Era com a mesma curiosa sensação de dualidade a que

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Era com a mesma curiosa sensação de dualidade a que já estava acostumada que ouvia agora a sra. Harrison, que, ao fim de meia hora, exclamou: – Mas fiquei falando de mim todo esse tempo, e vim aqui para falar de você e de seus planos. – Não sei se já tenho algum. – Minha querida, você não vai ficar aqui , vai? Katherine sorriu diante do horror no tom da outra. – Não, acho que quero viajar. Não conheço muita coisa do mundo, a senhora sabe. – E não sei? Deve ter sido uma vida terrível a que levou confinada aqui por todos esses anos. – Não sei – disse Katherine. – Foi uma vida que me deu muita liberdade. A outra engasgou por um momento, e Katherine corou de leve. – Pode soar tolo dizer isso. Claro, não tive muita liberdade no sentido físico, estritamente falando... – Imagino que não – suspirou a sra. Harrison, recordando que Katherine raras vezes havia desfrutado daquilo a que chamamos “dia de folga”. – Mas de certa forma, estar fisicamente presa dá a você muito espaço para expandir seu pensamento. Fica-se sempre livre para pensar, e sempre tive uma agradável sensação de liberdade mental. A sra. Harrison balançou a cabeça. – Não consigo entender... – Oh, a senhora entenderia se estivesse em meu lugar. Mas, de qualquer forma, sinto que desejo uma mudança. Quero... Bem, quero que coisas aconteçam. Oh, não para mim... Não é a isso que estou me referindo. Mas estar no meio de alguma coisa... algo excitante... Mesmo que eu seja apenas a espectadora. A senhora sabe, não acontece nada em St. Mary Mead.
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– De fato, não acontece – disse a sra. Harrison, com fervor. – De qualquer jeito, tenho que ir a Londres primeiro – disse Katherine –, ver os advogados. Depois, vou para o exterior, acho. – Ótimo. – Mas é claro, antes de tudo... – Sim? – Preciso comprar algumas roupas. – Exatamente o que eu dizia para o Arthur esta manhã – exclamou a esposa do médico. – Sabe, Katherine, você poderia ser absolutamente linda se tentasse. A srta. Grey riu sem afetação e disse, com sinceridade: – Oh, eu não acho que a senhora poderia fazer de mim uma beldade. Mas adoraria ter algumas roupas boas. Receio que esteja falando demais de mim mesma. A sra. Harrison olhou-a de modo astuto. – Deve ser uma experiência bastante nova para você – disse, com ironia. Katherine foi se despedir da srta. Viner antes de deixar a vila. A srta. Viner era dois anos mais velha que a sra. Harfield e não parava de pensar em como havia tido sucesso em sobreviver à amiga morta. – Não achava que eu fosse viver mais do que Jane Harfield, achava? – perguntou a Katherine com ar triunfante. – Frequentamos a mesma escola, ela e eu. E aqui estamos, ela se foi e eu fiquei. Quem diria! – A senhora sempre comeu pão integral no jantar, não? – murmurou Katherine mecanicamente.
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