Meio Sol Amarelo - Chimamanda Ngozi Adichie.pdf - Sum\u00e1rio Capa Rosto Ep\u00edgrafe 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27

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O Patrão era meio tantã; havia passado anos demais lendo livros no exterior, falava sozinho no escritório, nem sempre respondia às saudações e tinha excesso de pêlo. A tia de Ugwu disse isso tudo em voz baixa, enquanto seguiam caminho. “Mas é um bom homem”, acrescentou. “E, desde que você trabalhe direito, vai comer bem. Vai comer carne todo dia, imagine só.” Ela parou para cuspir; a saliva saiu com um som sugado da boca e aterrissou no capim. Ugwu não acreditava que houvesse alguém, nem mesmo esse patrão com quem iria viver, que comesse carne todo dia. Não contradisse a tia, porém, porque estava emocionado demais com a perspectiva, ocupado demais imaginando sua nova vida fora do povoado. Tinham descido do caminhão já fazia algum tempo, no terminal de veículos públicos, e o sol começava a queimar sua nuca. Mas Ugwu não se importava. Estava disposto a andar muitas horas mais, debaixo de um sol mais quente ainda. Nunca tinha visto nada igual às ruas que surgiram depois que cruzaram os portões da universidade, ruas asfaltadas, tão lisas que a vontade dele era encostar o rosto nelas. Nunca seria capaz de descrever para a irmã Anulika as casas pintadas da cor do céu que ficavam uma ao lado da outra, feito homens educados e bem-vestidos, muito menos a perfeição com que as sebes entre uma e outra eram aparadas — tão retas no topo que mais pareciam mesas embrulhadas em folhas. A tia apertou o passo, e o som das sandálias fazendo chape-chape ecoou pela rua silenciosa. Ugwu se perguntou se, através das solas finas, ela também estaria sentindo o asfalto cada vez mais quente. Passaram por uma placa, ODIM STREET, e Ugwu repetiu a palavra street, como fazia sempre que via uma palavra em inglês que não fosse muito comprida. Sentiu um cheiro doce, inebriante, ao entrar no compound, e teve certeza de que vinha dos maços de flores brancas que desabrochavam nos arbustos. Haviam dado a forma de colinas esguias a essas moitas. A grama brilhava. As borboletas voavam em volta. “Eu disse ao Patrão que você aprende tudo muito rápido, osiso-osiso”, disse a tia. Ugwu meneou a cabeça, concordando educadamente, embora ela já lhe tivesse dito a mesma coisa várias outras vezes, quase com a mesma frequência com que lhe contava como acontecera aquele golpe de sorte. Quando varria o corredor no departamento de matemática, uma semana antes, escutara o Patrão dizer que precisava de um criado, e imediatamente se ofereceu para trazer o sobrinho, antes que a datilógrafa ou o mensageiro tivessem a oportunidade de oferecer o mesmo serviço. “Eu aprendo rápido, tia”, disse Ugwu. Estava admirando o carro na garagem; uma tira de metal corria em volta dele todo, como se fosse um colar. “Não esqueça que, quando ele chamar, você sempre vai responder ‘Pois não, sah’.” “Pois não, sah!”, repetiu Ugwu. Estavam diante de uma porta de vidro. Ugwu segurou-se para não pôr a mão na parede de cimento — tinha vontade de ver se era muito diferente das paredes da casa da mãe, que ainda guardavam o contorno indistinto dos dedos que haviam amassado o barro. Por alguns instantes, desejou estar lá, de volta à cabana dela, sob o frescor escuro do sapê; ou então na casa da tia, a única do povoado com um telhado de zinco. A tia bateu no vidro. Ugwu podia ver cortinas brancas por trás da porta. Uma voz disse, em inglês: “Sim? Entre”. Eles tiraram as sandálias antes de entrar. Ugwu nunca tinha visto um aposento tão grande. Apesar dos sofás marrons dispostos em semicírculo, das mesas laterais entre eles, das estantes recheadas de livros e da mesa de centro, enfeitada por um vaso de flores vermelhas e brancas de plástico, ainda assim parecia haver espaço de sobra na sala. Sentado numa poltrona, o Patrão vestia camiseta e short. Não estava ereto na poltrona, e sim meio deitado, com um livro sobre o rosto, como se já tivesse esquecido que acabara de convidálos a entrar. “Boa tarde, sah! Aqui está o menino”, disse a tia de Ugwu. O Patrão ergueu os olhos. Tinha a pele bem preta, feito casca velha de árvore, e os pêlos que cobriam seu peito e pernas eram lustrosos e de um tom mais escuro ainda. Ele tirou os óculos. “O menino?” “O criado, sah.” “Ah, claro, você trouxe o criado. I kpotago ya.” O ibo do Patrão parecia vaporoso aos ouvidos de Ugwu. Era um ibo tingido pelos sons escorregadios do inglês, o ibo de alguém que falava inglês com frequência. “Ele vai trabalhar duro”, disse a tia. “Ele é um menino muito bom. É só dizer para ele o que deve fazer. Muito obrigada, sah!” O Patrão grunhiu uma resposta, olhando Ugwu e a tia com uma expressão ligeiramente distraída, como se a presença deles dificultasse a lembrança de algo importante. A tia de Ugwu deu um tapinha no ombro do sobrinho, cochichou que daria tudo certo e virou-se em direção à porta. Depois que ela saiu, o Patrão repôs os óculos e concentrou-se no livro, relaxando ainda mais na poltrona, as pernas estiradas. Mesmo quando virava a página, não tirava os olhos do que estava lendo. Ugwu ficou ali na porta, esperando. A luz do sol entrava pelas janelas da sala e, de vez em quando, uma brisa suave agitava as cortinas. Estava tudo silencioso, a não ser pelo farfalhar das páginas sendo viradas. Ele continuou ali um tempo, depois foi se aproximando cada vez mais da estante de livros, como se quisesse se esconder dentro dela, e, após alguns minutos, arriou no chão, agarrado a sua sacola de ráfia entre os joelhos. Olhou para o teto, tão alto, tão penetrantemente branco. Fechou os olhos e tentou refazer aquela sala espaçosa, com sua mobília desconhecida, mas não conseguiu. Abriu de novo os olhos, dominado por um novo espanto, e olhou em volta, para saber se era tudo verdade. Pensar que iria se sentar nesses sofás, que iria encerar o assoalho liso-escorregadio, que iria lavar essas cortinas vaporosas. “Kedu afa gi? Como é que você chama?”, perguntou o Patrão, dando-lhe um susto. Ugwu se levantou. “Como você se chama mesmo?”, perguntou de novo, endireitando o corpo na poltrona, com sua vasta cabeleira grossa e farta, seus braços musculosos, seus ombros largos; Ugwu tinha imaginado um homem mais velho, alguém frágil, e agora sentia um súbito receio de que talvez não caísse no agrado desse patrão que parecia tão jovem e tão capaz, que não parecia precisar de nada. “Ugwu, sah.” “Ugwu. E você é de Obukpa?” “De Opi, sah.” “Você pode ter de doze a trinta anos.” O Patrão franziu a vista. “Provavelmente treze.” Ele disse thirteen em inglês. “Pois não, sah.” O Patrão voltou para o livro. Ugwu ficou parado. O Patrão virou algumas páginas, antes de erguer a vista de novo. “Ngwa, vá para a cozinha; deve haver alguma coisa para você comer na geladeira.” “Pois não, sah.” Ugwu entrou na cozinha com toda a cautela, pondo um pé atrás do outro lentamente. Quando viu a coisa branca, quase tão alta quanto ele, entendeu que era a geladeira. A tia já tinha lhe contado a respeito. Uma despensa gelada, explicara ela, que evitava que a comida estragasse. Abriu e, boquiaberto, sentiu o ar frio correndo pelo rosto. Laranjas, pão, cerveja, refrigerantes: várias coisas em pacotes e latas tinham sido postas em diferentes prateleiras e, na de cima, havia um luzente frango assado inteirinho, fora uma perna já comida. Ugwu esticou a mão e tocou no frango. A geladeira respirava pesado em suas orelhas. Tocou no frango de novo e lambeu o dedo, antes de arrancar a outra perna, que comeu até não sobrar quase nada na mão, a não ser uns fragmentos do osso. Em seguida, pegou um pedaço de pão, um naco que dividiria satisfeito com os irmãos, se por acaso algum parente viesse visitá-lo trazendo o pão como presente. Comeu bem rápido, antes que o Patrão pudesse aparecer e mudar de idéia. Tinha terminado e estava em frente à pia, tentando lembrar o que a tia dissera sobre abrir a torneira para ter um jato de água jorrando como se fosse uma fonte, quando o Patrão entrou. Estava de camisa estampada e calça comprida. Os dedos do pé, à mostra na ponta da sandália de couro, pareciam femininos, talvez por estarem tão limpos; pertenciam a pés que andavam sempre calçados. “O que foi?”, perguntou o Patrão. “Sah?” Ugwu fez um gesto para a pia. O Patrão aproximou-se e girou a torneira de metal. “Dê uma espiada na casa e ponha sua sacola no primeiro quarto do corredor. Vou dar uma volta para espairecer a cabeça, i nugo?” “Pois não, sah.” Ugwu o viu sair pela porta traseira. Não era um homem alto. Tinha um andar rápido, vigoroso, e lembrava Ezeagu, que detinha o título de campeão de luta livre no povoado de Ugwu. Ugwu fechou a torneira, abriu de novo, depois fechou outra vez. Abriu e fechou, abriu e fechou, até que começou a rir com a mágica da água correndo e do frango e pão reconfortantes na barriga. Passou pela sala e entrou num corredor. Havia livros amontoados nas prateleiras e mesas dos três aposentos, na pia e nos armários do banheiro, empilhados do chão ao teto no escritório e, na despensa, eram pilhas e pilhas de jornais antigos ao lado de caixas de Coca e de cerveja Premier. Alguns livros estavam abertos, com o dorso para cima, como se o Patrão, sem ter terminado de ler um, tivesse passado rapidamente para outro. Ugwu tentou ler os títulos, mas eram quase todos muito longos, muito difíceis. “Métodos não paramétricos.” “Uma pesquisa sobre a África.” “A grande corrente do ser.” “O impacto normando sobre a Inglaterra.” Ele foi na ponta dos pés de aposento em aposento, afinal estava com os pés sujos, e, enquanto fazia sua visita de reconhecimento, ficava cada vez mais decidido a agradar o Patrão e a permanecer nesta casa onde havia carne e chão fresco. Estava inspecionando a toalete, passando a mão por cima do assento preto de plástico, quando escutou a voz do Patrão. “Cadê você, meu bom homem?” Ele disse my good man* em inglês. Ugwu foi voando até a sala. “Aqui, sah!” “Como é que você se chama mesmo?” “Ugwu, sah.” “Isso, Ugwu. Olha aqui, nee anya, você sabe o que é isto?” O Patrão apontou e Ugwu olhou para uma caixa de metal crivada de botões de aspecto perigoso. “Não, sah”, disse ele. “É um toca-discos. É novo e muito bom. Não é como aqueles velhos gramofones que a gente tinha que ficar dando corda o tempo todo. E você precisa tomar o maior cuidado quando passar por ele, muito cuidado mesmo. E não pode deixar água entrar dentro dele.” “Pois não, sah.” “Vou sair para jogar tênis e depois vou dar uma passada no clube dos professores e funcionários.” O Patrão apanhou alguns livros da mesa. “Talvez volte tarde. De modo que se acomode e descanse.” “Pois não, sah.” Depois de ver o Patrão sair com o carro, Ugwu foi até o toca-discos para olhá-lo com mais cuidado, mas sem mexer em nada. Em seguida deu voltas pela casa de um lado a outro, passando a mão em livros, cortinas, móveis e pratos, e, quando escureceu, acendeu a luz e se maravilhou com o brilho da lâmpada pendurada no teto, com o fato de ela não lançar longas sombras na parede, como acontecia com as lamparinas a óleo de palmiste de sua casa. A mãe estaria preparando o jantar, socando akpu, o pilão agarrado nas duas mãos. Chioke, a esposa mais nova, estaria cuidando do caldeirão de sopa aguada, equilibrado em três pedras sobre o fogo. As crianças teriam voltado do riacho e estariam correndo umas atrás das outras, gritando, debaixo da árvore de fruta-pão. Talvez Anulika estivesse de olho nelas. Tinha se tornado a mais velha da família, agora, e, quando todos se sentassem em volta do fogo, para comer, caberia a ela interromper as brigas dos mais novos, que às vezes lutavam para ver quem ia ficar com as tiras de peixe seco da sopa. Esperaria até todo o akpu ser comido, e só então dividiria o peixe, de tal forma que cada criança ficasse com um pedaço e ela com o maior de todos, como Ugwu sempre fizera. Ele abriu a geladeira e comeu um pouco mais de pão e de frango assado, enchendo rapidamente a boca de comida, enquanto o coração batia como se estivesse participando de uma corrida; depois arrancou alguns nacos extras de carne e as asas. Enfiou os pedaços nos bolsos do short, antes de ir para o quarto. Guardaria aquilo tudo até a tia vir visitá-lo, e pediria a ela que entregasse para Anulika. Talvez pudesse pedir para ela dar um pouco para Nnesinachi também. Assim quem sabe ela finalmente reparasse nele. Nunca soubera com precisão que parentesco havia entre Nnesinachi e ele, mas sabia que eram ambos da mesma umunna e que, portanto, jamais poderiam se casar. No entanto, bem que gostaria que a mãe parasse de se referir a Nnesinachi como irmã, dizendo coisas como: “Por favor, leve esse óleo de palmiste para Mama Nnesinachi, e, se ela não estiver, deixe com sua irmã”. Nnesinachi sempre falava com ele numa voz vaga, o olhar desfocado, como se sua presença não fizesse a menor diferença, de um jeito ou de outro. As vezes ela o chamava de Chiejina, o nome de um primo que não parecia nem um pouco com ele, e quando ele dizia “Sou eu”, ela respondia “Perdão, Ugwu, meu irmão”, com uma formalidade distante que significava que não queria conversa com ele. Mas Ugwu gostava de ir até a casa dela, qualquer que fosse o pretexto. Eram oportunidades de vê-la debruçada, abanando o fogo ou picando folhas de ugu para a sopa que a mãe iria fazer, ou então apenas sentada na porta de casa, olhando os irmãos, os panos enrolados com displicência no corpo, mostrando a parte de cima dos seios. Desde o momento em que aqueles dois seios pontudos começaram a surgir ele se perguntava se seriam moles feito polpa ou duros feito a fruta verde da ube. Muitas vezes desejou que Anulika não fosse tão magricela — perguntava-se por que a irmã estaria demorando tanto, uma vez que ela e Nnesinachi tinham quase a mesma idade —, para poder sentir seus peitos. Anulika sem dúvida nenhuma lhe daria um tapa na mão, e quem sabe até lhe desse uma bofetada, mas ele seria bem rápido — era apertar e correr —, e dessa maneira teria ao menos uma idéia e saberia o que esperar quando finalmente tocasse nos seios de Nnesinachi. No entanto, às vezes se preocupava com a possibilidade de nunca vir a tocá-los, sobretudo agora que o tio dela ia levá-la para Kano, para aprender um ofício. Nnesinachi iria para o Norte lá pelo final do ano, quando o irmão caçula que ela carregava no colo já estivesse andando. Ugwu queria se sentir tão contente e agradecido como o resto de sua família. Afinal, no Norte se ganhava um dinheirão; conhecia gente que tinha ido para lá negociar e que, ao voltar, punha abaixo o barraco e construía casa com telhado de zinco. Temia, no entanto, que um desses comerciantes barrigudos lá do Norte desse uma única olhada nela e pronto — com certeza o barrigudo iria aparecer trazendo vinho de palma para o pai dela, e ele, Ugwu, nunca mais tocaria naqueles seios. Eles — os seios de Nnesinachi — eram as imagens que ele guardava para lembrar por último, nas muitas noites em que se masturbava, primeiro devagar e, depois, vigorosamente, até que um gemido abafado lhe escapava da garganta. Sempre começava com o rosto dela, com as bochechas redondas e os dentes cor de marfim, depois imaginava os dois abraçados, o corpo dela moldado ao seu. Por fim, deixava que os seios fossem surgindo; às vezes eram duros e se sentia tentado a mordê-los, e, em outras, eram tão macios que tinha medo que seus toques imaginários pudessem lhe causar dor. Por alguns instantes, lhe ocorreu que podia pensar nela. Mas decidiu que não. Não em sua primeira noite na casa do Patrão, numa cama que não tinha nada a ver com sua esteira de ráfia tecida à mão. Primeiro, pressionou as mãos na maciez elástica do colchão. Depois examinou as camadas de pano por cima dele, sem saber ao certo se devia dormir em cima ou se deveria tirar aquilo tudo e guardar, antes de dormir. Por fim, subiu na cama e deitouse por cima das camadas de pano, o corpo enroscado num nó apertado. Sonhou que o Patrão o chamava — Cadê você, meu bom homem! — e, ao acordar, o Patrão estava parado na porta, olhando para ele. Talvez não tivesse sido um sonho. Saiu da cama e olhou para as janelas com as cortinas fechadas, confuso. Seria tarde? Aquela cama macia o teria enganado e feito com que dormisse mais do que o necessário? Em geral acordava com os primeiros cantos do galo. “Bom dia, sah!” “Estou sentindo um cheiro forte de frango assado, por aqui.” “Desculpe, sah.” “Cadê o frango?” Ugwu remexeu nos bolsos do short e tirou os pedaços de frango. “O seu povo por acaso come enquanto dorme?”, perguntou o Patrão. Estava usando algo que parecia um casaco de mulher e distraidamente girava o cordão amarrado na cintura. “Sah?” “Você queria comer o frango deitado na cama?” “Não, sah.” “A comida tem que ficar na sala de jantar e na cozinha.” “Pois não, sah.” “E a cozinha e o banheiro têm que ser limpos, hoje.” “Pois não, sah.” O Patrão virou-se e foi embora. Ugwu ficou trêmulo, no meio do quarto, ainda segurando os pedaços de frango com a mão estendida. Bem que gostaria de não ter de passar pela sala de jantar para chegar à cozinha. Por fim, guardou os pedaços de frango de volta nos bolsos, respirou fundo e saiu do quarto. O Patrão estava na mesa de jantar, a xícara de chá colocada sobre uma pilha de livros. “Você sabe quem na verdade matou Lumumba?”, disse o Patrão, erguendo os olhos de uma revista. “Foram os americanos e os belgas. Não teve nada a ver com Katanga.” “Pois não, sah”, disse Ugwu. Queria que o Patrão continuasse falando, para poder escutar sua voz sonora, a mistura musical de palavras inglesas nas frases que dizia em ibo. “Você é meu criado. Se eu lhe der ordem para sair na rua e surrar uma mulher que passa, apoiada num cajado, e você então a fere na perna, quem é responsável pela ferida sangrenta, você ou eu?” Ugwu fitava o Patrão, sacudindo a cabeça, se perguntando se por acaso ele estava se referindo por linhas tortas ao frango assado. “Lumumba era primeiro-ministro do Congo. Você sabe onde fica o Congo?”, perguntou o Patrão. “Não, sah.” Ele se levantou na hora e foi até o escritório. O receio confuso de Ugwu fez com que suas pálpebras tremessem. Será que o Patrão iria mandá-lo embora porque não falava inglês direito, guardava frango assado no bolso durante a noite, e não conhecia os lugares estranhos que ele mencionava? O Patrão voltou com uma folha grande de papel que desdobrou e pôs sobre a mesa de jantar, empurrando para um lado os livros e as revistas. Apontou com a caneta. “Este aqui é o mundo, se bem que as pessoas que desenharam o mapa resolveram pôr a terra deles em cima e a nossa, embaixo. Mas não existe um em cima e um embaixo, entende?” Ele pegou o papel e dobrou-o de tal forma que uma ponta tocava na outra, deixando um oco entre as metades. “Nosso mundo é redondo, e nunca termina. Nee anya, isto aqui é tudo água, os mares e oceanos, aqui é a Europa e, aqui, o nosso continente, a África, e o Congo fica no meio. Um pouco mais para cima é a Nigéria, e Nsukka é aqui, no Sudeste; é aqui que nós estamos.” Deu uma batida com a caneta no mapa. “Pois não, sah.” “Você frequentou a escola?” “Até o segundo ano, sah. Mas eu aprendo tudo muito rápido.” “Segundo ano? Isso faz quanto tempo?” “Já faz muito tempo, sah. Mas eu aprendo tudo muito rápido.” “Por que você parou de ir à escola?” “A colheita do meu pai não vingou, sah.” O Patrão acenou lentamente c...
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