Passei a visitar a sala da caldeira diariamente o

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Passei a visitar a sala da caldeira diariamente. O abastecimento de uísque era errático, mas os frequentadores, não. O papel do sr. Meeks era o mesmo desempenhado por um labrador preto num casamento duradouro depois que as crianças saem de casa. Ernie sabia tecer observações irônicas sobre sua vida e seu tempo e o folclore da Aurora House, mas sua esposa de facto era capaz de discorrer sobre quase todas as coisas que há sob o sol. Veronica tinha uma enorme coleção de fotos autografadas de quase-estrelas. Tinha leituras suficientes para valorizar minhas tiradas espirituosas literárias, mas insuficientes para conhecer minhas fontes. Isso é uma coisa que eu aprecio numa mulher. A ela eu podia dizer coisas do tipo: “A diferença mais curiosa entre felicidade e êxtase é que a felicidade é um sólido e o êxtase é um líquido”, e, consciente de que ela nunca tinha lido J. D. Salinger, eu me sentia espirituoso, encantador e — isso, até mesmo jovem. Percebia que Ernie me observava durante aquelas exibições, mas e daí? Todo homem tem o direito de flertar. Veronica e Ernie eram sobreviventes. Eles me alertaram a respeito dos perigos da Aurora House: me explicaram que a aca de urina e desinfetante, o passo arrastado dos Mortos-Vivos, o despeito de Noakes e os cuidados constantes redefiniam o conceito de normalidade. Uma vez que uma tirania passa a ser aceita como normal, segundo Veronica, sua vitória é certa. Graças a ela, eu mantive meu moral. Passei a aparar os pelos do nariz e pedi emprestado a Ernie sua graxa para sapatos. Engraxe seus sapatos toda noite , dizia meu velho, que aí ninguém é melhor que você . Olhando para trás, percebo que Ernie tolerava minhas fanfarronadas porque sabia que Veronica estava só sendo indulgente comigo. Ernie nunca tinha lido uma obra de ficção em toda a sua vida — “Meu negócio sempre foi rádio” —, mas ao vê-lo mais uma vez dar o sopro da vida àquele sistema de calefação vitoriano eu me sentia superficial. É
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verdade, o excesso de leitura de romances faz a gente ficar cega. Bolei meu primeiro plano de fuga sozinho, um plano tão simples que mal chega a merecer tal nome. Ele requeria força de vontade e um pouco de coragem, mas não inteligência. Um telefonema noturno dado do telefone da sala da enfermeira Noakes para a secretária eletrônica da Editora Cavendish. Um S.O.S. para a sra. Latham, cujo sobrinho hooligan é dono de um poderoso Ford Capri. Eles chegam à Aurora House; após ameaças e protestos, eu entro no carro; o sobrinho dá a partida, e vamos embora. Só isso. Na noite de quinze de dezembro (creio eu) acordei de madrugada, vesti meu roupão e saí para o corredor penumbroso. (Minha porta estava sendo deixada destrancada desde que comecei a me fingir de morto.) Nenhum ruído, salvo os roncos e o encanamento.
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    Kiran Temple University Fox School of Business ‘17, Course Hero Intern

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    Jill Tulane University ‘16, Course Hero Intern