TA E como \u00e9 que o senhor descreveria O que o senhor aprendeu O seu pensar livre

Ta e como é que o senhor descreveria o que o senhor

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[TA] — E como é que o senhor descreveria...? O que o senhor aprendeu? O seu pensar livre produziu que tipo de traquinagem política? Na sua juventude, é claro. [EG] — Na minha juventude? Se você quiser que eu faça alguma referência a meu pai... Para tudo a gente tem um símbolo, não é? Eu posso imaginar... Dizer, por exemplo, que, quando meu neto nasceu, eu vi um sorriso se abrindo para mim. Se você me dissesse como é que eu representaria meu pai, eu diria: um obelisco, mas um obelisco que era só coração. Mas um homem de uma retidão absoluta, que dizia para mim: “Olha, tu não mente, hem? Porque quem mente, rouba; quem rouba, mata; quem mata, vai para a cadeia.”. Então, quer dizer, eu aprendi os padrões de moralidade. Meu pai me ensinou isso. Eu me lem-
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29 EROS GRAU bro, tem uma cena que se conta, minha mãe contava, e ele mes- mo contava, ainda em Santa Maria, eu era bem pequenininho, devia ter menos de três anos, ou três anos, e estava meu pai com um amigo que tinha um livro, e eu peguei o livro e joguei no chão, e, aí, meu pai me pegou e disse assim: “Menino, tu não tem senso de responsabilidade?”. Eu tinha três anos, e meu pai queria que eu tivesse senso de responsabilidade. De modo que isso foi uma coisa que eu aprendi – acho que aprendi –; a ter um comportamento reto. Eu sempre tentei ter. Acho que tenho tido sempre. Agora, política, eu me meti estudante, à esquerda. Nunca em alguma... Como é que vamos dizer? Sempre com um sentido mais ou menos objetivo. Eu estava ligado ao Partido. [FF] — Qual? [EG] — O Partido é o Partido; o Partido Comunista, é lógico. O resto é coisa da burguesia. [risos] O resto são manifestações da burguesia. Eu acho isso mesmo até hoje. E isso sempre me fez muito bem. Durante a época que houve a chamada guerrilha, a luta armada, essa coisa toda, eu nunca me meti nisso, mas eu abriguei e escondi gente, cumpri tarefa e, por isso, fui preso. [FF] — Ainda no colégio ou já na faculdade? [EG] — Não, não, já depois da faculdade. Fui preso na época do DOI-Codi. [FF] — Não, eu digo... Quando é que o senhor identificaria o início da sua militância política? [EG] — Ah! Na época de faculdade. [FF] — Na faculdade. [EG] — Na época de faculdade. [FF] — E, aos 16 anos, quando o senhor teve contato com o velho Marx, quem foi que lhe...? [EG] — Meu pai. Meu pai. Que me marcou, assim, foi meu pai:
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30 HISTÓRIA ORAL DO SUPREMO [ VOLUME 10 ] “Olha, lê isso, lê aquilo”. Eu acho que a primeira coisa que eu li foi O 18 Brumário, que é encantador. Acho que foi a primeira... Seguramente, foi a primeira coisa que eu li do velho. Eu lia Pla- tão, Diálogos, de Platão. Uma maluquice! Não tinha... É lógico, as pessoas podiam... Serem normais, sem serem alopradas, vamos dizer assim, nerds . Porque não tinha televisão. A minha casa, das redondezas, foi a última casa a ter televisão. Quer dizer, a gente tinha tempo para ler. Hoje, você não vê isso. Os jovens não têm mais. De modo que aquilo não era uma virtude minha, não. To- dos os meus amigos... Eu fiz política, no tempo da faculdade, num grupo que eu acho maravilhoso. Porque havia o grupo que se cha-
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  • Fall '19
  • São Paulo, Getúlio Vargas, Minas Gerais, Supremo Tribunal Federal, direito econômico

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