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Unformatted text preview: DADOS DE COPYRIGHT Sobre a obra: A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo Sobre nós: O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.Net ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link. Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível. FIODOR DOSTOIEVSKI CRIME E CASTIGO Autor: Fiodor Mikhailovitch Dostoievski Título: Crime e Castigo Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: 1866 Primeira Parte Capítulo I Nos começos de julho, por um tempo extremamente quente, saía um rapaz de um cubículo alugado, na travessa de S..., e, caminhando devagar, dirigia-se à ponte de K... Discretamente, evitou encontrar-se com a dona da casa na escada. O tugúrio em que vivia ficava precisamente debaixo do telhado de uma alta casa de cinco andares e parecia mais um armário do que um quarto. A mulher que lho alugara, com refeição completa vivia no andar logo abaixo, e, por isso, quando o rapaz saía tinha de passar fatalmente diante da porta da cozinha, quase sempre aberta de par em par sobre o patamar. E todas as vezes que procedia assim sentia uma mórbida impressão de covardia, que o envergonhava e fazia franzir o sobrolho. Estava zangado com a dona da casa e tinha medo de encontrá-la. E isto não porque fosse covarde ou tímido, pelo contrário; simplesmente, havia algum tempo já que se encontrava num estado de excitação e enervamento parecido com o da hipocondria. Estava a tal ponto apegado ao seu quarto e afastado de todos, que receava encontrar-se com quem quer que fosse e não somente com a dona da casa. A pobreza deprimia-o; mas havia também já algum tempo que até isso deixara de incomodálo. Abandonara por completo os seus trabalhos cotidianos e não queria preocupar-se com eles. Na realidade, não temia a dona da casa, por muito que pudesse tramar contra ele. Agora, ter de parar na escada, escutar todas as tolices daquela mulher, estúpida até o absurdo, e que não lhe interessavam absolutamente nada; todos aqueles disparates a respeito do pagamento, aquelas ameaças e lamentações, e, ademais, ter de falar, desculpar-se, mentir, não, preferia atirar-se como um gato pelas escadas abaixo e deixar-se cair ao abandono, contanto que não visse ninguém. Além disso, dessa vez, o seu receio de encontrar-se com a sua credora acabou por chocá-lo a ele próprio, assim que se viu na rua: "Por que, diabo, me preocupo eu desta maneira e sofro todas estas inquietações por causa de uma bagatela?", pensou, sorrindo estranhamente. "Hum! Sim, é isso, está tudo ao alcance do homem e tudo lhe vem parar às mãos, simplesmente, o medo... Isto é um axioma... É curioso: de que será que as pessoas têm mais medo? O que mais temem é o primeiro caso, a primeira palavra... Mas parece-me que já estou falando demais. Afinal, não faço mais nada senão falar. Embora também se pudesse dizer que, se falo, é porque não faço nada. A verdade é que durante este último mês deu-me a mania de falar, enquanto me deixo ficar estendido ruminando no meu canto... sobre ninharias. Bem, e afinal, aonde vou eu? Serei capaz disso? Será isso uma coisa séria? Não, de maneira alguma. Divirto-me mas é à custa da minha imaginação, é uma brincadeira! É isso mesmo, uma brincadeira!" Na rua fazia um calor sufocante, ao qual se juntavam a aridez, os empurrões, a cal por todos os lados, os andaimes, os tijolos, o pó e esse mau cheiro peculiar do verão, conhecido de todos os petersburgueses que não possuem uma casa de campo. Tudo isso junto provocava uma impressão desagradável nos nervos do rapaz, já bastante excitados. Completavam o tom repugnante e o triste colorido do quadro o cheiro insuportável das tabernas, particularmente numerosas naquele setor da cidade, e os bêbados que se encontravam a cada passo1 apesar de ser dia de trabalho. Um sentimento de profundo desgosto se refletiu por um momento nas feições finas do rapaz. Para dizer a verdade, era um bonito rapaz, com uns magníficos olhos escuros, o cabelo castanho, de estatura acima da mediana, magro, de muito boa figura. Mas não tardou que voltasse a mergulhar numa espécie de profundo indiferentismo e, para sermos mais precisos, num completo alheamento de tudo, de tal maneira que caminhava sem fixar a atenção à sua volta e também sem querer fixá-la. Somente uma ou outra vez murmurava qualquer coisa por entre os dentes, obedecendo ao costume de monologar, que há pouco a si próprio confessara. Agora mesmo teve de reconhecer que, às vezes, os seus pensamentos se confundiam e se sentia fraco; e esse era o segundo dia em que não se alimentava. Ia tão mal vestido que outra pessoa, ainda que acostumada a essa aparência, não se atreveria a sair à rua, em pleno dia, com aqueles andrajos. Aliás, aquele bairro era de tal natureza que ninguém aí reparava no vestuário. A proximidade do Mercado do Feno, a abundância de estabelecimentos conhecidos, e sobretudo a população, composta de comerciantes que se aglomeram nessas ruas e ruelas centrais de Petersburgo, punham às vezes notas tão desconcertantes no panorama geral que seria estranho admirar-se de um encontro, fosse ele qual fosse. Mas era tal o maldoso desprezo que se tinha já acumulado no espírito do rapaz que, apesar de toda a sua delicadeza, às vezes muito juvenil, aquilo que menos o preocupava era o pobre vestuário com que ia pelas ruas. Já o mesmo não sucedia quanto à probabilidade de deparar algum conhecido ou algum antigo camarada, com os quais, geralmente, não gostava de encontrarse. Eis que, de repente, um bêbado, que vá lá saber-se por que razão ou motivo ia naquele momento pela rua com uma enorme tieliega2 vazia, puxada por um cavalicoque, lhe gritou quando passou: “ó tu, chapelão alemão!", e gritou-lhe isso a plenos pulmões, ao mesmo tempo que apontava para ele com a mão... O rapaz parou e segurou o chapéu, enervado. Era o chapéu alto, redondo, à Zimmermann, mas já usado e surrado, cheio de buracos e amolgadelas, sem abas e descaído para o lado mais deformado. Mas não foi a vergonha, e sim outro sentimento, completamente diferente, parecido com o medo, que se apoderou dele. "Eu bem sabia!", murmurou desgostoso. "Já me tinha lembrado! Isto é mesmo desagradável! É para que veja como uma tolice, o mais vulgar pormenor, pode estragar a melhor das intenções! Sim, o chapelinho dá nas vistas... Ridículo, e é por isso que todo mundo o vê. Com estes farrapos, a única coisa que diz bem é o gorro, mesmo velho, e não este espantalho. Ninguém traz outro semelhante, vê-se a um quilômetro de distância, fica gravado na memória... Sobretudo o fato de não se esquecer é um argumento comprovativo. E o que é necessário, precisamente, é passar despercebido... Pormenores, insignificâncias, é isso o principal... Uma ninharia destas pode deitar tudo a perder de uma vez para sempre..." Tinha andado pouco; sabia até a que distância se encontrava de sua casa: oitocentos e trinta passos, precisamente. Quantas vezes os contou, no tempo em que fazia projetos! Nesse tempo não dava grande importância aos seus desvarios, apenas se excitava com eles por causa da sua ousadia quimérica mas sedutora. Mas agora, passado um mês, começava já a olhá-los de outra maneira, e, apesar de tudo, dos seus desanimadores monólogos a respeito da sua inércia e indecisão, ia-se acostumando, quase sem querer, a considerar aquele sonho escandaloso como um empreendimento, embora ele próprio não acreditasse nele. Agora ia ali a ensaiar aquele empreendimento e a sua comoção aumentava à medida que ia caminhando. De coração palpitante e tomado de um tremor nervoso, aproximou-se do imenso edifício que se erguia de um lado sobre o canal, e do outro dava para a rua de... Essa casa compunha-se de pequenos andares, e todos os seus inquilinos pertenciam às classes trabalhadoras: alfaiates, serralheiros, cozinheiros, alguns alemães, mulheres de vida irregular, modestos empregados etc. Os que entravam e os que saíam encontravam-se nas duas portas e nos dois pátios da casa. Havia três ou quatro porteiros. O rapaz estava muito satisfeito por não se ter encontrado com ninguém, e, logo a seguir, deslizou da porta da direita para a escada, que era escura e estreita, negra, mas ele já conhecia muito bem tudo aquilo e lhe agradava aquela disposição; nessa obscuridade não eram de recear os olhares trocistas. "Se agora tenho tanto medo, como seria, de fato, se eu chegasse a levar a coisa a cabo?" Foi o que pensou involuntariamente quando se viu no quarto andar. Aí encontrou alguns carregadores e soldados que estavam tirando móveis de uma casa. Sabia já que naquele andar vivia uma família alemã, cujo chefe era funcionário. "Pode ser que esse alemão saia agora, e pode ser também que no quarto andar, nesta escada e neste patamar, só fique por algum tempo um andar ocupado, o da velha. Isso é que seria bom... em todo caso...", pensou, e bateu à porta do quarto da velha. A campainha deu um som fraco, como se fosse de lata e não de cobre. Nos modestos quartos de semelhantes casas, quase todas soam assim. Já tinha esquecido o som daquela campainha e, de súbito, aquele som pareceu recordar-lhe qualquer coisa e trazê-la claramente à imaginação... Por isso estremeceu e, dessa vez, sentiu os nervos frouxos. Passado um momento a porta entreabriu-se numa fenda estreita, pela qual a inquilina espreitou o visitante, com modos receosos e deixando ver unicamente os olhos que brilhavam na obscuridade. Mas, quando viu tanta gente no patamar, ganhou coragem e acabou de abrir a porta. O rapaz entrou para uma sala escura, dividida em duas por um tabique, do outro lado da qual ficava a cozinha exígua. A velhinha estava na sua frente, olhando-o em silêncio e interrogativamente. Era pequenina e seca, de uns sessenta anos, olhos vivos e maliciosos, com um narizinho afilado e de cabeça descoberta. Os cabelos alvejantes brilhavam, de besuntados com azeite. Trazia um lenço de flanela no pescoço delgado e comprido, parecido com a pata de uma galinha, e nos ombros, apesar do calor, uma pequena estola de pele, gasta e amarelada. A velhota não fazia mais do que tossir e gemer. Talvez o rapaz tivesse fixado nela um olhar especial, porque nos seus olhos tornou a aparecer a antiga expressão de desconfiança. - Raskólhnikov3 , estudante; já estive aqui o ano passado - apressou-se a murmurar o rapaz, fazendo uma meia reverência, pois lembrou-se de que era preciso ser mais delicado. - Já me lembro, bátiuchka 4 ; lembro-me muito bem de quem se trata - disse a velhota respeitosamente, sem afastar o olhar inquisitorial da cara do rapaz, tal como antes. - Pois bem; eu vim de novo aqui para tratar de um assunto, coisa de pouca importância continuou Raskólhnikov, um pouco contrariado e admirado da desconfiança da velha. "Aliás, pode ser que ela seja sempre assim, e que da outra vez eu não tivesse reparado", pensou com uma sensação aborrecida. A velha permanecia calada, como se reconsiderasse; depois afastou-se para um lado e, apontando a porta do quarto, disse, empurrando o visitante para a frente: - Entre, bátiuchka. O quarto em que o rapaz entrou, forrado de um papel amarelo, com gerânios e pequenas cortinas de musselina na janela, estava nesse instante iluminado pelo sol poente. "Talvez, depois, também faça sol...", foi a idéia que perpassou rapidamente pela mente de Raskólhnikov, e correu rapidamente os olhos sobre todo o quarto para ficar conhecendo melhor e gravar na memória a sua disposição. Mas nele não havia nada de especial. O mobiliário, muito velho e de madeira amarela, compunha-se tão-só de um divã com grande recosto saliente, de madeira, uma mesa ovalada, colocada em frente ao divã, um toucador com o seu espelhinho encostado ao tabique, algumas cadeiras também encostadas às paredes, mais uns tantos quadrinhos sem valor, em molduras amarelas, representando senhoras alemãs com passarinhos nas mãos... e pronto. Num canto, diante de uma pequena imagem, ardia uma candeia. Estava tudo muito limpo; tanto os móveis como o soalho estavam encerados e reluzentes. "À custa do trabalho de Lisavieta", pensou o rapaz. Nem um só grão de pó se encontraria em todo o quarto. "É sempre assim, em casa das viúvas velhas e más", continuou dizendo para si próprio Raskólhnikov, e lançou um olhar de revés à cortina de indiana que escondia a porta dum segundo compartimento, onde ficavam a cama e a cômoda da velha, e para onde não tinha ainda conseguido deitar nem um só olhar. A casa reduzia-se a esses dois quartos. - Então, o que deseja? - disse a velha secamente, entrando no quarto e pespegando-se diante dele, como antes, para olhá-lo diretamente no rosto. - Trago uma coisa para empenhar! - e puxou de um velho relógio de prata, de algibeira. Tinha gravada uma esfera na tampa e a corrente era de aço. - Está bem, mas não se esqueça de que o prazo do outro empréstimo já acabou há três dias. - Eu lhe pagarei em breve os juros do mês, tenha paciência. - Ainda que não queira, meu caro senhor, não tenho outro remédio senão ter paciência ou vender aquilo que me entregou. - Quanto me dá por isto, Alíona Ivânovna? - Só me traz ninharias, bátiuchka; isso, fique sabendo, não vale nada. Da outra vez dei-lhe dois rublos pelo anel, mas na joalharia há-os novos por rublo e meio. - Dê-me quatro rublos; hei de resgatá-lo depois, porque era do meu pai. Por estes dias terei dinheiro. - Rublo e meio, pagando os juros adiantados, e é se quiser! - Rublo e meio! - exclamou o rapaz. - Como quiser - e a velhota tornou a entregar-lhe o relógio. O rapaz guardou-o, e sentiu tal coragem que se dispunha já a ir-se embora; simplesmente, em seguida mudou de opinião, lembrando-se de que já não tinha tempo para ir a outro lugar e de que já anteriormente tinha estado em outra parte. - Dê-mos! - disse com maus modos. A velhota procurou umas chaves no bolso e depois dirigiu-se para o outro quarto, por detrás da cortina. O rapaz, que ficara só no meio da sala, pôs-se de ouvido à escuta, refletindo. Ouviu a velha abrir a cômoda. "Deve ser no gavetão de cima", pensou. "Costuma trazer as chaves no bolso da direita... todas no mesmo molho, numa argola de aço... E entre elas há uma maior que as outras, com o palhetão denteado, que não é a da cômoda... Isso quer dizer que também deve haver alguma arca ou cofre-forte... É curioso. Os cofres-fortes têm todos chaves dessas... Mas, enfim, tudo isto... é de somenos importância..." A velhota voltou. - Aqui tem, bátiuchka; como a um rublo correspondem dez copeques por mês, a rublo e meio cabem quinze copeques por mês, que eu recebo adiantados. Aos outros dois rublos, que lhe dei da outra vez, correspondem, em relação a esta conta, vinte copeques, que também recebo já. Ao todo são trinta e cinco. De maneira que o seu relógio fica por um rublo e quinze copeques. Aqui tem. - O quê? Então agora é só um rublo e quinze copeques? - É assim mesmo. O rapaz não estava para questões e aceitou o dinheiro. Olhou para a velha, sem pressa de sair dali, como se quisesse dizer ou fazer alguma coisa e nem ele próprio soubesse o quê... - Pode ser que eu, Alíona Ivânovna, dentro de uns dias lhe traga outra coisa para empenhar... de prata... boa... uma cigarreira, assim que um meu amigo ma devolva - e, como se atrapalhasse, calou-se. - Está bem, depois falaremos, bátiuchka. - Adeus... Mas a senhora vive sozinha? Não tem uma irmã? - perguntou, aparentando despreocupação e dirigindo-se para o vestíbulo. - Mas que lhe interessa ela, bátiuchka? - Nada de especial. Perguntei por perguntar. A senhora, depois... Adeus, Alíona Ivânovna! Raskólhnikov afastou-se dali muito perturbado. E a sua perturbação ia aumentando cada vez mais. Quando saiu da escada parou várias vezes, como se estivesse subitamente preocupado por alguma coisa. E, por fim já na rua, murmurou: - Oh, meu Deus. Como tudo isto é repugnante! Ah, sim, sim, eu... não; isto é um absurdo, uma estupidez! - acrescentou resolutamente. - E se me acontecesse esse horror? De que porcaria é capaz a minha alma! Isto é que é importante: é sujo, brutal, mau! E eu, durante um mês inteiro... Mas nem com palavras, nem com exclamações, podia exprimir a sua comoção. Um sentimento de imensa repugnância, que começava a oprimir e a mortificar o seu espírito, desde o momento em que fora ver a velha, tomava agora tais proporções e revelava-se tão claramente, que não sabia onde refugiar-se para fugir à sua tristeza. Caminhava pelo passeio como um ébrio, sem reparar nos transeuntes, dando-lhes encontrões e sem saber para onde ia. Quando olhou à sua volta verificou que se encontrava junto de uma casa de bebidas, na qual se entrava descendo uma escadinha que conduzia a uma adega. Os bebedores assomavam à porta, naquele momento, e saíam para a rua empurrando-se mutuamente e barafustando. Sem se deter a pensar, Raskólhnikov desceu pelas escadas. Até então nunca entrara numa taberna; mas agora tinha a cabeça fora do lugar e, além disso, afligia-o uma sede que o fazia tossir. Apetecia-lhe beber aguardente fresca, tanto mais que se sentia esgotado pela sua fraqueza súbita e, enfim, cheio de fome. Sentou-se num canto escuro e sujo, junto de uma mesinha de madeira de tília; pediu aguardente e bebeu com avidez o primeiro copo. Sentiu-se imediatamente aliviado e os pensamentos tornaram-se-lhe mais claros: "Tudo isto é um absurdo", disse, devaneando, "e não devo preocupar-me. É uma simples indisposição física! Um golinho de aguardente, um torrãozinho de açúcar... e o ânimo outra vez volta, as ideias se aclaram e as intenções se afirmam. Oh, como tudo isto é opressivo!" Apesar dessa conclusão desesperante, sentiu-se alegre como se de repente se tivesse liberto de um peso terrível e, afetuosamente, passou os olhos em redor. Mas até mesmo nesse momento previa já remotamente que toda essa impressionabilidade otimista era também doentia. Àquela hora havia pouca gente na taberna. Detrás daqueles dois bêbados com que tropeçara na escada saiu um grupo completo: cinco homens, com uma mulher e um acordeão. Assim que eles saíram ficou tudo em silêncio e em sossego. Restou um só bebedor, que não estava ainda completamente bêbado, de aspecto burguês, sentado diante dum copo de cerveja; ficou também o seu gordo companheiro, enorme, de jaqueta comprida e barba grisalha, muito embriagado, meio adormecido, num banco, e que de vez em quando, de repente, como se despertasse, se punha a bater castanholas com os dedos, esticando os braços e erguendo o peito, sem se levantar do banco, depois do que cantarolava uma copla, esforçando-se por recordar versinhos como estes: Acariciando-a durante o ano, acarici... ando-a durante todo o ano... Ou, então, quando tinha um pouco mais de lucidez: Quando atravessei a Podiatchiéskaia, encontrei a minha amada... Mas ninguém o acompanhava; o companheiro, silencioso, cada vez que ele parecia despertar mirava-o com olhos hostis e desconfiados. Havia ainda outro tipo, com o aspecto de funcionário aposentado. Estava sentado sozinho, com um copo na frente, e de vez em quando bebia e olhava à volta. Parecia também muito excitado. Capítulo II Raskólhnikov não estava acostumado às pessoas e, como dissemos já, evitava todo convívio, sobretudo nos últimos tempos. Mas, agora, qualquer coisa o impelia para as pessoas. Algo de novo se passava nele e, ao mesmo tempo, despertava-se nele também uma sede de convívio. Estava cansado de todo aquele mês de tristeza solitária e de sombria expectativa, e por isso ansiava por respirar outro ambiente, ainda...
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