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Unformatted text preview: DADOS DE COPYRIGHT Sobre a obra: A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo Sobre nós: O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.site ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link. "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível." Título original: La Force des choses Copyright © Éditions Gallimard 1963 Direitos de edição da obra em língua portuguesa no Brasil adquiridos pela Editora Nova Fronteira S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada em sistema de banco de dados ou processo similar, em qualquer forma ou meio, seja eletrônico, de fotocópia, gravação etc., sem a permissão do detentor do copirraite. 2ª edição Editora Nova Fronteira S.A. Rua Bambina, 25 – Botafogo – 22251-050 Rio de Janeiro – RJ – Brasil Tel.: (21) 2131-1111 – Fax: (21) 2286-6755 e-mail: [email protected] Tradução do texto da p. 5 de Alcida Brant Texto revisto pelo novo Acordo Ortográfico CIP-Brasil. Catalogação na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ B352f Beauvoir, Simone de, 1908-1986 A força das coisas / Simone de Beauvoir ; tradução Maria Helena Franco Martins. — 2.ed. - Rio de Janeiro Nova Fronteira, 2009. Tradução de: La Force des choses ISBN 978-85-209-3660-3 1. Beauvoir, Simone de, 1908-1986. 2. Escritores franceses - Biografia. I. Martins, Maria Helena Franco. II. Título. CDD 848 CDU 821.133.1-94 Sumário Capa Folha de Rosto Ficha catalográfica Primeira parte Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V Interlúdio Segunda parte Capítulo VI Capítulo VII Capítulo VIII Capítulo IX Capítulo X Capítulo XI Epílogo Créditos Notas Simone de Beauvoir, em suas memórias, nos dá a conhecer sua vida e sua obra. Quatro volumes foram publicados entre 1958 e 1972: Memórias de uma moça bemcomportada, A força da idade, A força das coisas e Balanço final. A estes, se uniu a narrativa Uma morte muito suave, de 1964. A amplitude desse empreendimento autobiográfico encontra sua justificativa numa contradição essencial ao escritor: a impossibilidade de escolher entre a alegria de viver e a necessidade de escrever; de um lado, o esplendor do contingente, do outro, o rigor salvador. Fazer da própria existência o objeto de sua obra era, em parte, solucionar esse dilema. Simone de Beauvoir nasceu em Paris, a 9 de janeiro de 1908. Até terminar a educação básica, estudou no Curso Désir, de rigorosa orientação católica. Tendo conseguido o certificado de professora de filosofia em 1929, deu aulas em Marseille, Rouen e Paris até 1943. Quando o espiritual domina, finalizado bem antes da Segunda Guerra Mundial, só veio a ser publicado em 1979. A convidada, de 1943, deve ser considerado sua estreia literária. Seguiram-se então O sangue dos outros, de 1945, Todos os homens são mortais, de 1946, Os mandarins — romance que lhe valeu o Prêmio Goncourt em 1954 —, As belas imagens, de 1966, e A mulher desiludida, de 1968. Além do famoso O segundo sexo, publicado em 1949 e desde então obra de referência do movimento feminista mundial, a obra teórica de Simone de Beauvoir compreende numerosos ensaios filosóficos, e por vezes polêmicos, entre os quais se destaca A velhice, de 1970. Escreveu também para o teatro e relatou algumas de suas viagens ao exterior em dois livros. Depois da morte de Sartre, Simone de Beauvoir publicou A cerimônia do adeus, em 1981, e Cartas a Castor, em 1983, o qual reúne uma parte da abundante correspondência que ele lhe enviou. Até o dia de sua morte, 14 de abril de 1986, colaborou ativamente para a revista fundada por ambos, Les Temps Modernes, e manifestou, de diferentes e incontáveis maneiras, sua solidariedade total ao feminismo. Eu disse por que, depois de Memórias de uma moça bem-comportada, decidi prosseguir com minha autobiografia. Parei, exausta, quando cheguei à liberação de Paris; precisava saber se meu projeto interessava. Pareceu-me que sim; entretanto, antes de retomá-la, hesitei de novo. Amigos e leitores me instigavam: “E então? E depois? Como vão os trabalhos? Em que pé está agora? Termine. Você nos deve a continuação…” Mas, tanto dos outros como de mim mesma, não faltaram objeções: “É cedo demais, você ainda não tem uma obra suficientemente rica…” Ou então: “Espere poder dizer tudo: lacunas, silêncios, são coisas que desvirtuam a verdade.” E também: “Falta-lhe distanciamento.” E ainda: “Afinal, você se revela mais nos seus romances.” Nada disso é falso: mas não tenho escolha. A indiferença, serena ou aflita, da velhice não me permitiria mais apreender o que desejo captar: aquele momento em que, na orla de um passado ainda ardente, começa o declínio. Desejei que meu sangue circulasse nessa narrativa; desejei lançar-me nela, viva ainda, e me pôr em questão, antes que todas as questões estivessem extintas. Talvez seja ainda muito cedo; mas amanhã certamente será tarde demais. “Conhecemos sua história”, disseram-me também, “pois a partir de 1944 ela se tornou pública”. Mas essa publicidade não passou de uma dimensão da minha vida privada e, já que um dos meus objetivos é dissipar mal-entendidos, parece-me útil contála em sua verdade. Mais envolvida do que antes nos acontecimentos políticos, falarei mais deles; nem por isso minha narrativa será mais impessoal; se a política é a arte de “prever o presente”, não sendo especialista, é de um presente imprevisto que darei um depoimento: a maneira como a história se apresentou a mim no dia a dia é uma aventura tão singular quanto a minha evolução subjetiva. No período do qual vou falar, tratava-se mais da minha realização do que da minha formação. Rostos, livros, filmes, encontros que tive, importantes no seu conjunto, quase nenhum me foi essencial; quando os evoco, são muitas vezes os caprichos da minha memória que dirigem minha escolha, não implica necessariamente um julgamento de valor. Por outro lado, não irei me demorar nas experiências que descrevi alhures — minhas viagens aos EUA, à China —, mas relatarei detalhadamente minha visita ao Brasil. Certamente, com isso, este livro acabará ficando desequilibrado: tanto pior. De qualquer modo, não pretendo que ele seja — não mais que o precedente — uma obra de arte: essa palavra me faz pensar em uma estátua que se entedia no jardim de uma mansão; é um termo de colecionador, de consumidor, e não de criador. Nunca pensaria em dizer que Rabelais, Montaigne, Saint-Simon ou Rousseau realizaram obras de arte, e pouco me importa que recusem esse rótulo às minhas memórias. Não, não uma obra de arte, mas minha vida em seus impulsos, suas aflições, seus sobressaltos, minha vida que tenta dizer-se, e não servir de pretexto a ademanes. Mais uma vez, cortarei o mínimo possível. Espanta-me sempre que se reprove um memorialista por se estender; se ele me interessa, irei segui-lo por volumes; se me aborrece, dez páginas já são demais. A cor de um céu, o gosto de uma fruta, não os sublinho por complacência para comigo mesma; ao contar a vida de outra pessoa, eu anotaria com a mesma abundância, se os conhecesse, aqueles detalhes que se dizem triviais. Não só é por meio deles que sentimos uma época e uma pessoa em carne e osso, mas, por sua não significância, eles são, numa história verídica, a própria marca de verdade; nada indicam além deles próprios, e a única razão de evidenciá-los é o fato de estarem ali: isso basta. Apesar das minhas reservas, que valem também para este último volume — impossível dizer tudo —, críticos acusaram-me de indiscrição; não fui eu que comecei: prefiro esquadrinhar eu mesma meu passado a deixar que outros o façam. Em geral, reconheceram em mim uma qualidade à qual eu tinha me apegado: uma sinceridade tão distante da presunção quanto do masoquismo. Espero tê-la conservado. Exercito-a há mais de trinta anos em minhas conversas com Sartre, me investigando no dia a dia, sem vergonha nem vaidade, como investigo as coisas que me cercam. Essa qualidade me é natural, não por uma graça singular, mas por causa da maneira como encaro as pessoas, inclusive a mim mesma. Acredito na nossa liberdade, na nossa responsabilidade, mas, qualquer que seja a sua importância, essa dimensão da nossa existência escapa a qualquer descrição; o que se pode alcançar é apenas o nosso condicionamento; apareço aos meus próprios olhos como um objeto, um resultado, sem que intervenham nessa apreensão as noções de mérito ou de erro; se, por acaso, com a ajuda do distanciamento, um ato me parece mais ou menos feliz ou lamentável, para mim é muito mais importante, em todo caso, compreendê-lo do que apreciá-lo; tenho mais prazer em me descobrir do que em me lisonjear, pois meu gosto pela verdade ganha, de longe, da preocupação que tenho com a minha pessoa: esse mesmo gosto explica-se pela minha história, e não me vanglorio. Em suma, pelo fato de que não faço qualquer julgamento sobre mim, não sinto nenhuma resistência em revelar minha vida e eu mesma; pelo menos à medida que me situo no meu próprio universo: talvez minha imagem projetada num mundo diverso — o dos psicanalistas, por exemplo — pudesse desconcertar-me ou constranger-me. Mas, se sou eu que me retrato, nada me amedronta. Evidentemente, é preciso entender o que significa minha imparcialidade. Um comunista ou um gaullista contariam de outro modo esses anos; e também um operário, um camponês, um coronel, um músico. Mas minhas opiniões, convicções, perspectivas, interesses, compromissos estão declarados: fazem parte do testemunho que dou a partir deles. Sou objetiva, é claro, à medida que minha objetividade me envolve. Como o anterior, este livro solicita a colaboração do leitor: apresento, em ordem, cada momento da minha evolução, e é preciso ter a paciência de não fechar a conta antes do fim. Não se tem o direito, por exemplo — como fez um crítico — de concluir que Sartre gosta de Guido Reni porque o admirou aos dezenove anos. Na verdade, só a malevolência dita esses despropósitos e contra ela não pretendo precaver-me; ao contrário, este livro tem tudo o que é preciso para suscitá-la, e eu ficaria decepcionada se ele não desagradasse. Ficaria também decepcionada se não agradasse a ninguém, e é por isso que advirto que sua verdade não se exprime em nenhuma de suas páginas, mas somente na sua totalidade. Apontaram-me em A força da idade muitos erros de pouco significado, e dois ou três sérios; apesar de todos os meus cuidados, também neste livro certamente terei errado com frequência. Mas repito que nunca trapaceei deliberadamente. Capítulo I Estávamos livres. Nas ruas, as crianças cantavam: Não vamos mais revê-los Acabou, eles se ferraram. E eu repetia para mim mesma: acabou, acabou. Acabou: tudo está começando. Walberg, o amigo americano dos Leiris, nos levou para passear de jipe no subúrbio: era a primeira vez, em anos, que eu andava de carro. De novo, vaguei depois da meia-noite na suavidade de setembro; os bistrôs fechavam cedo, mas quando deixávamos o terraço da Rhumerie ou aquele pequeno inferno vermelho e esfumaçado, o Montana, tínhamos as calçadas, os bancos, as ruas. Ainda havia atiradores sobre os telhados, e eu me entristecia quando entrevia em cima da minha cabeça aquele ódio de tocaia; certa noite, ouviram-se as sirenes: um avião, cuja procedência nunca se soube, sobrevoava Paris; bombas V1 caíram sobre o subúrbio parisiense e esburacaram pavilhões. E Walberg, geralmente muito bem-informado, dizia que os alemães acabavam de aperfeiçoar temíveis armas secretas. O medo reencontrava em mim um lugar ainda muito quente. Mas a alegria o varria rápido. Dia e noite com nossos amigos, conversando, bebendo, vagando, rindo, festejávamos nossa libertação. E todos que a comemoravam, como nós, tornavamse nossos amigos, próximos ou distantes. Que orgia de fraternidade! As trevas em que a França fora envolvida se dissipavam. Soldados altos, de uniforme cáqui, que mascavam chicletes, provavam que se podia de novo atravessar os mares. Andavam com ar despreocupado e muitas vezes cambaleavam; cantavam e assobiavam cambaleando pelas calçadas e nas plataformas dos metrôs; cambaleando, dançavam à noite nos bares, e suas gargalhadas deixavam à mostra os dentes infantis. Genet, que não tivera nenhuma simpatia pelos alemães, mas que não gostava dos idílios, declarou ruidosamente no terraço da Rhumerie que faltava postura àqueles civis fantasiados: empertigados em suas carapaças verdes e negras, os soldados das forças de ocupação tinham outra cara! Para mim, era a própria liberdade que se encarnava na displicência dos jovens americanos: a nossa e aquela — não duvidávamos — que iam espalhar pelo mundo. Abatidos Hitler e Mussolini, expulsos Franco e Salazar, a Europa iria limpar-se definitivamente do fascismo. Pela carta do CNR,1 a França engajava-se no caminho do socialismo; pensávamos que o país fora abalado em profundidade suficiente para poder realizar, sem novas convulsões, um remanejamento radical de suas estruturas. O Combat exprimia nossas esperanças, ostentado como emblema: da Resistência à Revolução. Essa vitória apagava nossas antigas derrotas, era nossa, e o futuro que ela abria nos pertencia. As pessoas que estavam no poder eram resistentes que, mais ou menos diretamente, conhecíamos; entre os responsáveis pela imprensa e pelo rádio, contávamos numerosos amigos: a política se tornara coisa de família, e pretendíamos nos meter nela. “A política não está mais dissociada dos indivíduos”, escrevia Camus no Combat, no início de setembro. “Ela é a via direta do homem a outros homens.” Dirigir-nos aos homens era o nosso papel, o papel dos que escreviam. Poucos intelectuais, antes da guerra, haviam tentado compreender sua época; todos — ou quase — haviam fracassado, e aquele que estimávamos mais, Alain, fora desprezado: devíamos garantir o revezamento. Eu sabia agora que meu destino estava ligado ao de todos; a liberdade, a opressão, a felicidade e o sofrimento dos homens me diziam respeito intimamente. Mas eu disse que não tinha ambição filosófica; Sartre esboçara em O Ser e o Nada, e pretendia prosseguir, uma descrição totalizadora da existência, cujo valor dependia da sua própria situação; ele precisava estabelecer sua posição, não só através de especulações teóricas, mas também por opções práticas: assim, viu-se engajado na ação de um modo bem mais radical do que eu. Discutíamos sempre juntos suas atitudes, e, por vezes, eu o influenciei. Mas era através dele que os problemas se colocavam para mim, em sua urgência e em suas nuanças. Nesse âmbito, é dele que devo falar para falar de nós. Na juventude, nós nos sentíramos próximos do Partido Comunista (PC), à medida que o negativismo deste estava de acordo com o nosso anarquismo. Desejávamos a derrota do capitalismo, mas não o advento de uma sociedade socialista, que nos teria privado, pensávamos, da nossa liberdade. É nesse sentido que, no dia 14 de setembro de 1939, Sartre anotava no seu diário: “Eis-me curado do socialismo, se é que precisava curarme.” Em 1941, entretanto, tendo criado um grupo de resistência, ele associou, para batizá-lo, as duas palavras: socialismo e liberdade. A guerra havia operado nele uma decisiva conversão. Primeiro, ela lhe havia revelado sua historicidade; com o choque, ele compreendeu o quanto estivera apegado à ordem estabelecida, embora condenando-a. Em todo aventureiro há algo de conservador: para construir sua imagem, para projetar nos tempos futuros sua lenda, ele precisa de uma sociedade estável. Entregue até a medula à aventura de escrever, tendo cobiçado desde a infância ser um grande escritor e obter a glória imortal, Sartre apostava numa posteridade que retomaria a seu cargo, sem ruptura, a herança deste século; no fundo, ele permanecia fiel à “estética de oposição” dos seus vinte anos: obstinado em denunciar os defeitos dessa sociedade, não desejava subvertê-la. De repente, tudo se desmantelou; a eternidade fez-se em pedaços: ele se reencontrou, vagando à deriva, entre um passado de ilusões e um futuro de trevas. Defendeu-se com sua moral de autenticidade: do ponto de vista da liberdade, todas as situações podiam ser igualmente salvas, se fossem assumidas por meio de um projeto. Essa solução permanecia muito próxima do estoicismo, já que as circunstâncias muitas vezes não permitem outra superação além da submissão. Sartre, que detestava os ardis da vida interior, não podia comprazer-se durante muito tempo cobrindo sua passividade com protestos verbais. Compreendeu que, vivendo não no absoluto mas no transitório, devia renunciar a ser e decidir fazer. Essa passagem lhe foi facilitada por sua evolução anterior. Pensando, escrevendo, sua preocupação primordial era apreender significações; mas, depois de Heidegger, Saint-Exupéry, lido em 1940, convenceu-o de que as significações nasciam com os empreendimentos dos homens: a prática levava a melhor sobre a contemplação. Ele me dissera durante a drôle de guerre2 — tinha até escrito isso numa carta a Brice Parain — que, assim que a paz retornasse, faria política. Sua experiência de prisioneiro marcou-o profundamente: ensinou-lhe a solidariedade; longe de se sentir maltratado, participou com alegria da vida comunitária. Detestava os privilégios, e seu orgulho exigia que ele conquistasse com as próprias forças seu lugar na Terra: perdido na massa, um número entre outros, experimentou uma imensa satisfação em ser bem-sucedido em seus projetos partindo do zero. Ganhou amizades, impôs suas ideias, organizou ações, mobilizou o campo inteiro para montar e aplaudir, no Natal, a peça que escrevera contra os alemães, Bariona, ou o filho do trovão. Os rigores e o calor da camaradagem desfizeram as contradições de seu anti-humanismo: na verdade, ele se rebelava contra o humanismo burguês, que reverencia no homem uma natureza; mas, se o homem está para fazer, nenhuma tarefa podia apaixoná-lo mais. Daquele momento em diante, em vez de opor individualismo e coletividade, ele os concebeu apenas ligados um ao outro. Realizaria sua liberdade, não assumindo subjetivamente a situação dada, mas modificando-a objetivamente, com a edificação de um futuro de acordo com suas aspirações; esse futuro, em nome mesmo dos princípios democráticos aos quais ele estava ligado, era o socialismo, do qual só fora afastado pelo medo que tivera de se perder nele: agora, via nesse sistema, ao mesmo tempo, a única chance da humanidade e a condição da sua própria realização. O fracasso do movimento Socialismo e liberdade deu a Sartre uma lição de realismo; ele só foi fazer um trabalho sério mais tarde, no seio do FN, em colaboração com os comunistas. Em 1941, como eu disse,3 eles viravam a cara para os intelectuais pequenoburgueses, e faziam circular o boato de que Sartre comprara a liberdade propondo-se a servir de espião para os alemães. Em 1943, eles queriam a unidade de ação. Houve até um folheto, atribuído a comunistas e impresso no sul da França, no qual o nome de Sartre figurava numa lista negra, entre Châteubriant e Montherlant; ele o mostrou a Claude Morgan, que exclamou: “É lamentável!”, e deram o incidente por encerrado. As relações de Sartre com os resistentes comunistas foram perfeitamente amistosas. Quando os alemães partiram, ele pretendeu manter esse acordo. Os ideólogos de direita explicaram sua aliança com o PC a golpes de pseudopsicanálise; imputaram-lhe complexos de abandono ou de inferioridade, de ressentimento, de infantilismo, a nostalgia...
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  • Fall '19
  • Freud

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