Tem dolência de veludo caros são como sedas

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Tem dolência de veludo caros, São como sedas pálidas a arder... Deixa dizer-te os lindos versos raros Que foram feitos pra te endoidecer! Mas, meu Amor, eu não te digo ainda... Que a boca da mulher é sempre linda Se dentro guarda um verso que não diz! Amo-te tanto! E nunca te beijei... E nesse beijo, Amor, que eu te não dei Guardo os versos mais lindos que te fiz.
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SONHOS Ter um sonho, um sonho lindo, Noite branda de luar, Que se sonhasse a sorrir... Que se sonhasse a chorar... Ter um sonho, que nos fosse A vida, a luz, o alento, Que a sonhar beijasse doce A nossa boca... um lamento... Ser pra nós o guia, o norte, Na vida o único trilho; E depois ver vir a morte Despedaçar esses laços! ... É pior que ter um filho Que nos morresse nos braços!
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BLASFÉMIA Cala-te... Escuta... Não me digas nada... Cai a noite nos longes donde vim... Toda eu sou alma e amor! Sou um jardim! Um pátio alucinante de Granada! Dos meus cílios, a sombra enluarada, Quando os teus olhos descem sobre mim, Traça trémulas hastes de jasmim Na palidez da face extasiada! Sou no teu rosto a luz que o alumia... Sou a expressão das tuas mãos de raça... E os beijos que me dás já foram meus... Em ti sou glória, altura e poesia! E vejo-me (Oh, milagre cheio de graça! ) Dentro de ti, em ti, igual a Deus!
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ESCREVE-ME ... Escreve-me! Ainda que seja só Uma palavra, uma palavra apenas, Suave como o teu nome e casta Como um perfume casto d’açucenas! Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo Que te não vejo, amor! Meu coração Morreu já,e no mundo aos pobres mortos Ninguém nega uma frase d’oração! “Amo-te! ” Cinco letras pequeninas, Folhas leves e tenras de boninas, Um poema d’amor e felicidade! Não queres mandar-me esta palavra apenas? Olha, manda então... brandas... serenas... Cinco pétalas roxas de saudade...
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EXALTAÇÃO Viver! ... Beber o vento e o sol! ... Erguer Ao Céu os corações a palpitar! Deus fez os nossos braços pra prender, E a boca fez-se sangue pra beijar! A chama, sempre rubra, ao alto, a arder! ... Asas sempre perdidas a pairar, Mais alto para as estrelas desprender! ... A glória! ... A fama! ... O orgulho de criar! ... Da vida tenho o mel e tenho os travos No lago dos meus olhos de violetas, Nos meus beijos extáticos, pagãos! ... Trago na boca o coração dos cravos! Boémios, vagabundos, e poetas: — Como eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos! ...
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MINHA CULPA Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem... Sou um reflexo... um canto de paisagem Ou apenas cenário! Um vaivém Como a sorte: hoje aqui, depois além! Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem De um doido que partiu numa romagem E nunca mais voltou! Eu sei lá quem! ... Sou um verme que um dia quis ser astro... Uma estátua truncada de alabastro. . Uma chaga sangrenta do Senhor... Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados, Num mundo de maldades e pecados, Sou mais um mau, sou mais um pecador...
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TÉDIO Passo pálida e triste. Oiço dizer “Que branca que ela é! Parece morta! ” E eu que vou sonhando, vaga, absorta, Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...
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  • Fall '19
  • Neve, Tristeza, Oração, Cinza

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