Uma inquietação enorme fazia me estremecer os

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Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio, de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu cora- ção batia como se falasse. Com passos largos e falsos, que em vão procurava tor- nar outros, percorri, descalço, o comprimento pequeno do quarto, e a diagonal vazia do quarto interior, que tem a porta ao canto para o corredor da casa. Com movimentos incoe- rentes e imprecisos, toquei nas escovas em cima da cômoda, desloquei uma cadeira, e uma vez bati com a mão movida em balouço o ferro acre dos pés da cama inglesa. Acendi um ci- garro, que fumei por subconsciência, e só quando vi que ti- nha caído cinza sobre a cabeceira da cama — como, se eu não me debruçara ali? — compreendi que estava possesso, ou coisa análoga em ser, quando não em nome, e que a cons- ciência de mim, que eu deveria ter, se tinha intervalado com o abismo.
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FERNANDO PESSOA Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas. Porque essa luz, esse verdadeiro dia, libertava-me, libertava-me não sei de quê, dava-me o braço à velhice incógnita, fazia festas à infância postiça, amparava o repouso mendigo da minha sensibilidade transbordada. Ah, que manhã é esta, que me desperta para a estupidez da vida, e para a grande ternura dela! Quase que choro, vendo escla- rear-se diante de mim, debaixo de mim, a velha rua estreita, e quando os taipais da mercearia da esquina já se revelam castanho escuro sujo na luz que se estravasa um pouco, o meu coração tem um alívio de conto de fadas reais, e começa a conhecer a segurança de se não sentir. Que manhã esta mágoa! E que sombras se afastam? E que mistérios se deram? Nada: o som do primeiro elétrico como um fósforo que vai alumiar a escuridão da alma, e os passos altos do meu primeiro transeunte que são a realidade concreta a dizer-me, com voz de amigo, que não esteja assim. Não compreendo senão como uma espécie de falta de asseio esta inerte permanência em que jazo da minha mesma e igual vida, ficada como pó ou porcaria na superficie de nunca mudar. Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o des- tino, mudar de vida como mudamos de roupa — não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chama- mos asseio. Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma
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forma de a quererem, ou uma natural conformação com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento. Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela por aquele mesmo extremo de um senti- mento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos do destino, como eu, que se não afastam da banali- dade quotidiana por essa mesma atração da própria impotên- cia. São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas
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  • Fall '19
  • Amor, Poesía, Inconsciente, sono, CONHECIMENTO, Pensamento

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