Tudo vai terminar em lágrimas frobisher sim talvez

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“Tudo vai terminar em lágrimas, Frobisher!” Sim, talvez, as fugas de casais apaixonados muitas vezes terminam assim, mas eu amo Eva, amo de verdade, sim.
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Voltei ao château pouco antes de escurecer e comi frios na cozinha da sra. Willems. Fiquei sabendo que J., com suas carícias de Circe, estava em Bruxelas para resolver problemas da propriedade, e não voltaria naquela noite. Hendrick me disse que V. A. tinha se recolhido mais cedo com seu rádio, dando ordens de que não o incomodassem. Perfeito. Tomei um banho de banheira prolongado e escrevi uma série bem amarrada de linhas de baixo em forma de escala. As crises me fazem correr para a música, onde nada de mau me atinge. Eu também me recolhi mais cedo, tranquei a porta do quarto e fiz a mala. Acordei hoje às quatro da manhã. Uma neblina gelada lá fora. Só de meias, segui pelos corredores frios até chegar à porta de Ayrs. Tiritando, abri-a devagarinho, evitando fazer o menor ruído — Hendrick dorme no quarto ao lado. As luzes estavam apagadas, mas ao brilho das brasas da lareira vi Ayrs, estirado na cama como aquela múmia do Museu Britânico. Seu quarto tinha um fedor amargo de remédios. Fui pé ante pé até o armário junto à cama. Gaveta emperrada, e quando a abri com um puxão um frasco de éter que estava em cima quase caiu — segurei-o na hora exata. A famosa Luger de V. A. estava envolta num pedaço de camurça e enrolada numa camiseta de malha, ao lado de um pires contendo balas. Elas chacoalharam. O crânio frágil de Ayrs estava a poucos centímetros de mim, mas ele não acordou. Sua respiração chiava como um realejo vagabundo. Senti um impulso de roubar um punhado de balas, e foi o que fiz. Uma veia azulada palpitava acima do pomo de adão de Ayrs, e tive que reprimir um impulso inexplicavelmente poderoso de abri-la com meu canivete. Insólito. Não exatamente um déjà-vu, e sim um jamais vu . Matar, uma experiência que poucos têm fora da guerra. Qual o timbre distintivo do assassinato? Não se preocupe, o que estou escrevendo não é a confissão de um crime. Trabalhar no meu sexteto e ao mesmo tempo fugir de uma caçada humana seria muito trabalhoso, e terminar a carreira balançando numa forca, com a cueca suja, não é um fim muito digno. Pior ainda, assassinar o pai de Eva a sangue-frio poderia ter o efeito de dar fim aos sentimentos que ela nutre por mim. V. A. continuou a dormir, alheio a tudo isso, e pus no bolso a pistola dele. Eu havia roubado as balas, de modo que levar a Luger era de certo modo lógico. Curioso como são pesadas as armas. A pistola emitia uma nota grave junto à minha coxa: já matou gente, sem dúvida; esta pequena Luger já fez das suas. Por que foi que a levei, exatamente? Eu não seria capaz de lhe dizer. Mas encoste o cano de uma arma no ouvido que você há de ouvir o mundo de uma maneira diferente.
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  • Spring '09
  • SteveWard

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