Peguei algo de comer numa fruteira da cozinha da

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bordo; ou, melhor dizendo, temendo que eu deixasse que isso acontecesse. Peguei algo de comer numa fruteira da cozinha da primeira classe e desci correndo a prancha de desembarque antes que alguém trajando um uniforme com passamanes viesse a meu encalço. Pisei o macadame do continente e perguntei a um funcionário da alfândega onde ficava a estação ferroviária. Ele apontou para um bonde que gemia, no qual se amontoavam trabalhadores desnutridos, raquitismo e penúria. Preferi me valer do bipedismo, apesar da garoa. Fui seguindo a linha do bonde, passando por ruas que eram como caixões. Oostende é toda em tons de cinza-tapioca e marrom-sujeira. Admito que estava pensando: a Bélgica é um péssimo lugar para se fugir. Comprei uma passagem para Bruges e galguei a escada do próximo trem — não há plataformas, dá para acreditar? —, um trem decrépito, vazio. Troquei de cabine porque a minha fedia, mas todas tinham o mesmo bodum. Fumei uns cigarros filados de Victor Bryant para purificar o ar. O apito do agente da estação soou na hora certa, a locomotiva fez força, como um inspetor de Cambridge sentado no penico, antes de começar a funcionar. Em seguida, partiu fumegando por uma paisagem nevoenta de diques malcuidados e arvoredos estragados a uma velocidade sofrível. Se meu plano frutificar, Sixsmith, em breve você poderá vir para Bruges. Quando vier, chegue àquela hora gnossiennesque das seis. Perca-se nas ruas raquíticas da cidade, nos seus canais sem saída, portões de ferro trabalhado, pátios desabitados — posso continuar? Ah, obrigado — carapaças góticas debochadas, telhados Ararat, pináculos de tijolo forrados de arbustos, redemoinhos de paralelepípedos que fisgam o olhar da gente, príncipes e princesas mecânicos que dão as horas, pombas cobertas de fuligem e três ou quatro oitavas de sinos, alguns melancólicos, outros animados.
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O aroma de pão atraiu-me a uma padaria onde uma mulher deformada, sem nariz, vendeu-me uma dúzia de croissants. Eu só queria um, mas pensei que ela já tinha problemas demais. A carroça de um belchior se arrastava pela névoa, e o cocheiro desdentado dirigiu-me um comentário simpático, mas a única resposta que pude lhe dar foi “ Excusez-moi, je ne parle pas le flamand ”, que o fez rir como o Rei dos Duendes. Dei-lhe um croissant. Sua mão imunda era uma pata coberta por uma crosta. Num bairro pobre (os becos fediam a águas servidas), crianças ajudavam as mães junto aos poços, enchendo jarras desbeiçadas de água pardacenta. Por fim, toda aquela animação foi demais para mim, sentei-me na escada de um moinho de vento moribundo para descansar um pouco, agasalhei-me para me proteger da umidade, adormeci. Quando dei por mim, uma bruxa estava a me cutucar com seu cabo de vassoura, guinchando algo assim como “ Zie gie doad misschien ?”, mas não cite esta minha transcrição. Céu azul, sol quente, nem um fiapo de neblina à vista.
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  • Spring '09
  • SteveWard

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