No amor diz Balzac 167 posta de lado a alma a mulher \u00e9 como uma lira que s\u00f3

No amor diz balzac 167 posta de lado a alma a mulher

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vibrar. “No amor, diz Balzac 167 , posta de lado a alma, a mulher é como uma lira que só desvenda seu segredo a quem sabe tocar.” Ele toma seu prazer: ela dá esse prazer. As próprias palavras não implicam reciprocidade. A mulher está imbuída de representações coletivas que dão ao ato masculino um caráter glorioso e que fazem da perturbação feminina uma abdicação vergonhosa: sua experiência íntima confirma essa assimetria. É preciso não esquecer que o adolescente e a adolescente sentem o corpo de maneira diferente: o primeiro assume-o tranquilamente e reivindica-lhe orgulhosamente os desejos; para a segunda, a despeito de seu narcisismo, esse corpo é-lhe um fardo estranho e inquietante. O sexo do homem é limpo e simples como um dedo; exibe-se com inocência, muitas vezes os rapazes mostram-no aos companheiros com orgulho, num desafio; o sexo feminino é misterioso até para a própria mulher, é escondido, atormentado, mucoso, úmido; sangra todos os meses e é por vezes maculado de humores, tem uma vida secreta e perigosa. É em grande parte porque a mulher não se reconhece nele que não reconhece como seus os desejos dele. Estes se exprimem de maneira vergonhosa. Enquanto o homem se entesa, a mulher molha-se; há, na própria palavra, recordações infantis da cama molhada, do abandono culposo e involuntário à necessidade de urinar; o homem experimenta o mesmo nojo diante das poluções noturnas inconscientes; projetar um líquido, urina ou esperma não humilha: é uma operação ativa. Mas há humilhação se o líquido escapa passivamente, pois o corpo não é mais então um organismo, músculos, esfíncter, nervos, comandados pelo cérebro e exprimindo o sujeito consciente, mas sim um vaso, um receptáculo feito de matéria inerte e joguete de caprichos mecânicos. Se a carne ressuma [O segundo sexo, v. II. p. 124] – como um muro velho ou um cadáver – a impressão não é de que está emitindo um líquido e sim de que se está liquidificando: é um processo de decomposição que causa horror. O cio feminino é a mole palpitação de uma ostra; enquanto o homem tem impetuosidade, a mulher tem somente impaciência; sua espera pode tornar-se ardente sem deixar de ser passiva; o homem cai sobre a presa como uma águia ou um falcão; ela aguarda à espreita como a planta carnívora, o pantanal em que insetos e crianças se atolam; ela é sucção, ventosa, absorção, pez e visgo, apelo imóvel, insinuante e viscoso: é pelo menos assim que surdamente se sente. Eis por que não há nela apenas resistência contra o macho que pretende submetê-la mas também conflito interior. Aos tabus e às inibições provenientes de sua educação e da sociedade, superpõem-se repugnâncias, recusas que têm sua fonte na própria experiência erótica; uns e outros se fortalecem mutuamente a tal ponto que depois do primeiro coito a mulher surge mais revoltada do que antes contra seu destino sexual.
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  • Spring '17
  • Various
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