Nunca encontrei argumentos senão para a inércia dia

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  • marisa.riso
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para algum fim, se fim ela tem, me quereria decerto doente? Nunca encontrei argumentos senão para a inércia. Dia a dia mais e mais se infiltrou em mim a consciência sombria da minha inércia de abdicador. Procurar modos de inércia, apostar-me a fugir a todo o esforço quanto a mim, a toda a responsabilidade social — talhei nessa matéria de (...) a está- tua pensada da minha existência. Deixei leituras, abandonei casuais caprichos de este ou aquele modo estético da vida. Do pouco que lia aprendi a ex- trair só elementos para o sonho. Do pouco que presenciava, apliquei-me a tirar apenas o que se podia, em reflexo dis- tante e [...], prolongar mais dentro de mim. Esforcei-me porque todos os meus pensamentos, todos os capítulos quo- tidianos da minha experiência me fornecessem apenas sen-
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sações. Criei à minha vida uma orientação estética. E orien- tei essa estética para puramente individual. Fi-la minha apenas. Apliquei-me depois, no decurso procurado do meu he- donismo interior, a furtar-me às sensibilidades sociais. Len- tamente me couracei contra o sentimento do ridículo. Ensi- nei-me a ser insensível quer para os apelos dos instintos, quer para as solicitações (...) Reduzi ao mínimo o meu contato com os outros. Fiz o que pude para perder toda a afeição à vida, (...) Do próprio desejo da glória lentamente me despi, como quem cheio de cansaço se despe para repousar. Não sei que vaga carícia, tanto mais branda quanto não é carícia, a brisa incerta da tarde me traz à fronte e à com- preensão. Sei só que o tédio que sofro se me ajusta melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa chaga. Pobre da sensibilidade que depende de um pequeno mo- vimento do ar para o conseguimento, ainda que episódico, da sua tranqüilidade! Mas assim é toda sensibilidade humana, nem creio que pese mais na balança dos seres o dinheiro su- bitamente ganho, ou o sorriso subitamente recebido, que são para outros o que para mim foi, neste momento, a passagem breve de uma brisa sem continuação. Posso pensar sem dormir. Posso sonhar de sonhar. Vejo mais claro a objetividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, efetivamente, por- que, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da brisa me alegra a superfície da pele. Tudo quanto amamos ou perdemos — coisas, seres, sig- nificações — nos roça a pele e assim nos chega à alma, e o episódio não é, em Deus, mais que a brisa que me não trouxe LIVRO DO DESASSOSSEGO
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nada salvo o alívio suposto, o momento propício e o poder perder tudo esplendidamente. Não sei quantos terão contemplado, com o olhar que merece, uma rua deserta com gente nele. Já este modo de dizer parece querer dizer qualquer outra coisa, e efetiva- mente a quer dizer. Uma rua deserta não é uma rua onde não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se fosse deserta. Não há dificuldade em compreen- der isto desde que se o tenha visto: uma zebra é impossível para quem não conheça mais que um burro.
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  • Fall '19
  • Amor, Poesía, Inconsciente, sono, CONHECIMENTO, Pensamento

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