As pessoas ajoelhadas rezavam algumas mexendo os

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cadeado na caixa das esmolas era da melhor qualidade. As pessoas ajoelhadas rezavam, algumas mexendo os lábios. Eu as invejo, sério. Também invejo Deus, que conhece todos os segredos delas. A fé, o clube menos exclusivo do mundo, tem o porteiro mais esperto. Toda vez que entro nas portas escancaradas da fé, logo me vejo voltando para a rua. Esforcei-me ao máximo para ter pensamentos beatíficos, mas a toda hora minha cabeça voltava a dedilhar o corpo de Jocasta. Até mesmo os santos e mártires nos vitrais eram ligeiramente excitantes. Creio que tais pensamentos não me levam para mais perto do Céu. O que acabou me enxotando da igreja foi um moteto de Bach — o coro até que não era abominável, mas a única esperança de salvação do organista seria um tiro nos miolos. Disse isso a ele, também — o tato e a moderação são desejáveis na conversa fiada, mas quando o assunto é música é preciso falar sem papas na língua. Num parque muito arrumadinho chamado Jardins de Minnewater, casais de namorados perambulavam de braços dados por entre salgueiros, roseiras e tias segurando vela. Um violinista cego e esquelético tocava em troca de moedas. Pois tocava muito bem. Pedi “Bonsoir, Paris!”, e sua interpretação teve tamanho elã que lhe pus na mão uma nota de cinco francos novinha em folha. Ele tirou os óculos escuros, verificou a filigrana, invocou seu santo de estimação, juntou suas moedas e saiu correndo por entre os canteiros, rindo feito um possesso. Quem disse que “dinheiro não compra felicidade” certamente tinha dinheiro até não poder mais. Sentei-me num banco de ferro. Relógios davam uma hora perto dali, ao longe, espalhados. Saíam funcionários rastejando dos escritórios de advogados e comerciantes para comer sanduíches no parque e sentir a brisa verde. Eu me
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perguntava se deveria deixar Hendrick esperando, quando adivinhe quem chegou no parque, saracoteando, sem nenhuma tia a segurar a vela, ao lado de um dândi magricela com o dobro da sua idade com uma vulgar aliança de casado no dedo para todos verem? Acertou em cheio. Eva. Escondi-me por trás de um jornal que um funcionário havia largado no banco. Eva não estava em contato físico com seu acompanhante, porém passaram bem à minha frente com um ar de intimidade tranquila que ela nunca, jamais, em tempo algum, exibe em Zedelghem. Na mesma hora, tirei a conclusão óbvia. Eva estava apostando suas fichas numa carta duvidosa. Ele falava bem alto, ostensivamente, para ser ouvido e impressionar as pessoas. “O tempo nos pertence, Eva, quando nós e nossos pares temos os mesmos pressupostos, a ponto de nem pensarmos no assunto. Do mesmo modo, quando os tempos mudam e uma pessoa não muda, ela está perdida. Permita-me acrescentar: os impérios caem pelo mesmo motivo.” Aquele filósofo de botequim me deixou pasmo.
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What students are saying

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    Kiran Temple University Fox School of Business ‘17, Course Hero Intern

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