O_pequeno_principe - A LÉON WERTH Peço perdão às...

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Unformatted text preview: A LÉON WERTH Peço perdão às crianças po r ded icar este livro a uma pesso a grand e. Tenho um a d escu lpa séria: essa p essoa grande é o m elhor amigo qu e possuo no mundo. Tenho um a outra desculp a: essa p essoa grande é capaz de compreender tod as as coisas, até m esmo os livros de crian ça. Tenho ainda um a terceira: essa pesso a grande mo ra n a França, e ela tem fo me e frio . Ela precisa de consolo . Se todas essas d esculpas não bastam , eu dedico então esse livro à crian ça que essa pessoa grande já foi. Todas as p essoas grand es foram um dia crian ças (mas pou cas se lemb ram disso). Co rrijo, portanto, a dedicató ria: A LÉON WERTH QUANDO ELE ERA PEQUENINO I http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Certa vez, quando tinh a seis anos, vi num livro sob re a Flo resta Virgem , "Histórias Vividas", um a imponente gravura. Representava ela uma jibó ia que en go lia uma fera. Eis a cópia do desenho. Dizia o livro: "As jibó ias engolem, sem m astigar, a presa inteira. Em segu ida, não podem mover­se e dormem os seis m eses da digestão ." Refleti m uito então sobre as aventuras da selva, e fiz, com láp is de co r, o meu p rimeiro d esenho . Meu d esenho núm ero 1 era assim: Mo strei m inh a obra­p rima às pessoas grandes e pergun tei se o meu desenho lhes fazia m edo . Respond eram­m e: "Po r qu e é qu e um ch apéu faria medo ?" Meu d esenho não representava um ch ap éu. Rep resen tava uma jibóia digerindo um elefante. Desenhei en tão o interio r d a jibóia, a fim de que as pessoas grand es pudessem compreend er. Elas têm semp re necessidad e de explicações. Meu desenho nú mero 2 era assim : As pesso as grand es aconselh aram­m e d eixar de lado os d esenho s de jibó ias abertas ou fechadas, e dedicar­m e d e preferên cia à geografia, à história, ao cálcu lo, à gram ática. Fo i assim que abandonei, aos seis anos, u ma esplêndida carreira d e p into r. Eu fo ra d esen co rajado pelo in su cesso do meu d esenho núm ero 1 e do meu d esenho número 2. As p essoas grand es não comp reendem n ad a sozinh as, e é cansativo, p ara as crianças, estar toda hora explicando. Tive po is d e escolh er um a ou tra profissão e ap rendi a pilotar aviõ es. Voei, por assim dizer, po r todo o mundo. E a geografia, é claro, m e serviu muito. Sabia distingu ir, num relan ce, a China e o Arizona. É muito útil, qu ando se está p erdido na noite. Tive assim , no co rrer da vid a, muito s con tatos co m mu ita gente séria. Vivi muito no m eio das pessoas grandes. Vi­as m uito de perto. Isso não m elhorou, de modo algum , a minha antiga opinião . Quando encontrava um a que m e p arecia um pouco lú cid a, fazia co m ela a experiência do m eu desenho nú mero 1 , qu e sempre conservei comigo. Eu queria saber se http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com ela era verd ad eiramente co mp reensiva. Mas respondia sempre: "É u m chapéu". Então eu n ão lhe falava nem de jibó ias, n em de flo restas virgens, nem de estrelas. Punh a­m e ao seu alcance. Falava­lhe de brid ge, de go lfe, de política, d e gravatas. E a p essoa grande ficava encan tad a d e conhecer um homem tão razoável. II Vivi p ortanto só, sem am igo com quem pudesse realmente con versar, até o dia, cerca de seis anos atrás, em qu e tive um a pane no deserto do Saara. Alguma co isa se quebrara no moto r. E como não tinha com igo mecânico ou passageiro, p rep arei­me para emp reender sozinho o difícil conserto. Era, p ara mim, questão de vid a o u d e morte. Só dava para oito dias a águ a que eu tinha. Na p rimeira noite adorm eci po is sobre a areia, a milhas e milhas d e q ualquer terra h abitad a. Estava mais isolado qu e o náufrago num a tábua, perdido no m eio do mar. Im aginem então a minha surpresa, qu ando, ao d espertar do dia, uma vozinh a estranh a me acordou. Dizia: — Po r favor ... desenh a­m e um carneiro — Hem ! — Desenha­me um carneiro ... Pu s­m e d e pé, como atin gido po r um raio . Esfregu ei os olhos. Olhei bem. E vi um p edacinho de gente in teiramente extraordinário, que me considerava com gravid ad e. Eis o melho r retrato que, m ais tarde, consegui fazer d ele. Meu desenho é, segu ram en te, mu ito meno s sedutor que o mod elo. Não tenho http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com culp a. Fo ra desen co rajado, aos seis anos, da minha carreira d e pin tor, e só aprend era a d esenhar jibó ias abertas e fechadas. Olhava pois essa ap arição com olhos redondos de esp an to. Não esqu eçam qu e eu m e achava a mil milh as de qualquer terra habitada. Ora, o meu hom en zinho não m e p arecia nem perd ido , nem morto de fadiga, n em mo rto de fome, de sed e ou d e m edo. Não tinha absolu tam en te a aparência de uma criança perdida no deserto, a m il m ilhas da região h ab itad a. Qu ando pud e enfim articu lar p alavra, perguntei­lhe: — Mas ... que fazes aqu i? E ele rep etiu ­me en tão, b rand am en te, como um a coisa mu ito séria: — Po r favor... desenh a­m e um carn eiro ... Quando o m istério é muito impressionante, a gente n ão ousa desobedecer. Por m ais absurdo que aquilo m e p arecesse a m il milhas de todos os lugares h abitados e em p erigo de morte, tirei do bo lso um a folha de p ap el e uma caneta. Mas lemb rei­m e,então,que eu havia estud ado de p referência geografia, história, cálculo e gram ática, e disse ao garoto (com um pouco de mau humo r) que eu não sabia d esenhar. Respond eu ­me: — Não tem importância. Desenha­me um carneiro. Como jamais hou vesse desenh ado um carneiro, refiz p ara ele um dos do is únicos d esenho s que sab ia. O da jibó ia fech ad a. E fiqu ei estup efato d e ouvir o garo to replicar: — Não! Não! Eu não quero um elefante num a jibóia. A jibó ia é perigo sa e o elefante toma muito espaço . Tudo é p equeno onde eu moro. Preciso é dum carneiro. Desenha­me um carn eiro . En tão eu desenhei. Olhou aten tamente, e disse: — Não ! Esse já está mu ito doente. Desenha outro. Desenhei d e novo. Meu amigo so rriu com indulgência: — Bem vês qu e isto não é um carn eiro . É um bode ... Olha os chifres ... Fiz m ais uma vez o desenho. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Mas ele foi recusado como o s precedentes: Este aí é muito velho . Quero um carn eiro que viva mu ito. En tão , perdendo a paciência, como tinha pressa de desmontar o m otor, rabisquei o d esenho ao lado. E arrisquei: Esta é a caixa. O carneiro está d en tro. Mas fiqu ei surp reso de ver ilum inar­se a face do meu pequ eno ju iz: — Era assim mesmo que eu qu eria! Será p reciso muito capim para esse carn eiro ? Po r qu ê? Po rque é mu ito pequeno ond e eu mo ro ... — Qualquer coisa ch ega. Eu te dei um carn eirinho de nada ! Inclinou a cab eça sobre o d esenho : — Não é tão pequeno assim ... Olh a ! Adormeceu ... E fo i desse modo qu e eu travei con hecim en to, um dia, com o pequ eno p ríncipe. III Levei mu ito tempo para compreend er d e ond e viera. O prin cip ezinho, que me fazia milhares de perguntas, não p arecia sequer escutar as m inhas. Palavras p ronunciad as ao acaso e qu e foram, pouco a po uco, revelando tudo. Assim, quando viu pela primeira vez meu avião (não vou d esenhá­lo aqui, é mu ito complicado p ara mim ), perguntou­me bru scamente: Que coisa é aqu ela ? Não , é um a coisa. Aqu ilo voa. É um avião. O m eu avião. Eu estava orgulho so de lh e comun icar qu e eu voava. Então ele exclamou: — Como? Tu caíste do céu ? — Sim , d isse eu modestam en te. — Ah ! como é engraçado... E o principezinho deu um a b ela risada, qu e me irritou p ro fund am en te. Go sto qu e levem a sério as minhas d esgraças. Em segu ida acrescen tou : En tão , tu também ven s do céu ! De que p lan eta és tu? http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Vislum brei um clarão no mistério da su a presença, e in terro guei b ruscamente: — Tu vens en tão de outro P lan eta? Mas ele não me respond eu . Balançava len tam en te a cab eça considerando o avião: — É verdade que, nisto aí, não podes ter vindo d e longe ... Mergu lhou então num pensam en to que durou mu ito tem po. Depois, tirando do bolso o meu carneiro, ficou contemp lando o seu tesouro. Poderão im aginar que eu ficara intrigado com aquela sem iconfid ên cia sobre "os outros p lan etas". Esfo rcei­me, então, por saber mais um pouco . — De onde vens, m eu b em ? On de é tua casa? P ara onde qu eres levar meu carn eiro ? Ficou meditando em silêncio , e respondeu depois: O bom é que a caixa que m e d este poderá, de noite, servir d e casa. — Sem dú vida. E se tu fo res bonzinho , darei tamb ém uma co rda p ara am arrá­lo duran te o dia. E um a estaca. A proposta pareceu chocá­lo: Amarrar? Que idéia esqu isita — Mas se tu não o am arras, ele vai­se embo ra e se perd e... E m eu amigo deu uma nova risad a: — Mas ond e queres que ele vá? — Não sei ... Po r aí ... Andando sempre para frente. En tão o p rincipezínho observou , muito sério: — Não faz m al, é tão pequeno ond e moro ! http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com E d epois, talvez com um pouco de melan co lia, acrescen tou ainda: — Quando a gente anda sempre para frente, não pod e m esmo ir longe . .. IV Eu aprend era, po is, uma segund a coisa, importantíssima: o seu planeta d e o rigem era pouco maior q ue um a casa! Não era surpresa p ara mim. Sabia que além dos grand es planetas — Terra, Júpiter, Marte ou Vênus, ao s quais se deram nom es há centenas e cen ten as de outros, por vezes tão p equenos que mal se vêem no telescópio. Quando o astrônomo descobre um deles, dá­lhe por nom e um núm ero. Chama­o, por exemp lo: "asteróide 3251". http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Tenho sérias razões para supor qu e o planeta de onde vinha o p ríncipe era o asteróide B 612 . Esse asteró ide só foi visto uma vez ao telescóp io, em 190 9, po r um astrôno mo turco. Ele fizera n a época uma gran de demon stração d a sua descob erta num Congresso Internacional de Astronomia. Mas n ingu ém lhe d era crédito, por causa d as roup as qu e u sava. As pessoas grand es são assim. Felizmente para a reputação do asteróide B 612 , um ditado r turco ob rigou o povo, sob pena d e morte, a vestir­se à m od a europ éia. O astrônomo rep etiu su a demonstração em 1920, numa elegan te casaca. Então, d essa vez, todo o mundo se convenceu. Se lhes dou esses detalh es sobre o asteróid e B612 e lhes confio o seu núm ero, é por causa das pesso as grand es. As p essoas grand es adoram os números. Quando a gente lh es fala de um novo amigo, elas jamais se in form am do essencial. Não pergun tam nun ca: "Qu al é o som da sua voz? Qu ais os b rinqu edos que p refere? Será qu e ele coleciona borboletas? "Mas p erguntam: "Qual é su a id ad e? Quantos irm ão s tem ele? Q uanto pesa? Quanto ganha seu pai?" Som en te então é qu e elas ju lgam conhecê­lo. Se dizemos às pessoas grandes: "Vi um a bela casa de tijolo s cor­de­rosa, gerân ios na jan ela, pomb as http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com no telhado. . . " elas não conseguem, de modo nenhum, fazer um a idéia d a casa. É preciso d izer­lhes: "Vi u ma casa de seiscento s contos". En tão elas exclamam : "Qu e b eleza!" Assim, se a gen te lhes disser: "A prova d e que o principezinho existia é que ele era encan tad or, que ele ria, e que ele queria um carn eiro . Quando alguém quer um carneiro, é porqu e existe" elas darão d e ombro s e nos chamarão d e crian ça! M as se dissermos: "O p lan eta de ond e ele vinha é o asteró ide B 612" ficarão inteiram ente con vencidas, e não amo larão com perguntas. Elas são assim mesmo. É preciso não lhes querer m al por isso. As crian ças d evem ser mu ito indulgen tes com as p essoas grandes. Mas nós, nós qu e compreendemos a vid a, nós n ão ligamo s aos números ! Gostaria d e ter começado esta h istória à mod a dos contos de fad a. Teria go stado de d izer: "Era u ma vez um p equeno p ríncipe qu e habitava um planeta pouco maior que ele, e que tinha n ecessidade d e um amigo..." Para aqueles que compreendem a vida, isto p areceria sem dúvida mu ito m ais verd ad eiro. Po rque eu n ão gosto qu e leiam m eu livro levianamente. Dá­m e tanta tristeza narrar essas lemb ran ças ! Faz já seis anos que meu am igo se fo i com seu carneiro. Se ten to d escrevê­lo aqui, é justam en te porq ue não o quero esquecer. É triste esquecer um amigo. Nem todo o mundo tem am igo . E eu corro o risco d e ficar como as pessoas grandes, qu e só se interessam po r números. Foi por causa d isso que comprei uma caixa d e tintas e alguns lápis também. É du ro pôr­se a desenhar na minha idade, quando nunca se fez ou tra tentativa além das jibóias fech ad as e abertas dos longínquos seis anos ! Exp erim en tarei, claro , fazer os retrato s m ais parecidos que pud er. Mas não tenho muita esperança d e consegu ir. Um desenho parece passável; outro , já é inteiram en te diverso. Engano­m e tamb ém no tam anho. Ora o p rincipezinho está muito grand e, ora p equeno dem ais. Hesito tamb ém qu an to a cor do seu traje. Vou arriscando então, aqu i e ali. Enganar­me­ei p ro vavelmente em detalhes dos m ais impo rtantes. Mas é preciso d esculpar. Meu am igo nun ca dava explicaçõ es. Julgava­m e talvez sem elh ante a ele. Mas, infelizm en te, não sei ver carneiro através d e caixa. Sou um pouco como as pessoas grand es. Acho que en velheci. V Dia a dia eu ficava sab endo m ais alguma co isa do Planeta, d a p artid a, da viagem. Mas isso devagarinho, ao acaso das reflexões. Foi assim qu e vim a conhecer, no terceiro d ia, o drama dos baob ás. Dessa vez ainda, foi graças ao carn eiro . Pois b ruscamente o p rincipezinho m e in terro gou, tomado d e grave dúvida: É verd ad e que os carneiros com em arbustos? Sim. É verd ad e. Ah! Que bom! Não comp reend i logo porqu e era tão importante q ue os carn eiro s comessem arbusto s. Mas o prin cip ezinho acrescentou: — Po r conseguin te eles com em tamb ém os b aobás? Fiz no tar ao princip ezinho que os baobás não são arbusto s, m as árvores grand es como igrejas. E q ue m esmo qu e ele levasse consigo todo um rebanho de elefan tes, eles http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com n ão ch egariam a dar cabo d e um único b aobá. A id éia de um rebanho de elefantes fez rir ao prin cip ezinho: — Seria preciso votar um po r cim a do outro ... Mas notou, em seguida, sabiamente: — Os baobás, antes de crescer, são pequeno s. — É fato ! Mas po r qu e d esejas tu qu e o s carneiros comam os baob ás pequ enos? — Po r que haveria de ser? respondeu­m e, como se se tratasse de uma evid ên cia. E fo i­me preciso um grand e esfo rço de inteligência p ara compreender so zin ho esse p roblema. Com efeito , no planeta do principezinho h avia, como em todo s o s outro s planetas, ervas boas e m ás. Por conseguin te, sementes bo as, d e ervas boas; sementes más, de ervas m ás. Mas as sementes são in visíveis. Elas dorm em no segredo da terra até que uma cism e d e d espertar. Então ela espreguiça, e lan ça timidamente para o sol um inofensivo galinho. Se é de roseira ou rabanete, pod em os deixar qu e cresça à vontade. Mas quando se trata d e uma planta ruim, é preciso arrancar lo go, mal a tenhamo s conhecido. Ora, havia sementes terríveis no p lan eta do prin cip ezinho: as sem entes de b aob á ... http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com O so lo do p lan eta estava infestado . E um baob á, se a gen te custa a descob ri­lo, nunca m ais se livra dele. Atravanca todo o planeta. Perfu ra­o com suas raízes. E se o p lan eta é pequ eno e os b aobás num eroso s, o p lan eta acaba rachando. "É u ma questão de d iscip lina, me disse m ais tarde o p rincipezinho . Quando a gente acab a a to alete da manhã, começa a fazer com cu idado a to alete d o planeta. É p reciso qu e a gen te se con fo rme em arrancar regularmente os baobás logo que se d istingu am das roseiras, com as quais muito se parecem qu ando pequeno s. É um trab alho sem graça, mas d e fácil execução." E um dia acon selhou­m e a tentar um b elo desenho que fizesse essas coisas entrarem de uma vez n a cab eça d as crianças. "Se algum dia tiverem de viajar, exp licou­ m e, poderá ser útil p ara elas. às vezes não há incon veniente em deixar um trabalho para m ais tarde. Mas, quando se trata de baobá, é semp re uma catástro fe. Conheci um planeta h abitado por um pregu iço so . Havia deixado três arbustos. . . E, de aco rdo com as ind icaçõ es do prin cip ezinho, desenh ei o tal p lan eta. Não gosto d e tomar o tom de mo ralista. Mas o perigo dos baobás é tão pouco conh ecido , e tão grand es os risco s d aquele que se perdesse num asteróid e, que, ao meno s uma vez, faço exceção à m inh a reserva. E d igo portanto : "Men inos! Cuidado com os baob ás!" Foi para advertir m eu s amigos d e um p erigo qu e há tan to tempo o s am eaçava, como a mim , sem qu e pud éssemos suspeitar, qu e tanto caprichei naquele d esenho . A lição que eu dava valia a pen a. P erguntarão , talvez: Po r que não h á nesse livro ou tros desenhos tão grandiosos como o desenho dos baobás? A resp osta é sim ples: Ten tei, mas não consegui. Quando d esenhei o s baobás, estava inteiram en te possuído p elo sen timento d e u rgên cia. VI http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Assim eu co mecei a compreend er, pouco a pouco, meu p equeno p rincipezinho, a tu a vidinha melan có lica. Muito tempo não tiveste outra d istração que a doçura do pô r­do­ sol. Ap rendi esse no vo detalh e quando m e d isseste, na manh ã do quarto dia: — Gosto muito de pôr­do ­so l. Vamos ver um ... — Mas é p reciso esperar. — Esperar o qu ê? — Esperar que o sol se p onh a. Tu fizeste um ar d e surp resa, e, logo d epois, riste de ti m esmo . Disseste­m e: Eu imagino sempre estar em casa! De fato. Quando é meio­dia no s Estados Unidos, o sol, todo mundo sabe, está se d eitando na França. Bastaria ir à Fran ça num m inuto para assistir ao pôr­do ­sol. Infelizmente, a Fran ça é lo nge d em ais. Mas no teu p equeno planeta, b astava apen as recu ar um pouco a cad eira. E con tem plavas o crepúscu lo todas as vezes q ue desejavas. . . Um dia eu vi o sol se pô r quarenta e três vezes! E um p ouco mais tard e acrescentaste: Quando a gente está triste demais, go sta do pôr­do ­so l ... — Estavas tão triste assim no dia dos qu arenta e três? Mas o p rincipezinho não respondeu . VII No quin to d ia, sempre graças ao carneiro, este segredo d a vida do pequ en o p ríncipe foi d e sú bito revelado. Perguntou ­me, sem preâmbulo, como se fora o fruto de um prob lema muito tempo m ed itad o em silêncio: — Um carn eiro, se come arbusto, come também as flores? Um carneiro come tudo que encontra. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Mesmo as flores qu e tenh am esp inho? Sim. Mesmo as que têm . En tão . . . para que servem os esp inho s? Eu não sabia. Estava o cu padíssimo naqu ele in stante, ten tando desatarraxar do motor um p arafuso mu ito apertado. Minha pane co meçava a parecer dem asiado grave, e em b reve já n ão teria água p ara beber. . . — Para que servem os esp inhos? O prin cip ezinho jamais renun ciava a uma p ergunta, depo is qu e a tivesse feito. Mas eu estava irritado com o parafu so e respond i qu alquer co isa: — Espinho não serve p ara nada. São pura maldade d as flores. — Oh! Mas após um silêncio, eleme disse com uma espécie d e rancor: — Não acredito ! As flores são fracas. ingênuas. Defendem ­se como podem. Elas se julgam terríveis com os seus espinho s ... Não respondi. Naquele instan te eu pensava: "Se esse parafu so ain da resiste, vou fazê­lo saltar a m artelo". O p rincipezinho perturbou­me de novo as reflexões: — E tu pensas então que as flores ... — Ora! Eu n ão p en so nad a. Eu respondi qualquer coisa. Eu só m e ocupo com coisas sérias Ele olhou ­me estupefato: — Coisas sérias ! Via­m e, martelo em punh o, dedos sujo s de graxa, curvado sobre um feio ob jeto. — Tu falas como as pessoas grandes! Senti um pou co de vergo nha. Mas ele acrescentou, im placável: — Tu confundes todas as coisas ... Mistu ras tudo ! Estava realmente muito irritado. Sacud ia ao ven to cabelos de ou ro: — Eu conheço um planeta onde h á um sujeito verm elho, qu ase roxo. Nunca cheirou uma flo r. Nunca olhou uma estrela. Nun ca amou nin guém . Nunca fez o utra coisa senão somas. E o d ia todo repete http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com como tu: "Eu so u um hom em sério ! Eu sou um homem sério!" e isso o faz in ch ar­se d e o rgulho. M as ele n ão é um homem ; é um cogumelo! — Um o qu ê? — Um cogum elo ! O prin cip ezinho estava ago ra p álido d e cólera. — Há milhões e milhões d e anos qu e as flo res fab ricam esp inhos. Há milhões e m ilhõ es de ano s que o s carn eiro s as com em , ap esar d e tudo. E não será sério pro cu rar compreend er por que perdem tanto tempo fabricando esp inhos inúteis? Não terá importância a guerra do s carn eiro s e das flores? Não será m ais importante qu e as con tas do tal su jeito? E se eu , por m inh a vez, conh eço um a flo r única no mundo, que só existe no meu planeta, e que um belo dia um carneirinho pode liqu idar num só golpe, sem avaliar o qu e faz, — isto n ão tem importância?! Corou um pouco, e con tinuou em seguida: — Se alguém ama uma flor d a qual só existe um exemplar em m ilhões e m ilhõ es d e estrelas, isso basta p ara qu e seja feliz quando a contemp la. Ele pensa: "Min ha flor está lá, nalgum lugar. . . " Mas se o carneiro come a flo r, é para ele, bruscam ente, como se todas as estrelas se apagassem ! E isto não tem impo rtân cia! Não pôde dizer mais nada. Pôs­se b ruscamente a solu çar. A no ite caíra. Largu ei as ferram entas. Ria­me do martelo, do parafuso, d a sede e da mo rte. Havia numa estrela, num planeta, o m eu , a Terra, um prin cipezinho a conso lar! Tomei­o nos braço s. Emb alei­ o . E lh e d izia: "A flor que tu am as não está em perigo ... Vou desenhar uma pequ en a mordaça p ara o carn eiro... Um a armadu ra p ara a flor... Eu... " Eu não sabia o que dizer. Sentia­me d esajeitado. Não sabia como atingi­lo, ond e encon trá­lo... É tão misterioso, o país das lágrimas ! VIII Pude bem cedo conh ecer melho r aquela flor, Sempre houvera, no p lan eta do p equeno prín cip e, flores mu ito simples, o rnadas de um a só fileira d e pétalas, e que não o cupavam lugar nem incomodavam nin guém. Apareciam certa m anhã na relva, e já à tarde se extin gu iam. Mas aquela b rotara um d ia de um grão trazido não se sab e d e ond e, e http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com o principezinho vigiara de perto o pequeno bro to, tão d iferente do s outro s. Pod ia ser uma nova esp écie d e b aobá. Mas o arbusto lo go parou d e crescer, e começou então a preparar uma flor. O prin cip ezinho, que assistia à instalação de um en orme bo tão , bem sentiu qu e sairia dali uma aparição miracu losa; m as a flor n ão acabava m ais de preparar­se, de p reparar su a b eleza, no seu verde quarto. Escolhia as co res com cuidado. Vestia­se len tam en te, ajustava uma a uma su as p étalas. Não queria sair, como os cravo s, am arrotad a. No radioso esp lendo r da su a b eleza é que ela queria aparecer. Ah ! sim . Era vaid osa. Sua misteriosa toalete, po rtan to, durara d ias e dias. E eis qu e um a b ela manh ã, justamen te à ho ra d o sol nascer, havia­se, afinal, mostrad o. E ela, qu e se preparara com tanto esm ero , d isse, bo cejando : — Ah ! eu acabo de d espertar. . . Desculp a... Estou ainda toda desp en teada... O prin cip ezinho, então, não pôde conter o seu espanto : — Como és bo nita! — Não é? respond eu a flor docem ente. Nasci ao m esmo tempo que o sol... O principezinho percebeu logo qu e a flor não era modesta. Mas era tão comovente! — Creio qu e é hora do almoço, acrescentou ela. Tu pod erias cu idar de mim ... E o principezinho, emb araçado, fora buscar um regador com água fresca, e servira à flor. Assim, ela o afligira logo com su a mórbid a vaidad e. Um dia po r exemplo , falando dos seus quatro espinhos, d issera ao pequeno prín cip e: — É que eles podem vir, os tigres, com suas garras! http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com — Não há tigres no m eu planeta, objetara o principezinho. E depo is, os tigres não com em erva. Não sou uma erva, respond era a flor suavemente. Perdo a­me ... Não tenho receio do s tigres, mas tenho horro r das correntes de ar. Não terias acaso um p ára­ven to? "Horror d as corren tes d e ar... Não é muito bom para uma p lan ta, notara o p rincipezinho. é b em comp licada essa flor. . . " À noite m e co locarás sob a redom a. Faz muito frio no teu planeta. Está mal in stalado. De ond e eu venho ... Mas interrompeu­se d e súbito. Viera em forma de semente. Não pudera conhecer nada dos ou tros mundos. Hum ilhada por se ter deixado apanh ar numa mentira tão tola, tossiu duas ou três vezes, p ara pôr a culp a no p ríncipe: — E o pára ven to? — Ia buscá­lo. Mas tu m e falavas ... En tão ela redob rara a tosse p ara infligir­lhe remorso. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Assim o prin cip ezinho, ap esar d a boa vontade do seu amor, logo du vidara d ela. Tomara a sério palavras sem impo rtância, e se to rnara in feliz. "Não a d evia ter escutado — confessou­me um d ia — n ão se d eve nunca escutar as flo res. Basta olhá­las, asp irar o perfum e. A m inh a embalsamava o planeta, m as eu não me conten tava com isso. A tal h istória das garras, que tanto m e agastara, me d evia ter enternecido. Con fessou­m e ainda: "Não soube compreender co isa algum a! Devia tê­la julgado pelos ato s, não pelas p alavras. Ela me perfumava, m e iluminava ... Não d evia jamais ter fugido. Deveria ter­lh e adivinhado a ternura sob o s seu s pob res ardis. São tão con trad itórias as flores ! Mas eu era jovem d em ais p ara sab er amar." IX Creio qu e ele aproveitou, para evadir­se, p ássaro s selvagens que em igravam. Na m anhã d a p artid a, pôs o p lan eta em ordem. Revo lveu cuid adosam ente seu s dois vu lcõ es em ativid ad e. Po is possuía dois vu lcõ es. E era mu ito cômodo para esquen tar o almoço. Po ssu ía tamb ém um vulcão extinto. M as, como ele dizia: "Quem é que pod e garan tir?" revolveu também o extinto. Se eles são bem revo lvidos, os vu lcões queimam lentamente, regularmente, sem erup çõ es. As eru pções vu lcânicas são como fagulh as de lareira. Na terra, nós somos mu ito pequ enos p ara revo lver os vulcões. Por isso é que nos causam tanto dano . http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com O principezinho arrancou tamb ém , não sem um pouco d e m elancolia, os últimos rebentos de baobá. Ele julgava nunca mais voltar. Mas todos esses trabalho s familiares lh e p areceram , aqu ela manh ã, extrem am en te doces. E, quando regou pela ú ltima vez a flor, e se dispunha a colocá­la sob a redoma, p erceb eu que estava com vo ntade de chorar. — Adeus, d isse ele à flor. Mas a flor não respondeu. — Adeus, repetiu ele. Revolveu cuidado samente seu s do is vulcões A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado . — Eu fui uma tola, d isse po r fim. Peço­te p erdão. Trata de ser feliz. A ausên cia de cen su ras o su rpreendeu . Ficou parado, inteiram en te sem jeito, com a redom a no ar. Não podia compreend er essa calm a doçura. — É claro qu e eu te amo, d isse­lhe a flor. Fo i po r minha culpa que não sou beste de n ada. Isso n ão tem importância. Fo ste tão tolo quanto eu . Trata de ser feliz. . . Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela. — Mas o ven to .. . Não estou assim tão resfriada... O ar fresco d a noite m e fará bem. Eu sou uma flo r. — Mas os bicho s. .. — É preciso q ue eu suporte duas ou três larvas se qu iser conh ecer as borboletas. Dizem que são tão b elas! Do con trário , qu em virá visitar­me? Tu estarás longe ... Quanto ao s bichos grandes, não tenho m edo deles. Eu tenho as minhas garras. E ela mo strava in genuamente seu s quatro espinhos. Em seguida acrescentou : — Não demo res assim, qu e é exasp erante. Tu decid iste partir. Vai­te embo ra! Po is ela não queria que ele a visse chorar. Era um a flo r mu ito orgu lhosa ... http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com X Ele se achava na região do s asteróid es 325, 326, 327, 328, 329, 330. Começou, pois, a visitá­los,para procurar um a o cupação e se instruir. O primeiro era hab itado por um rei. O rei sentava­se, vestido d e púrpu ra e arminho, num trono muito simp les, posto que m ajestoso. Ah ! Eis um súdito , exclamou o rei ao dar com o p rincipezinho. E o prin cip ezinho p erguntou a si mesmo : Como pod e ele reconh ecer­m e, se jamais me viu? http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Ele não sab ia que, para os reis, o mundo é muito simplificado. To dos o s homens são súditos. — Aproxima­te, p ara que eu te veja m elhor, disse o rei, todo orgu lhoso de pod er ser rei p ara alguém. O principezinho p rocurou com o lhos onde sentar­se, mas o planeta estava todo atravan cado p elo m agnífico manto de arminho. Fico u, en tão, de p é. Mas, como estava can sado , bo cejou. É con tra a etiqu eta bocejar na fren te do rei, d isse o mon arca. Eu o pro íbo. — Não po sso evitá­lo, disse o p rincipezinho confuso. Fiz u ma lon ga viagem e não dorm i ainda... En tão , d isse o rei, eu te ordeno que bo cejes. Há anos qu e não vejo n inguém bocejar! Os bocejo s são u ma raridad e para m im. Vamo s, boceja! É uma o rd em ! — Isso me in timid a. .. eu n ão po sso mais... d isse o principezinho todo vermelho. — Hum ! Hum ! respondeu o rei. Então... então eu te o rdeno o ra bocejares e o ra... Ele gagu ejava um pouco e parecia vexado. Po rque o rei fazia qu estão fech ad a que sua autorid ad e fosse resp eitada. Não to lerava desobediência. Era um mon arca abso luto . Mas, como era muito bom, d ava o rden s razoáveis. "Se eu ordenasse, costum ava dizer, que um general se tran sfo rmasse em gaivo ta, e o general n ão me ob ed ecesse, a cu lpa não seria do gen eral, seria m inha." — Po sso sentar­me? interrogou timidamente o prin cip ezinho. — Eu te o rd eno que te sentes, respondeu­lh e o rei, que pu xou majesto sam ente um p edaço do m anto de armin ho. Mas o p rincipezin ho se esp an tava. O p lan eta era m inúsculo . Sobre quem reinaria o rei? — Majestade... eu vos p eço p erd ão de ou sar interrogar­vo s... — Eu­te o rdeno que me in terrogues, ap ressou­se o rei a declarar. — Majestade... sobre quem é que rein ais? — Sobre tudo, respondeu o rei, com uma grande simp licidade. — Sobre tudo? O rei, com um gesto discreto , designou seu planeta, os outro s, e também as estrelas. — Sobre tudo isso? — Sobre tudo isso. respondeu o rei. Po is ele não era ap en as um monarca absolu to, era também um mon arca universal. — E as estrelas vos ob ed ecem ? Sem dúvida, disse o rei. Obedecem pron tam en te. Eu não to lero ind iscip lina. Um tal poder m aravilhou o p rincipezinho . Se ele fo sse detentor do m esmo, teria podido assistir, não a qu arenta e quatro, mas a seten ta e dois, ou m esmo a cem, ou mesmo a du zentos pores­do­sol no mesmo dia, sem precisar sequ er afastar a cad eira ! E como se sentisse u m p ouco triste à lembrança do seu pequeno planeta ab andon ado, ousou so licitar do rei um a graça: — Eu d esejava ver um pôr­do — so l ... Fazei­m e esse favor. Ordenai ao sol que se ponh a. . . — Se eu ord en asse a m eu gen eral voar de uma flor a ou tra como borboleta, ou escrever uma tragéd ia, ou transfo rmar­se em gaivo ta, e o general n ão executasse a o rdem recebid a, quem — ele ou eu — estaria errado? http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com — Vós, respon deu com firmeza o p rincipezinho . — Exato. É p reciso exigir d e cad a um o que cada um pod e dar, replicou o rei. A auto ridade repousa sobre a razão. Se ord en ares a teu po vo que ele se lan ce ao mar, farão todos revo lução. Eu tenho o direito de exigir ob ed iên cia porqu e minhas ordens são razo áveis. — E m eu pô r­do­sol? lembrou o prin cip ezinho, q ue nunca esquecia a pergunta qu e houvesse fo rmu lado. — Teu pô r­do­sol, tu o terás. Eu o exigirei. Mas eu esperarei, n a m inh a ciência d e governo , qu e as cond içõ es sejam favoráveis. — Quando serão? ind agou o p rincipezinho. — Hein? resp ond eu o rei, que co nsultou in icialmente um grosso calend ário. Será lá po r volta d e ... po r volta de sete ho ras e quarenta, esta noite. E tu verás como sou bem obedecido. O p rincipezinho bo cejou . Lam entava o pôr— d o­sol qu e perdera. E d epois, já estava se aborrecendo um pouco! — Não tenho mais nada qu e fazer aqui, disse ao rei. Vou prosseguir m inh a viagem . — Não partas, respondeu o rei, que estava orgulho so de ter um súdito . Não partas: eu te faço min istro — Min istro de quê? — Da ... d a ju stiça — Mas não h á n inguém a julgar! — Quem sabe? d isse o rei. Aind a não dei a vo lta no meu reino. Estou muito velho, n ão tenho lugar p ara carruagem, e andar can sa­me muito. — Oh! Mas eu já vi, disse o príncip e que se inclinou p ara dar ainda uma olhadela do outro lado do planeta. Não consigo ver nin guém ... — Tu julgarás a ti mesmo, respondeu­lh e o rei. É o m ais d ifícil. É b em mais difícil ju lgar a si m esmo qu e julgar o s ou tros. Se con segues julgar­te bem, eis um verdadeiro sábio. — Mas eu p osso julgar­m e a mim próp rio em qualquer lugar, replicou o p rincipezinho. Não p reciso, p ara isso, ficar morando aqu i. — Ah ! disse o rei, eu tenh o quase certeza d e que há um velho rato no meu p lan eta. Eu o escu to d e noite. Tu pod erás julgar esse rato. Tu o condenarás à mo rte d e vez em quando : assim a su a vida depend erá da tua ju stiça. Mas tu o perdo arás cada vez, para economizá­lo . Po is só temos um. — Eu, respondeu o p rincipezinho, eu n ão gosto de condenar à mo rte, e acho que vou mesmo embora. — Não, disse o rei. Mas o princip ezinho, tendo acab ado o s preparativos, n ão quis afligir o velho monarca: — Se Vossa M ajestad e deseja ser prontamente obedecido, pod erá d ar­m e uma o rdem razoável. P oderia ordenar­me, por exemplo , que partisse em m enos de um minuto . Parece­m e que as condições são favoráveis ... Como o rei n ão dissesse n ada, o principezinho hesitou um pouco; depois suspiro u e partiu. — Eu te faço m eu embaixador, ap ressou­se o rei em gritar. Tinha um ar de grande autorid ad e. As pesso as grandes são muito esquisitas, pensava, du ran te a viagem o http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com p rincipezinho. XI O segundo p lan eta, um vaidoso o habitava. — Ah! Ah! Um adm irador vem visitar­me! exclamou d e lo nge o vaidoso , mal vira o príncip e. Po rque, p ara os vaidosos, o s outro s hom en s são semp re adm iradores. — Bom dia, d isse o principezinho . Você tem um ch ap éu en graçado. — É p ara agradecer, exclamou o vaido so . Para agradecer quando me aclam am. Infelizmente não p assa ninguém por aqu i. — Sim ? disse o prin cip ezinho sem compreender. — Bate as mãos uma na ou tra, aconselhou o vaidoso . O prin cip ezinho b ateu as mãos um a n a outra. O vaido so agradeceu modestamente, erguend o o ch ap éu . — Ah, isso é mais divertido qu e a visita ao rei, disse consigo m esmo o p rincipezinho. E recom eçou a bater as mãos um a na outra. O vaido so recomeçou a agrad ecer, tirando o chapéu. Apó s cinco m inutos de exercício , o p rincipezinho can sou­se com a m ono ton ia do b rinqu edo: — E p ara o chapéu cair, perguntou ele, que é preciso fazer? Mas o vaidoso n ão ou viu. Os vaidosos só ouvem os elogios. — Não é verd ad e que tu me admiras mu ito? perguntou ele ao principezinho . — Que qu er d izer admirar? — Admirar significa reconh ecer que eu sou o homem m ais belo, m ais rico, m ais in teligen te e m ais b em vestido de todo o planeta. — Mas só há vo cê no seu planeta! — Da­m e esse gosto. Admira­me mesmo assim! — Eu te adm iro, disse o p rincipezinho, d an do d e ombros. Mas como pode isso in teressar­te? http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com E o prin cip ezinho fo i­se embo ra. As pesso as grand es são decid idamente muito bizarras, ia pensando ele pela viagem afora. XII O planeta seguin te era habitado por um bêbado. Esta visita fo i muito cu rta, m as m ergulhou o prin cip ezinh o numa pro funda melan co lia. — Qu e fazes ai? p erguntou ao bêb ado, silenciosam en te in stalado d ian te de um a coleção d e garrafas vazias e um a co leção de garrafas ch eias. — Eu bebo, respondeu o bêbado, com ar lúgubre. — Po r que é qu e b eb es? pergun tou ­lhe o p rincipezinho . — Para esquecer, respondeu o beberrão . — Esqu ecer o qu ê? ind agou o p rincipezinho, que já começava a sen tir pena. — Esqu ecer que eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça. — Vergonh a d e quê? investigou o prin cip ezinho, que desejava socorrê­lo . Vergonh a de b eb er! concluiu o beberrão, encerrando­se definitivam en te no seu silêncio. E o prin cip ezinho fo i­se embo ra, perplexo. As pessoas grandes são decid idamente mu ito bizarras, dizia d e si p ara si, duran te a viagem . XIII O quarto p lan eta era o do hom em d e negócios. Estava tão ocupado que não levantou sequer a cabeça à ch egad a do p ríncipe. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com — Bom dia, d isse­lhe este. O seu cigarro está apagado. — Três e do is são cinco. Cinco e sete, do ze. Doze e três, quinze. Bom dia. Quinze e sete, vinte e dois. Vinte e dois e seis, vinte e o ito. Não há tempo para acender d e novo. Vinte e seis e c inco, trin ta e um. Uf ! São pois quinhento s e um m ilhõ es, seiscentos e vinte e dois m il, setecentos e trinta e um. — Quinhentos m ilhõ es d e quê? — Hem ? Ain da estás aqu i? Quinh en tos e um m ilhõ es de... eu n ão sei m ais ... Tenho tanto trabalho. Sou um su jeito sério, não me p reocup o com ninh arias! Dois e cinco, sete... — Qu inhentos m ilhõ es de quê? repetiu o principezinho, que nunca na sua vid a renun ciara a uma pergunta, um a vez que a tivesse feito. O homem d e negócios levantou a cabeça: Há cin qüenta e quatro anos que h ab ito este p lan eta e só fui incomodado três vezes. A prim eira vez fo i há vin te e dois anos, po r um besouro caído não sei d e onde. Fazia um b arulho terrível, e cometi qu atro erros na som a. A segu nda foi há onze ano s, por uma crise de reumatismo. Falta de exercício. Não tenho tempo para passeio. Sou um sujeito sério. A terceira... é esta! Eu d izia, portanto , quinh en tos e um milhões. .. — Milhões de quê? O homem d e negócios compreend eu qu e n ão havia esp erança d e paz: — Milhões dessas coisinhas que se vêem às vezes no céu. — Mo scas? — Não, não. Essas co isinhas qu e b rilham. — Abelhas? — Também não. Essas coisinhas douradas que fazem so nhar os o cio so s. Eu cá sou um sujeito sério. Não tenho tempo para d ivagações. Ah estrelas ? — Isso mesmo. Estrelas. — E que fazes tu de quinh en tos milhões de estrelas — Qu inh en tos e um milh ões, seiscentos e vinte e duas m il, setecento s e trinta e uma. Eu sou um sujeito sério. Gosto d e exatidão. — E que fazes tu dessas estrelas? — Que faço d elas ? — Sim . — Nad a. Eu as possuo. — Tu possuis as estrelas? — Sim . — Mas eu já vi um rei qu e ... — Os reis n ão possuem. Eles "reinam " sobre. É muito diferen te — E d e que te serve po ssu ir as estrelas? http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com — Serve­me para ser rico — E p ara qu e te serve ser rico? — Para comprar ou tras estrelas, se algu ém achar. — Esse aí —, d isse o principezinho para si m esmo —, racio cin a um pou co como o b êbado — No entanto, fez aind a algumas pergun tas. — Como pode a gente po ssu ir as estrelas? — De quem são elas? — resp ond eu , ameaçador, o homem d e n egócios — Eu não sei. De n inguém. — Logo são m inh as, porqu e p en sei p rimeiro. — Basta isso? — Sem d úvida. Quando achas um d iam an te qu e não é de ninguém, ele é teu. Quando achas um a ilha qu e n ão é d e ninguém, ela é tua. Quando ten s um a id éia primeiro, tu a fazes registrar: ela é tua. E qu an to a mim , eu po ssuo as estrelas, pois ningu ém an tes d e m im teve a idéia de as possuir. — Isso é verdade, disse o principezinho. E qu e fazes tu com elas? — Eu as admin istro . Eu as conto e reco nto, disse o hom em de negó cio s. É difícil. Mas eu sou um hom em sério ! O prin cip ezinho aind a não estava satisfeito. — Eu, se p ossuo um lenço, posso colocá­lo em torno do pesco ço e levá­lo co migo. Se possuo uma flor, po sso colh er a flor e levá­la com igo . M as tu não podes colh er as estrelas. — Não. Mas eu posso colocá­las no banco . — Que qu er d izer isto? — Isso quer dizer que eu escrevo num p ap elzinho o num ero das m inhas estrelas. Depois tranco o papel a ch ave numa gaveta. — Só isto? — E b asta... É d ivertido , pensou o principezinho. É b astante po ético. Mas n ão é muito sério . O prin cip ezinho tinh a, sobre as co isas sérias, idéias mu ito diversas d as id éias d as p essoas grandes. — Eu, disse ele ainda, po ssuo uma flor que rego todos o s dias. Possuo três vu lcõ es que revolvo tod a semana. Po rque revolvo tamb ém o que está extin to. A gente nunca sabe. É ú til para o s meus vu lcõ es, e útil p ara a minha flor qu e eu o s p ossua. Mas tu não és ú til às estrelas ... O homem de negócios abriu a bo ca, m as n ão achou n ad a a responder, e o p rincipezinho se foi ... As pessoas grandes são m esmo extrao rd inárias, repetia sim plesmente no p ercurso d a viagem . XIV O q uin to planeta era muito cu rioso. Era o meno r de tod os. M al dava p ara u m lamp ião e o acend edor de lamp iões ... http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com O principezinho não podia atin ar para que pud essem servir, no céu, num planeta sem casa e sem gente, um lamp ião e o acendedor d e lampiões. No entanto, disse consigo m esmo : — Talvez esse h om em seja m esmo ab su rdo. No entanto, é m enos ab surdo que o rei, qu e o vaido so, que o homem de negócios, que o b eb errão. Seu trab alho ao m enos tem um sen tido . Qu ando acend e o lampião, é como se fizesse nascer m ais uma estrela, m ais uma flo r. Qu ando o apaga, porém, é estrela ou flor qu e adormecem . É uma o cupação bonita. E é ú til, porque é bonita. Quando abordou o p lan eta, saudo u resp eitosam en te o acendedo r: — Bom dia. Por qu e acab as de apagar teu lampião? — Eu execu to uma tarefa terrível. É o regulam en to — respondeu o acendedor — Bom dia. — Que é o regulamento? — É apagar meu lampião. Boa noite. E to rnou a acender. — Mas por que acabas de o acend er d e novo? — É o regulamento, respond eu o acend edor. — Eu não compreendo, d isse o principezinho. — Não é p ara co mpreender, disse o acendedor. Regulamento é regu lam en to. Bo m d ia. E ap agou o lam pião. Em segu ida enxu gou a fro nte num len ço de quadrinhos vermelh os — Eu executo uma tarefa terrível. An tigamente era razo ável. Ap agava de m anhã e acend ia à noite. Tinha o resto do dia p ara descansar e o resto da noite p ara do rmir... — E d epois disso, mudou o regu lam en to? — O regulamento não mudou, disse o acendedor. Aí é q ue está o dram a ! O p lan eta de ano em ano gira m ais dep ressa, e o regulamento não mud a! — E então? disse o p rincipezinho — Agora, qu e ele d á um a volta por minuto, não tenho mais um segundo de repou so. Acendo e apago uma vez por minuto ! — Ah! q ue en graçado! Os dias aqui duram um m inu to! — Não é nad a engraçado, d isse o acendedor. Já faz um m ês que estamos conversando. — Um m ês? — Sim . Trin ta m inu tos. Trin ta dias. Boa noite. E acend eu o lampião. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com O principezinho considerou­o, e amou aquele acend edor tão fiel ao regulam ento. Lemb rou­se dos pores­do ­sol que ele m esm o produzia, recu ando um pouco a cad eira. Quis ajud ar o am igo. — Sabes .? Eu sei de um modo de descansar quando qu iseres ... — Eu semp re quero, d isse o acendedor. — Po is a gen te pod e ser, ao m esmo tempo , fiel e preguiçoso. E o prin cip ezinho p rossegu iu: — Teu planeta é tão pequeno, que podes, com três passo s, dar­lh e a volta. Basta andares lentamente, bem lentamente, d e modo a ficares sempre ao sol. Quando quiseres d escansar, caminharás ... e o d ia durará quanto qu eiras. — Isso n ão adianta mu ito, d isse o acendedo r. O q ue eu gosto mais na vida é de dormir. — Então não h á remédio , disse o p rincipezinho. — Não há rem édio, disse o acendedo r. Bom dia. E apagou seu lampião. — Esse aí, disse p ara si o prin cip ezinho, ao prossegu ir a viagem para m ais longe, esse aí seria desprezado por todos Os Outro s, o rei, o vaidoso, o b eb errão, o homem de negócios. No entanto, é o único que não m e p arece ridículo. Talvez porque é o ún ico qu e se ocup a d e outra coisa que não seja ele próprio. Su spirou de pesar e disse ainda: Era o únicoque eu podia ter feito meu am igo. Mas seu planeta é m esmo pequ eno d em ais. Não há lu gar para dois ... O qu e o principezinho não ou sava confessar é que os mil quatrocentos e quarenta pores­do ­so l em vinte e quatro horas davam­lhe certa saudade do ab en ço ado planeta! XV O sexto planeta era dez vezes maior — Era habitado por u m velho que escrevia livros enorm es. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com — Bravo! eis um explo rado r! exclamou ele, logo que viu o principezinho. O prin cip ezinho assentou­se na mesa, o fegante. já viajara tan to! — De ond e ven s? perguntou­lhe o velho. — Que livro é esse? perguntou ­lhe o principezinho . Que faz o senhor aqu i? — Sou geógrafo , respond eu o velho. — Que é um geógrafo? pergun tou o p rincipezinho . — É um sábio qu e sabe ond e se encon tram o s mares, os rio s, as cidades, as montanh as, o s desertos. É b em interessan te, disse o principezinho. Eis, afinal, um a verd ad eira pro fissão! E lançou um o lhar, em torno de si, no planeta do geógrafo. Nunca havia visto planeta tão m ajestoso. — O seu planeta é muito bonito. Haverá oceano s nele? — Como h ei de saber? disse o geógrafo. — Ah! (O prin cip ezinho estava d ecep cionado.) e mon tanhas? — Como h ei de saber? disse o geógrafo. — E cidades, e rios, e desertos? — Como h ei de saber? disse o geógrafo p ela terceira vez. — Mas o senho r é geó grafo — É claro, disse o geó grafo; m as não sou exp lorador. Há um a falta absoluta d e explorado res. Não é o geógrafo que vai contar as cidades, o s rio s, as mon tan has, o s m ares, o s o ceanos, os desertos. O geó grafo é mu ito importante p ara estar passeando . Não deixa um instante a escrivaninh a. Mas recebe os exploradores, interroga­os, anota as su as lemb ranças. E se as lemb ran ças de alguns lhe p arecem interessantes, o geógrafo estabelece um inquérito sob re a moralidade do explorado r — Po r quê? — Po rque um explo rado r qu e m en tisse produziria catástro fes no s livros d e geografia. Como o explorador que bebesse demais. — Po r quê? pergun tou o p rincipezinho. — Porque o s b êb ados vêem dob rado. Então o geó grafo anotaria duas montanh as onde há uma só. — Conheço alguém, disse o prin cip ezinho, que seria um mau exp lorador. — É possível. Pois bem, q uando a mo ralid ad e do explorado r p arece boa, faz­se uma investigação sobre a su a descoberta. — Vai­se ver? — Não. Seria muito complicado. Mas exige­se do explo rad or que ele forneça p rovas. Tratando­se, por exemplo, de um a grande montanha, ele trará grand es pedras. O geógrafo, de súbito, se en tusiasmou : — Mas tu ven s de longe. Tu és explo rador ! Tu me vais descrever o teu p lan eta ! http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com E o geógrafo, tendo ab erto o seu cad erno , apontou o seu lápis. Ano tam ­se p rimeiro a lápis as narrações dos exp loradores. Esp era­se, para cobrir à tinta, qu e o explorad or tenh a fo rnecido pro vas. — Então? in terro gou o geó grafo. Oh ! onde eu m oro, disse o prin cip ezinho, n ão é in teressante: é mu ito p equeno. Eu tenho três vulcões. Dois vulcões em atividade e um vulcão extin to. A gen te nun ca sab e . .. — A gente nunca sabe, repetiu o geógrafo. — Tenho também uma flo r. — Mas nós n ão anotamo s as flores, disse o geó grafo . — Po r que n ão ? É o m ais bonito ! — Po rque as flores são efêm eras. — Que qu er d izer "efêmera"? — As geo grafias, disse o geógrafo, são o s livros de mais valor. Nun ca ficam fo ra d e moda. É muito raro que um monte troqu e d e lu gar. É mu ito raro um oceano esvaziar­ se. Nós escrevem os co isas etern as. — Mas o s vulcões extinto s podem se reanim ar, interromp eu o principezinho. Qu e quer dizer "efêmera"? — Qu e o s vu lcões estejam extinto s ou não, isso dá no m esmo para nó s, d isse o geógrafo . O qu e nos interessa é a mon tanha. Ela não m uda. — Mas q ue quer dizer "e fêm era" repetiu o princip ezinho, qu e nun ca, na sua vida, renun ciara a uma pergunta qu e tivesse feito . — Quer dizer "ameaçad a de próxima desap arição ". — Minha flor esta ameaçada de pró xim a d esaparição? — Sem dúvida. — Minha flor é efêmera, disse o prin cipezinho, e não tem mais que quatro espinhos para defend er­se do mundo! E eu a deixei sozinha! Fo i seu prim eiro mo vim en to d e remo rso. Mas retomou coragem : — Que me aconselh a a visitar? pergun tou ele. — O planeta Terra, respond eu ­lhe o geó grafo. Goza de grande reputação ... E o prin cip ezinho se foi, pen sando n a flor. XVI O sétimo planeta fo i po is a Terra. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com A Terra não é um planeta qualqu er! Con tam ­se lá cento e onze reis (não esquecendo, é claro, os reis n egros), sete mil geógrafos, no vecento s mil n egociantes, sete m ilhõ es e m eio de beberrõ es, trezento s e on ze milhões d e vaidosos isto é, cerca de dois b ilhões de pessoas grandes. Para dar­lhes uma id éia d as d imensões da Terra, eu lh es d irei que, antes d a in venção da eletricidad e, era necessário m an ter, p ara o con junto do s seis contin en tes, um verdadeiro exército de quatrocentos e sessenta e dois m il qu inhentos e onze acend edores d e lamp iões. Isto fazia, visto um pouco de longe, um magn ífico efeito. Os movimento s desse exército eram ritmados como o s de um balé d e ópera. Primeiro vinh a a vez dos acend edores de lampiões d a Nova Zelândia e d a Austrália. Esses, em seguid a, acesos os lamp iões, iam dormir. Entrava por su a vez a dança dos acendedo res d e lamp iões da Chin a e da Sib éria. E também desapareciam no s b astido res. Vinha a vez dos acendedores d e lamp iões da Rússia e das índ ias. Depois os d a África e da Europa. Depo is os da América do Sul. Os d a Am érica do Norte. E jamais se en ganavam na ord em de en trad a, quando ap areciam em cena. Era um espetáculo grandio so. Apenas dois, o acendedo r do único lampião do Po lo Norte e o seu co lega do único lamp ião do Polo Su l, levavam vida ociosa e descuid ad a: trabalhavam duas vezes por ano. XVII Quando a gente quer fazer graça, mente às vezes um pouco. Não fu i lá mu ito honesto ao lh es falar d os acendedores de lampiõ es. Corro o risco de dar, àqueles q ue não conhecem o nosso planeta, uma falsa idéia d ele. Os homens ocup am , na verdade, mu ito pouco lu gar na superfície da Terra. Se os dois b ilhõ es de habitantes que po voam a Terra se m an tivessem de pé, co lados um ao outro, como p ara um com ício , acomodar­se­iam facilmen te numa p raça pública de vinte milh as de comp rimento por vinte de largura. Poder­se­ia ajuntar a hum an idade tod a n a menor d as ilh as do Pacífico . As p essoas grandes n ão acreditarão, é claro. Elas ju lgam ocup ar mu ito espaço. Im aginam­se tão impo rtan tes com o o s baobás. Digam­lhes po is que façam o cálculo. Elas adoram o s núm ero s; ficarão con ten tes com isso. Mas vo cês não percam tempo com esse p roblema de aritmética. inútil. Vocês acreditam em mim. O prin cip ezinho, uma vez na Terra, ficou, po is, mu ito su rpreso de não ver n ingu ém. já receara ter se engan ado de planeta, quando um anel cor de lua remexeu n a areia. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com — Boa no ite, disse o p rincipezinho, inteiram ente ao acaso. — Boa no ite, disse a serpen te. — Em que p lan eta m e encon tro? pergun tou o p rincipezinho. — Na Terra, na África, respond eu a serpente. — Ah! ... E n ão há nin guém na Terra ? — Tu és um b ich inho engraçado , disse ele, fino como um d ed o., . — Aq ui é o deserto. Não h á nin gu ém nos d esertos. A Terra é gran de, d isse a serp en te. O prin cip ezinho sentou­se numa p ed ra e ergueu o s olho s para o céu: — As estrelas são todas ilum inadas ... Não será para qu e cad a um possa um dia encontrar a sua? Olh a o meu planeta: está justamente em cim a d e nó s ... Mas como está longe ! — Teu p lan eta é belo, disse a serp ente. Qu e ven s fazer aqui? — Tive d ificu ldades com uma flor, d isse o príncip e — Ah! exclam ou a serpente. E se calaram. — Onde estão os homens ? rep etiu en fim o princip ezính o. A gen te está um pou co só no d eserto. — Entre o s hom en s tam bém, disse a serp ente. O prin cip ezinho o lhou­a longam en te. — Tu és um b ich inho engraçado , disse ele, fino como um d ed o... — Mas sou m ais pod erosa do qu e o dedo de um rei, disse a serp en te. O prin cip ezinho sorriu . — Tu n ão és tão poderosa assim...não tens sequer umas patas ... não podes sequ er viajar... — Eu posso levar­te mais lon ge que um n avio, d isse a serpente. Ela enrolou­se n a pern inh a do p ríncipe, como um bracelete de ouro : Aqu ele qu e eu to co , eu o d evo lvo à terra d e onde veio, continuou a serpen te. Mas tu és puro. Tu ven s de uma estrela ... O prin cip ezinho n ão respond eu. Tenho pena de ti, tão fraco, nessa Terra de granito. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Po sso ajudar­te um d ia, se tiveres mu ita saud ad e do teu planeta. Posso ... — Oh! Eu compreendi muito b em, d isse o prin cip ezinh o. Mas por que falas sempre po r en igm as? Eu os reso lvo todos, disse a serpente. E calaram­se o s dois. XVIII O principezinho atravessou o deserto e encon trou apenas uma flo r. Um a flor d e três pétalas, um a florzinha a toa... — Bom dia, d isse o príncipe. — Bom dia, d isse a flor. — Onde estão os homens ? pergun tou polidamente. A flor, um dia, vira p assar uma caravan a: — Os h om ens? Eu creio qu e existem seis ou sete. Vi­os há mu itos anos. Mas não se pod e nunca sab er onde se encontram. O vento os leva. Eles não tem raízes. Eles não gostam das raízes. — Adeus, d isse o p rincipezinho . — Adeus, d isse a flor. XIX O principezinho escalou um a grand e montanh a. As únicas montanh as qu e http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com conhecera eram os três vulcões que lh e d avam pelo jo elh o. O vulcão extinto servia­lhe de tamborete. "De m ontanh a tão alta, pen sava ele, verei todo o plan eta e to dos os homens. Mas só viu agulhas d e ped ra, pon tud as. — Bom dia, d isse ele inteiram en te ao léu . — Bom dia ... Bom dia ... Bom dia ... respondeu o eco. — Quem és tu? perguntou o principezinho . — Quem és tu ... quem és tu ... qu em és tu... respondeu o eco. — Sêde meus amigos, eu estou só, d isse ele. — Estou só ... estou só ... estou só , resp ond eu o eco. Este planeta é todo seco, p ontudo e salgado . "Que planeta en graçado pensou então. É todo seco , pontudo e salgado. E os homens não têm imagin ação. Rep etem o qu e a gente diz ... No meu p lan eta eu tinha um a flo r: ­e era semp re ela qu e falava primeiro. " XX Mas aconteceu que o principezinho , tendo andado muito tem po pelas areias, pelas rochas e pela neve, d escobriu, enfim, um a estrada. E as estradas vão tod as na direção dos homens. — Bom dia, d isse ele Era um jard im ch eio de rosas. — Bom dia, d isseram as ro sas. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com O prin cip ezinho con templou­as. Eram tod as iguais a sua flor. — Quem sois? perguntou ele estup efato. — Somos ro sas, disseram as rosas. — Ah! exclam ou o p rincipezinho. . E ele sentiu­se extremamente in feliz. Su a flor lhe h avia con tado que ela era a única d e sua esp écie em todo o universo. E eis que havia cin co mil, igualzinhas, num só jard im ! "Ela haveria d e ficar b em vermelha, pensou ele, se visse isto ... Começaria a tossir, fin giria m orrer, p ara escapar ao rid ícu lo. E eu então teria que fin gir que cu idava d ela; porqu e se não, só para m e hum ilhar, ela era bem capaz d e morrer de verdade. . . " Depois, refletiu ainda: "Eu m e ju lgava rico de um a flo r sem igual, e é apenas um a rosa comum que eu possuo. Uma rosa e três vulcões que m e dão pelo jo elho, um dos quais extinto p ara sem pre. Isso não faz de mim um prín cip e muito grande. . . " E, deitado n a relva, ele chorou . XXI E fo i então que ap areceu a raposa: — Bom dia, d isse a raposa. — Bom d ia, respon deu po lidamente o prin cipezinho, que se voltou, m as não viu n ada. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira... — Quem és tu? perguntou o principezinho . Tu és b em bonita... — Sou uma rap osa, disse a raposa — Vem brin car comigo, propôs o p rincipezinho . Estou tão triste — Eu não posso brin car contigo, disse a raposa. Não me cativaram aind a. — Ah! d escu lpa, d isse o p rincipezinho . Apó s uma reflexão, acrescen tou: — Que qu er d izer "cativar"? — Tu não és daqui, disse a raposa. Que pro curas ? — Pro curo os h omens, disse o prin cip ezinho — Que qu er d izer "cativar"? — Os homens, d isse a raposa, têm fuzis e caçam. É b em incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante qu e eles fazem — Tu p rocu ras galinhas? — Não, disse o p rincipezinho. Eu p rocuro amigos. Que quer dizer "cativar"? — É u ma co isa muito esquecid a, disse a raposa. Significa "criar laços. — Criar laços? Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para m im senão um garo to in teiramente igu al a cem m il ou tros garotos. E eu não tenho necessidad e d e ti. E tu não tens também necessid ad e d e m im. Não p asso a teu s o lho s d e uma raposa igual a cem m il outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessid ad e um do outro. Serás para m im o ún ico no mundo. E eu serei para ti única no mu ndo... — Com eço a comp reend er, d isse o principezinho . Existe uma flor. . . eu creio qu e ela me cativou ... — É possível, disse a rapo sa. Vê­se tanta co isa n a Terra ... — Oh! n ão foi n a Terra, disse o prin cip ezinho. A raposa pareceu intrigad a: — Num outro planeta? — Sim . — Há caçadores nesse planeta ? — Não. — Que bom ! E galinhas? — Também não. — Nad a é p erfeito, susp irou a rapo sa. Mas a rapo sa voltou à sua idéia. — Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os hom ens me caçam. Todas as galinhas se p arecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me abo rreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vid a será como qu e cheia de so l. Conhecerei um http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com b arulho de passo s qu e será diferente dos outro s. Os outro s passo s me fazem en trar d ebaixo da terra. — O teu me ch am ará p ara fo ra da toca, como se fosse mú sica. E d ep ois, olh a! Vês, lá longe, os camp os de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inú til. Os campo s d e trigo n ão me lembram coisa alguma. E isso é triste Mas tu tens cabelos cor d e ouro. En tão será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, q ue é do urado, fará lemb rar­me d e ti. E eu amarei o barulho do ven to no trigo .. . A raposa calou ­se e considerou por muito tempo o prín cip e: — Po r favor... cativa­me disse ela. — Bem qu isera, d isse o principezinho , m as eu n ão tenho mu ito tempo. Tenho amigos a descob rir e muitas coisas a conh ecer. — A gente só conhece bem as co isas que cativou, disse a raposa. Os ho mens não têm mais tempo de conhecer coisa algum a. Comp ram tudo prontinho nas lojas. Mas como n ão existem lo jas de am igo s, o s hom en s n ão têm m ais amigos, Se tu qu eres um amigo, cativa­m e! — Que é preciso fazer? pergun tou o p rincipezinho. — É preciso ser p aciente, respondeu a raposa. Tu te sen tarás primeiro um pouco longe de mim, assim , na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu n ão dirás n ad a. A lin guagem é uma fon te de mal­en tendido s. Mas, cada dia, te sentarás mais perto ... No d ia segu inte o principezinho vo ltou. — Teria sido melhor voltares à m esm a hora, disse a rapo sa. Se tu vens, por exemp lo, às qu atro da tard e, desd e as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: d escobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualqu er momento, nunca sab erei a hora de preparar o co ração ... É preciso ritos. — Que é um rito? pergun tou o p rincipezinho . — É um a coisa mu ito esquecida também, d isse a raposa, É o qu e faz com qu e um d ia seja diferen te do s outros dias; uma hora, das outras horas. Os m eu s caçadores, por exemp lo, po ssu em um rito . Dançam na q uin ta­feira com as moças da ald eia. A quin ta­ feira então é o d ia maravilho so! Vou passear até a vinha. Se o s caçadores d ançassem qualquer dia, o s dias seriam todos iguais, e eu não teria férias ! http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, qu ando ch egou a hora da partida, a raposa disse: — Ah ! Eu vou cho rar. — A cu lpa é tua, disse o principezinho, eu não te qu eria fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse ... — Quis, d isse a raposa. — Mas tu vais cho rar ! d isse o principezinho. — Vou, disse a rapo sa. — Então, não sais lucrando nad a ! — Eu lucro, d isse a raposa, por causa da co r do trigo. Depois ela acrescentou: — Vai rever as rosas. Tu compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer ad eus, e eu te farei presente de um segred o. Fo i o principezinho rever as rosas: — Vó s não so is absolu tam en te igu ais à minha rosa, vós n ão sois nada ainda. Ninguém ainda vos cativou, n em cativastes a ningu ém . Sois como era a minha rapo sa. Era um a rapo sa igual a cem m il outras. Mas eu fiz dela um am igo . Ela é agora única no mundo . E as rosas estavam desapontadas. — Sois belas, mas vazias, d isse ele aind a. Não se pod e mo rrer po r vós. Minh a rosa, sem dú vid a um transeu nte qu alquer pensaria qu e se parece con vosco. Ela sozinh a é, porém , m ais importante qu e vós todas, pois foi a ela que eu reguei. Fo i a ela que pu s sob a redoma. Foi a ela que abriguei com o pára­ven to. Foi dela que eu matei as larvas (exceto duas ou três por causa das bo rboletas). Fo i a ela qu e eu escu tei queixar­se ou gabar­se, ou mesmo calar­se algumas vezes. É a minha rosa. E voltou, então, à rapo sa: — Adeus, d isse ele... — Adeus, disse a rapo sa. Eis o meu segredo. É mu ito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os o lho s. — O essen cial é invisível para os o lho s, repetiu o p rincipezinho , a fim d e se lemb rar. — Fo i o tempo que perdeste com tua ro sa qu e fez tua rosa tão importante. — Fo i o temp o qu e eu p erd i com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar. — Os h omens esqu eceram essa verdad e, disse a rap osa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te to rnas eternam ente responsável p or aquilo qu e cativas. Tu és respon sável p ela rosa... — Eu sou respon sável pela minha rosa... rep etiu o p rincipezin ho, a fim d e se http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com lemb rar. XXII — Bom dia, d isse o principezinho . — Bom dia, respondeu o guarda­ch aves. — Que fazes aqu i? perguntou­lh e o prin cipezinho. — Eu divido o s passageiros em blocos de mil, disse o gu ard a­chaves. Despacho os trens qu e os carregam, ora para a direita, ora para a esq uerd a. E um rápido ilumin ado, roncando com o um trovão , fez tremer a cabine do gu ard a­ chaves. Eles estão com mu ita pressa, disse o p rincipezinho. O qu e é que estão p rocurando? — Nem o hom em da lo comotiva sabe, d isse o guarda­chaves. E tro vejou , em sen tido inverso, um outro rápido iluminado . — Já estão de volta? perguntou o prin cip ezinho.. . — Não são os mesmo s, disse o gu ard a­chaves. É um a tro ca. — Não estavam con ten tes onde estavam? — Nunca estamo s con ten tes ond e estamos, d isse o guarda­chaves. E um terceiro rápido, ilum inado , trovejou. — Estão perseguindo o s primeiros viajantes? pergun tou o principezinho. — Não perseguem nada, disse o guarda­ch aves. Estão do rmind o lá dentro, ou bocejando — Só as crian ças esmagam o n ariz nas vid raças. — Só as crianças sab em o que procuram, disse o p rincipezinho. P erdem tempo com um a boneca d e p ano, e a boneca se to rna mu ito impo rtan te, e cho ram qu ando a gente a tom a ... — Elas são felizes .. . disse o guard a­chaves. XXIII — Bom dia, d isse o principezinho . — Bom dia, d isse o vendedo r. Era um vend edor de pílulas aperfeiçoadas qu e aplacavam a sede. Tom a­se um a por semana e n ão é mais preciso b eb er. — Po r que vendes isso? p erguntou o principezinho . — É u ma grande economia de tempo , d isse o vendedor. Os peritos calcularam — A gente ganh a cinqüenta e três m inutos po r semana. — E que se faz, en tão , com os cinqü en ta e três minutos? — O qu e a gente quiser... “Eu, p ensou o p rincipezinho, se tivesse cinqüenta e três minu tos para gastar, iria cam inh ando passo a p asso, m ão s no bolso , na direção de um a fo nte. . . ” http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com XXIV Estávamos no oitavo dia d e m inh a p an e. justam en te quando bebia a última gota d a m inha Pro visão de água, fo i qu e ouvi a história do vend edor. — Ah! disse eu ao principezinho, são bem bonitas as tuas lembran ças, mas eu não consertei aind a m eu avião, não tenho mais nada para beber, e eu seria feliz, eu também, se pud esse ir caminhando passo a passo , mãos no bolso, na direção d e u ma fon te! — Minha am iga raposa me disse ... Meu caro , n ão se trata mais de raposa . — Po r quê? — Po rque vamo s mo rrer de sede ... Ele não compreendeu o meu raciocínio, e respondeu: — É bom ter tido um amigo, mesmo se a gente vai morrer. Eu estou mu ito conten te d e ter tid o a raposa po r am iga... — Não avalia o perigo, disse eu. Não tem n unca fome ou sed e. Um raio de sol lhe b asta. Mas ele m e o lho u e respond eu ao qu e eu pen sava: — Tenho sed e também ... procuremo s um POÇO ... — Eu fiz um gesto de desan imo: é ab surdo pro cu rar um poço ao acaso , n a im en sidão do deserto . No entanto , pu semo­nos a cam inho. Já tính amos an dado horas em silên cio qu ando a n oite caiu e as estrelas começaram a brilh ar. Eu as via como em sonho, porque tinh a um pou co de feb re, por causa da sede. As palavras do prin cip ezinho d an çavam­m e n a m emória: — Tu ten s sede tamb ém ? p erguntei­lhe. Mas não respondeu à min ha pergu nta. Disse apen as: — A água pode ser boa para o co ração ... Não comp reend i sua respo sta e calei­me... Eu b em sab ia que não adiantava in terro gá­lo. Ele estava can sado — Sentou ­se. Sentei­m e junto dele. E, após um silên cio , disse ainda: — As estrelas são belas por cau sa d e uma flor que não se vê... Eu respondi "m esmo" e fitei, sem falar, a ondulação d a areia enlu arada.. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com — O deserto, belo, acrescentou ... E era verdade. Eu sempre amei o deserto. A gente se sen ta numa du na d e areia. Não se vê nada. Não se escuta nada. E no entanto, no silêncio,alguma coisa irradia... e .. O qu e torn a belo o deserto, d isse o principezinho, é que ele esconde um poço n algum lugar. Fiquei surp reso po r compreend er de súb ito essa misteriosa irradiação da areia. Quando eu era pequ eno, h ab itava um a casa antiga, e diziam as­lendas que ali fo ra enterrado um tesouro. Nin guém, é claro, o conseguira descob rir, n em talvez m esm o o p rocu rou. Mas ele en cantava a casa tod a — M inha casa esco ndia u m tesouro no fundo do coração. . . — Qu er se trate d a casa, das estrelas ou do deserto, d isse eu ao p rincipezinho , o que faz a su a beleza é in visível ! — Estou contente, d isse ele, que estejas de acordo com a rapo sa. Como o principezinho adormecesse, tomei­o nos braço s e pro ssegui a cam inhada. Eu estava como vido . Tinha a impressão d e carregar um frágil tesouro . Parecia­m e m esm o n ão h aver n a Terra nada mais frágil. Considerava, à lu z da lua, a fronte pálida, os olhos fech ados, as m echas d e cabelo qu e tremiam ao ven to. E eu p en sava: o que eu vejo n ão é m ais que um a casca. O mais importan te é invisível.. , Como seus láb ios entreabertos esboçassem um so rriso, pensei ainda: "O q ue tan to m e comove nesse príncipe adorm ecido é sua fidelidade a um a flo r; é a imagem de uma rosa que brilh a nele como a chama de u ma lâmpada, mesmo qu ando dorme. . . " Eu o p ressentia então mais frágil ainda. É p reciso p ro teger as lâmp adas com cuidado: um sopro as pode ap agar.. . E, camin hando assim, eu descobri o poço. O dia estava raiando. XXV — Os h omens, d isse o prin cip ezinho, se enfurnam no s rápidos, m as não sab em o que procuram. Então eles se agitam, ficam rodando à toa ... E acrescentou: — E isso n ão ad ianta ... O po ço a que tính am os ch egado não se parecia d e fo rma algum a com os po ço s do Saara. OS poços do Saara são simples buracos na areia. Aq uele, parecia u m po ço de aldeia — M as não havia ali ald eia alguma, e eu julgava sonhar. — É estranho, d isse eu ao prin cip ezinh o, tudo está preparado : a ro ldana, o b alde e a co rda. Ele riu, pegou a corda, fez girar a roldana. E a roldan a gemeu como gemem os velhos cata­ventos quando o ven to dorm iu por muito tempo . — Tu escutas? disse o p ríncipe. Estamos aco rdando o poço, ele canta ... http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Eu não queria que ele fizesse esforço: — Deixa que eu puxe, d isse eu , é mu ito pesado para o teu tamanho. Lentamente, icei o balde até em cima, e o instalei co m cuidado na bo rda do poço. Nos m eus ouvidos p erm anecia ainda o can to da ro ldana, e na água, qu e aind a brilhava,via tremer o so l. — Tenho sed e d essa água, disse o prin cip ezinho. Dá­me de beber ... E eu compreendi o qu e ele havia bu scado! Levantei­lhe o b ald e até a boca. Elebebeu , d e o lhos fech ados. Era doce como uma festa. Essa águ a era muito mais que um alim en to. Nascera da caminhada sob as estrelas, do can to d a ro ldana, do esforço do m eu braço . Era bo a p ara o coração, como um presente. Quando eu era pequ eno, todo o esplendor do presente de Natal estava também n a lu z d a árvore, n a música d a m issa d e m eia­no ite, na do çu ra dos risos ... — Os hom en s do teu p laneta, d isse o p rincipezinho , cu ltivam cin co mil ro sas num m esmo jardim ... e n ão en contram o que p rocuram ... — Não en contram, respondi... E no entanto o qu e eles buscam poderia ser ach ado numa só rosa, ou num pouquinho d'águ a ... — É verdade. E o prin cip ezinho acrescentou: — Mas os olhos são cego s. É preciso bu scar com o co ração ... Eu havia bebido . Respirava facilm en te. A areia é cor d e m el quando am anhece. E a co r de m el m e fazia feliz. Po r qu e h averia eu de estar triste ? ... — É preciso, d isse baixinho o príncipe, qu e cumpras a tua prom essa. Ele estava, d e novo , sentado junto de mim. — Que promessa? — Tu sabes ... a mordaça do m eu carneiro ... eu sou responsável pela flor! Tirei do bo lso as m inh as ten tativas de d esenho . o p rincipezinho o s viu e disse rindo: — Teus baob ás parecem u m pouco repo lho s. .. — Oh! Eu estava tão orgulhoso dos meus b aobás! — Tua raposa. . . as o relh as dela. . . parecem chifres. . . são compridas demais. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Ele riu outra vez. — Tu és in justo, meu b em, eu só sabia desenhar jibó ias abertas e fechadas ... Não faz m al, disse ele, as crianças entendem. Rabisquei, portanto, uma pequena mo rdaça. Mas sen tia, ao entregá­la, um aperto no coração: Tu ten s projetos que eu ignoro ... Ele não me respo ndeu. Mas d isse: — Lembras­te da minha queda na Terra? Amanhã será o an iversário... Depois, apó s um silêncio, acrescen tou : — Caí pertinho daqu i ... E ficou vermelho ao dizê­lo. E de novo, sem compreender po rque, eu sentia um estranho pesar. No entanto, o correu­m e a pergunta: — Então não foi por acaso q ue vagavas sozinho, quando te en contrei, há oito dias, a milhas e m ilhas de qu alquer região habitada! Não estarias vo ltando ao ponto da qu ed a? O prin cip ezinho ficou vermelho de no vo. E eu acrescentei, h esitando: — Terá sido por causa do an iversário? .. . O p rincipezinho ficou mais verm elho. Não respond ia nunca às pergun tas. Mas quando a gen te fica vermelho, não é o mesmo que d izer "sim "? — Ah ! d isse­lhe eu, eu tenho m edo . .. Mas ele respondeu : — Tu deves ago ra trabalhar. Ir em bu sca do teu ap arelho . Esp ero ­te aqui. Volta amanh ã d e tarde. . . Mas eu não estava tranqüilo. Lembrava­me da raposa. A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar... XXVI Havia, ao lado do poço, a ru ína de um velho muro d e pedra. Qu ando vo ltei do trabalho , no dia seguinte, vi, d e longe, o prin cip ezinho sen tado no alto, com as pern as b alançan do. E eu o escutei dizer: — Tu não te lembras en tão? Não fo i bem aqui o lugar Uma ou tra voz devia responder­lh e, porque rep licou em segu ida: — Não ; não estou en ganado. O dia é este, mas não o lugar... Pro ssegui o caminho p ara o muro. Continuava a n ão ver nin gu ém . No entanto o p rincipezinho replicou no vamente: — Está bem. Tu verás ond e começa, na areia, o sinal dos m eu s passo s. Basta esperar­me. Estarei ali esta noite. Eu me achava a vin te m etro s do mu ro e con tinu ava a não ver n ad a. O p rincipezinho disse aind a, apó s um silên cio : — O teu veneno é do bom ? Estás certa de qu e n ão vou sofrer mu ito tem po? Parei, o coração apertado, sem compreender ainda. — Ago ra, vai­te embora, disse ele ... eu quero descer! http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com En tão baixei os olhos para o pé do mu ro, e dei um salto! Lá estava, erguid a p ara o p rincipezinho, uma dessas serp en tes am arelas qu e nos liquidam num minuto . Enqu an to p rocu rava o revólver no bolso, dei um a rápid a corrid a. Mas, p erceb endo o b arulho, a serpente se foi encolh endo lentamente, como um repuxo que mo rre. E, sem se ap ressar d em ais, enfiou­se entre as pedras, num leve tinir de m etal. Chegu ei ao muro a temp o de receber nos braço s o meu caro prin cip ezinho, p álido como a neve. — Que história é essa? Tu conversas ago ra com as serpen tes? Desatei o nó do seu eterno lenço dourado. Umedeci— lhe as têmpo ras. Dei­lh e água. E agora, não ou sava perguntar­lhe coisa alguma. Olhou­me gravemente e passou­ m e os b racinho s no p esco ço. Sentia­lhe o coração bater d e encontro ao meu, como o d e um p ássaro que morre, atingido p ela carabina. Ele m e disse: — Estou contente de teres descoberto o defeito do maqu inismo. Vais po der voltar p ara casa.. . — Como soubeste d isso ? Eu vinh a justamente anunciar­lhe que, contra toda expectativa, havia realizado o conserto ! Nad a respondeu à m inha p ergunta, m as acrescentou : — Eu também volto ho je para casa... Depois, com melancolia, ele d isse: — É b em mais lon ge ... bem m ais d ifícil... Eu percebia claram en te qu e algo de extraordin ário se passava. Ap ertava­o nos b raços como se fosse um a crian cinha; m as tinha a impressão de que ele ia deslizando verticalm en te no ab ismo, sem que eu nada p udesse fazer para d etê­lo. .. Seu olhar estava sério, perdido ao longe: — Tenho o teu carneiro. E a caixa para o carneiro. E a mord aça. . . — Ago ra, vai­te embora, disse ele ... eu quero descer! Ele sorriu com tristeza. Esperei mu ito tempo. Pareceu ­me que ele ia se aquecendo de no vo , pouco a pouco: — Meu querido, tu tiveste m edo... É claro qu e tivera. Mas ele so rriu docemente. — Terei m ais medo ainda esta noite ... http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com O sentim ento do irrep arável gelou­m e de novo. E eu compreendi que n ão podia suportar a idéia d e nunca m ais escutar esse riso. Ele era p ara mim como um a fonte no d eserto . — Meu b em, eu quero ainda escutar o teu riso .. . Mas ele m e d isse: — Faz um ano esta noite. Minha estrela se achará ju stamente em cim a do lugar onde cai o ano p assado . .. Meu b em, não será um sonho m au essa história de serpente, d e encon tro m arcado, d e estrela? Mas não respondeu à min ha pergu nta. E disse: — O qu e é importante, a gente n ão vê ... — A gente não vê ... Será co mo a flor. Se tu am as um a flor qu e se ach a numa estrela, é doce, d e noite, olhar o céu . Tod as as estrelas estão floridas. — Tod as as estrelas estão florid as. — Será como a água. Aquela que m e d este parecia música, por cau sa da roldana e d a corda... Lembras­te com o era boa? — Lemb ro ­me... Tu olh arás, de no ite, as estrelas. Onde eu m oro é muito pequeno, para que eu possa te mo strar onde se en contra a m inha. É m elhor assim . Minh a estrela será então qualqu er d as estrelas. Gostarás de o lhar todas elas ... Serão , todas tuas amigas. E depo is, eu 'vou fazer­te um p resente ... Ele riu outra vez. — Ah! m eu pedacinho de gente, m eu amor,como eu gosto d e ouvir esse riso ! — Po is é ele o m eu presente ... será como a água... — Que qu eres dizer? — As pessoas têm estrelas que n ão são as mesmas. Para un s, qu e viajam, as estrelas são guias. Para ou tros, elas não p assam d e p equen as lu zes. Para o utros, o s sábios, são prob lem as. Para o m eu nego ciante, eram ou ro. Mas tod as essas estrelas se calam . Tu, po rém , terás estrelas como n inguém... — Que qu eres dizer? — Quando olh ares o céu d e noite, porqu e h abitarei um a d elas, po rque numa delas estarei rindo, então será como se tod as as estrelas te rissem ! E tu terás estrelas qu e sabem rir! E ele riu m ais uma vez. — E quando te hou veres con solado (a gente semp re se consola), tu te sen tirás conten te por m e teres conhecido. Tu serás semp re m eu am igo. Terás vontade de rir com igo. E abrirás às vezes a janela à to a, por gosto .. . E teus am igo s ficarão espantados de ouvir­te rir olh ando o céu. Tu explicarás então: "Sim , as estrelas, elas semp re m e fazem rir!" E eles te ju lgarão maluco. Será um a p eça que te prego ... E riu de no vo . — Será como se eu te hou vesse dado, em vez de estrelas, mon tões d e guizos que riem ... E riu de no vo , mais um a vez. Depois, ficou sério : — Esta noite ... tu sabes ... não venhas. — Eu não te deixarei. — Eu parecerei sofrer . .. eu p arecerei morrer. É assim . Não venhas ver. Não vale a http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com p ena... — Eu não te deixarei. Mas ele estava p reocup ado. — Eu d igo isto ... também po r causa da serpente. É preciso que não te mo rda. As serp en tes são m ás. Podem mord er por go sto ... — Eu não te deixarei. Mas um a coisa o tranqüilizou : — Elas não tem ven eno, é verdade, p ara um a segunda mordid a.. . Essa no ite, n ão o vi pôr­se a cam inho. Evadiu­se sem rumor. Quando consegui apanhá­lo, caminhava decid ido , a passo ráp ido. Disse­me ap en as: — Ah ! estás aqu i ... E,ele me tomou pela mão. M as afligiu ­se ainda: — Fizeste m al. Tu sofrerás. Eu parecerei morto e n ão será verdade... Eu me calava. Tu comp reendes. É longe d em ais. Eu não posso carregar esse corpo. É muito p esado. Eu me calava. — M as será como um a velha casca abandonada. Um a casca d e árvo re não é triste... Eu me calava. Perdeu um pouco da co ragem, Mas fez ainda um esforço: Será bon ito, sabes ? Eu também olh arei as estrelas. Todas as estrelas serão poços com um a ro ldana en ferru jad a. Todas as estrelas m e darão de beber. .. Eu me calava. — Será tão d ivertido ! Tu terás qu inhentos milhões d e guizos, eu terei quinhentos m ilhõ es de fontes ... E ele se calou também, porqu e estava choran do... — É aqu i. Deixa­m e d ar um passo so zinho. E sentou­se, porque tinh a m edo. Disse aind a: — Tu sabes ... m inh a flor ... eu sou responsável p or ela! Ela é tão frágil! Tão in gênua! Tem quatro esp inhos de nada para defen de­la do mundo ... Eu sentei­m e tamb ém , pois não pod ia m ais ficar de pé. Ele disse: http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com — Pronto ... Acabou­se ... Hesitou ainda um pouco, depois ergueu­se. Deu um passo. Eu ... eu n ão podia mover­me. Hou ve ap en as um clarão amarelo perto da su a pern a. Permaneceu, por um instan te, imó vel. Não gritou. Tombou devagarinho como uma árvore tomba. Nem fez sequer barulho, por cau sa d a areia. XXVII E ago ra, certam en te, já se vão seis ano s ... jam ais con tara essa histó ria. Os cam aradas ficaram co ntentes de ver­m e são e salvo. Eu estava triste, mas dizia: É o can saço... Ago ra já me con so lei um pou co. Mas n ão d e todo. Sei qu e ele voltou ao seu p lan eta; pois, ao raiar do d ia, não lhe encon trei o corpo. Não era u m corpo tão p esado assim ... E gosto, à noite, d e escu tar as estrelas. Qu inhentos milhões de guizo s . .. http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com Mas eis que sucede uma coisa extraordinária. Na mo rdaça que d esenhei para o p rincipezinho, esqu eci de jun tar a correia! Não poderá jamais prendê­la no carn eiro. E eu p ergunto então: "Qu e se terá passado no p lan eta? Pode b em ser que o carneiro tenha com ido a flo r. . . " Ora eu p en so : "Certamente qu e n ão ! O p rincipezinho en cerra a flor todas as no ites n a redoma de vidro e vigia bem o carneiro. . . " En tão , eu m e sinto feliz. E tod as as estrelas riem do cemente. Ora eu digo: "Um a vez ou outra a gente se distrai e basta isto ! Esqueceu um a noite a redoma de vidro ou o carneiro saiu de m ansin ho, sem que fosse notado. Então os guizos se transform am todos em lágrim as. Eis aí um mistério bem grande. Para vocês, que amam tamb ém o prin cip ezinho, como para m im, todo o universo muda de sentido, se num lu gar, que não sabemos onde, um carn eiro , qu e n ão conh ecemos, com eu ou não uma rosa ... Olhem o céu . Pergun tem : Terá ou n ão terá o carneiro comido a flor? E verão como tudo fica diferen te ... E n enhum a pessoa grand e jam ais compreend erá qu e isso tenha tan ta importância! Esta é, para m im, a mais bela paisagem do mundo , e também a mais triste. É a m esma d a p ágina precedente. Mas desenh ei­a de no vo para m ostrá­la bem. Foi aqui que o p rincipezinho apareceu n a terra, e d esapareceu depois. Olhem atentam ente esta paisagem p ara q ue estejam certos d e reconhecê­la, se viajarem um dia n a África, através d o d eserto. E se acon tecer passarem por ali, eu lhes suplico que n ão tenham pressa e que esperem um pouco bem debaixo d a estrela ! Se então um menino vem ao en contro d e vocês, se ele ri, se tem cabelos de ouro, se n ão responde qu ando interro gam, adivinh arão quem é. Então, por favor, n ão m e deixem tão triste; escrevam ­me depressa q ue ele voltou... FIM http://www.livrosnaintegra.b logspo t.com ...
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This note was uploaded on 07/24/2011 for the course ECE 545 taught by Professor Stu during the Spring '11 term at Aachen University of Applied Sciences.

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