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Unformatted text preview: Sagarana João Guimarães Rosa “Lá em cima daquela serra, passa boi, passa boiada, passa gente ruim e boa, passa a minha namorada.” (Quadra de desafio) “For a walk and back again”, said the fox. “Will you come with me? I’ll take you on my back. For a Walk and back again.” (Grey Fox, estória para meninos.) Sumário 3 Nota do Editor 4 Um chamado João - Carlos Drummond de Andrade 8 A arte de contar cm Sagarana - Paulo Rónai 12 Carta de João Guimarães Rosa a João Conde, revelando segredos de Sagarana 15 O burrinho pedrês 55 A volta do marido pródigo 86 Sarapalha 100 Duelo 120 Minha gente 152 São Marcos 170 Corpo fechado 189 Conversa de bois 211 A hora e vez de Augusto Matraga Nota do Editor Com o objetivo de trazer a público uma nova e bem-cuidada edição das obras de João Guimarães Rosa, trabalhamos neste relançamento com duas prioridades: atendendo a uma solicitação já antiga de nossos leitores, foi elaborado um novo projeto gráfico, mais moderno e mais arejado, para permitir uma leitura mais confortável do texto; ali disso — e principalmente —, procuramos também estabelecer um diálogo com antigas edições da obra de Guimarães Rosa, cuja originalidade do texto leva seus editores, algumas e já registradas vezes, a erros involuntários, sem que, infelizmente, contemos ainda com a bemhumorada acolhida desses erros pelo pr autor como afirmam alguns de seus críticos e amigos entre eles Paulo Rónai. Assim, a presente edição de Sagarana baseou-se no texto da 10ª edição publicada em junho de 1968, sendo feitas apenas as alterações de grafia decorrentes da reforma ortográfica instituída pela lei de 18 de dezembro de 1971, que aboliu o trema nos hiatos átonos, o acento circunflexo diferencial nas letras e e o da sílaba tônica de palavras homógrafas e o acento grave com que se assinala a sílaba subtônica em vocábulos derivados com o sufixo mente. Com esse critério e uma boa dose de bom senso, esperamos estar agora apresentando o resultado de um trabalho responsável e consistente, à altura do nome deste autor, por cuja presença em nossa casa nos sentimos imensamente orgulhosos. 2001. Um Chamado João João era fabulista? fabuloso? Fábula? Sertão místico disparando No exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha A quinta face das coisas Inenarrável narrada? Um estranho chamado João Para disfarçar, para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos, buritis plantados No apartamento? No peito? Vegetal ele era ou passarinho Sob a robusta ossatura com pinta De boi risonho? Era um teatro E todos os artistas No mesmo papel, Ciranda multívoca? João era tudo? Tudo escondido, florindo Como flor é flor, mesmo não semeada? Mapa com acidentes Deslizando para fora, falando? Guardava rios no bolso Cada qual em sua cor de água Sem misturar, sem conflitar? E de cada gota redigia Nome, curva, fim, E no destinado geral Seu fado era saber Para contar sem desnudar O que não deve ser desnudado E por isso se veste de véus novos? Mágico sem apetrechos, Civilmente mágico, apelador De precipites prodígios acudindo A chamado geral? Embaixador do reino Que há por trás dos reinos, Dos poderes, das Supostas fórmulas De abracadabra, sésamo? Reino cercado Não de muros, chaves, códigos, Mas o reino-reino? Por que João sorria Se lhe perguntavam Que mistério é esse? E propondo desenhos figurava Menos a resposta que Outra questão ao perguntante? Tinha parte com... (sei lá O nome) ou ele mesmo era A parte de gente Servindo de ponte Entre o sub e o sobre Que se arcabuzeiam De antes do princípio, Que se entrelaçam Para melhor guerra, Para maior festa? Ficamos sem saber o que era João E se João existiu Deve pegar. 21. XI. 1967 Carlos Drummond de Andrade Fac-símile do poema de Carlos Drummond de Andrade que foi publicado no Correio da Manhã de 22 de novembro de 1967, três dias após a morte de João Guimarães Rosa. A arte de contar em Sagarana Paulo Rónai Para muitos escritores fracos, o regionalismo uma espécie de tábua de salvação, pois têm a ilusão e com eles parte do público de que o armazenamento de costumes, tradições e superstições locais, o acúmulo de palavras, modismos e construções dialetais, a abundância da documentação folclórica e lingüística suprem as falhas da capacidade criadora. Pelo contrário, para os autores que trazem uma mensagem humana e o talento necessário para exprimi-Ia, o regionalismo envolve antes um obstáculo e uma limitação do que um recurso. A riqueza léxica, em particular, longe de constituir um atrativo a não ser para os estudiosos da língua - torna a obra menos acessível à maioria dos leitores. Quanto ao material folclórico, este significa uma perpétua ameaça de desviar a narração, tolher o enredo, quebrar o ritmo. Dir-se-ia que o escritor regionalista precisa de menos valor que os outros para se fazer tolerar, porém de maior originalidade para alcançar o êxito e a admiração. Em Sagarana, J. Guimarães Rosa afronta todos esses empeci lhos. Apresenta-se como o autor regionalista de uma obra cujo conteúdo universal e humano prende o leitor desde o primeiro momento, mais ainda que a novidade do tom ou o sabor do estilo, O leitor vindo de fora, por mais integrado que se sinta no ambiente brasileiro, não pode estar suficientemente familiariza do com o rico cabedal lingüístico e etnográfico do país para analisar o aspecto regionalista dessa obra; deve aproximar-se dela de um outro lado para penetrar-lhe a importância literária. A arte de contar, no antigo sentido da palavra, que evoca as poderosas narrativas do século passado e, mais longe ainda, as caudalosas torrentes da épica antiga, está se tornando rara. Apesar ou em razão do número enorme de narrativas breves que se publicam, encontram-se com freqüência cada vez menor novelas e contos que nos comuniquem um frêmito ou nos arranquem um grito de admiração. Os desesperados esforços de renovação que caracterizam o gênero de algum tempo para cá geram fórmulas mais de uma vez surpreendentes e inéditas, mas dificilmente despertam emoções profundas. As nove peças que formam o volume Sagarana continuam a grande tradição da arte de narrar. O gênero peculiar do autor é, aliás, a novela, e não o conto. A maioria das narrativas reunidas no livro são novelas, menos por sua extensão relativamente grande do que pela existência, em cada uma delas, de vários episódios ou “subistórias”, na expressão do escritor --—, aliás sempre bem concatenados e que se sucedem em ascensão gradativa. O gênero, em suas mãos, alcança flexibilidade notável, modifica-se conforme o assunto, adapta-se às exigências do enredo. Pois esta maleabilidade é justamente uma das características da novela moderna. “O burrinho pedrês”, por exemplo, é de todas as narrativas aquela cujas partes, de início, parecem mais desconjuntadas. Contém uma série de historietas e anedotas que não fazem avançar a ação central. Mas é esta a espécie de narração exigida pelo assunto, a viagem de urna boiada que prossegue por etapas, pára, recomeça, se desvia. Todos os episódios, finalmente, concorrem para criar uma atmosfera única, caracterizada pela predominância da vida animal, em volta cia qual evolve todo aquele pequeno mundo nômade do Major Saulo e seus boiadeiros. Aqui a forma parece ter nascido e crescido com o assunto. A construção da novela obedece toda ela a urna arte consciente que se disfarça sob um ar de naturalidade, mas se revela não somente no aumento progressivo da tensão, senão também nos periódicos desaparecimentos e voltas do burrinho pedrês. Note-se que de todas as possíveis atitudes para com o seu protagonista animal o autor adota a mais plausível: a da observação feita por fora, com uma mistura de realismo e ironia que humaniza a personagem sem recorrer a artifícios antropomórficos. Patenteia-se nesta novela um dos processos característicos da técnica de Guimarães Rosa, decorrente, aliás, de sua concepção do mundo e do destino: intensificar a tensão, aproximando o leitor de um desfecho trágico previsto. De repente, verifica-se algum acontecimento brusco — mas sempre verossímil que traz desenlace diferente cio esperado; diferente, mas não menos patético. Espera- se em “O burrinho pedrês” um assassínio, que todos os indícios fazem prever.., e sobrevém um desastre de proporções maiores, que resolve a tensão por um cataclismo imprevisto. Combinam-se, assim, os efeitos da surpresa e da unidade. Aplicação ainda mais perfeita deste processo observa-se em “A hora e vez de Augusto Matraga”, a novela talvez mais densa de humanidade de todo o volume. A vida retraída do valentão arrependido que, depois de ter sido deixado como morto pelos capangas do adversário, levou anos a restaurar a saúde do corpo e a amansar o espírito sedento de vingança inspira ao leitor uma inquietação crescente. Treme-se por esta alma perdida e reencontrada, que por fim só escapará à tentação da desforra por outro ato louco de valentia que o redime, mas ao mesmo tempo o aniquila. Aparentada a essas duas novelas a intitulada “Duelo”. Aí a série de emboscadas em que dois adversários procuram acabar um com outro parece primeiro terminar pela morte cristã de um deles, colhido e consumido por insidiosa doença. Mas o moribundo conseguiu transmitir o seu ódio como herança a um seu protegido, e, pela mão deste, depois de morto, matará o rival sobrevivente. Talvez nem seja justo falar em técnica, pois nos dois últimos casos, pelo menos, o desenlace, por mais inesperado que seja, decorre necessariamente dos caracteres. O contista recria com extraordinária plasticidade caracteres primários como Augusto Matraga ou, no “Duelo”, Cassiano Gomes, concentrados em torno de um único sentimento, que se transforma em sua razão de ser no objetivo de toda a sua existência. Apesar de uma ironia fina que oscila num ritmo tão pessoal entre o humor e o cinismo, o autor mantêm-se imparcial para com as suas criaturas. Tem-se a impressão, às vezes, de que adota a respeito delas os sentimentos do ambiente e as admira ou despreza de acordo com esses sentimentos, partilhando das simpatias e antipatias dos comparsas. Na realidade, trata-se apenas de mais um meio para criar atmosfera. O escritor conserva-s algo distante das personagens, e, quando se apressa em adotar algum julgamento cômodo sobre elas, não sabemos com certeza se não o faz para se divertir à custa do leitor. Veja-se o trecho em que conta a morte edificante de Cassiano Gomes. De pois de deixar tudo o que tem a um pobre caboclo de quem se tornara o benfeitor, este “tomou uma cara feliz, falou na mãe, apertou nos dedos a medalhinha de Nossa Senhora das Dores, morreu e foi para o céu”. Sim, mas ao seu protegido, além dos cobres, deixou também a obrigação de uma vindita. Nas novelas de atmosfera trágica de Guimarães Rosa respira- se um fundo desânimo, talvez por ser a conclusão tão fatal, tão sem recurso. Esse acabamento absurdo e, ao mesmo tempo, ir respondivelmente explicado, dos destinos individuais, faz trever abismos tão abruptos como aquele que se abre debaixo da Ponte de São Luís Rei, no romance de Thornton Wilder. Estas mesmas novelas possuem credibilidade logo à primeira vista, mais um sinal por que se reconhece a obra de ficção de real valor. Credibilidade na ficção não envolve a exatidão e a verossimilhança de todos os pormenores; apenas uma certa sugestão que leva o leitor a não preocupar-se em verificar-lhes a consistência, compenetrado por essa verdade condensada que só por acaso a vida alcança. Pirandello ter-se-ia felicitado de um achado como este, em que o autor soube formular com bastante pitoresco uma das regras essenciais da arte: “E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.” Uma quarta novela, “A volta do marido pródigo”, representa gênero inteiramente diverso. Aqui as fases sucessivas do enredo fragmentado servem para dar um duplo retrato, extremamente vivo e divertido, de um malandro atraente, representado simultaneamente como tipo e como indivíduo. Talvez seja este o conto em que o autor melhor realiza a tarefa de caracterizar ao mesmo tempo o ambiente e as personagens pelo halo de simpatia irresistível e imerecida que rodeia estas últimas. A superstição, um dos mais importantes elementos de quantos concorrem para a construção do universo do contista, fornece a duas narrativas o assunto central. “Corpo fechado”, história de um feitiço, é admirável de unidade e composição. Pouco nos importa, para a verdade intima do conto, se e o feitiço que opera, ou a fé que nele depositam os protagonistas; o essencial é a presença permanente da magia em que vítima e feiticeiro acreditam da mesma forma. Talvez seja esta a razão de o leitor sentir-se menos convencido pelo conto “São Marcos”, em que o contista, apresentando-se em primeira pessoa como objeto de um ato de feitiçaria, nos força a perguntarmos a nós mesmos se ele, autor, acredita na magia ou não, dúvida que soube artísticamente eludir nos outros contos. “Minha gente” confirma a impressão de que o talento narrativo de Guimarães Rosa é essencialmente impessoal: ao lado de retratos excelentes, como o do enxadrista viajante, e da pintura maliciosamente viva de uma eleição no interior, a história de amor contada em primeira pessoa parece um tanto convencional (com uma leve reminiscência, talvez, de Cabocla ou de Prima Belinha, de Ribeiro Couto). “Sarapalha” representa, a meu ver, em todo o volume, a única vitória do regional sobre o humano: a descrição de uma região destruída pelas febres avulta sobre o conflito passional das duas personagens, que valem mais como componentes da paisagem que como verdadeiros atores. “Conversa de bois”, finalmente, representa ainda outro tipo, o do conto inteiramente estilizado, com bichos que falam e raciocinam, quase numa atmosfera mítica de balada escocesa. Se as grandes novelas do volume não nos tivessem exalçado as exigências, entregar-nos-íamos sem reservas ao encanto desta forte narrativa. Elas, porém, nos habituaram a uma mistura tão feliz de visão realista e de expressão algo estudada, que nos custa admitir uma modificação da dosagem a favor do elemento artificial. Vocação épica de excepcional fôlego, o autor dar-nos-á de certo algum romance em que seu dote de criar e movimentar personagens e vidas se manifeste ainda mais à vontade. Por enquanto, aguarda—se com natural curiosidade a publicação de seu volume de versos, premiado já em 1936 pela Academia Brasileira de Letras, e que ficou escondido ainda mais tempo que Sagarana. Que formas revestirá o lirismo num poeta tão visceral mente narrador? Chegando ao fim destas breves considerações, percebemos o que elas têm de ilusório, O exame unilateral de um livro tão rico de conteúdos e significações como este há de deixar uma impressão falsa. E sobretudo quase impossível falar desta obra abstraindo-se o aspecto da expressão verbal, que nela é de excepcional importância. O autor não apenas conhece todas as riquezas do vocabulário, não apenas coleciona palavras, mas se delicia com elas numa alegria quase sensual, fundindo num conjunto de saber inédito arcaísmos, expressões regionais, termos de gíria e linguagem literária. O que nos vale é que Sagarana já deu ensejo a análises agudas, extensivas a todos os seus aspectos; por outro lado, é desses livros em que cada leitor faz necessariamente novas descobertas. 1946. Carta de João Guimarães Rosa a João Condé, revelando segredos de Sagarana PREZADO JOÃO CONDÉ Exigiu você que eu escrevesse, manu propria, nos espaços brancos deste seu exemplar de Sagarana, uma explicação, uma confissão, uma conversa, a mais extensa, possível o imposto João Condé para escritores, enfim. Ora, nem o assunto é simples, nem sei eu bem o que contar. Mirrado pé de couve, seja, o livro fica sendo, no chão do seu autor, uma árvore velha, capaz de transviá-lo e de o fazer andar errado, se tenta alcançar-lhe os fios extremos, no labirinto das raízes. Graças a Deus, tudo é mistério. Algo, porém, tem de ser dito. Ao autor o que é do autor, mas a João Condé o que é de João Condé. Assim, pois, em 1937 — um dia, outro dia, outro dia... — quando chegou a hora de o Sagarana ter de ser escrito, pensei muito. Num barquinho, que viria descendo o rio e passaria ao alcance das minhas mãos, eu ia poder colocar o que quisesse. Principalmente, nele poderia embarcar, inteira, no momento, a minha concepção-do-mundo. Tinha de pensar igualmente na palavra “arte” em tudo o que ela para mim representava, como corpo e como alma; como um daqueles variados caminhos que levam do temporal ao eterno, principalmente. Já pressentira que o livro, não podendo ser de poemas, teria de ser de novelas. E — sendo meu — uma série de Histórias adultas da Carochinha, portanto. Rezei, de verdade, para que pudesse esquecer-me, por completo, de que algum dia já tivessem existido septos, limitações, tabiques, preconceitos, a respeito de normas, modas, tendências, escolas literárias, doutrinas, conceitos, atualidades e tradições — no tempo e no espaço. Isso, porque: na panela do pobre, tudo é tempero. E, conforme aquele sábio salmão grego de André Maurois: um rio sem margens é o ideal do peixe. Aí, experimentei o meu estilo, como é que estaria. Me agradou. De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira. O que eu gostaria de poder fazer (não o que fiz, João Condé!) seria aplicar, no caso, a minha interpretação de uns versos de Paul Eluard: . . .“o peixe avança nágua, como um dedo numa luva”... Um ideal: precisão, micromilimétrica. E riqueza, oh! riqueza... Pelo menos, impiedoso, horror ao lugar comum; que as chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma. Mas, ainda haveria mais, se possível (sonhar é fácil, João Condé, realizar é que são elas...): além dos estados líquidos e sólidos, por que não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?! Àquela altura, porém, eu tinha de escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a-China, o arquipélago de Neo-Baratária, o espaço astral, ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que preferi. Porque tinha muitas saudades de lá. Porque conhecia um pouco melhor a terra, a gente, bichos, árvores. Porque o povo do interior — sem convenções, “poses” — dá melhores personagens de parábolas: lá se vêem bem as reações humanas e a ação do destino: lá se vê bem um rio cair na cachoeira ou contornar a montanha, e as grandes árvores es talarem sob o raio, e cada talo do capim humano rebrotar com a chuva ou se estorricar com a seca. Bem, resumindo: ficou resolvido que o livro se passaria no interior de Minas Gerais. E compor-se-ia de 12 novelas. Aqui, caro Condé, findava a fase de premeditação. Restava agir. Então, passei horas de dias, fechado no quarto, cantando cantigas sertanejas, dialogando com vaqueiros de velha lembrança, revendo paisagens da minha terra, e aboiando para um gado imenso. Quando a máquina esteve pronta, parti. Lembro-me de que foi num domingo, de manhã. O livro foi escrito — quase todo na cama, a lápis, em cadernos de 100 folhas — em sete meses; sete meses de exaltação, de deslumbramento. (Depois, repousou durante sete anos; e, em 1945 foi “retrabalhado”, em cinco meses, cinco meses de reflexão e de lucidez). Lá por novembro, contratei com uma datilógrafa a passagem a limpo. E, a 31 de dezembro de 1937, entreguei o original, às 5 e meia da tarde, na Livraria José Olympio. O título escolhido era “Sezão”; mas, para melhor resguardar o anonimato, pespeguei no cartapácio, à última hora, este rótulo simples: “Contos (titulo provisório, a ser substituído) por Viator. Porque eu ia ter de começar longas viagens, logo após. Como já disse, as histórias eram doze: I) O BURRINHO PEDRÊS — Peça não profana, mas sugerida por um acontecimento real, passado em minha terra, há muitos anos: o afogamento de um grupo de vaqueiros, num cór...
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  • Fall '20
  • Rio de Janeiro, Cristianismo, Deus, Minas Gerais, Diálogo, Cavalo

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