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O coração palpitava lhe com tan força que debuxava

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Amélia correu os olhos pelo papel, e seu rosto cobriu-se de vivos rubores. O coração palpitava-lhe com tanta força que debuxava no linho o contorno dos lindos seios. A carta era de Horácio, que pedia ao negociante a mão da filha. Acabando de a ler, a moça de olhos baixos e o corpo trêmulo, parecia vendar-se com sua inocência para subtrair-se ao olhar terno e curioso de seu pai. Nesse momento ela desejava, se possível fosse, esconder-se dentro de si mesma. — Que devo eu responder, Amélia? perguntou o negociante. — O que papai quiser! balbuciou a menina. — Estás bem certa de que meu desejo é o teu? Se eu não aceitar a honra que nos quer fazer o Sr. Horácio de Almeida? As pálpebras da moça ergueram-se, desvendando seus olhos límpidos. — Papai não acha bom? — Se ele te for indiferente, eu por mim não tenho grande empenho. É um excelente moço; tem alguma coisa de seu; mas anda em certa roda que não me agrada. — Que roda, papai? — De moços da moda. — Porque é solteiro. — Então o que decides? — Desde que papai e mamãe desejam, eu... — Nós não desejamos coisa alguma; queremos saber tua vontade. Amélia emudeceu. — Bem, já vejo que não é de teu gosto. Vou responder ao homem com um não. Sales Pereira encaminhou-se para a porta. — Mas, papai!... murmurou a moça. — Que temos?... Fala, que já me demorei muito. Quase meio-dia! — Vai responder já? — Já. — Deixe para amanhã.
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33 — Nada; são coisas que se decidem logo. — O que vai responder então? — Que não. — Mas eu não disse isto! — Tu nada disseste. — Pois se eu não gostasse, diria logo. — Ah! neste caso, gostou? Amélia sorrindo acenou com a cabeça. — Não entendo esta linguagem. Vamos a saber. Amas a Horácio? A moça fez um supremo esforço: — Amo! disse ela escondendo o rosto no seio do pai. O negociante beijou-a na fronte com ternura e carinho. — Ah! minha sonsa, não queria confessar o que tinha aqui dentro deste coraçãozinho! E eu que pensava que ele só queria bem a mim? — Oh! papai! — Bem, bem, não tenho ciúmes! Vai consolar tua mãe, que eu vou responder ao homem mais feliz deste Rio de Janeiro. O negociante voltou ao gabinete, e Amélia dirigiu-se ao interior. Sua mãe estava no quarto, com os olhos ainda úmidos de lágrimas. Quem não conhece essas lágrimas abençoadas, que a mãe derrama pelos filhos, e que são bálsamos para as aflições e orvalhos para as flores da ventura? D. Leonor beijou a filha e estreitou-a ao seio como receosa de que lha arrancassem dos braços. Seu coração ora alegrava-se com a felicidade próxima da moça, ora se entristecia com a lembrança da separação. De repente Amélia sobressaltou-se com uma idéia que lhe acudiu; e, deixando a mãe, correu ao gabinete do negociante. Achou-o sentado à escrivaninha, passando por cima da carta que terminara, um rolete de mata-borrão. O pai sorriu vendo entrar a filha. — Curiosa! — Já acabou? disse a moça recostando-se com gentileza à poltrona. — Vê se está de teu gosto, disse o Sales cingindo-lhe a cintura com o braço. Amélia leu a carta rapidamente; ela já sabia de antemão que faltava alguma coisa. — Então, que tal? perguntou o negociante com certo desvanecimento. — Está muito boa, papai. Só acho uma coisa. — O quê? O negociante sofreu uma decepção. Pensava ter feito uma obra-prima com aquela carta, escrita em seu mais belo estilo comercial, mas recheada de alguns rasgos sentimentais.
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  • Fall '08
  • Staff
  • Rio de Janeiro, Amor, fogo, Pensamento, Vinho, Esfinge

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