abriu-se um claro de silncio hesitante, e houve um tiroteio mudo de olhares de incerteza. Apenas Clia ousou ento docemente insinuar: --H a um assunto, de magna importncia, quanto a mim... Porm todos me _hacen burla_, _me pelean_, opem-se... E aquela esquiva e inspida figura desfiou com vivacidade crescente, perante a ateno tolerante da prima, tda essa magoada histria do seu desgsto pelo industrialismo, a irreligiosidade, a chateza, a afrontosa materialidade pag que pesava sbre a _estancia_; e como era vivo, alado e ardente o seu desejo de ver por fim ste adorado ninho da famlia posto sob a invocao duma santa padroeira qualquer, ao mstico abrigo tutelar da divindade. E ainda, por ltimo, esboou e enalteceu, como o seu nico apoio, a potica ida do Silveira. --Ah, mas eu acho ptimo!--acudiu com palpitante animao Maria Mercedes, avanando o busto com graa e juntando e batendo as mos, crspos de deciso os lbios, os grandes olhos faiscando.-- certo, sim... Abundo no pensamento do sr. Silveira. Excelente, no h dvida... Tens razo, Clia! Tens-me a teu lado. Num perturbador lume de vaidade, logo o Silveira, dobrado em afvel reverncia: --Sinto-me deveras ufano por essa sua espontnea conformidade de pensar, minha senhora. --Ah, mas no v desvanecer-se demasiado, meu caro amigo! A minha conformidade no completa. Um ponto h em que eu peo licena para divergir... --E ento? -- nessa coisa gasta e trivial de azulejos pelas paredes e retbulos pelas esquinas,--no seu expressivo fransir do nariz respondeu morosa a viva:--Nada, nada... temos muito melhor!--E ante a suspensa ateno do pequeno grupo, sacudindo iluminada a cabea, batendo com fra no joelho:--A santa imagem propiciatria dste logar hemos de a colocar l fra, no jardim, debaixo do vlho _omb_. Um eloqente alarme de protesto, um calafrio de indignado horror, acolheu a hertica audcia da proposta. -- _Miqutas_, por favor!--censurou, a primeira, D. Tereza. --Uma rvore condenada, ca, podrida, intil...--comentou o filho com asco.--Um smbolo de mau agoiro. --Por isso mesmo! --A que extremos o prurido da originalidade arrasta por vezes esta minha ba sobrinha!--com o seu ar mais bonacheiro interveio, sorridente, D. Torbio, e conciliadoramente:--_Este_... Pois tu no conheces o vlho adgio crioulo: _rancho con omb acaba en tapera?_... Sabes muito bem que a _gauchada_ odeia, por tradio e por instinto, quantos raros exemplares por' ainda acaso existem dste torturado e solitrio representante da nossa grande flora secular. les teem o _omb_ por uma rvore presga, abominvel, a cuja sombra sinistra parecem germinar e medrar a runa, a desgraa e tantas vezes o crime. --Uma crendice estpida. --Que em todo o caso existe. Quantas dessas vlhas rvores o nosso _paisano_ pode impunemente alcanar, sabes que as abate logo a machado. --E fazem muito bem!--implicativo tornou Jorge.--Se lenha que nem para o fogo lhes serve! --Essa antiga sentinela do nosso jardim deve seguramente a vida ao seu resguardo,--continuou afvelmente D. Torbio; e com suasiva mansido para a sobrinha:--De sorte que... _este_... j vs, se ns vamos agora a pretender nobilitar, a deificar em certo modo, pela tua peregrina ida, sse precrio foragido do deserto, muito possvel que ento a bruta peonada dos arredores, conseqente no seu dio medular, seja capaz de, por extenso, tomar tambm em averso toda a _estancia_. V l... --Certo, certo...--cabecearam Clia e a me, num passivo assentimento. Porm, serena e insensvel, sem se desconcertar, no mesmo convicto ardor teimou a viva: --Pelo contrrio!... Essa pobre gente pensa mal? vtima inconsciente de niquos preconceitos e crendices absurdas? Pois o nosso dever ensin-los, educ-los, esclarec-los... varrer-lhes o intelecto e aclarar-lhes a conscincia. --Ests bem aviada! --Claro que sim! Temos a santa obrigao de abrir-lhes os olhos, de fazer-lhes bem sentir tda a cega extenso da sua ignorncia e o brbaro desvio do seu rro. --Querem l saber! --Em vez de ser um tema de abominao, o vlho _omb_ argentino merece bem ser antes um objecto de carinho. H que reabilitar sse veterano simptico do nosso campo, essa relquia veneranda do passado, testemunha muda e inocente de tanto sucesso lendrio... --Eu logo vi...--atalhou Jorge com o seu incorrigvel ar trocista.--Est sabido. Todos os _ombs_ so lendros. --Quando no so histricos!--corrigiu pronto, com firme severidade, a viva. E posta sbito em p, sempre com a mesma incisiva veemncia levando de vencida a j froixa resistncia do auditrio:--Ora imaginem! Improvisa-se uma peanha, em cima um nicho a carcter, instala-se dentro o santo ou a santa... e a temos ns o pretexto para uma interessante festa nocturna. Vero o efeito. Cai a tudo... vai ser lindo! E como de roda todos, vagamente sorrindo, se fechassem num silncio que era uma aquiescncia, ela comandou com alegria: --Bem! bem! est combinado. Daqui no h que sair. Amanh veremos os detalhes...--E rematou com deciso, segura j do seu triunfo:--Meus caros amigos, no h tempo a perder! porque a minha demora aqui vai ser curta. Uma aluvio de subitneos protestos choveu da assistncia, entre os quais era de notar a calorosa insistncia do Silveira.--Que no! no podia ser! tinha por fra que demorar-se. Adorada por todos como ela era ali assim! O contrrio seria uma crueldade, seria um crime. Nada! no a deixariam partir...--Mas a despeito de todo ste adulador incenso, a mimada viva, com bem dissimulado desgsto, aventurou--que, emfim, era foroso... A estao ia adiantada, e ela tinha ainda forosamente que visitar Crdoba, Montevideo, Bahia-Blanca, Mar del Plata.--E bruscamente, passando a recostar-se numa convidativa e ampla _dormeuse_, frente a uma janela aberta, e agitando a mo com angstia, queixou-se de que sentia imenso calor e tinha sde... queria beber alguma coisa. Logo de roda o pequeno crculo em solcito movimento. Dorita partiu a correr, a buscar um leque; Jorge improvisou uma ventarola de papel; pai Saavedra foi estabelecer corrente de ar, abrindo a porta, enquanto o Silveira abria tambm mais a janela; e D. Teresa e a filha, aodadas e inquietas, batiam, acamavam o estfo da _dormeuse_, ageitavam a cabeceira, arredavam as almofadas. Depois, mal o criado de mesa entrava, trazendo uma bandeja com refrescos, e j era a imediata presena da _niera_ que a insatisfeita viva imperiosamente reclamava, para que lhe trouxesse o seu _little Riddle_, que ela sfregamente aninhou no colo, deliciada a coar-lhe a nuca e a dar-lhe guloseimas. Ainda a conversa se prolongou por um tempo mais, bordada sbre coisas vazias de intersse, a termos que por fim Maria Mercedes, erguendo-se e aconchegando a _charpe_, pediu licena para retirar-se, com Dorita, dizendo agora que sentia frio. Todos obsequiosamente a acompanharam, ao longo do _patio_, t porta da escada para o andar superior. E a, na carinhosa cauda das despedidas, ela disse afectuosamente ao Silveira, estendendo o brao: --Ento, bons amigos, no assim? --E aliados!--confirmou le, radiante, beijando aquela mo divina. E, tda a noite, ste autntico produto da singela e bronca regio duriense quse no dormiu. A impresso vincada por Maria Mercedes no seu temperamento clido, na sua apoucada inteligncia, no seu impetuoso e lmpido carcter, marcra fundo bastante para espancar-lhe o sono e atear numa viva espertina a arrastada sucesso das horas. No o fascinra smente o deslumbrador cortejo dos encantos fsicos da recm-vinda, mas tambm, e de preferncia, a linha sinuosa e complexa do seu perfil moral. Organismo rico de sangue e pobre de nervos, afeito s aventuras fceis, esperto e fanfarro batedor na caa dos simples amores campesinos, o impressivo desenho desta figura requintada e esfngica desnorteava-o. At quele momento le no lidra, mais ou menos, seno com mulheres dum crte definido, compreensveis, sinceras, claras como o azul matutino do cu e a gua cantante das ribeiras. Ainda agora aqueles seus dois ltimos conhecimentos, durante a viagem,--a esquiva Irene dentro do seu espiritual alheamento, a provocante _Mrs._ Edith embiocada na sua sbia impostura,--mostraram contudo logo o que eram, foram sempre lisas, coerentes, lgicas consigo mesmas. Porm Maria Mercedes, no! Era uma criatura embricada, enigmtica, temvel... estava a ver. Cheia de mimalhices, caprichos, alternncias, brusquerias, entusiasmos, tdios. Um diablico e indecifrvel novelo, um problema estonteante. Queria investir com ela e tinha-lhe mdo! Era um abismo de sedues e um torvelinho de mistrio, que ora lhe inflamava o instinto ora lhe acobardava o desejo. E--coisa interessante, rara tambm e para le inexplicvel,--a cada momento, a cortar suavemente a angustiosa dvida do seu querer, nos mais agudos instantes desta sua obstinada devassa interior e pelo mais adorvel dos contrastes, vinha e debuxava-se-lhe na vaga penumbra do aposento, sobrepondo-se turbadora imagem da viva, em claros benficos de repouso, a figura mansa e rstica da sua confiada amiguita da antevspera, Lusa, a linda morenita, na mesma apostura silenciosa e humilde, na mesma inrcia contemplativa, na mesma frescura moral de clara fonte, iluminada de ternura ingnua... e na amaviosa concha do seu olhar, cheio de fogo latente, envolvendo-o, calmando-o, dominando-o... merc dsse irresistvel poder das mulheres suaves e tristes, quando rogam mansamente. Na rpida sucesso dos dias, depois, no perdia o nosso atolambado gal o mnimo ensejo em que acercar-se pudsse da viva, a procurar tornar-se insinuante, familiar, prend-la ao seu convvio. E buscava ardilosamente captar-lhe a ateno, na impossibilidade manifesta de lhe falar ao desejo. Ao mesmo tempo arriscava tda a sorte de tmidas, de insidiosas inquiries sbre o problema mordente do seu passado.--Uma mulher assim devia ter crnica!--A cada momento esboava interrogaes e bordava conjecturas sbre os ignorados antecedentes, sem dvida invulgares, daquela vida. Preocupava-o rdidamente o mistrio desta estrangeira nascida tam longe dle, e cuja existncia,--estava-se a ver,--teria porventura sido demasiado vaga e errante para que le jmais pudsse bem conhec-la. Algumas vezes D. Tereza veladamente lhe insinura,--que a sua pobre _Miqutas_ no fra nada feliz com o casamento. O deslumbrado Silveira no queria crr... Jorge, o seu confidente natural, discretamente e de pausa lhe ia tambm relatando um que outro pormenor, avanando um detalhe, sublinhando uma anecdota; e, na crdula cegueira da sua admirao lamecha, cada nova revelao sempre o Silveira aproveitava para desatar-se em hiperblicas fantasias, cuja asa de oiro logo o amigo prosaicamente lhe cortava, por um episdio trivial ou um comentrio trocista. Foi assim que, uma tarde, sentados os dois naquele aconchegado rinco do _patio_, junto ao comedor,--e porque, incorrigvel, o Silveira voltasse ao seu panegrico optimista sbre as sublimadas perfeies dessa criatura de deslumbramento e de sonho, que merecia mais que um trono... um altar,--ainda uma vez com inflexvel frialdade tornou a frisar-lhe o amigo:--que todavia ela no era, nem fra nunca, feliz. E que poderia bem t-lo sido... com as paixes loucas que inspirou, com os belos pretendentes que teve! Pelo desespro uns levados ao suicdio, outros loucura, outros ruina. Ele j sabia. E que afinal... --Afinal...--recalcou o Silveira com ardor,--sempre teria sabido escolher um marido digno dela. Se que semelhante prodgio era possvel! --Que prodgio! Nada disso! Pelo contrrio... Muito mais vlho... _camorrista_, devasso e jogador. Comparado com ela, um perfeito estafermo! --Bem! mas ao menos morreu... Est livre dle! --Morreu... E por que forma?--balbuciou Jorge, fazendo uns olhos de piedade, com uma custica expresso de enfado. E por fim, ante a suspensa e mortificada ateno do amigo:--Em casa duma amante... duma apoplexia. O Silveira fez-se plido, corrido por um frio interior de njo e de revolta. Porm Maria Mercedes, que passava na ocasio e aprendera esta pequena aresta de dilogo, acercou-se, mansa e familiar, dos dois amigos, e com uma adorvel resignao, quse infantilmente: --Ah, mas por'mor de Deus! Meu caro amigo, no me lastime. Eu relativamente estimei... Poupou-me o desgsto de o ver morrer.--E logo com desenfastiada naturalidade, derivando:--Mas dispensem-me, sim?... Vou escrever p'r'a capital, quero ainda aproveitar o correio de hoje. Vou mandar uma carta cheia de minuciosas instrues a sse santeiro de _calle_ Suipacha, sabem?... a encomendar-lhe uma grande imagem da nossa futura padroeira, a Senhora da Conceio. Escolhi bem, no lhes parece?... Ela o santo smbolo da fecundidade e da pureza, e portanto o mais condizente escudo e o mais fiel espelho desta manso exemplar da abundncia e da virtude. E, feita uma ligeira vnia, ei-la que retoma a andar, naquele seu estudado ademan de requebrada e ondeante majestade, a fugida asa dum sorriso a encrespar-lhe os grandes olhos cr da noite e a adejar nos lbios nacarinos. --Divinal mulher!--murmurou, posto em cmico xtase, o Silveira.--Como diabo foi ela tomar um animal dsses p'ra marido!? --Sei l!--redarguiu Jorge, num risinho scptico.--Coisas de mulheres... Ela diz que foi por amor ao paradoxo e umas tantas _pavadas_ por ste teor. Mas no! quanto a mim, foi pura questo de vaidade. _Se le ha puesto entre cojas_ dominar, moralizar, regenerar sse salafrrio. _Pero se ha embromado_. --Com o que nada perdeu, no fim de contas. --Ah, no seguramente! Ao contrrio, com mais sse pequeno escndalo o seu nome no fez seno ganhar em fascinao, em poder, em comovido intersse e mundanal prestgio. Abroquelada na sua individualidade melindrosa e rebelde, Maria Mercedes nem a todos os preceitos se amoldava daquele salutar e primitivo viver da _estancia_. No lhe importavam passeios, temia as caminhadas, envolvia no mesmo abandno de fastidiento desdm a barulhenta bisarma das instalaes industriais e o manadio disperso da riqueza pecuria. Substancialmente, a rude movimentao, o giro spero e forte da vida do campo, repugnavam-lhe. No seu temperamento subtilizado e mrbido essas cruas batidas de ar e de luz feriam reaces bruscas, violentas, quse dolorosas. Despertava, erguia-se cedo; porm de ordinrio, antes do meio-dia, ningum conseguia v-la fra do quarto, sucedendo-lhe repetir amide que de manh no era mulher p'ra nada. Antes daquela hora apenas condescendia em sair dsse inviolvel reduto, quando muito, a _niera_, a arejar o _Riddle_ e a passear Dorita. Maria Mercedes apenas uma vez acedeu a dar um passeio matinal, a cavalo, na companhia de Jorge e do Silveira. Mas baldadamente ste depois, em vrias dulcerosas investidas, tentou persuadi-la a que lhe fizesse a fineza de repetir, e desta vez com le s, o sacrifcio... todo na saborida anteviso dum aventuroso idlio. Nada alcanou. Fra uma faanha sem exemplo. Pelas tardes, sim, era a bela viva a primeira na actividade, no bom-humor, na alegria. Fazia largos e piedosos percursos, ento de ordinrio companheira inseparvel e gostosa de D. Tereza no seu esmoltorio desporte pelas redondezas. E em seguida, s noites, no salo,--aonde sempre acudia uma ou outra famlia vizinha,--era ainda ela o prestigioso centro das atenes, o fulcro espiritual do dilogo, neste mrno e sossegado ambiente, sentindo-se na posse plena dos seus nervos e em todo o facetado fulgor do seu esprito. Ao cabo duma semana, por uma nublada manh, pesada e ardente, chegou Belisrio Ruiz. Exceptuando por parte de Clia, teve sua consabida recepo de agrado. Maria Mercedes acolheu-o com afabilidade e festejava-o, judiava-o, apurava-o muito, merc desta liberdade inocente que a intimidade nos traz e um largo conhecimento. De sua banda porm o Silveira entristeceu e alarmou-se, por uma apreensiva retraco do instinto.--Ganharam ento em colorido e intersse as familiares tertlias da noite, agora de ordinrio bordadas sbre assuntos mundanos, em que a desabusada _verve do recm-vindo_, no seu arrastado ar _blas_, intercalava amide a nota picaresca ou o comentrio equvoco. Era sem fim o rol que, a propsito, este pndego contumaz se comprazia em desfiar, de casos escuros, anecdotas picantes e grotescas aventuras, fruto da prpria experincia umas, outras colhidas naquele seu fcil e slto passo pela vida fra. Ento no raro aconteceu, quando o dilogo assumia um cariz algo _verde_, a meticulosa Clia erguer-se e sair, dissimuladamente. E uma noite pai Saavedra, bonacho alegre, no seu adorvel espanto infantil, exclamou para Belisrio, batendo galhofeiro os braos, os pequeninos olhos verdes hmidos de riso: --Mas que coisas com que ste homem nos vem! _Chacotn_! Onde demnio vai voc saber tudo isso? --A teem!--acudiu com intimativa a viva, sbito erguida da sua apostura indolente.-- o que se ganha com as viagens. ste senhor tem viajado muito, como eu. Faz bem... O que a gente v, ouve, sente, adivinha, ausculta e aprende!... So um grande e divertido ensinamento.--E num suspiro lnguido, recumbida e mole novamente:--Quem me dra ir j por' fra outra vez! O Silveira esboou um convicto e mudo assentimento; e carinhosamente D. Torbio: --Sempre viajar! sempre viajar! Nunca te fartas... --Que querem? sou assim... da baralhada essncia do meu sangue. Imaginem; minha me era uruguaiana, minha av italiana, meu av alemo, meu bisav norte-americano... Com uma ascendncia assim, que outra coisa poderia eu ser seno uma incorrigvel vagabunda? --Deves ter amor tua terra. --A minha terra?... Sei l qual ! --No digas isso!--acudiu a gorda e macia D. Teresa, estremecendo e erguendo com horror as grossas palmoiras tinta industrial do cabelo. Porm a viva, quente, imperturbvel: --Ah, isso que eu digo, minha querida tia! perdoa-me... Porque no h razo nenhuma, porque eu no sinto o menor movimento de alma, nem conheo qualquer forte fundamento exterior que me leve a prender-me ao torro onde acidentalmente nasci. --Deves querer mais do que tudo tua ptria--severo reprimendou Jorge. --L vem, l vem o consagrado chavo! a linda e convencional mentira!--pronto a viva contestou num alto desdm burlo; e a seguir, fransindo o nariz, doutoralmente:--Isso de ptria uma antiga inveno dos ambiciosos e dos dspotas, para por meio dela escravizarem ainda mais a rcua desprezvel dos humildes; para faz-los pelo corao tributrios dos seus domnios, e cegos no deslumbramento dessa patranha sublime, jungi-los e arrast-los ento irracionalmente, como mquinas, no carro devastador das suas conquistas, aos grandes actos de herosmo colectivo e annimo, abnegao, intrepidez, ao sacrifcio, morte. Sempre assim foi... Neste ponto a estratgia dos grandes mandes invarivel assim como a passiva estupidez dos que lhes obedecem infinita. --Ests-te excedendo, filha!--atalhou com sincera indignao D. Torbio.--Nem pareces argentina! --No sei o que pareo, nem me importa! O que eu sei, o que eu sinto muito bem, que a noo de ptria uma concepo tacanha e absurda. Os mais, num blco unnime, protestavam; e ela, com vivacidade persuadente:--Pois se a terra, na origem, na essncia e no destino, tda igual! Ento os senhores no vem que tudo quanto h de perdurvel e transcendente neste mundo, as grandes invenes, os grandes ideais, os grandes sentimentos, so de carcter universal? Pois no certo, que para que uma obra da literatura ou da arte alcance a consagrao eterna, ela h-de romper o mbito estreito do regionalismo e alar-se objetivao sinttica de algum dos grandes movimentos comuns a tda a humanidade? --Diz muito bem, minha senhora!--apoiou com irnica veemncia o pequenino e glabro Belisrio.--A ptria de cada um onde melhor se encontre e melhor possa governar a vida.--E logo, com um ar ligeiro e brinco, a desfazer a chocante heresia do conceito:--Eu c, por temperamento e por inclinao... seria turco. A seguir, volveu a informar-se com mais detalhe das diverses que havia planeadas. Queria, em suma, saber o que a esperta inventiva de tam preclara gente havia concertado para colmar um pouco o tedioso vcuo da prosaica vida do campo. Falaram-lhe na projectada festa ao _omb_; na benta iniciao da _estancia_: achou plebeu, pueril, ingnuo. Para o dia seguinte havia uma _doma de potros_, aguardada com impacincia pelo Silveira; porm seguramente as senhoras no iriam. Maria Mercedes no se conformava, no podia suportar esse espectculo, que ela reputava em extremo repugnante e brbaro, bestial. Redondamente opunha-se. Belisrio pediu licena para discordar,--pois, pelo contrrio, essa primeira brusca e sbia investida do homem com o irracional era a mais linda lio de coragem, de inteligncia, de destreza e de fra; era um belo torneio para cujo completo realce, como em Espanha nas toiradas, se tornava indispensvel a presena e o aplauso da mulher, que a suprema encarnao da beleza. E a poder de dulcerosas instncias, de ardilosas lisonjas e vivas frases sugerentes, o meliante conseguiu o assinalado triunfo de conquistar a aquiescncia difcil da viva, a qual por fim, reptada a que declarasse formalmente se estava, ou no, disposta a acompanh-los, prometeu que sim! No dia seguinte, s primeiras horas da tarde, a alegre caravana em movimento. Houve que fazer uma longa hora de caminho, sob a pantalha de oiro do sol, delidos na rasa imensido implacvel da planura. Pela angosta e rudimentar carreteira, ou triturando aquela imensa alfombra verde, o auto seguia tombeando e oscilando, numa cautelosa marcha de incerteza, moderadamente, erguendo rolos de poeira ofegante, ladeado pelas donairosas figuras do Silveira e Jorge, que galopavam estribeira. E agora alcanavam uma larga mancha de terreno pastoso e lamacento, onde, a um lado, se aglomerava uma encantadora mlhada de eqdeos, bravos, garbosos, finos, com o ar surprso e selvagem, a sua insofrida disperso contida pelo disciplinrio esfro de meia dzia de _gauchos_ montados, speros e duros de roda circulando. Um outro grupo interessante se notava, de bruta peonada, de chinerio nativo, de carripanas, cavaleiros, de rotos, mulheres e crianas, todos num empilhamento do intersse contornando daquela arena de acaso o piso brando e revlto, o vago e amplo recinto. Fra, na lisa nudez da campina e a pequena distncia, uma ba fogueira ardia, chispando estabaredas. Preparava-se nesta improvisada cozinha rstica o clssico e delicioso acepipe de _asado con cuero_. mngua de lenha, o fogo era alimentado por tda a sorte de detritos orgnicos: destroos de moblia, flhas scas, farrapos, palha, ossos. Pelo espiralado intervalo entre duas lnguas de lume apercebia-se uma caveira oblonga, na rubra ardncia do braseiro luzindo a sua lgida alvura, macabramente. E naquele justo momento um vlho peo surdia, ajoujado ao pso duma perna de cavalo, j em parte putrefeita, e que ao ser arrojada ao fogo, dsse calcinado monte de impurezas fez erguer uma labareda de fumo gordo, negro e nauseante. Na parte reservada do recinto, havia sido batida pressa uma tsca bancada de honra, destinada aos recm-vindos. Mas dste primitivo instrumento de relativa comodidade apenas Belisrio e o vlho Saavedra se utilizaram. As senhoras preferiram manter-se furtadamente a distncia, empalancadas no seu auto. Jorge e o Silveira haviam-se logo apeado, e acercaram-se ligeiros da manada.--E j agora a um sinal dado, um galhardo moceto no mesmo sentido avana, e, despedindo certeiro o lao, colhe pelo pescoo e arrasta at meio do terreiro um dos pobres animais, que da a instantes, enfurecido e trmulo de espanto, sente tambm, por meio de novas voltas de lao, irremissivelmente presos em ns de cordas os quatro membros. Ento, um simples estico dado s prises, sacudido e forte, rompe com o precrio equilbrio da vtima, que tomba em pso sbre o slo, em risco de se lhe deslocarem as articulaes ou partirem os ossos. E a se precipitam logo sbre o assombrado ptro, que, louco de terror, se debate froixamente, quatro espertos matules, a segur-lo e a enle-lo mais forte, por meio de consabidas travas, t que o imobilizam por completo. Outros lhe sucedem neste anacrnico e despiedado exerccio, e que, ajoelhando e abatendo-se contra o indefeso quadrpede, encapuzam-lhe a cabea, passam-lhe o brido e aplicam-lhe num momento a sela (_el recado_) cilhada dstramente. J no h receio agora de que o abatido animal possa escapar-se; a complicada rde de cordagens desembrulha-se, escorrega, afroixa e deslaa mansamente; e o ptro pode, emfim, cego e aturdido, erguer-se, mal conseguindo firmar os ps naquele terreno falso e mole, adrede escolhido, e com as duas mos, cautela, tomadas ainda por uma ltima laada. E quando o peo destinado a mont-lo intervm, num pulo salta para a sela, a derradeira priso desata-se, e le a larga a montada na sua frente a correr e a coucear desapoderadamente, colado e cingido com ela como um centauro, tendido o busto em flecha, os olhos em fogo, e incansvel e duro o brao fazendo rodopiar o _rebenque_ em crculos de ameaa. Flanqueiam-no, a enquadrar a corrida, dois outros cavaleiros brandindo tambm chicotes. E os trs aventuram-se nessa desenfreada carreira buzinando uma gritaria doida, descompostos em pragas, urros, vociferaes, soltando uivos de bstas-feras, que pem o plo em p aos atnitos poldros da manada e que a rta chusma dos assistentes acompanha, delirando, num concertante infernal, num alto cro selvagem. Corridas assim umas centenas de metros, o estupefacto cavalo estava cansado. Tolhido de assombro e de pavor, apequenava, submetia-se. E estacava a intervalos, colhido todo numa atitude de abandno e doura que tmidamente exteriorizava a sua veemente solicitao de, emfim, parar... Trazido ento ao ponto de partida e renovada a brutal carreira, j le pronta e resignadamente obedece, abdica da vontade e est rendido discrio do algoz. Entretanto o Silveira, que seguira ste brbaro entremez com empolgador intersse, movia-se nervosamente e dava rebarbativas mostras de impacincia, de desagrado, quse de indignao, as quais pela estranheza alarmaram a ateno de Jorge. Aquele, porm, rasgadamente explicou-lhe,--que achava excessivo, desnecessrio, estpido! Animais nobres e inteligentes como aqueles no se tratavam assim. No podia ver semelhante coisa!--E enquanto o amigo, com um risinho azdo, procurava aplac-lo, foi o segundo ptro trazido ao castigo. Este porm, altaneiro e vibrtil, sau mais rebelde: s ao cabo de quatro corridas se deu por vencido. Veio depois o terceiro, que teve que ser logo retirado da arena, porque, abatido sbre o ldo desastradamente, rompeu um quadril. O Silveira no teve mais mo em si. Avanou com deciso e reclamou alto que lhe permitissem domar le o ptro a seguir.--Havia uma outra maneira de fazer aquilo, mais suave, mais racional, mais humana. Iam ver!--De roda foi um espanto. Pela grossa corda do populacho passou uma oscilao de pasmo e de surprsa; havia burdas interrogaes em suspenso, esboavam-se atitudes de achincalho, de desdm, de irritante desafio, de malcia perversa, e a sua bronca expresso abria-se em risinhos alvarmente incrdulos. Belisrio ps-se de salto em p. Pai Saavedra protestava, em repetidos gestos de negao, agitando com veemncia os braos. Da apartada altura do seu reduto, D. Teresa impava ofegante, Clia e Maria Mercedes taparam o rosto com os leques, aflitivamente. Apenas Jorge, por um simpatismo viril, apoiou a atrevida solicitao do amigo. E foi o bastante.--O quarto paciente veio ento, e, em meio da ansiedade geral, os pees da manobra permaneciam quietos e a distncia, esperando instrues, de olhos fitos no Silveira, o qual lhes ordenou que, mantendo por enquanto o prisioneiro enlaado, apenas, mais, lhe prendessem as mos. A seguir, le mesmo se acercou e investiu, entre duro e afvel, com o animal, que todo ruflando de temor, assombrado e arisco, reagia a patadas. gil e precavido, porm, o Silveira furtava-se a tempo e logo voltava, numa polarizao empolgante de todo o seu ser, a defrontar-se com sse trecho vivo de natureza em bruto; olhava-o firme, rodeava-o e cingia-o, dstro, incansvel, ameaando, bradando, rojando-se, saltitando; envolvia-o num mgico crculo de dominadora astcia, ora atrando-o por interjeies familiares, ora de escape afagando-lhe o pescoo, ora tocando-lhe a garupa com o chicote levemente. Feito assim um pouco o conhecimento com a sua indmita montada, foi le ainda quem lhe vendou os olhos, o enfreou e lhe atirou pronto a sela para sbre os rins, afivelada num relance. Novos afagos agora, mais permitidos, mais claros, mais seguros; em seguida faz sinal peonada que solte as prises; e num intrpido salto ei-lo aronado slidamente contra o espavorido drso do animal em fria. H ento uns breves, absorventes minutos de ansiedade e de luta: a consumada maestria, a serenidade, a destreza, a forte musculatura e a vontade indomvel do cavaleiro, em decisivo duelo com o desordenado furor do ginete, que, sob a presso exasperante daquela formidvel tenalha de ao, se dispersa em esforos inteis, encabrita-se, escouceia, escarva, atira upas, sacode a espinha, curveteia, bufa, geme e tressua, inelutvelmente. Depois, quando o Silveira teve o seu domnio eqestre por assegurado, despediu tambm o ptro a galope, mas no cega e irracionalmente, como os dois anteriores, antes forando-o a seguir, no mesmo andamento sempre, em dadas direces, manejando-o e dominando-o a seu bel-prazer, obrigando-o at ao cansao... e assim conseguindo por fim traz-lo a fazer o vitorioso circuto do terreiro, ante a estarrecida imobilidade da assistncia. Ento, tranqilamente, apeou-se e abandonou as rdeas ao cavalo, que, sem o mnimo assmo j de emancipao ou de revolta, pelo contrrio, deu em seguir espontneamente na esteira do seu hbil domador, manso e humilde como um podengo, os flancos molhados, estirado e murcho o pescoo, e o focinho arquejante a acariciar-lhe a espalda, que ia deixando mosqueada de baba sanguinolenta. A tda a volta estrondeou uma tropeada de aplausos delirantes, que o Silveira, altaneiro e frio,--e enquanto, tirado o _chambergo_, enxugava o suor,--agradeceu escassamente. Correu a abra-lo com admirativa efuso o reduzido grupo dos amigos. E, como ldimo arauto da multido, um veterano _gaucho_ se adiantou gravemente, batendo os espores farfalhantes, de rosetas como sis, e depois duma rotunda sadao estendeu-lhe com solenidade aos ps o _poncho_, por esta rstica homenagem fiel intrprete da consagrao indgena ao seu triunfo. Neste fremente e alto cro apotetico Maria Mercedes smente fez excepo. Quando, na quente raaga ainda das ltimas ovaes, o Silveira demandava com ingnuo alvoro o seu aplauso, ela acolheu-o com reserva e festejou-o parcamente; e insensvel a tanto prestgio, num deliberado propsito de afastamento, de frialdade, de indiferena, todo o resto da tarde, depois, e ainda ao jantar, e pela noite adiante, foi para o burlado vencedor, de poucas horas antes, dum cerimonioso alheamento e duma secatura implacvel, naquele seu ar distrado e enfadado mantendo-o a inexorvel distncia... Ao passo que, com uma _coquetuela_ vulgar, se desentranhava em atenes, galanteios, donaires, mmicas de seduo e adorveis preferncias para com o atnito Belisrio, que, exultante e feliz, na inverosmil radiao do seu espanto, tinha a prga lvida das plpebras aquecida por um riso desvanecido e amide passava ufano pela calva precoce os dedos trmulos. Na breve e jocunda sucesso dos dias, depois, foi preocupao dominante a preparao dsse festivo programa para o baptismo religioso da _estancia_. Maria Mercedes era a incontestada Egria do movimento. Tomada de iluminado e impressivo entusiasmo pela realizao da sua grande ida simblica, tudo ela ardida e metdicamente concertava, planizava, distribua, tudo ordenava e impunha, no inflexvel dogmatismo derivante do seu prestgio, com uma impetuosa tenacidade que fazia o seu prprio espanto e era o acendrado regosijo do squito amigo. Invarivelmente ela agora, com uma pontualidade burocrtica, logo s primeiras horas da manh descia ao seu escritrio de ocasio, instalado na biblioteca, e a, mais ou menos, trabalhava indefssamente o dia inteiro. Sob a sua imediata inspirao, em grandes flhas de cartolina, Belisrio riscava escalas, fazia alados, crtes, projeces, esquissava planos. De funes mais modestas, o Silveira secretariava, anotava o rol das despesas, expedia as requisies, fazia a correspondncia. Jorge comunicava as ordens e distribua o servio directamente pela famulagem, e era a pessoa indigitada para trasladar-se capital, dada a hiptese de alguma misso de confiana. Por sua banda pai Saavedra, atenta a relativa invalidez prpria da idade, e bem assim a mulher e a filha, tinham a incumbncia de fazer da estranha e inusitada festa, pelo bronco populacho dos arredores, uma elucidativa e suave propaganda. E ao auspicioso gesto e sob o alado impulso dessa fada irresistvel, todos trabalhavam com ardor, acrto, deciso e entusiasmo igual. E era de ver como esta imprevista intromisso de trabalho ligeiro e jovial na grossa labuta habitual da _estancia_, longe de destoar, por inecessria e ftil, em vez de lhe trazer qualquer ralento dispersivo, antes ao contrrio com ela se enquadrava idealmente, e como que insuflava um protector alento de consagrao espiritual a todo sse utilitrio e rasteiro desparramar de produo e de vida. Ficou assente que, na manh do santo dia aprazado,--um domingo,--se procederia bno da imagem votiva da Virgem, padroeira futura da _estancia_; pela tarde seria a sua conduo processional t ao estilisado nicho erguido ao abrigo da umbela majestosa do venerando _omb_; noite, iluminaes, fogos de artifcio, arraial e grande concurso cosmopolita de canes e danas populares, com prmios em dinheiro, instrumentos agrcolas, _registo_, _vernicas_, viandas e guloseimas. A primeira notcia da sagrao da _estancia_ tropeou naturalmente num ambiente hostil, quando comeou de circular pela redondeza. Contra a sua realizao o cego rotineirismo e os atvicos preconceitos dos naturais ergueram-se em alvoro, por um supersticioso alarme sacudidos no seu torpr de sculos.--Que peregrina ida era esta agora de trazer santos de igreja p'r'ali? e p-los, p'ra mais, ao abrigo dessa odiosa rvore de desgraa e de runa? Era uma heresia, um absurdo, um desafio sacrlego ao Cu. Podia redundar em azar p'ra todo o campo em roda... Era uma iniqidade mais dsses abominados senhores do vlho tempo, que no podendo j priv-los da liberdade, vinham afrontosos a derrumbar-lhes as crenas. Seria uma calamidade.--Era assim como s tardes pelas _pulperias_, nas recolhidas horas da ssta, roda vinolenta do balco e de mesa para mesa, de grupo para grupo cortando a cada instante o giro vago da conversa, chispavam vivas e inflamadas, quse unnimes, as frases de acre censura, os votos de protesto, os conclamas de revolta. E tambm pela calada cmplice da noite, no ignorado mistrio de alguma _tapera_ distante, maus elementos campesinos havia que, incitados pelos raros _montoneros_ e _churriadores_, corriam a renir-se em clandestinas conspiratas, e ferozes e estpidos, o pulso peludo apertando o _machete_ vingador, a tramavam desforos violentos, represlias subversivas; por fim, concordes em que uma soluo radical seria assaltarem de golpe o jardim da _estancia_ e abater pela raz, destroar, fazer em fanicos o fatdico e arrogante _omb_... redonda, rasamente. medida porm que, na _estancia_ metamorfoseada como por encanto, as linhas ornamentais se erguiam e no ar doirado se debuxava o anncio jovial da prxima festa, paralelamente, todo aquele fermento de rebelio latente se apagava e se sumia. Vinham os bravios conspiradores da vspera, e, ante a evidncia promissora do facto, grado a grado capitulavam, imobilizados primeiro numa paspalhice alvar, curiosos e interessados a seguir, e por fim levados de vencida nessa onda estonteante de alegria. A realidade sugerente do prazer tinha nas suas almas rudimentares e famintas maior efeito que a catequese terica dos Saavedras. O certo foi que, por virtude do capricho inventivo de Maria Mercedes, a patriarcal _estancia_ agora perdera todo o seu ordenado e pacato aspecto antigo. A cada momento ali um afadigado enxame de obreiros voluteava incessante, no s fra, pelas imediaes, formigando em manchas de atento e aplicado ardor, como tambm, do gradeado a dentro, pisoteando os tenros canteiros do jardim, revolvendo do _patio_ a lisa areia, invadindo os quartos, encostando escadas, verrumando, parafusando, martelando, encavalados pelas paredes, debruados da _azotea_. Esta sua dispersiva nsia de movimento a cada passo era cortada pelo pejamento inerte duma abundante farfalha industrial: tubagens, cordas, arames, ps, alvies, pras elctricas, chumbo em blco, ferros em brasa, metais luzentes, destroadas rumas de barricas e caixas de lata estripadas. Sobrelevando aos prosaicos rudos habituais do recinto, de tda esta batida sonora soltava-se o ritmo sadio e folgazo dum como cntico de vitria. E do mesmo passo a me-terra aparecia tda fendida e revlta, cortada em tdas as direces por uma anastomose de sulcos ridentes e hmidos, aberta com prodigalidade em ruturas serpeantes,--o que fazia o infantil regalo de Dorita, todo o dia rojada sbre a frescura plstica do slo, embodegada e suja, a fazer casitas. Para a limpa execuo dsse trabalho delicado e novo, tinham vindo da cidade carpinteiros, sambladores, polidores, torneiros, electricistas. E a favor do tempo se foi a garrida e abundante decorao gradualmente definindo.--Uma cerrada fieira de lmpadas contornava nas suas linhas essenciais a arquitectura sbria da residncia, correndo em dupla fita ao longo da cornija, cingida aos relevos terminais do _hangar_, marinhando em hlice pelas colunas. Uma espelhada cinta idntica de vidros coloridos rodeava por inteiro o gradeamento alto do jardim, e pelo interior dste, depois, em caprichosa profuso seguia a circutar e a derramar-se em lacetes numerosos, riscando troncos de rvores, desenhando globos, estrlas, rendados, franjas, vestindo e pintalgando o ripado fresco dessoutra floresta de gongricas pirmides que em farta sementeira se escalonavam pelo recinto. Havia mais, ali, de rvore para rvore, de poste para poste lanados com elegncia, grossos festes de buxo e sanefas berrantes de papel de cr; e na inefvel palpitao do ar batia uma alacre trepidao, compacta e esplendente, de emblemas religiosos, de laos, flores, _pompons_ e bandeiras. Fra, pela intrmina expanso do campo, alinhavam-se extensas fiadas de tarimas tscas, feitas em madeira clara e resinosa, adrede improvisadas para que epicrea onda da multido elas pudssem ser, cumulativamente, fcil estendal para a comida e cmoda estncia de repouso. E no ponto culminante, ao alto, protegida pela enramalhada concha, tda em torciclos gigantes, dessa atormentada rvore secular, j nos ltimos dias luzia suas inditas galas um lindo nicho baldaquinado, em equilbrio sbre um alto lenho prismtico, tombado ligeiramente, moda veneziana, e entalhado em duro roble, com porta de cristal e um rico lampadrio de bronze frente suspenso. Esse aprazado domingo amanheceu, por sorte, um encanto. No azul puro e difano do cu, peneirado duma subtil poalha de oiro que era como uma alvorada de bnos, apenas alguns farrapitos de nuvens, brancas e altas como asas de anjos, erravam levemente... E desde as primeiras horas que, algarreira e abundante, a multido comeou aflundo, todos em salteiros grupos endomingados,--_con sus trapitos de cristianar_,--fundidos no guloso mpeto do mesmo apetite mstico e folio, porm distanciados pelo trao diormico dos costumes e pelo desenho ideal das crenas. Vinham em alegres volatas, em chireantes golfadas, em cordas de riso uns aps outros vitoriando, cantando e danando, como se nesse dia de glria a amplido ridente da planura se vestisse duma grande e viva alfombra cosmopolita, realada em matizes de tdas as latitudes, de todos os pases, de tdas as religies, de tdas as raas. Assim decorreram entre festivas e ingnuas pompas as anunciadas cerimnias do dia, cingidas no atropelado abrao de tda essa grossa onde espectante. A bno comovedora da Santa e a sua processional trasladao, depois, quele improvisado altar da selva, foram, a um tempo, duas maviosas sinfonias de movimento e de cr, e duas tocantes demonstraes de lisa f e piedoso entusiasmo. A vitoriosa culminao da festa estava porm reservada para mais tarde, quando, ao cerrar da noite, aqueles quantos milhares de pequeninos globos, serpeando como vermes de fogo, saltando, fascando aqui e ali, errantes e vagos como pirilampos, comearam de acender de roda a sua aleluia policrma. Um outro dia apontava agora, suave e discreto, no cortado j na prosaica nitidez das evidenciadoras flamas do astro-rei, porm pela atenuada sarabanda dessa infinidade de minsculos sis arredondado em claridades de sonho, slto e ideal campo aberto, agora, s fugas da imaginao, aos arroubos do amor e aos vos da poesia. Era todo o vasto e bigarrado recinto dos seus fundos de sombra jorrando esplendentes fontes de luz, palpitando e ardendo numa estonteadora profuso de lumes caprichosos, que definem linhas arquitecturais, que festoam silhuetas de rvores, que espirram para o espao, que da relva rompem ou no ar se baloiam em largas figuraes de fantasia, e em que o uso das novas lmpadas de fio metlico multiculr d motivo s mais deliciosas projeces de cr, s nuanas mais fantsticas e imprevistas. E por sbre tda essa orquestrao lampejante ainda e sempre a carcassa mgaloide do vlho _omb_ que mais destaca e mais reala, todo inflamado em recamos de gala, casquilho, remoado agora e como que ufano do seu destino, iluminando afvel e protector a passividade muda do deserto,--o polipo colossal das razes, que poderosas esgaram a terra, mosqueado de tijelinhas de cr, como tentculos luminosos, no amplo seio amostrando com orgulho e abrigando com carinhos de avoengo o nicho tremeluzente, e pelo atormentado e largo bracejar da ramaria o mltiplo rosrio das lmpadas pingendo, facetadas, lmpidas, fulgurantes como lgrimas de alegria. Entretanto pela ampla e redonda extenso que ste luaceiro de festa abrangia, apinhada e confusa a ronda do populacho crescia, amontoava-se... o vago marulho da sua agitao fanfurriava em ritmos brbaros, vibrava em cnticos, era avivado em singelas dolncias pela sublinha sensual das tocatas e descantes... e a quando em quando, sob a estralada esfusiante dos fogos de artifcio, flor dsse revlto mar, reverberava ento c em baixo, em pinceladas goyescas, por instantes, a floresta alvar das suas cabeas em delrio.--Fazia aprazvelmente o Silveira o interessado circuto do recinto, quando sbito, na compacta mar montante de figuras que do exterior vinham vidas colar-se grade do jardim, lhe pareceu distinguir um rosto seu conhecido. Irresistivelmente, adiantou-se... e, com efeito! era Lusa, a linda e fresca morenita, que na sua adorvel rusticidade ali viera poisar, e que enlevada e imvel, por um alheamento de indizvel beatitude os sentidos presos e a ateno suspensa, no perfil garboso e enrgico do seu bravo defensor cravava encantada os grandes olhos negros. Ento o Silveira, entre lisonjeado e surprso, com uma doura cantante na expresso aproximou-se. -- Lusa! A minha querida amiguita tambm por aqui?... Como vais tu? Por nica resposta, ela teve um breve sorriso de xtase a encrespar-lhe os lbios, e logo, crando ligeiramente, baixou os olhos. O Silveira tornou: --Que ba ida tiveste! Mas que fazes a assim? porque no entras? Sem articular palavra, sem se mover, Lusa manteve a mesma atitude retrada e humilde. --Anda!--carinhoso e afvel o Silveira insistiu.--No queres comer?... no vens danar? Lusa movia a cabea negativamente, fechada sempre na mesma inrcia contemplativa, sem romper o seu mutismo. --P'ra que vieste ento? Ela agora por fim, com voluptuosa pausa volvendo a abrir as brumas plpebras, e na clida demanda do seu galhardo interlocutor o fogo latente do olhar chispando, numa velada ternura balbuciou, singelamente: --_Para verlo_... O Silveira sorriu e num estremeo de vaidade, medocremente sensvel tmida e incontida expanso da rapariga, insinuou a mo pelos ferros e acariciou-lhe ao de leve a face tostada e redonda. E partiu a seguir, por que em cima, junto residncia, uma salva de morteiros anunciava o incio do concurso coreogrfico, e le fazia parte do jri. Ento a pintalgada e densa coluna das vrias msicas e bailados que insofrida se achava a postos, comeou montando a _ladeira_ suave do jardim para ir marcialmente desfilar e luzir seus mritos frente ao estrado posto a meio da galeria,--ante a mirada crtica de Maria Mercedes, tda de branco,--e seguindo num grosso e infindvel coleamento, apartados por castas, distintos pelas cres, opostos pelos ritmos, todos cantando, vibrando, saltitando, numa grande coreia dionisaca que era a encantadora revivescncia de algum atrevido _fresco_ pago, na espontnea impetuosidade e na vida instintiva do seu movimento afirmando a irmanao gensica do homem com a Natureza, das almas com as coisas. Foi primeiro o _tango_, sse gracioso hino da lascvia, impregnado de malcia picaresca, uma dana de perdio feita de lnguidos requebros, a um tempo trgicos e sensuais, exprimindo lricamente a conjuno fatal do amor e da morte; depois as corriqueiras _vidalitas_, acompanhadas a viola e tamboril, crnica leve e sugerente de faanhas guerreiras, de zombeteiros chismes e cmicas aventuras; a seguir, os _tristes_, lembrando os nossos _fados_, gemendo um ritmo atormentado e dolorido, quse religioso, que d a vaga sensao do mistrio, da solido, do infinito; as _jotas_ e _sevillanas_ no seu saracotear febricitante, a _tarantela_ no seu acadmico balanceio, o _trepk_ no seu simbolismo ingnuo; e o desenvlto _gato_, o mesurado _pericn_; as _baturras_, _soleares_, _farandolas_, _chulas_, _fandangos_... e quantos mais.--Durante horas seguidas, assim na calma benfica da noite, sob o jrro delirante dos aplausos e na sua estrdia ronda aquecendo a fria majestade do deserto, se agitou danando tda essa corda guizalhante de rsticas melopeias. E quando j os primeiros alvores da manh clareavam o horizonte, ainda, na debandada final, a sua interminvel cola sonora se via impetuosa e lou, desparramada a rabejar pelos caminhos. IX Um escasso dia volvido apenas sbre a festa, Belisrio regressou metrpole. Seguiu-o no intervalo de mais um dia o Silveira, cuja existncia ali, depois do seu assinalado triunfo hpico, nas ltimas semanas, decorrera tda batida em alternncias de cruel incerteza, assaltada de imprevistas dvidas, cortada em antteses absurdas, numa espectativa mortificante. As flutuaes coquetas, incessantes, da sua ba amiga Maria Mercedes, cujas tpicas excelncias tam vivamente haviam sacudido o seu temperamento de fogo e vincado o seu carcter mulherengo; sse jgo caprichoso e perverso entre a frialdade e a exaltao, entre o espanto e o desdm, entre o enfado e o carinho, desconcertavam-no. Inelutvelmente, corrido de vaga humilhao, le reconhecia em Belisrio um primaz competidor. Por sbre aquele aspecto derrancado e turvo, a despeito do podrido descalabro dsse fsico todo escrias e runa, o Silveira, forte embora da sua virilidade radiosa e exuberante, achava-lhe superioridades: era dstro no dilogo, fino e leve, bem falante, brandia a ironia como um florete, vestia com mais elegncia. Por isso a sua obrigada e constante freqentao, ali, com sse mulo temido, e frente a frente os dois do dolo do seu comum cuidado, tornava-se-lhe uma coisa irritante, molesta, dolorosa, por vezes intolervel. Contudo, retirar antes dle seria uma desero, uma cobardia. Foi suportando... Logo porm que o afastamento voluntrio do rival arredou a emergncia dessa hiptese deprimente, o Silveira abalou tambm, na sua incontida nsia de emancipar-se duma situao por demais incmoda, violenta, e, perante a pungente ampliao do seu despeito... porventura ridicula. Tendo chegado a Buenos-Aires ao entardecer, acolheu-se logo ao hotel, jantou e nessa noite no sau. Apreensivo e triste, sentia uma grande necessidade de isolamento... e cedo se encerrou no quarto e abandonou-se tortura voluptuosa das suas ntimas cogitaes, cujas mrbidas volutas o surdo embalo dos vagos rumores da Avenida, em baixo, favorecia. Na manh seguinte ergueu-se tarde. Aquele destemperado vibrar dos nervos impunha-lhe agora um preguiceiro e salutar repouso. Porm, apenas terminado o almo, picou-o um vivo apetite de expanso, de arejo, de movimento; precisava desabafar... queria falar, mexer-se, descompr algum, ver caras conhecidas. Acendeu pronto o cigarro, tomou o chapu e sau logo, em demanda do amigo Azeredo, que mudra de penso e residia agora ali perto do hotel, na _calle Libertad_, a no mais de quatro _cuadras_.--Era um pequeno prdio antigo, sem porteiro e sem ascensor. O Silveira teve que subir uma extensa escada de mrmore, em caracl, quse s escuras, e encontrou-se sbito num modesto e exguo _hall_, pavimentado a baldosas negras e verdes, guarnecido por uma vlha moblia de vrga, globos de vidro estanhado, missangas, _crochets_, enredadeiras e vasitos com plantas. Veio-lhe ao encontro o dono da casa, um aparatoso andaluz, de alentada envergadura, loiro e obso, o _pijama_ e cala de riscado vestidos sumriamente sbre a pele, e os felpudos ps nus mal contidos nas babuchas. --O sr. Azeredo ainda estava mesa. _Quiere Usted pasar_?... Acedendo curioso ao afvel convite, o Silveira seguiu o solcito introdutor ao longo dum corredor tristonho e esguio, com anteparo de zinco sbre o saguo, e ao cabo entrou no comedor, uma crepuscular pea oblonga, tomada quse totalmente pela mesa, em trno da qual, havendo cessado de comer, os seus seis convivas, guardanapos depostos e arredadas as cadeiras, em amena chalra, num baralhamento pelintra, familiarmente se esqueciam. O Azeredo, mal que viu o amigo, ergueu-se de salto a abraou-o efusivamente. --Oh, Joo! meu grande vadio... Finalmente! Cuidei que te ficavas por l...--E numa palmada cordeal sbre o ombro, indicando a cadeira que, ao lado dle, a _mucama_ havia pronto achegado:--Senta-te... Que magnfico que vens! Em seguida, com aquele seu invarivel ar salteiro e risonho, o Azeredo fez em globo a apresentao do amigo aos outros comensais, com uma sublinha especial, de saber, perante a dona da casa, direita da qual le tinha o honroso privilgio de sentar-se,--e que era uma grossa e bem fornida vasca, quadrada, ruiva, de epiderme branda e leitosa, viva havia ano e meio, e todavia agora ligada maritalmente ao andaluz... por convenincias domsticas. direita do Azeredo sentava-se uma joven corista do _Avenida_, miudita, clara e franzina como um mimo de bazar, os olhos maquilhados fortemente, esborifado o cabelo, e na morbidez cansada da expresso saltando em contraste provocador o narizito petulante. O nariz era tambm a nica feio acentuadamente vincada, nessoutra vaga e estirada figura espectral que tinha logar mesa em frente dle, esquerda da dona da casa,--um incompreendido violinista de caf-concerto, a pele como pergaminho, os msculos como arame, rechupado, lvido, transparente. Mais esquerda, havia um acomodatcio e bronco pintor de taboletas. Finalmente, com depreciativo orgulho posta, e sentada como por demais, entre stes dois ltimos, aparecia uma gorda e casquilha quarentona, com o ar presunoso e taful, pastosa, feia, arrogante, que era a mais insensata e hilariante personificao do burlesco; vestia uma curiosa bata ornitolgica, tda carregada de passamanarias, vidrilhos, contas e plumagens, bigarrada em cres de papagaio, em tons berrantes; a testa era rudimentar, e uns desastrados laivos de gua oxigenada sarapintavam cmicamente a maranha abstrusa do cabelo pegajoso e sujo; pela fartura pendente do colo moreno havia por igual, s dedadas, a lambugem clara dos cosmticos; e raz da face opada rasgavam-se uns grandes olhos brilhantes mas apticos, na sua vtrea imobilidade reflectindo uma fixidez obtusa de surio, uma credulidade estpida. O Silveira compreendeu num relance que esta presumida e grotesca marafona era naquele momento o centro burlo das atenes e o tema desopilante da conversa. Com efeito, no tardou que o amigo lhe no dissesse, apontando com solenidade a exibitiva carcassa em frente, numa irnica reverncia: --Chegas na melhor ocasio. Tenho o prazer e a honra de te apresentar a _seorita_ Calliope Cernadas, uma joven e distinta cantora, prxima debutante no _Coln_...--E com um patente ar zombeteiro, num gesto de solcito apoio aos circunstantes, acentuou:--Em plena primavera da vida, como vs... Vinte e cinco anos, _no mas_. Um flamante embrio de artista e um corao inabordvel! No certo?... De roda houve um bem simulado cabeceamento de convicta anuncia, enquanto a embada vtima trejeiteava desvanecidos requebros, em meio do cro hilariante da assistncia. E para ela agora com a mesma urbana solenidade, o Azeredo, indicando o amigo: --O meu amigo e patrcio Joo da Silveira, solteiro, rico, poeta... O homem que lhe convm... Um grande fidalgo e um grande enamorado. No mais caricato arremdo de xtase, a enxundiosa Calliope revoluteava a aptica inexpresso dos olhos, mordia o leno, parodiava atitudes infants e mottes ingnuos. Entretanto, na sua apologtica parlenda o Azeredo tornou: --Uma voz de oiro! --Dito por todos os mestres,--confirmou Calliope com fatudade. --Cinco anos de Conservatrio e dez de lies particulares. A inocente visada teve um salto de despeito. E a seu lado o violinista, coando deliciado a nuca, piscando um lho: --No se pode dizer um talento muito espontneo... Porm, vagamente apiedado, o Silveira: --Deve ter comeado de muito criana. --Era tudo fra da vocao...--aclarou o Azeredo, no mesmo tom escarninho:--Quando largou o _biberon_, j solfejava. Em volta da mesa, agora, o riso estalou sem rebuo. E o avantajado andaluz, que acendera o cachimbo, fazia, mudo, sorridente e matreiro, o giro atento da casa. Mas de repente o Azeredo, consultando o relgio, ergueu-se.--Eram horas de voltar ao escritrio:--E sau rpido, com o amigo, conduzindo-o familiarmente ao seu quarto singelo e claro, com varanda sbre a rua. Ainda podiam quedar-se uns minutos. Acendeu o cigarro e sentou-se, na prga trocista dos lbios apagando-se-lhe as derradeiras vibraes por sse jgo desopilante com a _seorita_ Cernadas. O Silveira perguntou-lhe--que _bolha_ fra aquela de mudar de penso? E com ar enfadado, sucudindo os ombros, o Azeredo explicou: --Aquilo l era uma maada, menino! Imagina: a tal viva chilena dava-me uma sorte completa... e que rica mulher! impetuosa, louca, insacivel! Porm o lamecha do caixeirola, perdidamente embeiado por ela e sem sorte, tudo era voltar-se contra mim, dardejava-me olhares de desafio... um riso! fazia-me arremessos... E sua arisca Dulcineia escrevia ento umas cartas lacrimosas e ttricas, tresandando bafio romntico, nas quais havia desgrenhados apelos ao refgio amargo da morte, e por entre cujos rbidos arrancos tremeluziam ameaas de vingana. --Que te importava a ti? --No, mas que ao mesmo tempo essa pobre rapariga _tanguista_, que era uma triste lambisgoia, dizia-se apaixonada por mim e da seringava-me a todo o momento, metia-me bilhetinhos pelo buraco da fechadura, espiava-me, com scenas de cimes... Uma carraa, uma cataplasma, um tdio! Uma noite, comeu as cabeas tdas duma caixa de fsforos e foi naquela casa um rebolio... vomitrios, frices, prantos, desmaios... tivemos que lev-la Assistncia. --s o terror das penses baratas. --De sorte que eu ento, p'ra evitar uma dupla tragdia, tive um iluminado rasgo de prudente deciso e raspei-me. E aqui, estou bem. E uma casa _reinada_... O diabo da patroa joga como uma danada nas carreiras, e de cada vez que ganha, um deboche de _champagne_ com os hspedes e as amigas.--E logo num tom de desafectada cordealidade, todo dobrado para o amigo:--E tu por l, meu magano?... O Silveira desfiou regaladamente a narrativa entusiasta e lou da sua breve estada no campo,--a imensidade lendria da _pampa_, a luz, a cr, a pasagem, o inditismo claro dos aspectos, a rude singeleza dos costumes. Espraiou-se em gratas referncias ao hospitaleiro carinho dos Saavedras, enaltecendo de preferncia, em enternecidas frases, essa doce e encantadora figura de D. Teresa, na sua aberta simplicidade, na sua bondade inverosmil. Com um risinho misterioso, o Azeredo aventurou: --Sim, sim... Ainda tu no sabes quanto ela de boa! --Ento?... -- uma sogra rara, nica, paradoxal. --Como assim? --Sabes que ela tem uma filha casada, agora em Paris, a qual lhes deu j um netito, sse _guapo muchacho_, o Eduardo, que a exclusiva adorao do av. Ora o pai do pequeno um perdulrio, um sem vergonha, um sensualo, um estroinao impenitente. Pois esta D. Teresa, na sua louca dedicao pela filha, tem a santa ingenuidade de assegurar uma mesada ao genro s p'ra que le, com as suas _calaveradas_, no d desgostos mulher. -- ba! Era uma sogra assim que me servia. --No haver duas na terra. A seguir, o Silveira, depois duma pausa,--e como quem tmidamente retarda o defrontar com uma dificuldade, ou voluptuosamente dilata a fruo dum prazer,--referiu-se a Maria Mercedes, pastichou-lhe em tintas de vivo entusiasmo o deslumbramento da beleza fsica, apontou em vagas e trmulas linhas de incerteza a complicao desconcertante do seu perfil moral. E nesta empolgante anlise retrospectiva, a despeito do tom deliberadamente ligeiro dos seus conceitos, a cada momento a comoo traa-o. Inadvertido e quente, descobria-se. Um spro de ntimo incndio trazia-lhe a alma aos lbios, ao ensaiar a turbadora evocao dsses formidveis episdios, dessas horas atormentadas e profundas, relmpagos de enlvo, eternidades de dr, delcias dum instante. O Azeredo, dando-se grado a grado conta da situao, escutava-o em silncio, num crescendo de apiedada estranheza, com aborrecimento, com queslia, com desgsto. E por fim, tomando o chapu para sair, com a bca severa e os clios graves, aconselhou: --Tem-me conta com essa _gaja_... Comea por te derreter os miolos e acaba por te fundir a algibeira. -- rica. --No importa. A esta gente aqui est-lhes na massa do sangue: _estafarem_ o seu e o alheio. Voltaram naturalmente a juntar-se naquela tarde os dois amigos. Jantaram na _Rtisserie Sporstman_, e foram ao teatro _San Martin_, desemborrar um pouco os nervos na contemplao da mmica petulante e lbrica da Pastora Imprio. No dia seguinte, esperto e ligeiro, deu-se pressa o Silveira em ir fazer o giro matinal de Palermo, onde j sob a claridade molhada do ar, na renovao da temporada elegante, um cordo de deliciosas silhuetas dandinava pela orla escovada das _pelouses_, e a envernizada frescura do asfalto se emplumava do trotar garboso das amazonas. Sentia-se bem... Reganhava-o o sugestivo encanto da vida ampla e fcil da cidade. Naquele doce ambiente de agrados e belezas o seu estimulado ser tinha um aprumo salutar... a vontade tomava razes, a sua galharda juventude frondejava em mpetos, sentia o pensamento inerte, embevecida a alma, o corao cativo.--Buenos-Aires, bem se dizia... era o Paris da Amrica, seguramente!--Vinha-lhe o dulceroso apetite de quedar-se esquecidamente ali, nesse adorvel ninho da felicidade, essa esplendorosa sucursal do Paraso, deslumbrante e imensa caravanara onde compita, vinha estrelar-se o escol das civilizaes, onde mulos se davam cita os gnios de tdas as raas, o melhor dos progressos, das grandes conquistas morais e materiais de todo o mundo... ali, o privilegiado solar da fortuna, da abundncia e da harmonia, a terra das mulheres de lindas bcas, de rostos de linhas puras e suaves, tendidas com nobreza. Duma das vezes, ao desembocar na _Avenida das Palmeiras_, crca do lago, pareceu-lhe distinguir na sua frente, entre o pintalgado baralhamento da qudrupla fita de veculos, uma figura sua conhecida. Era com efeito o grosso e ponderado Mafiori, que descia dum aparatoso _Peugeot_, e mal que reconheceu o Silveira, veio logo adonde a le, importante mas afvel, a oferecer-lhe as duas mos e a perguntar-lhe--como ia. Corts e solcito por igual, pediu-lhe tambm o Silveira informaes dos seus negcios. O marqus estava remoado, parecia feliz. Os olhos flcidos tinham mais brilho, a vasta e epilada testa desanuvira, e tda a face rosada e redonda florescia, erguida pela sade ou dilatada pelo prazer. s interessadas perguntas do amigo, le sorriu.--Bem! muito bem!--E com a sua fidalga e resignada bonomia aclarou, encolhendo os ombros,--que aquela forada abdicao dos seus fros nobilirquicos trouxra-lhe sorte, afinal. Estava fazendo bastante negcio. Fizera uma ba venda aos Spantuzzi, outra aos Ribolto, estava alcatifando de novo a casa tda dos Arriola,--um palcio!--e tinha uma grande encomenda para o _Jockey-Club_. E sempre com dignidade, uma ligeira sublinha de irnico desdm a encrespar-lhe os lbios: --A esta hora, j as venerandas ossadas dos meus maiores ho-de haver estremecido, vrias vezes, de indignado horror, nos seus ricos mausolus lavrados. Uma indignao de mau gsto, no fim de contas... Porque outra coisa no h a fazer nesta terra, que com todo o seu exibitivo pedantismo no passa duma mercearia colossal. Tudo mais ou menos se negoceia aqui: uma questo de rtulo. O segrdo est na arte de embair o fregus a encarecer a fazenda. Depois, num gesto de paternal incitamento: --Porque no faz o mesmo, meu amigo...? Sbito, como na onda vaga da multido descortinasse algo que o interessava, despediu-se de improviso, embrulhando banais desculpas e rematando amvel: --Eu continuo no _Plaza_. Venha um dia almoar comigo. E le que segue dissimuladamente na peugada duma mulher grande e loira, de idade primeira vista inclassificvel, artista lrica em disponibilidade ou _demi-mondaine_ em decadncia. Certo foi que a prtica significao daquele seu conselho calou suasiva e funda no nimo inconsistente do Silveira.--Seria realmente uma coisa acertada, sensata, oportuna, tentar um negciosito. Porque no?... J vrias vezes le o havia pensado: fazer como tda a gente. le trouxra consigo uns contitos de ris, p'r' que dsse e visse... e porque no procurar engross-los? de preferncia a desbarat-los p'r'a estpidamente, em aventuras banais com mulheres ou jogando ta na roleta e nas carreiras?... E, ainda, mais a dura preocupao dos intersses monetrios poderia ser qui um derivativo salutar, e ter a virtude de pelo seu ureo deslumbramento dissipar moles inclinaes pigas e furt-lo a exaltaes perigosas, como essa agora da diablica _Miqutas_... V feito! Era o caminho a seguir. Desta forma, o Silveira, sensvel ao contgio do mercantilismo ambiente, perdido, como tantos outros, na embriagadora miragem dum engrandecimento rpido e retumbante, nos dias subseqentes dava-se com afinco leitura dos anncios comerciais dos dirios, concorria aos leiles, era um assduo freqentador das _vitrines_ dos corretores, onde em taboletas relumbrantes de emisses de ttulos, vendas de lotes de terras e quejandas alicantinas, se acenava aos incautos com fortunas fabulosas. A intervalos, as venusinas predileces do seu carcter reganhavam o natural ascendente, e le ento pensava em visitar os Wimeyer, que contudo ainda no haviam regressado do campo. Queria tambm voltar a ver os Amglio; porm aquela cavilosa duplicidade de _Mrs._ Edith irritava-o... Era porm evidente que, por momentos, a branca crsta da sua alma metalizava-se. J jogava em fundos e entrra com capital para a fundao duma _Sociedade Internacional de Seguros_. le era o primeiro a fazer troa de si mesmo, desconhecia-se... e com familiar abandno comentava, perante o Azeredo: --Tem graa! eu tam influido agora com negcios... coisa que no nada o meu feitio. E meio incrdulo, o amigo: --No te dura muito! Contudo, o Azeredo, vagamente scptico mas no fundo de acrdo, entendia que sim, que fazia muito bem! porm tinha que precaver-se e ter muito lho contra essa imensa praga de _estafadores_ e meliantes... Ao mais pintado les faziam o _conto do vigario_, a cada instante! Por isso, que no tratasse seno com gente bem conhecida. Havia de apresent-lo no _Club Progresso_, onde teria ocasio de relacionar-se com importantes financeiros e industriais, com grandes e autnticos _terratenientes_, com fazendeiros honestos e firmas garantidas. Entretanto, tdas as manhs, com uma pontualidade de amanuense, o endurecido Silveira subia a _Avenida de Mayo_ para ir ver as cotaes da Blsa e em seguida fazer, por _San Martin e Reconquista_, o interessado giro do bairro clssico dos negcios, dando-se a acariciadora iluso de ser j um grande capitalista ou proprietrio. E ao mesmo tempo algum havia que, com solcita antecedncia e uma pontualidade igual, em face mesmo do seu hotel, da esquina oposta da Avenida, em plena rua, aguardava em suspenso a sua apario e espiava afincadamente a realizao quotidiana dste acto banal da sua vida exterior.--Uma simples e adorvel rapariga do campo, verdadeiro diamante em bruto, miudita, morena, bem calada mas vestindo pobremente, com o ar um pouco estranho, desageitada, esquiva, em cabelo. Tinha frvidamente posta a vida, o apetite, o desejo, na enternecida fixidez dos grandes olhos negros, incansavelmente apontados ao porto espelhento do hotel; e, fechada no exclusivismo da sua mordente inquirio, como que buscava anular-se para tudo o mais, tmida e pequena ante o roce brutal da multido, furtando-se aos galanteios, repelindo, assustada e arisca, as propostas equvocas dos que passavam. Depois, quando a aprumada figura do Silveira assomava porta e saa, passeio fra, a caminhar distradamente, a sua encantadora e ignorada espia vibrava ao imperceptvel estmulo dum inefvel jbilo interior e seguia-lhe humilde na peugada, durante uma ou duas _cuadras_, paralelamente; e por fim, quando se perdia ao longe, na atropelada onda do movimento, aquele desprevenido alvo do seu cuidado, ela por seu turno, primeira esquina, dobrava e desaparecia tambm num relance. Mais de uma semana, com inaltervel preciso, dia por dia, se prolongou e repetiu ste jgo inocente para o inadvertido nimo do Silveira absolutamente despercebido. T que, duma vez, como le tivesse que dirigir-se _calle_ Vitria, apenas sau do hotel cortou direito a Avenida e veio assim a cruzar-se, quse ombro com ombro, com a interessante figurita annima que o espiava, e que na sua deliciada confuso, ao primeiro instante, queria evit-lo, eliminar-se, fugir... Impossvel deixar de not-la. E logo sbito, numa expanso de grata surprsa, reconhecendo-a: -- Lusa! tu aqui?... Tolhida numa vergonha, a gentil rapariga torceu as mos, baixou os olhos, enquanto a frescura virginal da face tda se conflagrava em tintas de incndio. Abrindo acolhedor os braos, o Silveira interrogou: --Ento? deixaste a _chacra_ onde trabalhavas? --_No me pagaban_. --E teu irmo? --_Me pegaba_. --Pobrezita! bem digo eu...--bondadoso o Silveira tornou; e com apiedado intersse, a seguir:--Fugiste ento e vieste p'ra Buenos-Aires governar a vida? Numa tcita aquiescncia, muda e indecisa, Lusa sorria vagamente. --E gostas?--indagou o Silveira, muito afvel; e como a sua linda desconhecida abanasse afirmativamente a cabea, com o vago sorriso de h um momento aquecido agora por uma adorvel expresso convicta:--E porqu? Lusa teve uns segundos de comovido silncio e por fim, dobrando humilde o busto, com as abatidas plpebras seguindo, em baixo, o movimento dos ps, que em taramelados giros raspavam trmulos na orla do passeio, murmurou: --_Porque aqui estoy mas cerca de Usted_... Pelos arrepiados nervos do Silveira uma branda emoo correu, mixto fundente de orgulho e de prazer, de fatuidade e de ternura. Sentiu-se quebrado, preso... Atingiu-o em cheio na alma a ingnua confisso, a doura sentimental da rapariga. Naquela tarde havia uma renio de acionistas da tal _Sociedade Internacional de Seguros_, e le ia agora _calle_ Vitria para ter uma conferncia prvia com um dos membros da Comisso Directiva, pois sobravam razes para desconfiar que semelhante _Sociedade_ no passava duma audaz mistificao, duma burla descaradssima, na qual le via j infelizmente a arder o seu rico dinheiro! Porm, num pronto, a apario de Lusa, ante a inefvel magia daquelas palavritas de oiro, vencido pela singela eloqncia duma confisso tam espontnea e tam formal, tda a sua grande preocupao financeira,--uma preocupao de enxrto,--se lhe varreu do sentido... Ao mesmo tempo, numa tristeza de instinto, fitava com demora a sua passiva interlocutora, olhava-a bem, considerava a sua rudeza inata, o exotismo da sua figura, a misria do seu arranjo... e sentia-se vxado; via-se que no podia decentemente quedar-se ali assim muito tempo, s claras, nesse comprometedor _tte--tte_ num logar tam pblico, nem tampouco acompanhar com ela. Mas tambm,--que demnio!--esquivar-se agora e deix-la, retribuir sse infantil abandono com a indiferena, seria a maior das ingratides, uma desumanidade, uma cobardia. Por isso le, de repente, cedendo a um cavalheiresco impulso interior e todo dobrado para Lusa, olhando-a com carinho: --J almoaste? queres comer? Por seu turno, Lusa, sem ousar encar-lo, as mos juntas erguidas aos lbios e confrangendo o busto, tartamudeou uns monosslabos de embarao. E o Silveira ento, adivinhando-a, tomou-lhe do brao, e com afectuosa deciso, familiarmente: --Anda da! Internou-se com ela em Vitria, mandou-a seguir rua abaixo, na sua frente, um pouco a distncia, em direco ao Congresso; e a dobraram rpido para Entre Rios, onde entraram num _bar-restaurant_ de nfima classe, velhacouto barato de _menesterosos_, rufies, cocheiros, _chauffeurs_, caixeiros sem patro e _redobloneros_ sem clientela. Abancaram os dois a uma das mesas mais interiores, numa discreta penumbra, e, aproximao solcita do moo, dobrado em interrogativa atitude depois de haver passado maquinalmente o guardanato sbre a tbua encardida, o Silveira insistiu com a suave morenita p'ra que dissesse--o que queria tomar. E ela, numa deliciosa hesitao, com a face incendida e os olhos hmidos, sem acabar de ageitar-se na cadeira, no atinava igualmente com o que havia de escolher.--No queria comer. Passra-lhe a vontade...--Contudo, aps uma laboriosa inquirio pela hipertrfica lista dos gapes em giro, decidiu-se afinal por um chocolate _liviano_ e _sandwiches_. le pediu um _Bilz_. E com familiar naturalidade, num singelo abandno, algareira, feliz, Lusa foi ento contando:--Ela no andava por'li assim tam perdida como o seu _querido nenito_ imaginava. J estivera por duas outras vezes em Buenos-Aires; a ltima, quando foi do centenrio. Tinha mesmo aqui uma irm... E que l no campo moam-na com trabalho e ainda em cima no lhe pagavam. Guilherme, o irmo, era um desalmado, um bruto. Ela arrastava assim uma vida de negra, era certo... mas, em suma, como no sabia o que era mundo e no alcanava a mais, ia-se conformando... A vlha adivinha de Castelli l dizia: que cada um nasce com o seu destino j talhado. Que lhe havia de fazer?... Porm que depois, de repente, nessa terrvel tarde que afinal se volveu p'ra ela numa aurora, ao v-lo surgir tam milagrosamente e salv-la, sentiu que se lhe abrira qualquer coisa dentro da alma! como ela no sabia explicar... via e abrangia agora as coisas por uma outra forma, compreendia como podia _quererse_ a algum... e que a sua verdadeira existncia comeara naquele momento, que no mais poderia quedar-se ali onde a querida imagem do seu rico protector, lhe aparecia a todo o momento, infiltrada de sadade, reclamando-a com imprio. Premindo-lhe a mo com doura, o Silveira interrogou: --Mas que te importa a ti?... E ela, num profundo acento, gravemente: --_Nada mas me importa en el mundo!_ A seguir, por entre as freqentes olhadas oblquas da freguesia equvoca do _bar_, intrigada pelo estranho _accouplement_ daquele rico _mozalbete_ com uma tam ordinria _piba_, Lusa continuou desfiando,--que, resolvida a partir, fra a socorrer-se com aquela santa senhora, D. Teresa, a qual lhe deu algum dinheiro e uma carta de recomendao para sse _gran comercio de imagenes_ que havia na _calle_ Suipacha, onde a admitiram como caixeira. Tinha graa! todo o dia agora a lidar com santos, ela que nunca se havia confessado nem comungado na sua vida. --Confssas-te agora a mim. --_Es que el seor es mi santo preferido. El seor y San Antonio_. --Mas ento, estando a empregada, como que?... --_A las once salgo almorzar. Y yo iba en una carrera y luego me ponia en acecho, ya sabe, frente mismo su hotel. Por suerte algunas veces mi amor tardaba en salir... Y yo entonces, despues de verlo y seguido un rato, como ya no tenia tiempo, volvia apurada la tienda, sin comer_. --Que disparate! --_Es la cosa mas natural... Y no se me importa: soy de poco comer_. --E aqui onde vives? --_En la calle Tucumn, en una pensin muy cmoda e barata, dirijida por una espcie de monjas, que ese buen santero de Suipacha me indic. La casa es solo para seoras y seoritas. Tengo un lindo cuarto, con el piso encerado y la camita blanca. Tratan muy bien la gente. Pero tiene una cosa fastidiosa: no se permitem visitas y despues de las nueve de la noche ya nadie puede salir_. --Se precisares de alguma coisa... E com crescente animao Lusa, num progressivo abandno de todo o seu ser confiado e vibrante: --_Preciso, si... preciso verlo, oirlo, tenerlo algunos momentos cerca de mi, asi, bien cerquita! Sus ojos me llenan el corazon de sol, su simple presencia me infunde valor. Preciso tanto de ella como del aire y de la luz, para vivir... e con ella me contento, toda vez que no puedo aspirar su cario. Lejos de Usted es como yo ya no podria vivir! Porque ahora es una cosa tan diferente... Si el seor vise como yo, all afuera, vivia solita y triste, sin afectos, sin amparo, sin una pisca de alegria!... Por eso necesito que se me convierta en un dulce y leal amigo de siempre, mi generoso protector dun instante. Que cargosa le voy a ser!... No se acuerda el seor de aquella noche en que la siniestra lechuza nos seguia todo el camino?... Nos lig en la vida y en la muerte. Es la suerte ya v... Y yo confio en ella y ella me entrego, y estoy contenta. Porque decia mi abuelita, que Dios tenga en su gloria, que cuando la felicidad se pone delante de nosotros abrirnos un camino, es como la desgracia,--es por mucho tiempo_. Vagamente apreensivo, num frio e convencional sorriso, o Silveira murmurou: --Bem, est bem... Lusa agora mudra de expresso, e com adorvel infantilidade, tristemente, olhando-se com desprzo: --_Lo peor es que yo, verdaderamente, en esta facha, me averguenzo... si, reconozco, tengo que confessar que no soy digna de Usted!_--Mas logo, numa coqueteria ingnua, recobrando-se:--_Ah! pero tambien yo s vestirme como las seoritas de la ciudad. Y tengo com qu, gracias al Seor!_ --No tens um chapu? --_Como no! Y una linda blusa de seda, pollera con pliegues y cordon de oro_.--Atirava com deciso o guardanapo:--_V a ver!_ O Silveira expandiu-se num claro riso, entre trocista e incrdulo; e aps uma pausa, voltando a afagar-lhe com carinho a mo sbre a mesa, suavemente: --Mas, dize-me: ento, srio, srio, no te lembra o campo? --_Que me voy a acordar?_ --No deixaste por l nenhuma inclinao? no tens sadades? --_Inclinacin?... Acaso s lo que es eso!_ --Era natural... --_Nadie! nadie!_--E com um sincero calor, beijando os dois indicadores postos em cruz:--_Juro! por esta... Yo naci sin una flor en el alma. Yo andaba por ahi como una pelota lanzada al acaso, sin paradero, sin hogar, sin destino. Quien hacia caso de mi_?...--Depois, comovidamente, com os antebraos ao alto, as mos postas em splica e as pupilas ardentes num amoroso enlvo despedidas ao busto atnito do Silveira:--_Ahora, si! es que yo creo haber finalmente encontrado mi familia, mi mundo... ahora es que yo compreendo la razn y el fin de mi vida. Que feliz soy! Cuanto le debo!_ Sbito, como no seu enlevado giro os alarmados olhos de Lusa se fixassem no grande mostrador circular do relgio da sala, a timorata rapariga estremeceu, e como quem desperta dum sonho: --_Ah! pero que tarde es!... Que disculpa voy dar en la tienda, valgame Dios?_--E pondo-se de salto em p, apressurada, inquieta:--_Disculpe-me, si?... Es forzoso. Voy tomar el tranvia_. Arredou a cadeira de golpe, e enquanto o Silveira pagava, sem uma palavra de despedida mais, sem um agradecimento banal, sem mesmo esperar por le, partiu precipitadamente. O Silveira ficou ainda, uns minutos, como avergado ao pso dum inconfessvel cuidado. Acendeu um cigarro, sau morosamente... e longamente depois, penseroso, inerte, foi subindo a p a praa do Congresso.--Em que viria aquilo a dar?... ia vagamente contrariado, porque sentia que demasiado o preocupava aquele trivial episdio _callejero_. Increpava-se da sua debilidade. O saboroso desenlace desta aventura picante seduzia-o, fazia-lhe negaas ao desejo; mas simultneamente, perante a turbadora ameaa do contubernal convvio com essa criatura delicada e simples, o seu epicrio egosmo revoltava-se. E como quem padece dum mal secreto, como se premeditasse algum delituoso plano ou houvesse cometido alguma aco indigna, guardou-se de contar qualquer coisa ao Azeredo. Curioso foi que hora habitual, na manh seguinte,--e embora no houvessem feito nenhum acrdo prvio,--l estavam os dois outra vez cada um no seu posto; dando-se at o caso singular de ser o Silveira quem apareceu primeiro. Pronto le havia baixado ao salosinho de leitura do hotel e da, sem mesmo pensar em almoar, recostado com indolncia num _fauteuil_, junto janela, seguia espiando em disfarce a apario, na esquina defronte, da sua linda e suave companheira.--Nada tinham combinado, mas de seguro que ela havia de vir!--E, forte nesta acariciadora evidncia, a curtos intervalos le no despegava de apontar os olhos codiciosos ao outro lado da rua. Muito no tardou que a sua femieira impacincia no fsse satisfeita. E ento, mal que o insofrido gal viu em frente, debuxar-se no torvelinho vago da multido a fina silhueta apetecida, ergueu-se, tomou o chapu, correu porta... num momento estava junto dela.--Vinha outra, com efeito, naquela manh, conforme anuncira. J parecia algum... Cmicamente travestida em _seorita_, trajava uma singela blusa em _soyau_ crme, decotada, com largo cabeo Tudor, segundo a moda; uma saia negra em sino, muito curta, com sobre-saia _plisse_, da mesma cr; bota de pelica e verniz, e meia branca; ao colo um tnue fio de oiro; na cabea um barato chapusito _panier_, de palha castanha, rebatido sbre os olhos e atrs em slta curva erguido sbre a mlhada luzida do cabelo, pregado nuca; e umas luvas triviais de algodo branco, pospontadas de negro, sujeitavam a rstica aspereza das mos, donde pendia uma bolsinha de sda. Entalada nesta convencional, e para ela quse indita, indumenta urbana, Lusa aparecia desfigurada. Era uma autocaricatura. Era como uma estiolada flor trazida do campo. Na sua improvisada encadernao havia o que quere que fsse de contrafeito e extico, que a desfavorecia. Ela mesmo no se sentia vontade... os movimentos eram hirtos, a expresso estranha, no sabia que fazer dos braos. Estava adorvel de embarao e de ridculo. Mas a tudo sobrelevava sem esfro o contrno picante da sua figura, e dessa contrafaco irrisria zombava triunfal a sua mocidade recendente, a sua palidez fresca de flor, a sua graa nativa, a sua confiana ingnua, o seu vio exuberante. Sadaram-se por um cordeal aprto de mo, e de roda dela o Silveira tudo era mir-la de gsto e aplaudi-la, complacente e risonho festejando-a por aquele milagre de metamorfose tam sedutora como imprevista. Achava-a encantadora. Porque de todo aquele ingnuo esfro ressaltava a exclusiva, a ardente preocupao de interess-lo; todo sse preparo coquete era um discreto convite, um desafio evidente, que o enardecia... Do mesmo passo, a confusa e tmida criana, no ntimo lisonjeada, pedia mimadamente--_que no le hiciese burla_...-e trejeiteava umas infants e humildes expresses que, eram a demanda subtil do seu agrado. Contudo o Silveira encontrou-a triste. Mantinha-se inconcebivelmeute perplexa, muda, cabisbaixa. O que quere que fsse de penoso e molesto lhe ensombrava a expresso, lhe pesava nos lbios e abatia o vo sonhador das plpebras. Interrogou-a com insistente carinho e ela sempre no mesmo silncio embaraoso e difcil; t que por fim, por muito instada, balbuciou a custo:--que ao entrar na loja, na vspera, como chegasse uma hora mais tarde, no quiserem saber de razes nem desculpas. Pagaram-lhe e despediram-na. Tomado dum indominvel frio egosta, o Silveira exclamou: --E agora?... --_Ahora que s yo?_--murmurou Lusa mansamente; e na sua resignao fatalista, encolhendo os ombros:--_Busco otra casa_. Insensivelmente haviam retomado a andar, rua abaixo, agora j sem esquivanas, sem hesitaes nem dvidas, mano a mano, como dois iguais, como dois bons amigos. Mas seguiam sem palavra ferir, silenciosos e graves, a par um do outro e distanciados pela interposio dsse arreliador problema econmico, filosofando em comum sbre a dura incerteza do futuro. Porm, sbito, um outro problema bem mais grave formularam as exigncias fisiolgicas do Silveira,--a necessidade de almoar. E ste era de soluo imperativa, imediata. Fez sinal ao primeiro _taxi_ fechado que passou, empurrou para dentro a rapariga e, de mo portinhola e p no estribo, ordenou ao _chauffeur_ que tomasse em direco ao arrabalde, a para Flores ou Olivos, e que aterrasse nalgum pequeno _restaurant_, aceado e cmodo, onde pudesse almoar-se bem e a bom recato. E nesse acomodatcio bucolismo de fra de portas foi onde gozaram o seu primeiro idlio,--breves, fugazes horas de paz e de enlvo, vividas ao acalentador abrigo dos muros dum exguo _patio_ colgado de trepadeiras, em cujas sombras transparentes os raios do sol vinham quebrar-se, danando, como sarabandas de beijos, como boquitas de oiro. Gradualmente aquecendo, o Silveira, profissional emrito nas prticas da seduo, envolvia-a em cariciosas esprulas de encantamento e de sonho, acenava-lhe com promessas, espertava-lhe desejos, insinuava-lhe desvarios, dizia-lhe coisas audazes e perversas que a deslumbrada criana recolhia inteiras, num embevecimento ingnuo, com os grandes e lindos olhos muito abertos, que pareciam escutar. Depois Lusa tambm, no progressivo alento da confiana e pelo eflvio excitante da comida, tornava-se ligeira, expansiva, fcil, tagarela, e com a sua vozita lmpida e vibrtil, titilando como uma luz ao vento, fazia o enternecido relato do seu passado, da sua vida de desamparo e misria... e como agora sempre o seu pensamento rodava incessante em volta do seu rico amor... desnudava as mais ntimas prgas do seu sentir, punha da mais comovedora evidncia a intacta virgindade da sua carne e a nvea pureza da sua alma. Ao cabo, no regresso, quando dentro do auto os dois outra vez, le cingiu-lhe a cintura, puxou-a a si, beijou-a sfregamente... e ela abandonava-se, poisando-lhe em delquio a cabea contra o peito, encolhidita, humilde, gozando o prazer inefvel de sentir-se pequena junto ao homem que adorava. Nos dias subseqentes, de saber, a embriagadora scena a repetir-se. Um e outro tinham o dia todo por seu: nem ela nutria agora maior empenho em buscar nova colocao, nem tampouco le se interessava demasiado pelos negcios. Narcotizava-os a tirania mole do instinto, embalava-os, adormecia-os uma preguiceira onda de prazer. E assim, numa desptica e mtua seduo, dias ps dias, foram indominvelmente consumindo o tempo e pelo seu amoroso exclusivismo enchendo as horas, num delicioso deambular de acaso, alheios ao mundo, perdidos pelas tascas dos bairros suburbanos, delidos nas orvalhadas sombras do Tigre, extraviados na quietude vaga e balsmica do campo. E ste delicioso parntesis de sonho engrinaldava-o Lusa com um chancear cristalino e alegre, intervalado de carcias tam espontneas e tam ardentes, que o inflamado Silveira no sabia por vezes a que sobremanas fras socorrer-se para enfrear a violncia do desejo. Eram as consabidas tapas duma capitulao moral, gostosa, inevitvel, em que a alucinada criana ia deixando a pedaos o pudor,--essa epiderme da alma,--como antes, pelo campo, a fmbria da rstica saia esgarada nas balsas dos caminhos. Debalde prudencialmente o Azeredo, j ao tempo conhecedor da situao, buscava conter e dissuadir o amigo. Fazia-lhe ver, dsse resvalo inobre em que se obstinava, as responsabilidades, os contras, os alapes, os tdios... porventura os perigos.--Que preciso tinha le? com tanta mulher por' e noutras condies, e mais educadas, mais lindas, melhores, seguramente!--A nada porm cedia a libidinosa querena do Silveira. Se le a princpio hesitra, agora, merc da garra mansa do convvio, o domnio, o gzo, a plena posse de Lusa tornra-se para le uma ida obsidiante. Pressentia-lhe o aroma e o sabor dos frutos silvestres. Como um cacho ruivo de medronhos, embebedava-o o apetite acirrante de mais esta aventura, tanto na sua tradio como do seu agrado. Por fim, lgicamente, amaram-se na cumplicidade mercenria duma _casa amueblada_. E logo nessa noite o Silveira, quando a ss, no hotel, com a reflexiva calma do seu leito, sentiu correr-lhe a espinha um frio de vaga e presga angstia. Inexplicavelmente, e uma vez dissipado agora, com a posse, o encanto, o devassado mistrio dessa criatura confiada e simples, uma sorte de spero cuidado espancava-lhe o sono... remordia-o um amargo e apiedado sentimento, para le desconhecido. Tinha supersticiosas apreenses e vinha-lhe uma tristeza. Quereria retrogradar, increpava-se, arrependia-se... No desfecho tam plausvel e tam humano dsse vulgar lance de amor, a sua conscincia em alarme futurava qualquer coisa encaminhada a fazer sangrar a sua alma e a pesar no seu destino. X Mais ou menos o mesmo severo aspecto revestiram, no dia seguinte e quando inteirado do sucedido, os repreensivos comentrios do Azeredo, que duramente increpou o amigo.--Afinal havia cado na mesma estupidez de sempre! E p'ra qu, no fim de contas?... Porque no soubera reprimir-se, atalhar o mal a tempo, furtar-se, desertar, reagir? E que tivesse vergonha! pois aquela premeditada violncia era sempre no fundo uma aco indigna. Depois, com uma doura amvel a cantar-lhe na expresso, sensatamente ponderava: --Sim, porque essa pobre rapariga agora no te larga... tens que ampar-la no novo caminho que lhe fizeste. Pendura-se-te da vontade, enrosca-se-te ao desejo. E bem feito! E vai tu, com o teu bom gnio, com sse feitio brando e sensualo, deixas-te gradualmente prender, apidas-te, habituas-te, condescendes... e acabars por descer a essa equvoca situao tam do agrado de todo o bom portugus: a mancebia. --No mulher p'r'a mim, --P'r'os homens fracos e lascivos como tu, tdas as mulheres esto altura.--E num gesto nobre e viril, sacudindo os ombros:--Porque no fazes como eu?... Tentaes dessas prefiro que venham adonde a mim. Fica-se sempre bem... Foi o meu caso com a chilena. O verdadeiro prazer deve ter asas, ser leve como uma pena e fcil como os frutos maduros. At por uma questo de egosmo. Pois tu no vs? que diabo!... perante a epicrea gula dos nossos sentidos, o convidativo saber da mulher feita vale mais que o espanto semsabor da virgindade. Confundido e vxado, o Silveira concedia--que sim... o seu amigo tinha razo. So destas coisas que acontecem. J tinha que ser...--Mas logo, com desdenhosa arrogncia, recobrando-se:--O que no valia a pena era dar ao caso maior importncia. O que melhormente agora ali o interessava era ganhar _plata_. O mais, queria l saber!--Aproveitando jubiloso a derivante, logo o Azeredo lhe disse que ainda na vspera, no _Club Progresso_, o comendador Niatello com todo o intersse lhe perguntra por le. --Tem estranhado a tua ausncia e com razo. Nunca mais apareceste! O Silveira prometeu que iria naquela noite sem falta. E com efeito, crca das 10 horas, a entravam os dois a portada banal do _Club_, na _Avenida de Mayo_. Transporta a modesta escalinata, em mrmore branco e mosaico, e atravessado em cima um esguio vestbulo envidraado, cortaram logo para o primeiro salo, direita, uma grande e bem esquadrada pea participando do simultneo carcter de centro de conversao, _fumoir_, biblioteca e sala de leitura. O teto, alto e distante, era todo artezonado em bastos e simtricos caixotes de estuque lavrado, com abundncia de oiros e relvos; pelo amplo lenol das paredes, forradas duma espcie de brocado verde, de l, com filetitos de oiro, penduravam-se aparatosas taboletas emoldurando recompensas industriais, oleografias, espelhos, a lista impressa dos scios e o plano policromo da cidade; em baixo, sbre o envernizado _parquet_, havia uma mesa enorme, pejada de jornais e revistas, e disseminavam-se em profuso as cadeiras, poltronas, sofs, _causeuses_ e _fauteuils_ de tda a espcie, obrigado refgio modorrenta inrcia dum avultado nmero de assistentes, dos quais alguns, raros, em traje de _soire_ ou _smoking_, porm a maior parte encadernados no comodismo plebeu do jaqueto, e todos com arrastado vagar discorrendo sbre triviais casos mundanos ou tricas vulgares de negcios. Junto a uma janela abancava, com trs scios mais, o comendador Niatello, um quinquagenrio reforado e grande, de queixo querenoso, de olhos ladinos, saltando com dominador relvo da abaanada flacidez da larga face curtida e negrusca, inteiramente escanhoada. Mal que le descortinou os dois amigos, logo de cham-los de longe com protectores acenos familiares, afectuosamente. E sua aproximao ergueu-se e adiantou-se a acolh-los, numa solcita cortesia, convidando-os logo a tomar _asiento_ e apresentando-os sorridente aos trs companheiros.--Todos vlhos. Vicente Alvear, descendente duma antiga famlia colonial e herdeiro duma grossa fortuna, era ainda uma bela figura marcial, com a slta elegncia de movimentos que nos d uma vida fcil. Recm-chegra da Europa, dizia as coisas mais triviais com solene entono, tinha um certo _aplomb_ fidalgo, e o seu rosto liso, afvel e atraente iluminava-se da espelhada abundncia e frescura do bigode e cabelo, totalmente brancos. No assim Jos Pitronero, que desbarbado, esguio, pequenino, era a mais completa e flagrante realizao dum dstes grilhetas eternos do trabalho, vestindo pobremente, com a arisca silhueta repregada sbre si mesma, os olhitos cavilosos, a face rechupada e o chin grisalho, recurvo o dorso como um cifro, as mos crispadas como garras. Finalmente, Pedro Urquiza era o mais galhardo e moceto dos trs. Grosso, moreno, gordote, a cara opada e macia, o cabelo lustrado de leos, as mos moles e brunidas, era bem um tipo de puro e contums _porteo_, no crte arrogante do busto, no desempno viril dos gestos, na linha imperativa da bca, entre voraz e insolente, na dura expresso do olhar, entre altaneiro e cnico. Trajava com afectao, de cala excessivamente curta, polainas, grande prola na gravata e um cravo branco no olhal do jaqueto cintado. Foi le quem imediatamente reatou conversa. Fazia a apologtica enumerao das fabulosas riquezas naturais do pas, postas agora a claro: os jazigos petrolferos de Comodoro Rivadavia, as hulheiras de Chubut, os incontveis tesouros em minrio da cordilheira. Tanta maravilha por' assim a explorar! tanta coisa misteriosa, ignorada, indita, imprevista! No mundo no havia melhor. --Parece-lhe ento que todo sse sul da Rpblica?...--indagou ingnuamente Vicente Alvear, avanando o busto com intersse... -- o nosso futuro Potosi, no h dvida! Bem v, o norte para a explorao intensiva ainda demasiado selvagem, o centro est dando o mais que pode dar... de sorte que para essas caudais de abundncia do sul que deve de preferncia voltar-se a nossa ateno e canalizar-se o nosso dinheiro. --Parece que essa obra do carvo de Chubut _es un cuento_,--mascou o cauto Pitronero com frieza, fransindo desconfiado os olhos e apertando os braos. --Como, _un cuento_!? --Sim... eu li algures a opinio do engenheiro Rivoretto, um informe oficial, que diz que so jazigos demasiado recentes. --Pelo contrrio,--acudiu o Alvear com entusiasmo,--na Europa corre que um carvo que pode competir com o melhor de Cardiff. --Poder... daqui a mil anos. --Tudo isso so abominveis maquinaes e intrigas de tanto invejoso, tanto malfadado empatador que p'r'a abunda!--contestou indignado Pedro Urquiza. E com persuadente intimativa:--No tenham dvida: o valor das hulheiras de Chubut, mas o valor actual, imediato, enorme. Depois, h ainda os mananciais do Neuquem, h tda essa imensa e feraz Patagnia...--E num ardor de patritica exaltao, pondo-se em p, com os lbios imperiosos, com uns olhos de vidente:--Ah, creiam, meus amigos! por tudo, at pela raa, no sul que repousa o engrandecimento, do sul que h-de avassaladoramente romper e impr-se o grande futuro da Rpblica. E o dever de todos ns , desde j! no s acompanhar, mas estimular sse portentoso fenmeno natural com as nossas melhores reservas de actividade, de inteligncia e de numerrio.--Rodeou o grupo em duas passadas nervosas, e por fim, abatendo a mo sbre o engerido ombro do Pitronero:--Voc que diz? Este teve um instintivo estremecimento, e naquele gesto tam seu, de como quem defende a algibeira, encolhendo os braos todo dobrado: --Eu no sou ambicioso... no digo nada. --Duvida? tem receio? --No sei, no sei... Aquilo que tenho custou-me tanto a ajuntar!... --No diga isso! Um homem como voc, dos do bom tempo, quando inesperadamente se acordava rico... Um felizo, que apanhou fortunas de mo beijada... --Sim... porm o meu amigo no atenta agora, com as reviravoltas da crise, em quantos ttulos eu tenho comprometidos... no toma em conta a imensidade de terrenos que eu comprei a 30 pesos o hectare, e que neste momento no valem 5... Ningum mos quere! --So injustificadas apreenses. L vir seu tempo. --Virtualmente estou pobre. Uma girndola de incrdulos risos acolheu ste lamento hipcrita. E a seguir num generoso arranque de confiana, o Alvear: --Pois eu c, no! eu estou meio tentado. O dinheiro que os meus me legaram, p'ra que o quero eu? seno p'ra p-lo ao servio do meu pas, ajudando-o e engrandecendo-me?... Que essas novas empresas consigam do govrno, pelo menos, o apoio moral, e o meu capital disponvel estar com elas. --Bravo! meu nobre amigo. Muito bem!--exclamou com festiva arrogncia o grosso Urquiza, dobrado com esfro, sobre a espalda do amigo. E logo para o Silveira, que, sentado ao lado, seguia num vago deslumbramento o giro tintinabulante do dilogo:--E que diz a isto o nosso simptico estrangeiro? Aqui interveio o ladino comendador, at ento silencioso, e que com dulcerosa expresso, envolvendo protector o Silveira na chispa traficante do olhar, astutamente: --Ah, o meu joven amigo no precisa aventurar-se tam longe p'ra fazer fortuna. Tem um pouco mais perto, j sabe... os meus terrenos da provncia de Cordoba. No verdade? Maquinalmente, o Silveira sorriu; enquanto o Azeredo fransia a testa com desgsto, o negrusco aliciador continuava: --Pode ali fazer uma rica explorao agrcola em larga escala. o mais simples e o mais seguro. --Eu gosto muito do campo. --A tem! Que melhor oportunidade que a que eu lhe ofereo agora? E olhe que poucos lotes me restam j... Um terreno privilegiado, no imagina! Ainda no viu a exposio dos produtos dessa minha terra, aqui em Florida?... Faz o assombro de tda a gente. V ver, v... e eu tenho a antecipada certeza que de l o meu amigo correr ao meu escritrio. --Haveria logar para tudo...--magnnimo o Urquiza aventurou. --Nada! nada! _Qu esperanza_... Creia, amigo Silveira, nenhum negcio como ste meu. Garanto-lhe que, em dois anos, tem o valor do seu capital quintuplicado. Quere ver? E, dizendo, o acobreado Niatello sacava duma pasta e desdobrava aparatosamente sbre a mesa uma grande planta policrma, enquanto de roda os trs vlhos cambiavam entre si um imperceptvel olhar escarninho, e o Azeredo impaciente beliscava o brao ao Silveira. --Bem! vou ao meu assalto de florete,--anunciou, num sco gesto de despedida, o Urquiza. E para o Silveira, com especial predileco:--Tive imenso prazer em conhec-lo, pode crr... _Calle_ Lavalle, 1391, inteiramente ao seu dispr. E fra disso, pelas tardes, encontra-me sempre invarivelmente fazendo a _calle_ Florida, no _Jockey Club_ ou a pela livraria _Mendeski_, pelo _Wictomb_, porta do _Lacloche_ ou no _Rumplmeyer_. Seguiu, breve e altaneiro, para o interior da casa, tomando-lhe o exemplo, a poucos minutos passados, Vicente Alvear e o Pitronero, que deixaram o comendador a desdobrar vontade a sua estratgia de seduo perante os dois portugueses. Assentou le em pso a negra mo convincente sbre uma larga flha de papel-tela, onde tentadoramente se estrelava uma grande mancha trapezoidal, escaqueada por um labirinto de pequeninos rectngulos, brancos, amarelos, azis e verdes, que uma floresta de traos negros definia, e carimbados a algarismos vermelhos. A toalha esfngica da fortuna. --Isto aqui o melhor que pode haver, notem os srs. bem! Provncia de Cordoba, departamento de Iulumba. Dze horas de ferro-carril; um passeio. O lote que eu lhe ofereo ste, o n.^o 13, um nmero de sorte, um verdadeiro _regalo_. Veja: so crca de oito mil hectares, terrenos absolutamente virgens, a dois passos da linha frrea, abundantes carreteiras, e em condies topogrficas excepcionalmente favorveis, entre a montanha e o rio. --H-de ser caro... --Qu, caro? objectou com a mais teatral iseno o comendador.--O meu amigo no me conhece... De tanta soma de terras aqui vendidas j eu tirei um lucro bastante compensador; de sorte que agora ste resto,--que no um refugo, seno um mimo,--ceder-lho hei por nada, quse de graa. --E como que tanta preciosidade--arriscou com impertinncia o Azeredo,--se conservou at agora assim baldia, estril, ignorada, intil? --E um fenmeno vulgar em tda esta imensidade. --Bem, mas em todo o caso este meu amigo, sem ver, sem se informar melhor... no pode assim de golpe comprometer-se... --E porque no vo l primeiro, certificar-se? Eu at estimo. --Desnecessrio!--atalhou, num rasgo de quente deciso, o Silveira.--Est posta de parte, por descabida entre ns, a questo de confiana.--Depois a meia voz, para o Azeredo:--Talvez convenha, hein?--E na hipnose ingnua do oiro, erguendo-se:--Olhe, meu caro comendador, eu no resolvo nada de pronto; no entanto peo-lhe que me reserve o lote, que me d um prazo. --S sendo muito curto, j v... --Eu manh sem falta vou ver a sua exposio, e em seguida, em qualquer hiptese, passarei pelo seu escritrio. E com um efusivo aprto de mo despediu-se e afastou-se, com o Azeredo, enquanto o comendador dobrava e guardava, num jubiloso vagar, o seu trapaceiro _dossier_, com a segurana ardilosa do triunfo a bailar-lhe no olhar astuto. No muitos metros andados na direco dos bilhares, chamou a ateno dos dois amigos, quse travando-lhes o passo, um grupo atnito e compacto que em exttca suspenso escutava o verbo suasivo e ardente dum invisvel charlato, sob o domnio empolgante da sua embadora parlenda desdobrando cifras e barafustando enganos. -- um assunto que eu pensei maduramente, meus senhores!--pregoava le na sua ardorosa invocao, convictamente.-- uma grande empresa, um negcio estupendo! C de fra e de longe, o Silveira no podia distinguir a figura do industrioso perorador; mas pareceu-lhe reconhecer aquela voz sacudida e vibrante, de timbre metlico, saltando no silncio espectante de em trno como um jrro de moedas batidas sbre o balco. Ergueu-se ento em bicos de ps... e, com efeito! era o seu abortivo Ramn Alvarez quem com tam compenetrada fria encarecia as maravilhas dalgum indito elixir da sua lavra. E que de repente, ao v-lo: --Oh, meu caro Silveira! Que feliz, que providencial acaso! Quanto estimo! _Pase_, _pase_, venha ouvir... Como chega a propsito! E tam pronto fez praa ao amigo, logo le, para no perder o calor sugestivo do momento, rompeu clamoroso outra vez: --Trata-se nem mais nem menos que da construo dum grande, um alado, um colossal e gigantesco pra-sol sbre tda a praa de Mayo. Os paresiados rostos dos circunstantes fulguraram num rasgo de admirao alarve. E le, impudente, imperturbvel: --Os senhores compreendem bem a minha ida, o meu fim essencial: oferecer um pouco de comodidade ao grosso publico, furtar s inclemncias do calor e ao rigor das intempries tda a imensa aluvio humana que de sol a sol febrilmente circula e se agita nessa tmida aorta da cidade. Mas de passo eu quero renir ao til o agradvel, quero adornar de atractivos, rodear de fartas e lindas diverses, essa benfica estncia de repouso. Ser um ponto de renio forado, uma obrigada estao de prazer, _chic_, esttica, elegante. Haver por exemplo ali assim, logo em baixo, tda a sorte de _tiendas_, _restaurants_, bazares, _garages_ de automveis, que sei eu?... Depois, em cima, envolvendo o grande suporte central, e suspenso, teremos um vasto salo de concertos; dos extremos de cada vareta, ao largo de tda essa perifera, eu farei igualmente suspender quantidade de teatrinhos, cinemas, _bars_, estufas, e por fim, no afusado remate do vrtice, rendado e fino como uma agulha de catedral, erguer-se h um lindo _belvedre_ e flutuar um balo cativo. --Encantador, grandioso, realmente! -- uma ida bem americana! --Parecer-lhes h estranha, primeira vista...--ponderou o grotesco Alvarez, sorridente, pendulando a fenomenal cabea com modestia.--E no entanto nada de mais exequvel, de mais oportuno, de mais simples, de mais a propsito. Mas por entre o cro basbaque dos aplausos algumas birrentas dvidas surdiam. --Acho um plano em demasia arrojado. --Impraticvel talvez... --Como, impraticvel?--de salto o Alvarez acudiu, com o frio cobalto dos olhos sbito incendido.--Ao contrrio, hoje, com o ferro e o cimento, tudo quanto h de mais fcil. --A mim parece-me a renovao da cmica faanha do _homem das botas_... com a diferena que esta no custou dinheiro,--disse em surdina para o Silveira o Azeredo. --E a forma prtica de o realizar?--interpelou um ouvinte mais rebelde. --A municipalidade consentir? J obteve a concesso do exclusivo? --Ainda no... porm tenho a promessa formal do _decan_ da Presidncia.--Um crdulo cabeceamento de aplauso acolheu esta animadora notcia.--O lucro vai ser imediato, enorme, colossal!--tornou dogmtico o Alvarez; e aps uma ardilosa pausa, abrindo familiar os braos, singelamente:--Agora o que h, que estas coisas, sem dinheiro, sem muito capital... Eu s no posso... Pensei numa sociedade por aces, de cem pesos, cobrveis em duas prestaes. Est ao alcance de tdas as bolsas. Uma coisa de nada! Aqueles dos srs. que me queiram acompanhar... Entretanto, nas flhas do providencial _carnet_ que um solcito _corredor_ ia fazendo adrede circular pela assistncia, choviam abundantes as adeses e as rubricas dos subscritores. O Silveira inscreveu-se com cem aces, levado na rtila asa dos seus sonhos de fortuna. Na manh seguinte, tomado de plutonmica impacincia, le a ia visitar, em _calle_ Florida, o tam apregoado mostrurio agrcola do comendador. A distncia de mais de meia _cuadra_, j le distinguiu um grosso grupo de mirones, na sua curiosa inquirio colados com avidez montra, tomando o passeio e da alastrando ainda em arrelienta cauda pela rua. Tanta soma de intersse foi para o hipnotizado Silveira mais um estmulo. Estugou o passo, e, breve, a poder de firmeza e de deciso, pedindo vnia, acotovelando, rompendo, atropelando, logrou alcanar o posto de exame desejado.--Um perfeito deslumbramento! Distribuida com arte e colmando superabundante a vidreira, havia a mais tentadora profuso de bulbos, de sementes, de frutos, leguminosas e gramneas de toda a sorte e tudo sltamente luxuriando em cres sadas e brunidas, em tmidas e aveludadas curvas, em farturas reumantes, escarolados cofres da abundncia, gordos, frescos, viosos, grandes como le nunca vira igual! Alguns eram duma corpulncia descomunal, verdadeiros prodgios da Natureza. Havia ali batatas grandes como meles, meles que pareciam abboras, abboras que eram como as trres da Senhora dos Remdios ou do Bom Jesus, na sua terra. Seguramente, na ltima exposio promovida pelo Vilarinho de S. Romo no Palcio de Cristal, e que tam falada foi, no aparecera nada capaz de se comparar com isto. Era uma possana paradisaca que metia positivamente num chinelo os afamados feijes e as couves de S. Cosme, os pssegos do Varosa ou os calombros de Lamego. Que portentosa produo e que privilegiada terra! Nem todos pareciam, entretanto, manter esta corrente ingnua de sentir, no heterogneo grupo da assistncia. Um que outro dito mordaz passava dissimulado ou esfusiava escarninho; alguns rodavam num propsito manifesto de troa, assobiando; e mesmo junto orelha do indignado Silveira, algum houve que, fransindo o nariz, com implicativo acento exclamou: --Hum! A mim parece-me isto um _conto do vigrio_. O Silveira sentiu ganas de contraditar a blasfmia; e sobranceiro a ste deletrio contgio, como um decisivo gesto do seu protesto pessoal a tanta soma de imbecilidade e ingratido, sbitamente, deixou por seu turno a vidreira e seguiu na pressurosa demanda do comendador,--no fsse algum mais diligente e esperto antecipar-se-lhe!--e adquiriu para si o famoso lote n.^o 13. Oito mil hectares de terra virgem, a dez pesos o hectare. Um ovo por um rial. Um negcio de mo cheia. Descontado ste dinheiro, mais o capital que arriscra na _Sociedade Internacional de Seguros_, e o custo das cem aces, do dia anterior, no lhe restava j do seu parco patrimnio, feitas bem as contas, mais do que com que viver, e bem escassamente, quando muito, por um ano... Oh, mas que importava isso, se dentro em poucos meses, seguramente, le dos seus esplndidos negcios ia colhr rios de dinheiro!--Bem bom! bem bom!--dizia-se, esfregando as mos, sorridente.-- um dito ste bem certo: que h males que veem por bem... Afinal, em ba hora viera. Ia _fazer a Amrica_, veriam! Ainda havia de mandar depois as bras ao Afonso Costa. E que esmagadora lio le infligia Laurita! Arrastado na falaz miragem dste sonho magnificente, tda a tarde o Silveira levou, desocupado e frvolo, em prazenteiros _flirts_ pela cidade. Comera o delicioso ms de maio, o opulento batedor da _season_, arrepiado dos primeiros frios e com as suas plcidas manhs envltas vagamente, como por uma pelia cara, nas peroladas franjas da neblina. Apetecia o confrto caseiro e lembrava, gratamente, o spro morno dos _calentadores_, o efusivo calor das recepes mundanas, o tpido e sensual ambiente das veladas, dos concertos, dos bailes, dos teatros. Haviam-se inaugurado j os selectos _ts_ dominicais do Plaza, e os aristocrticos cartazes com o _elenco_ do _Coln_ tenorinavam lricas tentaes pelas esquinas. Ao longo da Avenida de Mayo, limpa j de ruturas, porm ciscada a trechos pela chuva outonia da folhagem dos seus pltanos, vrias brigadas de obreiros lidavam regulamentarmente, desdobrando tubagens, firmando plintos, marchetando escudos, aprumando postes, bandeiras, mastarus, pendurando sanefas de lumes e articulando prticos de ripado, para as prximas iluminaes das festas da Independncia. E tornavam a aparecer as equipagens de preo, e pelas ourivezarias e casas de modas cruzavam, em vagarosa importncia, as grandes figuras conhecidas. Era _la gente bien_ da grande cidade que, de novo, condescendia em mostrar-se, era um novo ciclo da sua ostentosa vida social a definir-se. Opulncias, brilhos, vertigens, intrigas, caprichos, loucuras, traies, amores... Era a lampejante renovao de mais um dsses embriagadores remolinhos de fortuna, de engano e de prazer em que o aturdido Silveira estava disposto agora a deixar-se envolver, pronta e avassaladoramente. Ora, justo no dia seguinte, primeira tera-feira do ms, os Wimeyer recebiam. s 6 da tarde, l estava pontualmente o Silveira portita discreta e esguia dsse modesto rs-do-cho da _calle_ Paraguay. Desta vez a criada, sem hesitar, abriu logo o batente da porta envidraada, dando afvel o passo ao visitante, que se encontrou num escuro e enfadonho _hall_, de teto envidraado, onde le poisou o chapu e a bengala, passando logo, esquerda, ao salosinho da frente, que dava para a rua. A, sbre um coado sof, no logar de cerimnia, espapavam-se duas assaz ponderveis matronas, amplas e obsas, de negro, com muitos bands e prolas, atendidas solcitamente pela dona da casa. E no havia mais seno, um pouco parte, junto ao piano fechado prudencialmente, duas raparigas vestidas de claro, ambas dum crte igual, em p e com o exguo ventre em abandno frente, os ombros ladeiros,--cuja frvola ateno Irene e Dolores buscavam maquinalmente prender, mostrando-lhes num convencional agrado um jornal de modas, que as duas delambidas olhavam como por demais, de plpebras froixas, o longo narizito afilando enjoado no rosto impertinente. Fez naturalmente sensao a imprevista entrada do Silveira, cortando assim de improviso a sorna frialdade do pequeno crculo feminino. D. Catalina festejou-o muito, dando-lhe com marcada alegria as bas-vindas, e logo, com o seu ar repousado e lnguido de sempre, apresentando-o s duas bisarmais amigas. A seguir, o Silveira dirigiu-se a cortejar o apartado grupo das quatro jovens, que lhe acenavam com sorrisos; e ento, ao defrontar-se com Irene, estremeceu e sentiu que lhe banhava a espinha um frio de estranheza. Olhava, olhava e no queria crr... Estava mais alta, mais dura e mais forte, engrossra deplorvelmente. Parecia-lhe outra, desagradava-lhe, desconhecia-a... J D. Catalina o chamava afectuosamente, ageitando-lhe cadeira a seu lado, e o desencantado Silveira no conseguia confortar-se do seu desgsto nem repr-se do seu espanto. Sofria a mais amarga e dolorosa decepo! Que era feito ento dessa alada e fugida figura de h dois meses antes? que lance cruel do azar ou que tirania estpida de raa lhe haviam assim desfeito o encanto ideal dessa viso bemdita, durante a viagem?... le estava a ver! perdera a sua linha fidalga, aquele soberbo ar de _palmeira imperial_, na sua area esbeltez, na sua altvola frescura... Tinha agora uns ombros quadrados e rolios, um pulso de cavador, uma anca rotundamente animal, espatinados os seios, a pele ardda, as feies empastadas e sob o queixo fazia refgos. Como fra aquilo, em tam pouco tempo?! Entretanto, D. Catalina, sem poder dar-se conta desta arreliadora surprsa do Silveira, carinhosamente interpelava-o:--Como tinha le passado durante todo aquele tempo? E Buenos-Aires que lhe parecia?--Impaciente e distrado, o Silveira arrastava quaisquer vagas banalidades. E logo mui dulcerosa a me Wimeyer:--Que les que nunca poderiam esquecer tam bom amigo. Falavam nle todos os dias... E que haviam recm-chegado. Dolores estivera com o pai em Salta. Irene, no! essa era mais _regalona_, acompanhra a me no Tigre. --Nunca o vimos por l...--aqui acudiu naturalmente Irene.--Todos os dias espera! Com o ar humilde e contrito, quse vxado, o Silveira balbuciou--que, com efeito, confessava o seu pecado... mas nunca tinha ido ao Tigre. --Como!? E ainda o diz?--reprimendou, a fazer de agastada, a doutoral me de Irene.--No podemos perdoar-lhe semelhante falta! A nossa melhor estncia de vero... Nem a Sua... Dito por todos! --O Tigre lindo!--acudiu com nfase uma das paparretas de junto do piano, aproximando-se. --A minha filha deu-se muito bem por l...--tornou D. Catalina.--Erguia-se muito cedo, todo o dia ao ar livre... pescava, montava a cavalo, remava muito. No v como lhe fez bem? Neste preciso momento, Irene aproximava-se do Silveira e vinha oferecer-lhe uma chvena de ch, crando ligeiramente, com a sua habitual singeleza. E posta assim, natural e simples, diante dle, revelava numa irrecusvel eloqncia sse subito e passivo avatar burgus da sua figura. No era nada j a esquiva e patrcia silhueta ideal do _Almeria_; antes, entre tantos, um rebarbativo exemplar mais de fmea prolfica e segura. Tomando enguiado da bandejita a chvena, o Silveira no podia no ntimo perdoar-lhe... Os seus olhos agora repeliam-na, o seu corao repudiava-a. Perdera para le todo o intersse. Sentia-se roubado. Contudo, atencioso e galante por instinto, dos lbios frios ia deixando, com importante pausa e um pouco ta, escapar seus lisonjeiros comentrios sbre a sociedade e a vida _portea_, frisando a tempo a sua impresso e dstramente sublinhando de admirativas frases o tiroteio vago de perguntas com que o pequeno crculo feminino o assediava,--tdas agora em interessado grupo rodeando-o, e as raparigas j com desabusada familiaridade depois que souberam que le no era casado. Foi quando pai Wimeyer entrou, e ao divisar o Silveira, os seus olhitos claros chisparam num guloso raio de alegria. Vinha invarivelmente todo de negro, e sempre rosado, gordote, apesar de bastante mais avelhentado. E logo, com o seu ar didtico e afvel, adiantando-se: --Oh, o nosso bom e simptico portugus por c! Finalmente... J me tardava. Quanto gsto eu tenho! O Silveira teve um mudo calafrio de terror; e, num aberto desvanecimento, D. Catalina para o marido: --Diz que gosta imenso de Buenos-Aires. --Promete radicar-se na Argentina,--acrescentou Irene. E dogmaticamente o dr. Justus: -- o que deve fazer! Em estando mais vinculado aqui, ver como se sente bem. A Argentina um pas cativante, remunerador. Tem o meu exemplo. --E ento que pode encontrar por' uma linda noiva...--lisonjeira interveio uma das arcicas bisarmas do sof, em pancaditas suaves de regalo sbre o ventre. --Encontra com certeza!--a me Wimeyer sublinhou, num risinho inteligente. --E em todo o caso--tornou com dulcerosa intimativa o dr. Justus--as nossas prometidas lies que no esqueam. --Quando vossa excelncia quiser...--balbuciou o Silveira com esfro, ante a estopante ameaa empalidecendo. --No creia que a ideia inicial seja minha. No. Tem at graa... sugeriu-ma um vlho compatriota seu, filho da India, o dr. Gomes, que eu em Lisboa conheci casualmente. Que homem talentoso, raro, profundo, subtil! Era uma figura estranha e insinuante, com os seus agudos olhos de vidente, as suas atitudes estticas de _fakir_, a sua ctis de bronze oxidado, a sua longa barba messinica. Habitvamos a mesma penso, e a sbre coisas da alma e do esprito ns caturrvamos longamente. E vai le ento, que era um tuberculoso irremissvel, ao morrer legou-me um precioso manuscrito garatujado de nmeros, frmulas, smbolos e chavetas complicadas, que era a embrionria gnese do seu plano. Uma teoria genial! Tenho que p-la a claro. --Pois sim...--atalhou benevolente a me Wimeyer,--porm, deves compreender que o sr. Silveira ter coisas mais agradveis que o interessem. Na sua idade... --Ainda um rapaz...--protectora reforou a dama suave do regalo. --H tempo p'ra tudo. No certo? --Como no?--maquinalmente o Silveira aquiesceu. E como neste momento uma das grossas figuras do sof se erguesse para sair, le despediu-se tambm, com a promessa de voltar pronto, e deu-se pressa em alcanar a rua. Ansiava por ver-se a salvo... dali bem longe. Ia na resoluta disposio de tam cedo no voltar. Desta aziaga manso de desencanto e horror concorriam simultneamente a distanci-lo--a birra pedaggica do pai e o engrossamento prosaico da filha. Chegado ao hotel, o Silveira encontrou um carto do conde Amglio, com duas linhas amveis reclamando a sua presena.--Pedia-lhe que passasse pelo local da sua exposio, _calle_ Viamonte, e iriam depois a casa os dois tomar ch, com a condessa.--A primeira impresso foi de encantado alvoro. Num sugestivo instante, o seu insatisfeito apetite evocou, reviu e enroscou-se deliciosa imagem da irlandesa, fazendo-lhe saltar nos nervos chispas lbricas de desejo. Porm, ao mesmo tempo quse, chamavam-no ao telefone. Era Jorge Saavedra que lhe anunciava o regresso, dle e da famlia, do campo, rogando-lhe por igual que aparecesse, se, antes, le mesmo no fsse visit-lo.--Finalmente... Ainda bem!--Nova e mais deliciosa impresso lhe fez correr, pelos sentidos em alarme, a grata e inesperada notcia.--Sim! porque a volta dos Saavedras significava que teria vindo tambm Maria Mercedes. E le morria por tornar a v-la... oh, a esta de preferncia a tudo o mais! Era um vivo e complicado demnio que, pela frma mais adorvelmente desptica, se lhe instalra na vontade e lhe monopolizra a existncia. Pois le poderia l viver sem ela, ali, prximos e familiares os dois dentro da mesma cidade, sob o mesmo azul carinhoso, no mesmo ambiente perturbador, ao mesmo contacto amigo! E, depois, tinha contas que ajustar com ela... Havia uma deprimente situao que liquidar entre os seus brios varonis e essa criatura enigmtica e divina. Assim duplamente lho impunham o seu corao machucado e o seu amor-prprio ferido. Na tarde seguinte, querendo iniciar a sua galante digresso pelo mais fcil, tomou o Silveira um auto e rodou para Viamonte, onde entrou num pequenino salo trreo, decorado com ricos mveis Renascena, pelas paredes verdoengas um profuso mostrurio de telas de preo, porm de gente deplorvelmente vazio. Na desconfortante solido daquela fracassada armadilha artstica apenas, lenta e merencreamente, se movia o dono da casa,--uma baa figura loira, de olhos claros de porcelana, barbicha em ponta e lunetas, e o cabotino Amglio, astutamente cingido ao crtico de arte de _La Nacin_, a quem com loquaz intimativa, num atropelado desbarato de grossos gestos e frases feitas, buscava alarvemente encaminhar a ateno e subornar o critrio. E depois que ste partiu, o mesmo conde, agora absolutamente s com o Silveira, e no ntimo vxado por aquela evidenciao patente do seu rotundo insucesso, contudo assumia atitudes de importncia, e num desvanecido ar superior, os olhos negligentes na face cnica, passando a mo pelo cabelo, atribua, ftuo e altaneiro, o facto a um mesquinho concurso de causas bem inferiores ao seu alto propsito. E enumerava com desdm,--o pouco adiantado da estao, a crise, a incultura geral, o retramento invejoso dos artistas, a hostilidade surda da imprensa. Passado pouco tempo, e ninguem havendo a atender, os dois retiraram e dirigiram-se ao pensionato pelintra que os Di Paoli ocupavam, na Praa do Congresso. A, das paredes roadas e encardidas, quse totalmente nuas, apenas agora pendiam, destacando sbre uma medocre miualha industrial, uma pequena pasagem de realce e o brbaro retrato da condessa. Esta acolheu o Silveira naturalmente, com um risinho afvel mas sem calor, sem a mnima demonstrao expansiva, com uma frieza exasperante, fechada outra vez naquela expresso calma, alheada e infantil que a bordo, era para o insofrido gal o maior encanto e o melhor estmulo. Falaram ligeiramente sbre uma quantidade de coisas indiferentes e banais, o Silveira fez o pitoresco relato da sua estada no campo; e por fim, como o dilogo voltasse naturalmente a recair sbre a digresso artstica do conde e o seu resultado econmico, ste num abandno de familiar confiana, manifestou ao amigo,--que, devia dizer-lhe com franqueza, as coisas no lhe corriam nada bem... Estava por completo desalentado, no tinha vendido nada! Parecia-lhe aquilo um pas de pedantes e impostores.--E numa autorevelao inconsciente:--Tudo puro charlatanismo. _Parada_, _parada_, conforme les diziam... porm no fundo nada de quantioso, de firme, de slido. Queria le saber?... sse belo Corot que le ali havia visto, mandra-o, a pedido do milionrio Spantuzzi, o clebre coleccionador, a casa dle, para o estudar devagar, para se inteirar melhor, para ver...--Cruzava indignado os braos.--Isto havia dois meses. O tempo fra passando... Era pr'a consider-lo vendido, no era verdade?... Pois que agora lhe devolvera o quadro, com uma carta muito sca, dizendo que afinal Corot no era dos pintores da sua predileco, e que j tinha trs, e que por isso resolvera no comprar... Abria numa irritao os braos, e sacudindo a cabea com dignidade e erguendo-se, acremente: --E tudo o mais assim! H trs meses, apenas, em Buenos-Aires e j gastei quinze mil francos. E lucros nenhuns... Um pavor! Em m hora vim aqui... Que tremenda desiluso! Vou retirar breve seguramente. Deplorando-o com sinceridade o Silveira, e num instintivo terror aproximando a sua sorte da do conde, tentava confort-lo. Porm, sbito, ste, aplacado, risonho e com afvel singeleza, a mo interesseira estendida parede: --O seu quadrito ali est... P'ra onde quere que lho mande? O Silveira estremeceu. Nem le se lembrava j... E contudo ho havia meio, agora, de furtar-se decorosamente quela polida insinuao, que para o seu carcter valia uma intimao formal. Que enormidade iria le cobrar-lhe? Alguns dois ou trs mil psos, estava a ver... Um rombo muito sofrvel no seu j tam reduzido capital, um saque no previsto que lhe desequilibrava o oramento. E que no havia remdio!... Numa retraco ntima de terror, le increpava-se duramente pela sua imbecilidade, dava ao diabo o azarento acaso dste conhecimento... Porm, breve, a sua proverbial impreviso a fazer-lhe bailar no esprito aquela suculenta miragem das abboras e dos meles do lote n.^o 13. Providencial compensao! Que importava o resto?... Ele poderia bem, j agora, ajudar ste pobre diabo e burlar-se da condessa... que a sua brilhante e urea desforra estava certa, depois. Questo de tempo... deixar correr! E com marcada sobranceria, ao despedir-se, recomendou ento ao conde, sem discutir o preo, que lhe mandasse o quadrito ao hotel, com a conta, no dia seguinte. Queria ainda naquela tarde encontrar-se com Jorge. Baldado empenho porm, pelo momento; pois que, tendo chegado ao hotel e telefonado sucessivamente para casa dle, para o _Circulo de Armas_, para o _Jockey-Club_ e para o _Plaza_, de parte nenhuma lhe davam notcia dle nem sabiam dizer-lhe onde porventura se poderia encontrar.--Estaria p'r'a talvez na sesso _vermouth_ dalgum teatro barato. Mas qual?... Fssem l saber!--Ficaria o encontro ento para a noite, sbre o jantar. Disposto pacientemente a esperar, o Silveira correu a coluna de anncios dos espectculos, na _Prensa_ e viu que naquela noite havia no _Palace Thtre_ uma funo em benefcio de _La Caja Dotal de Obreras_, pia instituo patrocinada pelas damas da primeira sociedade. L estaria certo o rapaz. E possvelmente Maria Mercedes... Alentado por ste desejo e enardecido por esta esperana, logo que acabou de comer, o Silveira sau. Mal havia dado porm, confiado e quente, os primeiros passos, e logo esquina da _cuadra_ seguinte, ei-lo que se defronta sbito com Lusa... a qual buscou simular um encontro de acaso, mas que, tmida e inexorvel, mais uma vez o estava dali espiando, seguramente. O Silveira teve um claro sacudimento de arrelia, e brusco e hostl, plantado com dureza frente sua adorvel e simples amiguita, fitando-a com imprio: --Que fazes tu aqui!? que quere isto dizer?...--E como a atnita rapariga se mantivesse muda, numa compungida atitude de assombro, os olhos baixos, a fria prega dos lbios transida de amargura, le na mesma clara dureza tomou:--No so horas e mais que horas de recolheres a casa? Como vais agora entrar? Lusa ergueu para o seu spero censor os grandes olhos, repassados de piedade, e aps uns segundos de embarao, naturalmente: --_Yo cambi de domicilio_. --O qu!? Deixaste essa ba casa de Tucumn? Que fizeste tu por l? --_Yo nada, seor_. --Puseram-te na rua? Ao golpe achincalhante da interpelao, a pobre Lusa fez-se branca, torceu-se numa contorso aflitiva, e logo, reagindo, a protestar com suavidade, as mos trmulas em magoada cruz sbre o peito: --_Nada tienen que reprocharme alli, se lo juro! Al contrario, las buenas madres eran bien amigas mias_. --Nesse caso, ento?... Nova pausa, de eloqente silncio agora, e logo ela, crando, a segredar docemente: --_Es que yo no podia pasar asi todas las noches, sin verlo_... --Com efeito!--exclamou o Silveira, numa fatudade sorridente. --_La culpa es toda suya, ya v_... Insensvel porm o Silveira voluntria e total abdicao desta alma: --De sorte que te encontras agora aqui assim tuna, sem uma ocupao, sem famlia, sem casa nem abrigo? --_Yo no le pido nada_. --Pois, meu rico amor, se vinhas co'a ida de entreter a noite comigo, perdeste o teu tempo.--E como a desconfortada rapariga o envolvesse numa fundente expresso de carinho e ensaiasse um tmido gesto suplicante:--No! no! Vou com pressa. Tenho um compromisso. Palavra! --_Que compromiso mayor que el nuestro?_ --s tla! E no mesmo instante o Silveira, duro sempre e insensvel, jogado ao mpeto do seu cobarde egosmo, voltou costas e seguiu caminho, deixando a sua amantesita infeliz pregada e fria como uma esttua, os lbios lvidos, tolhida de dr e de vergonha, imobilizada de pasmo e de tristeza. Cortando logo para Corrientes, o arreliado Silveira caminhava rpido e, a intervalos, voltava-se, a inquirir se porventura, e a despeito da sua formal negativa, le no seria seguido. Enfastiou-o de-vras o episdio. Incendeu-o num furor pueril, que lhe punha asas nos ps, a insistncia pigas da rapariga.--Tam longe le estava agora de semelhante coisa!--Trs dias havia que no sabia dela, buscando insensivelmente furtar-se e fechar impunemente o ciclo de mais esta fugaz aventura com o slo cmodo do olvido.--Por que era uma maada, no fim de contas, a peganhice infantil dessa seresma! Ba rapariga, no havia dvida... Mas tambm as mas que le, na sua terra, tivera a sorte de arrastar a uma torpza igual, eram bas como esta... e mais dceis, mais razoveis. Sabiam medir distncias, compreendiam a situao. A breve trecho, eram elas as primeiras a anular-se... voltavam ao que eram e no o importunavam mais, conformavam-se sem lamrias e deixavam-no em descanso. Ao passo que agora esta carraa... Em m hora lhe tinha acudido!--E a biltraria recndita do seu nimo fortalecia-se. Erguia a cabea com jubiloso arreganho e caminhava mais apressado. Porm a espaos, no obstante, se num claro de grata recordao a sua alma evocava a cndida imagem de Lusa, crescia-lhe sbito no ntimo uma onda de condoda ternura, que o envolvia, que o abrandava, que o fazia arrepender-se e parar no caminho. E le revia ento, em todo o seu incondicional abandno, em tda a sua rstica simpleza, essa esplndida flr do campo, a tinta ardente da sua epiderme, o alapo de desejos que era a sua bca, o lume de paixo espirrante dos seus olhos cheios de fogo... e pensava.--Talvez que esta sentisse mais e melhor que as outras... Valeria mais que tdas! Esta quse palpvel evidncia perturbava-o. J perdia a noo exacta do rumo que levava. Entrou no vestbulo do _Royal_, tomando-o por o _Palace Thtre_; e por ste passou desgarradamente, uma e duas vezes, antes de reconhec-lo. Pesava-lhe na alma essa obsidiante luta interior entre o apiedado alarme da sua conscincia e a farta repulso do seu desejo........ ........................................................................... NOTA FINAL Abel Botelho, o artista ilustre que s letras do seu pas legou tantas pginas de inspirao e de beleza, no teve tempo de concluir o romance _Amor Crioulo_, escrito longe da sua terra e da sua gente mas sempre com a imaginao e os olhos postos na Ptria distante. A morte colheu-o de sbito, paralisando para sempre a mo augusta que tam activamente lidou e a lcida inteligncia que nunca se fatigou de combater, durante meio sculo de esfro permanente e fecundo, para atingir um ideal de perfeio suprema. Analista subtil do corao humano, psiclogo, moralista pelo castigo spero do sarcasmo, Abel Botelho desceu a profundidades poucas vezes exploradas antes dle, tentando imprimir uma utilidade social sua arte. A vasta obra que nos deixou e em que a sua alta personalidade se perpetuar, tem de ser tomada como uma lio, mesmo nos seus aspectos de mais cru realismo e na sua mais cruel expresso--que fazem dela um flagrante documento da poca e do meio em que foi elaborada. Vista em conjunto--que como deve ser julgada pelos espritos imparciais--h-de necessriamente reconhecer-se-lhe um mrito esttico e moral. Os derradeiros captulos que comps, com tanta ternura e tanto relvo artstico, foram estes do _Amor Crioulo_, que os seus Editores hoje lanam aos alaridos da publicidade para que nada se perca de tudo quanto o romancista excelso produziu. O livro ficou incompleto. Todas as pacientes buscas encetadas, para se encontrar a parte final, em Lisboa, onde Abel Botelho tinha a sua casa, e em Buenos-Ayres, onde le era o representante diplomtico do Governo da Rpblica Portuguesa, foram infrutferas. A doena inesperada interrompra, certamente, o trabalho do escritor insigne, que a morte no tardaria a eliminar da comdia da existncia. A aco do romance estava em pleno desenvolvimento quando o brao do seu autor cau desfalecido. Adivinha-se, no entanto, o desfecho do _Amor Crioulo_ pela leitura dos coloridos, nervosos e movimentados episdios em que a sua tessitura se desenha vigorosamente e o conflito sentimental se estabelece. Publicando-o tal como lhes foi entregue, os Editores contribuem com novos e valiosos subsdios para o estudo e para a crtica da individualidade de Abel Botelho que, na moderna literatura nacional, se afirmou com nobre superioridade. A Escola realista entre ns poucas figuras mais elevadas possue. Abel Botelho era um pintor por vastas massas, dispondo duma paleta muito rica, um minucioso observador da vida que sua volta desenrolava maravilhosos scenrios e que le reproduzia com surpreendente fidelidade e um justo conhecimento dos tons e dos valores. Foi, em todo o caso, lamentvel que no terminasse ste volume pstumo--porventura aquele em que ps mais devotado carinho, mais emoo, mais orgulho de raa, e que, mesmo fragmentado, o denuncia como uma entidade representativa. Nem ao menos pde corrigir as provas em que os escritores da sua rara estrpe do sempre os ltimos retoques de graa, de harmonia, de equilbrio e de luz. A elevada honra dessa tarefa foi-me confiada a mim, procurando eu desempenh-la o melhor que me foi possvel e suprindo pela vontade de acertar o que me falta em competncia. Qualquer rro que no texto aparea ter, portanto, de me ser imputado, e no ao escritor modelar que tanto dignificou a sua nacionalidade nos luminosos domnios do pensamento e da arte. Prto, 28 de julho de 1919. Joo Grave. *Lista de erros corrigidos* Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: +----------+------------------------+-------------------------+ | | Original | Correco | +----------+------------------------+-------------------------+ |#pg. 9| sna | sua | |#pg. 43| _Commitee_ | _Committee_ | |#pg. 118| familiaridadecativante | familiaridade cativante | |#pg. 118| eru dio | erudio | |#pg. 124| tropelada | atropelada | |#pg. 214| cortornos | contornos | |#pg. 249| est | ste | |#pg. 253| prprior | prprio | |#pg. 337| Silvera | Silveira | |#pg. 377| sbre | sbre | +----------+------------------------+-------------------------+ A pontuao em alguns casos foi substituda (pontos por vrgulas e dois pontos por ponto&vgula, e vice-versa), conforme se verificava errada a sua utilizao. End of the Project Gutenberg EBook of Amor Crioulo, by Abel Botelho *** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AMOR CRIOULO *** ***** This file should be named 24919-8.txt or 24919-8.zip ***** This and all associated files of various formats will be found in: http://www.gutenberg.org/2/4/9/1/24919/ Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net Updated editions will replace the previous one--the old editions will be renamed. Creating the works from public domain print editions means that no one owns a United States copyright in these works, so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United States without permission and without paying copyright royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. 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The Project Gutenberg EBook of Lucy Maud Montgomery Short Stories, 1905 to1906, by Lucy Maud MontgomeryThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it
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The Project Gutenberg EBook of A Middy of the King, by Harry CollingwoodThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project G
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The Project Gutenberg eBook, Rene Mauperin, by Edmond de Goncourt andJules de Goncourt, et al, Translated by Alys HallardThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it
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The Project Gutenberg EBook of The Three Commanders, by W.H.G. KingstonThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gu
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The Project Gutenberg EBook of History of the Eighty-sixth Regiment,Illinois Volunteer Infantry, during its term of service, by John R. KinnearThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You
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The Project Gutenberg EBook of The Story of General Gordon, by Jeanie LangThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project
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The Project Gutenberg EBook of Zuo Zhuan, by Chiou-Ming ZuoThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gutenberg Lice
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The Project Gutenberg EBook of Danger! A True History of a Great City'sWiles and Temptations, by William Howe and Abraham HummelThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, g
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The Project Gutenberg EBook of Danger! A True History of a Great City'sWiles and Temptations, by William Howe and Abraham HummelThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, g
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The Project Gutenberg EBook of Mamma's Stories about Birds, byAnonymous (AKA the author of "Chickseed without Chickweed")This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it
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The Project Gutenberg EBook of Vigorish, by Gordon Randall GarrettThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gutenbe
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Project Gutenberg's The Annual Catalogue: Numb. II. (1738), by VariousThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gut
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Project Gutenberg's Chambers's Edinburgh Journal, No. 441, by VariousThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gute
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The Project Gutenberg eBook, Seven Little People and their Friends, byHorace Elisha ScudderThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the t
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Project Gutenberg's The Kingdom of Heaven; What is it?, by Edward BurbidgeThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project
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The Project Gutenberg EBook of Trait des Arnes, by L.-M.-G De CrassierThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gut
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The Project Gutenberg EBook of La Nigra Galero, by Wilhelm RaabeThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gutenberg
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The Project Gutenberg eBook, The Story of a Robin, by Agnes S. UnderwoodThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project
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Project Gutenberg's The Tale of Master Meadow Mouse, by Arthur Scott BaileyThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Projec
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The Project Gutenberg eBook, Fairy Tales from Brazil, by Elsie SpicerEells, Illustrated by Helen M. BartonThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use
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The Project Gutenberg EBook of The Story of Wool, by Sara Ware BassettThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gut
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The Project Gutenberg EBook of The RamayanaThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost norestrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it underthe terms of the Project Gutenberg License included wi
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The Project Gutenberg EBook of Lady Bountiful, by George A. BirminghamThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gut
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The Project Gutenberg EBook of Letters of Lt.-Col. George Brenton Laurie, by George Brenton LaurieThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under
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The Project Gutenberg EBook of The Ebbing Of The Tide, by Louis BeckeThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gute
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The Project Gutenberg EBook of Working With the Working Woman, by Cornelia Stratton ParkerThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the ter
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The Project Gutenberg EBook of Working With the Working Woman, byCornelia Stratton ParkerThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the term
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The Project Gutenberg EBook of Rosmersholm, by Henrik IbsenThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gutenberg Lice
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The Project Gutenberg EBook of General John Regan, by George A. BirminghamThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project
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Project Gutenberg's Short Sketches from Oldest America, by John DriggsThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gut
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The Project Gutenberg EBook of Curious, if True, by Elizabeth GaskellThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gute
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The Project Gutenberg EBook of The Motor Car Dumpy Book, by T. W. H. CroslandThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Proj
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The Project Gutenberg EBook of The Jingle Book, by Carolyn WellsThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gutenberg
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The Project Gutenberg EBook of Egocentric Orbit, by John CoryThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gutenberg Li
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The Project Gutenberg EBook of Memoirs of the Private Life, Return, andReign of Napoleon in 1815, Vol. II, by Pierre Antoine Edouard Fleury de ChaboulonThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoe
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Project Gutenberg's The Botanical Magazine Vol. 8, by William CurtisThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Guten
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The Project Gutenberg EBook of Vapaaviikolla, by Arvi KaristoThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gutenberg Li
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Project Gutenberg's Owen Clancy's Happy Trail;, by Burt L. Standish This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenber
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The Project Gutenberg eBook, Bradford's History of 'Plimoth Plantation',by William BradfordThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the t
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Project Gutenberg's The Better Germany in War Time, by Harold PictonThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Guten
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Project Gutenberg's Chambers's Edinburgh Journal, No. 460, by VariousThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use it under the terms of the Project Gute
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The Project Gutenberg eBook, The Eyes of the Woods, by Joseph A.Altsheler, Illustrated by D. C. HutchisonThis eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and withalmost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away orre-use
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