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No quê você representava de velho não é uma

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— No quê?— Você representava de velho.— Não é uma representação. Você própria ontem me disse: envelheço.— Mas você ia à deriva. Sobre muitos planos.— Por exemplo?— Tinha tiques: essa mania de esfregar a gengiva.— Ah! isso...— O quê?— Meu maxilar está infeccionado neste lugar, se se tornar sério, minhaponte cederá, teria necessidade de usar dentadura. Compreende bem?Compreendo perfeitamente. Em pesadelos, às vezes, todos os meusdentes desfazem-se em minha boca e é a decrepitude que, de um golpe, meabate. Uma dentadura.. .— Por que não me contou?— Existem aborrecimentos que se esconde.— Pode ser que sem razão. É assim que se chega aos mal--entendidos.— Quem sabe. — Levantou: — Venha, nós vamos nos resfriar.Levantei-me também. Descemos lentamente o declive arborizado.— Apesar de tudo, você tinha um pouco de razão ao dizer que eurepresentava. Eu me conformava. Quando vi todos esses tipos tão maisdecadentes que eu e tomando as coisas como elas vêm, sem fazer histórias,fiquei mais morigerado e decidi reagir.— Ah! Então era isto? Pensei que fosse minha ausência que lhedevolvera o bom humor.— Que idéia! Ao contrário, foi muito por sua causa que eu reagi. Nãoquero ser um velho chato. Velho, já basta, chato não.Tomei-lhe o braço, apertei-o contra o meu. Encontrei André que jamaiseu perdera e jamais perderia. Entramos no jardim, sentamo-nos num banco,ao pé de um cipreste. A lua e sua estrela brilhavam acima da casa.— Apesar de tudo é verdade que isso de velhice existe — confessei — enão é engraçado dizer que se está no fim.Ele pôs a mão sobre a minha:— Não me contradiga. Eu creio que sei por que você frustrou seu ensaio.Partiu de uma ambição vazia: inovar, ultrapassar-se. Não teve perdão.Compreender e fazer compreender Rousseau, Montesquieu, isso era umprojeto concreto, que a levou longe. Se de novo se apegar, pode fazer aindaum bom trabalho.— Dando balanço, minha obra ficará no que ela é: eu vi meus limites.— De um ponto de vista narcisista, você não tem grande coisa e ganhar,é verdade. Mas poderá ainda interessar os leitores, enriquecê-los, fazê-losrefletir.— Esperemos.— Eu tomei uma decisão. Ainda um ano e paro tudo. Remeto-me ao
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estudo, recupero meus atrasos, preencho minhas lacunas.— Pensa que depois prosseguirá melhor o caminho?— Não. Mas existem coisas que eu ignoro, que desejo saber. Apenas porsaber.— Isso lhe bastará?— Durante algum tempo, em todo o caso. Não olhemos muito longe.— Você tem razão.Sempre olháramos longe. Seria necessário aprender a viver o dia a dia?Estávamos sentados lado a lado sob as estrelas, tocados pelo aroma docipreste, nossas mãos se encontravam; o tempo havia parado um instante.
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